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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

SENTENÇA

Não sei por quais excessos
fomos condenados,
ou por quais faltas...

Fomos condenados por cometer poesias inúteis, talvez?!
Fomos condenados por faltar com a verdade
oferecendo ilusões... em versos?!

Enfim, não sei,
condenados,
por quais faltas ou excessos.

Excesso de otimismo?!
Excesso de um romantismo cafona,
fora de moda?!
Ou por paixões fora de hora?!

Talvez tenhamos sido condenados
por amar a tanto tempo impunes...
Ou por doação ilegal do próprio coração...

Por quais motivos de opressão terrena
carregaremos essa cruz de sofrimento e dor?!
Será que foi porque nos devotamos
indevida e cegamente ao amor?!

Quem nos julga?!
Como vivem?!
Não se comovem diante da fraqueza
ou da fortaleza que nos transformou?!

Beijos roubados, 
abraços claros,
lágrimas sinceras...

O que consta nos anais dessa condenação?!
Qual a pena?!
Danação no inferno
pelo pouco que nos resta desta vida eterna?!


[Adhemar - São Paulo, 24/07/2017]

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

FLUTUAÇÃO

História vermelha recontada.
Revelada, roubada, inventada;
história vermelha e ousada
perdida num balanço, anoitecer.

Estrelas temidas recolhidas,
tímidas, furtivas e molhadas.
Orvalho da madrugada orgulhosa
e brilhos no alvorecer.

Migalhas pequeninas espalhadas,
cobiçadas por quem quer esquecer.
Reveladas, orgulhosas e furtadas
numa nesga do amanhecer.

História, vermelha e requentada,
pernas cruzadas, inquietas, a tremer;
bocas fechadas a sorrir secretamente
de tudo que, como o dia, vai nascer...


[Adhemar - São Paulo, 18/04/2016]

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

FANTASMAS

Antenas diabólicas
passado capta
captando passa
diante dos olhos

Histórias hiperbólicas
passarelas gastas
passos da história

Janelas simbólicas
emboladas paisagens
capturadas no diafragma
suspiro das viagens...

Paradas parabólicas
a moral se acha
escrachada, imoral...

Pesquisas robóticas
rouba-se ideias claras
iluminadas e raras
diante dos olhos...

... Nas calçadas melancólicas...


[Adhemar - São Paulo, 05/08/2014]

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

SUCEDÂNEO

Vento brando
espalhando palavras
refrescando

Sol amigo
trigo dourando
pão garantido

Céu azulando
emoldurando tudo
desmaiando

A noite vem
A noite deita
Anoitecendo...


[Adhemar - São Paulo, 04/08/2015]

terça-feira, 1 de agosto de 2017

QUERIDOS

Tudo o que eu não sei me pesa,
me afronta, não basta.
Queria eu não saber mais coisas.

Quisera eu vasculhar baús,
revolver mistérios.
Atrair tons sérios de cores neutras.

Quisera noutras vasculhar os cérebros.
Os mais célebres, por certo,
ou os mais por perto.

Quisera eu perturbar espíritos,
vislumbrar auras,
declamar versículos...

Queria eu escrever artigos
ou apreender amigos
e queimar uns livros...

Tudo o que eu não sei me enche
de uma clara ignorância calma;
e para tudo o mais que eu não sei
eu bato palmas...


[Adhemar - São Paulo, 06/07/2014]

sexta-feira, 14 de julho de 2017

CANCELAMENTO

Suspenda os planos que não fizemos pra depois.
Suspenda a fuga que nós nunca planejamos.
Cancele as passagens que ainda não compramos.
Desfaça as malas que a fazer nem começamos.

Pare tudo o que nunca combinamos.
Esqueça as palavras que nós não escrevemos
e nem sequer pronunciamos...
Esqueça essa velha paixão inesperada
que juntos despertamos... só em mim...

Deixe pra lá o que eu não disse nem diria.
Deixe pra lá o que eu não fiz e nem faria.
Eu digo isto: entre nós está tudo acabado
o que deveras jamais houvera começado...


[Adhemar - São Paulo, 06/03/2017]

quarta-feira, 12 de julho de 2017

SONETO 43 (*)




Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh'alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.


- Elizabeth Barrett Browning - 
(Tradução: Manuel Bandeira)

[Fonte: Wikipédia]

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terça-feira, 11 de julho de 2017

AMA-ME POR AMOR DO AMOR SOMENTE

"Ama-me por amor do amor somente.
Não digas: “Amo-a pelo seu olhar,
o seu sorriso, o modo de falar
honesto e brando. Amo-a porque se sente

minh’alma em comunhão constantemente
com a sua”. Por que pode mudar
isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
de tuas mãos enxuga, pois se em mim
secar, por teu conforto, esta vontade

de chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
me hás de querer por toda a eternidade."


- Elizabeth Barrett Browning -
(Tradução: Manuel Bandeira)

[Extraído do blog "MEU CADERNO DE POESIAS"]
http://blogdasilnunes.blogspot.com.br/

sexta-feira, 30 de junho de 2017

DEPOSIÇÃO

Um pequeno espaço,
um cilindro fino
onde cabe tinta que se derrame
numa folha minúscula

Uma programação descuidada
um desabafo apertado
uma conversa fiada,
rumo perdido no mapa errado

Prosa misturada com verso,
página saltada
A mão pesada, cilindro leve
tinta impressionada

Um teste, uma prova, um indício
que não é cinza de cigarro, 
nem pegada:
só um longo caminho lá pro infinito,
numa solitária estrada.


[Adhemar - São Paulo, 08/05/2017]

sexta-feira, 23 de junho de 2017

CANHENHO

Tenho muito que fazer.

Quando me lembro, não tenho condição. Quando tenho tempo, não me lembro. Se tenho tempo e me lembro, aparece algo mais urgente...

Esse muito que fazer...

Tarefas, obrigações, caprichos. Esquecimentos, programações extemporâneas, lembranças tardias. Um acúmulo estranho de compromissos e tarefas mal distribuídos numa agenda cheia de rabiscos. Meus "compromiscos", como costumo dizer.

Tenho muito que fazer.

E sempre arranjo outra coisa. A idade serve de escudo para certas intransigências. Já fui mais gentil e solícito outrora, agora não mais; senão, seria um tanto muito maior este tanto por fazer.

Tenho muito que fazer.

Fiz uma lista. No auge das urgências iminentes de parte deste muito o que fazer, dou uma parada para conferi-la.

Tenho muito que fazer.

Sempre mais e mais, confundindo sonhos com obrigações, cansaço aleatório e lazer.

Tenho muito que fazer.


Depois eu vejo exatamente o quê.


[Adhemar - São Paulo, 04/10/2016]