quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Evasiva

O que acontece neste coração?
O que acontece?!
Qual será o motivo dessa aflição?
O que te parece?!

Estendida a mão, está escuro...
Se for uma doença
não será o caminho mais puro
tomar consciência...?

Mas o que parece não é o que se pensa.
E nem se pretende
que este sentimento faça nascer descrença.
A gente se entende.

Abandonar a guarda, encarar de frente.
O que é ilusão?!
Quem é esse indigente
mendigando esmola do teu coração?!

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 17/09/1987]

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

POETISA DESPERTA

Andava então o talento adormecido,
esse que ora vemos tão desperto?
Foste ter à Terra que com tantos espíritos por perto,
faz do teu verso mais recôndito, aparecido.

Imagino-te na praia a declamar
em altos brados a tua bela poesia.
Pousam quietos os pássaros, cala-se o mar,
para te ouvirem com enlevo e alegria.

Calam-se os humanos a esperar
que saia um guia mais que emocionado
dessa tua mente abençoada e atenta.

Molham-se nossos olhos a chorar
Um pranto que nos tem irrigado
da felicidade com que tu nos alimenta!


P/ Selma Barcellos em www.tiaselma.com/2009/12/o-que-o-meu-mestre-mandar
Adhemar, São Paulo – 15/12/2009

sábado, 12 de dezembro de 2009

Meio de Minas

Ribeirão Vermelho, Perdões; Santana do Jacaré, Campo Belo. Santo Antonio do Amparo, Lavras, São João del Rey. Tiradentes, Prados, Itumirim. Tabocas, Conceição da Serra, Morro do Ferro.

Eita, trem bão sô!

Tanta história incutida, tanta riqueza lavrada. Arte Sacra, barrôca, arquitetura colonial. Sítios chácaras e fazendas, cavalos, gado, cafezais. Os horizontes estendidos - longe. O sol reavivando o verde das matas. Os pássaros cantando e o tempo, simplesmente passando.

Pode parecer meio piegas ou puramente banal. Mas é um novo contato com a vida, com brasileiros falando português corretamente e zelando, de certa forma, por tradições e pela história. Fora uns abnegados que a gente encontra por aqui, resgatando práticas de integração e respeito à natureza, produzindo coisas tão boas que uma porção de estrangeiros - de todo o mundo - admira e faz questão de comprar aqui. Muita capacidade, muita diligência e um baita sossego ao fazer, gostando de fazer e achando tempo de receber acolhendo os embasbacados turistas dos grandes centros urbanos ditos "civilizados"...

Por aqui faz sentido a frase "o Brasil não conhece o Brasil"; e pior, os brasileiros não conhecem os brasileiros...!

[Adhemar - Santo Antonio do Amparo, 14/07/2006]

Caminhos

Parece que foi ontem que estivemos nessa região do interiorzão de Minas Gerais. Quão gostoso é ouvir a língua pátria ser falada devagar, todas as letras de cada palavra sendo pronunciadas! Não só porisso mas é bom que se diga, este país tem jeito! Há muita gente que vive na simplicidade do lidar com a terra, aliada às novas tendências do "ecologicamente correto", "alimentação natureba" e outras bossas. A diferença é que fazem isso a séculos, sem precisar "aprender" na televisão; esses modismos de hoje foram inventados por quem passou lá, achou o óbvio bacana e resolveu adotar como "way of life" nos grandes centros - pra faturar algum em cima, é claro.

Não sou daqueles que acha que a solução pro mundo é a gente voltar pras cavernas. Mas que precisamos simplificar nossas vidas... Ah, precisamos!

Adhemar - 12/12/2009.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Inquebrável


Diante de um espírito superior apenas devemos prestar atenção a atmosfera; um espírito superior cerca-se da sabedoria que concentra. Observar e aprender a partir dos seus mínimos gestos, do seu modo de olhar. Um espírito superior não usa os seus circunstantes, mas os abraça e os faz pensar. Nunca se apressa na sua infinita paciência de esperar e, ora é velho, ora é criança em sua busca intensa de aproximação e semelhança.

