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domingo, 21 de outubro de 2018

MESTRA CHAVE

Quero morar em teu mais recôndito segredo
e dormir no teu compartimento mais secreto
até ouvir da tua boca o decreto
a condenar-me ao exílio ou degredo

Escalaria tuas mais íngremes encostas
e observaria tuas paisagens de cima
até ouvir de tua boca uma rima
proferindo o palavrão que tu mais gostas

Sussurraria nas tuas atentas antenas
tantas bobagens que te escandalizarias
até ouvir teu riso rouco das poesias

Protegerias minha arte feito Mecenas
querendo libertar-me; tanto que amarias
respondendo ao amor com palavras obscenas...


[Adhemar - São Paulo, 14/07/2010]


domingo, 14 de outubro de 2018

TURISTA

Passante anônimo, olho as vitrines.
Me atrevo em pensamentos,
me ignoram os manequins;
me atrevo em reflexos sem brilho,
pobre de sentimentos entardecendo
e ressentimentos sem fim.

Caminho à esmo sobre cinzas,
sobre o enfim.
Corto a linha do horizonte
inaugurando o sol poente
ou coisa assim.

Volto às vitrines enfileiradas,
vazias de coisas vivas.
Me atrevo em pensamentos,
em reflexos anoitecidos
e nos versos adormecidos...

Passante anônimo, olho os letreiros de neon;
fico piscante e colorido
no vazio de significado
dessas luzes escandalosas,
chamativas e perigosas...

Me atrevo em reflexos sem brilho.
Embaçado arco-íris 
nessa noite luz e som;
numa ponte enfeitada,
enfeitiçado e sonhador.

Volto aos letreiros amanhecendo,
se apagando e se escondendo
no silêncio madrugador;
me atrevo em pensamentos despertos
pelo reflexo perturbador.

Passante anônimo, olho os bares abrindo.
Me atrevo em pensamentos sorrindo,
aurora urbana,
cheia de penumbra e cinza
no consolo de um vazio sem fim.

Caminho à esmo por essas ruas sem rumo,
que pouco a pouco despertam zangadas.
Conto os ruídos pelo reflexo que vai nas calçadas;
conto os passantes com esmero e aprumo.

Me atrevo pela manhã inaugurada
através da emenda portal
que fez a linha do horizonte consertada;
é o trajeto pelo mar sem fim
dessa cidade-pensamento, afinal...


[Adhemar - São Paulo, 31/01/2015]

domingo, 7 de outubro de 2018

FUTURO OU DESTINO?

Algum apelo de impedimento.
Altivez.
Cativeiro.
Perspectivas frágeis.
Processos ineficazes.
Manifestações.
Protestos e cartazes.
Posições insustentáveis.

Algum apelo de impedimento.
Pessoal.
Lamentável.
Lamento de perdição,
de perda, desolação.
Cativeiro em condições miseráveis.
Acordes dodecafônicos.
Poluição degradante.
Painel de aviso fechado.
Desesperançado.
Placa fosforescente de aviso:
é o futuro!

Algum apelo de impedimento.
Escolha de um lado da lua:
o escuro.


[Adhemar - São Paulo, 26/05/2017]

domingo, 30 de setembro de 2018

SEMICONSCIÊNCIA

[Imagem: Espaço integrado (pixabay.com)]

Adormeci abraçado às tuas pernas
Apagado de mim
Apagado do mundo

Adormeci sonhando estradas
Fugas, viagens longas

Adormeci abraçado aos sonhos
Sonhos de vê-la mais
de tê-la mais nos braços

Adormeci na penumbra desse sentimento
Adormeci nesse berço, ou ninho dourado
Adormeci na tua ausência, ora eterna...

Adormeci na ilusão
Adormeci entre teus cachos dourados
imerso em pesadelos coloridos

Adormeci só,
no seio do teu adeus.


