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sábado, 30 de novembro de 2019

RASTEIRA

Lá se foi a minha santa paciência
Lá se foi minha ciência
Lá se foi a minha falta de vontade,
minha verdade,
Lá se foi toda a pouca qualidade...

Lá se foi a minha inexperiência
Lá se foi a minha pouca idade
La se foi a minha consciência
vendida num bazar da caridade

Lá se foi a minha diligência
Lá se foi meu velho oeste
Lá se foi minha indecência
minha sobriedade
Lá se foi James West...

Lá se foi a minha pouca complacência
Lá se foi a minha jura
minha cura
Lá se foi minha falência...

Lá se foi toda minha experiência
Lá se foi meu gesto
Lá se foi a minha imprudência
minha bagagem extraviada
Lá se foi minha saudade atrasada

Lá se foi meu avião
meu recurso, habeas corpus
Lá se foi a minha imunidade
Lá se foi a minha impunidade

Lá se foi o meu sonho em vão
Lá se foi o meu plano de futuro
Lá se foi meu coração
minha correnteza de certezas
Lá se foi minha emoção

Lá se foi o meu aplauso
minhas palmas num concurso de beleza
Lá se foi a minha "miss"
Lá se foi minha musa em procissão...

Lá se foi a minha profissão
Lá se foi a minha fé
Lá se foi a minha fome
Lá se foi meu tira-gosto
pois que derrubei o meu café...


[Adhemar - São Bernardo do Campo, 29/09/2016]

domingo, 24 de novembro de 2019

"DIMINUINTE"

Abandonei pensamentos no caminho.
Ou foram eles que me deixaram.
Ecos no vazio da mente.
Gritos ocos, sem voz, dementes.
Palavras desconexas, misturadas,
balbuciadas, fracas, correntes;
detidas entredentes...

Entrementes, telepatia.
Anotações em código no espaço.
Muito espaço sobressalente.
conexão do mar, vento e corrente.
Água submersa em água,
movimentação impaciente.

Abandonei os estudos, a ciência.
Ou fui abandonado pela consciência.
Inconstante, infiel, doente.
De tantos desabafos no papel,
mãos dormentes.

Panoramas desoladoramente lindos...
Acabrunhados e silentes.
Paisagismo imaginário, dominante;
coisa de cenário...

Abandonei a alegria irradiante,
aurora do sol nascente;
luz do céu, surpreendente.

Nesse caminho sem fim, solitário e errante.
Ou foi a rota que me abandonou...?!

... Na última linha da poesia decrescente...


[Adhemar - São Paulo, 25/09/2018]

domingo, 17 de novembro de 2019

MATINAL

São seis horas da manhã chuvosa
Espaço cinza
massa cinzenta sob cabelos brancos
Falta um vento
Falta um oxigênio
Falta um ponto no horizonte
indivisível, pleno

São, serão...
Talvez umas seis e cinco
O ruído que vem de fora é ameno
Existe uma certa surdez
aos ruídos que vem de dentro
Vem com a fome,
indiferente ao tempo
Ao tempo!

Seis e nove,
os ponteiros em contínuo movimento
Os minutos pós seis horas?
Aleatórios. 
Inventados. 
Velhacos.

São seis e treze da manhã chuvosa
que é como se chorando
Lágrima cristalina sobre a face lisa
Falta uma barba mal feita
Falta um soluço, uma rima
Falta um olhar altivo,
incrível, sereno...

São seis e quinze da manhã chuvosa,
cinzenta e sem vento
onde o relógio desacelera
Onde falta uma letra em cima da cama;
onde falta uma razão
para ficar mais tempo em cima dela.


[Adhemar  - São Paulo, 16/11/2019]

sábado, 16 de novembro de 2019

"PALIVRES"

Metáforas insuficientes.
Sutis demais.
Palavras rebuscadas,
pouco eficientes.
Anárquicas.
Incitantes.
Instigantes.
Revolucionárias.
Incoerentes.
Manifestam-se de pijama.
Acomodadas.
Contraditórias.
Convencidas.
Convictas...
Hesitantes?!

Metáforas artísticas.
Pernósticas.
Arrogantes.
Infelizes.
Opressivas.
Impactantes.
Apresentadas em lindos pacotes.
Malcheirosas.
Indecentes.
Chegam como se fossem presentes.
Produzem efeitos inesperados.
Desesperados.
Eufóricos.
Mas, são apenas palavras.
Doentes.
Saudáveis.
Saudosas...


