segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Chuva de sal


A ausência do mesmo pensamento
me fez ver que não havia sol.
O frio e a tristeza matinais
condiziam com a ausência maior.

Quando o sol resolveu aparecer,
a saudade era maior.
Ligados ao pensamento,
o sol, você e o desaparecimento.

A memória nublada de lágrimas.

* * *

O coração vai ocupado
rumo ao sul do equador.
Onde pelo sol for alcançado
estará alimentado de amor.

O tempo vai ficar nublado
e as rimas em desvalor.
Ainda assim orientado,
o acompanhará o calor.

Calor mais que interiorizado
e que cauteriza uma dor.
O coração que se julgava experiente...

Pois de outra feita foi martirizado,
transformou-se num ótimo cantor;
e assim tranquilo, ao teu lado vai contente...

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 02/08/1987]

domingo, 31 de janeiro de 2010

Representação


Fingi que não sabia escrever.
Insatisfeito, escondi os meios - papel, caneta e lápis.
Insatisfeito, fingi emburrecer.
Insatisfeito, fingi ser feliz.

Fingi que não tinha comporomisso com isso.
As palavras, fingi esquecer.
Fingi um fingimento esquisito,
fingi sorrir, fingi sofrer.

Fingi abandonar certas idéias;
fingi abraçar causas improváveis.
Fingi provar certas idéias velhas
e conhecer terrenos insondáveis.

De tanto fingir eu me perdi
e me acostumei à máscara do espelho.
De tanto fingir eu me esqueci
de como era azul o vermelho.

Insatisfeito de tanto fingir
pensei que era feliz de verdade;
e falsamente eu me feri
nessa fantasiosa realidade...

[Adhemar - São Paulo, 07/10/2009]

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

TRIO

Ana, Luiz e João.
Ela, uma quarentona;
Eles ainda na mão,
no colo, no mimo.

Ana, Luiz e João.
Coragem, audácia, intenção.
Ela, batalhadora;
dos dois é um aprendendo
e outro é ainda um cagão.

Ana, Luiz e João.
Ela é minha maninha,
xodó do coração.
Eles, os meus sobrinhos,
meu afilhado e o irmão.

Ana, Luiz e João.
Um trio mais do que especial
e que eu amo de paixão.

[Adhemar - São Paulo, 18/01/2010]

Trinca

Texto escrito dez dias atrás para minha irmãzinha, Ana Clara, um ser humano gigante. Casou tarde, teve os dois filhos, separou cedo... Publicado hoje, aniversário de João Gabriel, o caçula, um aninho! Meu afilhado, o Luiz Maurício, fez três anos em dezembro, são os caçulinhas da frota! Um grande beijo aos três, especialmente ao aniversariante!!!

Adhemar, 28/01/2010.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Eloquência engasgada

Muitas vezes eu não quero dizer nada e as pessoas me interpretam; noutras vezes, quando eu digo tudo do mais fundo de mim mesmo, ou não me entendem, ou me ignoram...

Agora, me vejo diante dos impasses: deixo a barba crescer? Mudo de emprego? Vou à Veneza?

Então eu improviso meu discurso certo de que as pessoas vão ouvir e aplaudir. Mas ninguém quer escutá-lo... Fico só. De repente, imerso em quietude e silêncio, escuto o arfar de expectativa da platéia; uma multidão a me cercar aguardando uma esmola de palavra que talvez eu nem venha a proferir!

Envolto em minha própria confusão, paro e escrevo. Tudo vai ali vomitadamente impresso em meu desleixo ansioso e meio aflito, de libertar tanta besteira aprisionada na forma de verso ou prosa. E no mais recôndito guardado as pessoas me pedem, querem ver, ler e ouvir minha profunda filosofia feita de nada. Nesse quando, até a mais infame das piadas ganha um sentido altissonante.