[Adhemar - São Paulo, 18/02/2018]

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

STONE



Não há momento "certo" pras coisas acontecerem... Ou "errado".  Elas simplesmente acontecem, ou aparecem. A culpa da conjuntura é relativa; nós por nós, numa análise benevolente ou severa no confronto com os fatos. Com a vida. 

Nunca vamos por as coisas nos seus devidos limpos pratos. Sim, porque tudo é sistematicamente aleatório, causa e consequência são cúmplices, comparsas... 

O único momento certo que existe é a paz de espírito. O momento se chama "sempre". Só assim veremos que o momento certo pra tudo é aquele em que está acontecendo. A serenidade absoluta desse espírito em paz é concludente e permite ações tranquilas e bem fundamentadas nesse cotidiano faustoso e atrabiliário que chamamos "vida".

Mesmo esse aleatório encadeamento de acontecimentos, dos quais participamos ou assistimos, fará sentido no mais fundo de nossos sentimentos balanceados - ou não - entre a razão e o emocional. Aceitar pacificamente as armadilhas do destino ou os inevitáveis fatos consumados nos fará maiores e mais hábeis no manejo de nosso próprio desenvolvimento. Não é que seja preciso aceitar tudo passivamente; mas agir pausada e conscientemente sentindo a plenitude de estar vivo, interferindo nesse estranho, ainda que lindo, acaso do nosso protagonismo neste mundo.


[Adhemar - São Paulo, 31/07/2018]

domingo, 16 de setembro de 2018

PRA TRÁS, PRA FRENTE


                              Tenho folheado, periodicamente, as páginas da minha vida. Nada tenho encontrado que me envergonhe especialmente, salvo uns deslizes no trato com pessoas de quem eu gosto realmente. Vou registrando – a propósito – os meus dias de trabalho em agendas desde 1.988. Há um testemunho diário do que tenho feito e com quem tenho falado que, se não chega a ser completo, dá uma idéia geral da trajetória errática que tem sido a minha vida profissional.

                              Por fim, há também um registro especial datado e localizado do que se passa dentro de mim, além de impressões do que acontece em volta, de modo a refletir pensamentos e momentos de mutação de uma mente em permanente ebulição. Assim, com o cérebro cozido, chego à conclusão de que a gente nem muda tanto quanto vê no espelho. Cabelos brancos, rugas, os filhos crescendo, são só o lado tridimensional da nossa personalidade. No plano do papel vai estampada a nossa prosápia e a nossa pobreza.

                              Não há, além dos registros de casamento e do nascimento dos três filhos, grandes motivos de orgulho também. Se algo nos revela a nós mesmos, temo que uma certa mediocridade nos leve ao inferno. Porém é um problema de Deus que nos resgate ou nos condene em seu justo julgamento, ou nos ilumine para uma trajetória talvez suave, talvez sublime. Temo estar me transformando num autômato, lutando e me esforçando para agir com lealdade, justiça, determinação e desprendimento, mas só no embalo do que aprendi na infância, sem poder saltar para um outro trilho – seqüência difícil. Temo já estar morto e enterrado na vala das pessoas comuns, indistinguível dentro da corrente contra a qual tanto nadei. Temo aspirar somente uma felicidade material que nem sei se existe, pensando numa poltrona e uma TV.

                              Mais que tudo, temo estar me tornando um enganador, mostrando o mundo aos meus filhos de um modo distorcido como o contrário do que me mostraram. Desacreditando da ética e do paraíso, vou resistindo cada vez menos em alinhar com os profetas do apocalipse. E, mesmo assim, vou vivendo uma esperança que reside lá no fundo do meu subconsciente, que apesar dos trancos, sobrevive e resiste: a liberdade, essa enorme corrente de aço – presa a uma bola de chumbo – que existe no pensamento, que faz a gente confessar o fracasso e que acende o pavio do “tentar outra vez”; que nos enche de brio, nos condena e nos anima. E todos os dias nos pergunta qual nosso último, digo – próximo – desejo.