Com um espírito superior a gente nunca é obrigado a concordar, sempre há margem para uma controvérsia, sempre há tempo para falar pensando antes. Um espírito superior também aprende, também brinca e se diverte; é sempre atento, se for preciso chama a nossa atenção, estimula a reflexão e traduz uma filosofia. Um amigo. Um espírito superior nos acalenta e incentiva, nos provoca e nos questiona.

Um espírito superior é um abrigo, um porto de atracação tranquila, um ídolo, um exemplo, um auxílio, um alimento, um motivo; um motivo pra gente querer ser melhor.

P/ NBS - um espírito superior
[Adhemar - Santo André, 15/12/2008]

Terreiro rico!

E por falar em espírito superior, hoje faz anos minha tia Norah. Não se preocupe tia, não vou dizer que são 78, sou discreto! Irmã mais velha de minha mãe (NBS - por acaso), matriarca do clã dos Sanna que já foi cantado neste blog em prosa e verso. Como os bons vinhos, só faz melhorar com o tempo. Muito aprendi ouvindo-a quando era apenas um aborrecente, depois moço, depois pai novo... Nem os braços-de-ferro que esporadicamente travamos no campo da política deixam de mostrar algo que a gente não viu, ou não apreendeu em todo o seu significado. Muita paz e saúde pra aguentar a gente, tia! Parabéns e beijão!

Adhemar, 06/12/2009.

sábado, 5 de dezembro de 2009

FUSÃO

O coração solitário tem saudade.
Tem saudade da antiga pureza
que foi perdendo no tempo.
Hoje, amargo e egoísta,
depara-se com o enorme muro vermelho;
sem espontaneidade para transpô-lo
e nem coragem para enfrentá-lo.
Susto após susto,
na insana atividade de se recalcar,
o coração solitário sente a explosão iminente.
Preso em si mesmo, desespera e chora
vendo através do pequeno orifício da cela
o sol ardente e redentor
a cobrar com seus raios o seu prórpio resgate.

O coração solitário,
pouco a pouco desbotando,
empalidece até quase a transparência da morte.
Vai se dissolvendo no remorso,
de tanto sofrimento.
E se funde na infinitesimal poeira cósmica
do seu cárcere.

[Adhemar - São Paulo, 17/02/1988]

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Garoa

Uma chuva fina e contínua se derrama.
Alguém reclama.
Tantos pensamentos molhados,
umidecidos, mofados,
numa interação com ventos frios,
alguém enregelado.

Uma chuva fina e contínua,
olhos arregalados,
como se coubesse um pouco mais de espanto.
Tantos pensamentos molhados,
falsos objetivos,
um calor necessário e desejado.

Uma chuva fina e contínua
de pensamentos afobados.
Alguém reclama
sem conseguir segurar os destinos,
uma sorte que se trama.
Um pensamento centrado,
chuva fria de adeus,
menos um drama.

[Adhemar - Ibiúna, 27/10/2009]

domingo, 29 de novembro de 2009

CÉUS

Tarde quente,
outonal em pleno inverno;
vai entorpecendo lentamente
um esquecimento interno.

Tarde azul,
uma clara cor fixada ao firmamento
ensolaradamente azul,
perdida, enevoada num aquecimento.

Tarde dourada,
num vigoroso contraste cromático
deixando a paisagem emoldurada,
proporcionando um irreal fantástico.

Tarde morena,
deslizando suave pelo asfalto;
um abraço tépido, cálido e sereno
tratado então assim, meio por alto.

Tarde quente,
Encerra em si tanta preguiça,
tanto riso, tanta alegria tão contente...
Não se apressa nem se adia: se conquista!

[Adhemar - São Paulo, 17/08/2005]