Surpreendido, escrevo então a sério, desenvolvendo minhas teorias... Torcem-se os narizes, afastam-se os mais fanáticos fantásticos, já desinteressados. Chego a óbvia conclusão que a gente só acerta quando é totalmente espontâneo, ingenuamente natural e sempre sincero. Disfarçou - se deu mal.

[Adhemar - São Paulo, 08/01/2010]

Engasgo eloquente

Fui apanhado de surpresa com a reprodução de um escrito no blog de minha amiga Selma Barcellos por estes dias; uns dias atrás, Gaby utilizou uma resposta em verso que lhe fizera no seu blog para seu perfil no Orkut (acho...). Resolvi postar o escrito (antes dos eventos citados) acima porque realmente me surpreende a repercussão de algumas coisas. E falo no assunto por absoluta falta de modéstia, supremo paradoxo, pois apesar de encabulado, fico por demais envaidecido. Voz de falsete: "acho que aprenderei a conviver com esta súbita fama que o sucesso carrega, espalhando minhas palavras que se pretendem menos sábias do que divertidas; que acalentem o coração dos leitores e lhes provoque um sorriso; que os faça balançar a cabeça e possam dizer ao final da leitura - este Adhemar tem cada uma..."

Adhemodesto, 27/01/2010

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

BRICOLAGEM

Num pedaço do espaço
a tampa da estampa
compõe um compasso.

Da palha, palhaço,
da roça, carroça,
do osso, caroço!

Na espera do espelho,
a jóia, o joelho
e o mesmo mormaço.

Do chá, a chaleira,
em cada cadeira
um amor-tecedor!

Da teia à cadeia
que prende e aprende
na rede ao redor.

E o sol é somente
aquele aquecedor...

Os pés, as pessoas,
o bem e as boas,
a paz - pasmaceira...

Inquieta quietude,
ato - atitude -
na doença e na dor.

Por fim, finalmente,
a letra, a palavra,
o tempo do tema
num terno poema,
eterno, de amor.

[Adhemar - São Paulo, 11/07/2009]

domingo, 17 de janeiro de 2010

ESPIRAL

A horas tantas
carregar o espasmo,
a liga da receita,
a massa e o entusiasmo.

Ah! horas tontas,
onde andar na procissão
é carregar o andor,
a cruz e o pão.

Demoras longas,
caminhar na ponte,
o parque, o lago;
e a sorte a espreitar de longe.

Destino fato,
como a vivência acerta!
Romântica, incurável
e praticante com a mente aberta.

Dizeres prontos
comunicados de maneira estranha.
A mente torta,
pensamentos retos com malícia e manha.

E guerras sanhas,
fortes poderes natos,
guerreiros breves e solenes
acinzentando os gatos...

Em terras santas,
a comboiar seu gado,
pastoreando almas em filas indianas,
todas de um só lado.

E a horas tantas
retornar do espanto,
tourear a calma,
entoar seu canto...

[Adhemar - São Caetano do Sul / Santo André, 19/05/2005]

sábado, 16 de janeiro de 2010

ES-TI-LHA-ÇOS

Um impulso domina.
Vem do fundo, anima.
Desatrelado,
puxa pensamento e mais pensamento,
tudo tão profundo,
não vai sobrar nada.
Sinto-me explodindo,
viro mil pedaços
mas há alguém que pode reconstruir tudo;
reunindo leve todos os fragmentos.
Trabalho difícil,
mesmo impossível,
mas há uma chance viva,
sinto que ela existe.
É como um impulso,
não sei se imagino.
Baseado nela, respirando fundo,
nas mais fundas forças me buscando,
me levanto, me animo.
Ainda que em pedaços,
ainda que explodindo.

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 17/09/1987]

F-R-A-G-M-E-N-T-O-S

Há um texto chamado Frag-men-tos, postado em 26/07/2009 que ocasionou agora a mudança do título deste, pouco menos antigo. No texto, nova inversão, onde está fragmentos era estilhaços. Enfim, coisa desta inteligência multi-facetada, falou, falou, falou e não disse nada!

Adhemar, 16/01/2010.