[Adhemar – São Paulo, 22/05/2000]

domingo, 9 de setembro de 2018

LÁ VAI...

Aqui estou, refém de um diema:
analisando o teu pedido
e te fazendo de tema.

Aqui estou refletindo se é um problema:
ando meio aturdido,
acho que é culpa do sistema.

Estou aqui feito um palerma
e todo muito confundido
feito um enredo de cinema...

Estou aqui fazendo cena,
meio tímido, muito inibido,
procurando forma amena...

Estou aqui, sem lei nem lema,
meio que oferecido
apresentar-te este poema.

Aqui estou, ora presente,
feito Vinícius em Ipanema,
pra confessar, adolescente,
que esta poesia é pra você... Madalena!


P/ I.N.
[Adhemar - São Paulo, 12/09/2007]

Já foi...

Escrito para uma... saudade da adolescência despertada então. No original consta o nome real.

Adhemar - 09/09/2018.

domingo, 26 de agosto de 2018

CONSERTOS

Acho que a gente quis nascer.
Átomos, moléculas, ilusão.
Formamo-nos no espaço etéreo,
holísticos, humanos.

Acho que a gente quis dizer.
Voz, olhos e mãos.
Falando no espaço eterno,
solidários e irmãos.

Acho que a gente quis fazer.
Máquinas, amor, artesanato.
Montando no espaço universo
declamado e claro.

Acho que a gente quis olhar
quadros muito além da visão;
vendo imagens no espaço,
lágrimas e chorar.


[Adhemar - Santo André, 28/08/2014]

domingo, 5 de agosto de 2018

QUANDO

Quando surge a noite e o coração
transborda a energia desperdiçada
pois criada não se guia...;

Quando surge a noite e o coração
entristecido se debruça e chora
tua lembrança perdida...;

Quando surge a noite ou,
quando some o dia,
morrem nascendo novas eperanças menores,
menores e mais vazias...;

Quando surge a noite e o coração
chorando derrama estrelas pelo manto negro,
imensa constelação de sentimentos...;

Quando surge a noite e o coração
silencia as próprias mãos
numa tristeza imensa...;

Quando surge a noite e o coração
silenciosamente adormece,
surge a tua imagem, nítida mas sonho
que, impressa nele é como a magia:
move-lhe o íntimo e não perece nunca, nunca...

Quando surge a noite o coração
conserva em energia, amor e movimento
transbordando linda no seguinte dia...;

Uma vez mergulhado na noite o coração
ausente de si mesmo aguarda
o "quando surge o dia"...

Quando surge o dia, morre o coração
pois, desde o "quando surge a noite"
não há mais amor,
não há mais vontade,
não há mais razão 
para esta poesia.


P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 08/03/1988]

segunda-feira, 23 de julho de 2018

FLASH

Esguia e leve eu te vi,
meio que de repente;
estava séria e... vestida!
Que indecente!

Cabelos curtos,
com uns flashes prateados
e seus olhos - ah meu Deus!
Atrás de uns óculos quadrados...

Era branca, a camiseta,
tinha uma estampa bem fora de moda;
e as calças jeans...
desenhavam, claramente, a coisa toda.

Os pés descalços,
ou num falso mocassim.
Sem maquiagem,
só o rosto ou coisa assim...

Os gestos leves;
mas, eram severos,
indicando uma zanga, por decerto,
ou imitando um dançarino de bolero...

Decidida,
sentou-se firme em seu lugar
entre outras moças,
no certo ângulo de se observar.

Almoçou pouco, comedida e prudente,
como se a vida fosse assim, toda frugal;
mas, distraída, se entregou,
palitou dentes...

Matemática, noves fora, levantou-se.
Olhou em torno procurando a saída.
Fez-se de boba, fez que ia mas voltou,
até que enfim, acercou-se e surgiu.
Circunscrita em minha área de influência,
passou reto, pelo jeito nem me viu...



[Adhemar - São Paulo, 23/05/2018]