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domingo, 9 de dezembro de 2018

ELEFANTA

          De repente a vida começa a exigir mais do que podemos dar; ou que queremos. Movimentos inesperados, esforços além do que planejamos; perspectivas antes impensáveis parecendo tão essenciais agora... E os pensamentos tumultuados  querendo organizar algo inimaginável levantando o ânimo para o enfrentamento. A divisão do que fica e o que vai embarcar nessa novidade desdenhada, mas, de certa forma, desejada.

         De repente a gente começa a exigir mais da vida.


[Adhemar - São Paulo, 02/04/2011]

domingo, 2 de dezembro de 2018

ISOLAMENTO

Quando a solidão invade
uma certa desorientação toma conta.
Nenhuma perspectiva se apresenta,
o ânimo se ausenta,
uma longa sonolência toma conta.

Quando a solidão se encontra
bem no meio de uma vasta multidão
a vontade se levanta,
ameaça ir embora e abre mão da cautela
no rumo de uma fuga sem ponta.

Quando a solidão se muda
para bem no centro do peito
ela ocupa.
Instala-se soberana,
altaneira, absoluta.

A solidão não mente,
não abandona,
nem se desculpa.


[Adhemar - São Paulo, 05/06/2018]

sábado, 1 de dezembro de 2018

CONSTELAÇÃO

Estrela.
Luminosa e brilhante;
pensar que era na Estrela
que se escondia o sentimento maior.

Estrela.
Refletida pelo mar,
refletida pelo encanto.
Encantado momento
onde a repousada Estrela contemplava.

Olhos negros,
profundos como o céu que a envolve.
Delicado brilho,
delicada cor.

O homem frágil, pequenino,
ficou na praia a contar estrelas.
Delas, entretanto,
apenas uma importava,
apenas uma se sentia próxima.

O homem fascinado pela força dessa Estrela
viu que ela se aproximava
sem sentir que era ele que subia.
A Estrela foi ficando maior e mais intensa
quanto mais intensamente ele a amava.

O deserto azul e fértil mostra ao longe
sua dourada e seca paisagem.
A Estrela vai fazer surgir tesouros;
vai fazer surgir de dentro dessa areia pródiga
um forte e emocionado...
e surpreendente...
amor...!


P/ SMRN
[Adhemar - São Paulo, 01/12/1988]

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

"INDAGADIVAGAÇÃO"

Onde está aquela música sublime,
tão doce, tão triste,
cantada pelos teus olhos
chamada "caso de amor"?

Onde está aquela sensação criativa,
tão doce, sublime,
dada pela tua boca
num beijo de alto calor?

Onde estão os teus olhos - e olhar -
banhados do brilho mais lindo,
profundo,
no fundo a mais bela cor?

Onde está o teu corpo inteiro, tão lindo,
de movimentos criativos
dados pela tua força
no livre exercício do amor?


P/ MG
[Adhemar, São Paulo, 18/11/1987]

terça-feira, 20 de novembro de 2018

LETRAS MIÚDAS

Escorre uma caligrafia imprecisa
Letras incompletas, advinhas
Um código secreto e sem guias
Um alfabeto subjetivo, quem precisa?

Escorre a vida assim, indefinida
Letras miúdas, procurando sentido
Um código decifrado e decidido
Uma ilusão mais do que atrevida

Ouvem-se gritos escritos no papel
Letras tímidas, de repente expandidas
Um código de pacto das palavras banidas
Uma frase de efeito num estrépito tropel

Escorre sangue de uma aberta ferida
Letras ferozes, incontidas guerreiras
Um código atrabiliário de besteiras
Uma panela, um prato de comida

Escorre a alma do corpo, deixa a vida
Letras frias numa lápide magoada
Um código de chave abandonada
Uma ilusão, que para sempre está perdida...


[Adhemar - São Paulo, 02/08/2017]

sábado, 10 de novembro de 2018

ENTARDECER

"Entardecer" (Imagem da Internet)


Saí assim, contrariado...
Um tanto quanto por fazer,
um tanto quanto avariado...

Saí assim, ao entardecer.
Talvez assim, meio de lado,
um tanto pra enternecer.

Saí assim, meio zangado,
um pouco antes do anoitecer,
com tantos bares fechados...