[Adhemar - São Paulo, 15/11/2019]

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

DÍVIDA

O crediário é um futuro comprometido.
O compromisso te obriga a continuar vivendo.
A vida te leva pelo desconhecido.
O desconhecido te faz ir aprendendo.
O aprendizado te mostra a vida e te abre os olhos.
O olhar te ensina o bonito e o feio.
A feiura te ensina respeito.
O respeito vai tirar você do devaneio.
O devaneio pode ser o sonho possível. 
O possível te leva a querer mais.
Querer mais te bota num dilema:
"desisto ou me endivido?"
A dívida é um crediário.
O crediário é um futuro comprometido.
A promessa te consome, te devora.
Devorado, você se desespera e apavora.
Apavorado, paralisa os sentidos.
O sentimento te machuca e atordoa.
Atordoado, você se compromete.
Comprometido, se confunde e não pensa.
Não pensando você conclui sozinho que,
sozinho, só é mais um cretino.


[Adhemar - São Paulo, 16/07/2019]

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

COTIDIANO

Ontem foi um dia estranho,
como todos os dias tem sido estranhos.
Estranhos dentro de cada um
pois o lado de fora
é igual ao lado de fora de ontem.
Hoje está tão estranho como ontem
e como amanhã será.
Obrigado por acender a luz.

Outra coisa estranha
pois que hoje está chovendo.
Ontem também choveu
e isso é até normal.
Embora tudo o que seja normal,
atualmente,
seja um pouco estranho.
Estranho e suspeito.

Desde muito tempo que tudo está assim,
estranhamente monótono e cansativo.
Como andar em círculos
e respirar o vapor da chuva fria.

Estranho é estar sozinho,
estranho é estar sozinho,
estranho é estar sozinho.
Em dias assim, tão iguais,
dentro e fora da gente.


[P/ BSF]
[Adhemar - São Paulo, 17/03/1988]

terça-feira, 8 de outubro de 2019

VOUCHER


Eu que pensei... 
ousei pensar!
Que aprendera a interpretar o silêncio.
Que saberia, das palavras a ausência
o que elas desejariam significar...
Julguei poder oferecer
esse pouco que sou, como sou,
para quem quisesse conhecer - e apreciar -
com uma certa riqueza de razão.

Ousei pensar,
não sem uma certa emoção,
que haveria de encontrar
uma outra alma aventureira
que se se atreveria a se atirar
sem rede nem proteção
nesse imenso abismo confortável
de mãos dadas e sorrisos...

Ousei pensar
que cavaria por abrigos
a quatro mãos...
Que haveria de dormir - e levantar - 
no calor da companhia
dessa aventureira alvissareira,
maravilhosa e faceira.
Que compartilharia alguns momentos
- ainda que de poucos tempos - 
nessa empresa com um sócio dedicado...

Ousei pensar 
que não seria mais uma ilusão...


[Adhemar - São Paulo, 16/07/2019]


domingo, 6 de outubro de 2019

GARRAFA

Imerso no silêncio
contemplo o mar imenso.
Quantas mensagens engarrafadas,
afogadas,
perdidas, errantes,
nunca interpretadas...

Cinza azul amarelado do poente.
Melancólica nostalgia
por essas mensagens,
engarrafadas,
que se perderam,
jamais lidas...

Imerso na saudade
dessas mensagens nunca encontradas
penso... Penso nas poesias...
Quantas poesias escritas
perdidas, errantes,
jamais lidas...

Quantas palavras perdidas
em pedidos de socorro e declarações de amor,
em lamentos inúteis e celebrações exaltadas,
engarrafadas,
imersas nesse mar imenso

de saudade e de silêncio...


[Adhemar - São Paulo, 27/09/2018]

sábado, 21 de setembro de 2019

SOUVENIR

De tanto ficar deitado
o corpo todo doeu
De tanto desencontrar
o que se devia falar se escreveu

Mal entendido
quanto mais explicado
mais confundido
mais complicado

Esperar uma palavra qualquer
ou no correio - que viesse escrita -
ou no telefone - para ser ouvida -
era bom ter
Até na janela, se chegasse bonita
entrando aqui
pra gente se entender

Agora, nada disso é possível
Só em sonho, poesia ou histórias
Mas enfim, pode crer, foi incrível
te gostar, te perder, te segurar na memória...



[P/ BSF]
[Adhemar - São Paulo, 19/09/1987]

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

DECEPÇÃO À ESPREITA



Noite pior que escura:
mal iluminada.
Te vejo em várias esquinas;
mas...
Sempre acompanhada.
Acompanhada
muito mais do que só por suas pernas esguias,
bem torneadas...
Acompanhada, sempre,
por uma sombra mal delineada.
Uma sombra, 
de rua mal iluminada.
Uma espécie de aura
- maldita ou abençoada - 
que te protege e te acompanha,
me evita e te salva.

Noite pior que escura:
cheia de solidão...
e de Nada.



[Adhemar - São Paulo, 28/02/2017]