Saí assim, pra acontecer.
Meio teatro de tablado,
um meio pão pra amanhecer.

Saí assim: olhos vendados,
só pra te ver.



[Adhemar - São Paulo, 08/11/2016]

sábado, 3 de novembro de 2018

AMÉM

A poesia chegou mansa
num acorde da canção
na luminosidade da noite
no murmurar do coração

A saudade chegou mansa
num acorde da paixão
na sonoridade do amor
na alegria da emoção

A tristeza chegou mansa
tão de leve, tão sutil
Denunciou a tua ausência
numa lágrima gentil

Anoiteceu; do manto negro
a paisagem se encobriu
Mando um beijo numa estrela
a primeira que surgiu

Que a benção desta noite
nos ilumine e proteja
Peço a Deus que nos conduza
nos caminhos do assim seja...


P/ BSF
[Adhemar - Rio das Pedras, 03/11/1987]

sábado, 27 de outubro de 2018

CONJUNTO

A vida de andar por aí
não à esmo
mas buscando para si mesmo
um sentido
um amplo significado
que não seja presumido
nem muito complicado

A vida de se esforçar, de pensar
não à toa
mas buscando coisa boa
produtiva
como numa cooperativa
do que seja coletivo
grupalmente trabalhado

A vida de fazer, construir
não ao acaso
mas buscando um plano raso
de onde a obra vai surgir
com estudo, com projeto
planejamento pensado e completo
que outros vão usufruir

A vida de cuidar dos filhos
não arbitrariamente
mas com critério convincente
com futuro
sendo terno, dôce e duro
alegre e comovente
exigente mas amigo e companheiro

A vida de olhar pra trás
sem ver arrependimento.


[Adhemar - São Paulo, 27/10/2006]

domingo, 21 de outubro de 2018

MESTRA CHAVE

Quero morar em teu mais recôndito segredo
e dormir no teu compartimento mais secreto
até ouvir da tua boca o decreto
a condenar-me ao exílio ou degredo

Escalaria tuas mais íngremes encostas
e observaria tuas paisagens de cima
até ouvir de tua boca uma rima
proferindo o palavrão que tu mais gostas

Sussurraria nas tuas atentas antenas
tantas bobagens que te escandalizarias
até ouvir teu riso rouco das poesias

Protegerias minha arte feito Mecenas
querendo libertar-me; tanto que amarias
respondendo ao amor com palavras obscenas...


[Adhemar - São Paulo, 14/07/2010]


domingo, 14 de outubro de 2018

TURISTA

Passante anônimo, olho as vitrines.
Me atrevo em pensamentos,
me ignoram os manequins;
me atrevo em reflexos sem brilho,
pobre de sentimentos entardecendo
e ressentimentos sem fim.

Caminho à esmo sobre cinzas,
sobre o enfim.
Corto a linha do horizonte
inaugurando o sol poente
ou coisa assim.

Volto às vitrines enfileiradas,
vazias de coisas vivas.
Me atrevo em pensamentos,
em reflexos anoitecidos
e nos versos adormecidos...

Passante anônimo, olho os letreiros de neon;
fico piscante e colorido
no vazio de significado
dessas luzes escandalosas,
chamativas e perigosas...

Me atrevo em reflexos sem brilho.
Embaçado arco-íris 
nessa noite luz e som;
numa ponte enfeitada,
enfeitiçado e sonhador.

Volto aos letreiros amanhecendo,
se apagando e se escondendo
no silêncio madrugador;
me atrevo em pensamentos despertos
pelo reflexo perturbador.

Passante anônimo, olho os bares abrindo.
Me atrevo em pensamentos sorrindo,
aurora urbana,
cheia de penumbra e cinza
no consolo de um vazio sem fim.

Caminho à esmo por essas ruas sem rumo,
que pouco a pouco despertam zangadas.
Conto os ruídos pelo reflexo que vai nas calçadas;
conto os passantes com esmero e aprumo.

Me atrevo pela manhã inaugurada
através da emenda portal
que fez a linha do horizonte consertada;
é o trajeto pelo mar sem fim
dessa cidade-pensamento, afinal...


[Adhemar - São Paulo, 31/01/2015]