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domingo, 27 de dezembro de 2009

"QUANTA"


No conforto de casa, na acomodação, a vida passa - aparentemente - mais devagar. Até os pássaros vistos da janela parecem parados no céu. Até o sol que entra pela mesma janela nos deixa aquecidos por um interminável instante. E me deparo com a incrível teoria de um estranho, de que o tempo não existe: não existe! Ironia ou revelação? Tento convencer os meus cabelos brancos da simpática teoria. Tento imaginar o espaço, único e monodimensional; tudo ao mesmo tempo agora! A suprema revelação: todas as decisões podendo ser reformuladas, tudo podendo ser revivido de forma alternativa, mais aporfeiçoada - quem sabe? E o verdadeiro dilema ético: arrepender-se ou não, de tudo, ou nada?! e optar por não voltar atrás; ser pretensamente original e viver a própria vida uma vez só, evoluindo e transformando cada ação num eterno momento presente - consciente - conspirando para que a matéria da qual somos feitos mais a energia que atraímos e acumulamos retorne, ou melhor, se transforme em algo cada vez mais interessante; ou, pelo menos, mais útil.

Digamos não às vidas paralelas, àquilo que poderíamos ter sido.

Digamos sim ao que somos e ao que seremos nessa estranha inexistência do tempo!

[Adhemar - São Paulo, 11/08/2005]

NATAL, 2006

Texto escrito em 2005 (aproveitado como cartão de natal em 2006) sobre as considerações de um físico indiano, Amit Goswami, de que o espaço, a matéria e o tempo só existem na nossa consciência. Acho que não entendi bem o que ele quis dizer - talvez sendo até melhor do que se tivesse entendido - porque meu QI de pedra de um maldito materialista custa a admitir a hipótese, por mais fascinante que pareça. E o assunto ainda me intriga, a ponto de, vez por outra, mergulhar nele de novo...

Adhemar, 27/12/2009.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Cavernas aparentes


Sobre a última saída paira uma bruma vermelha; uma luz estranhamente difusa se confundindo ao ocaso. Na linha do horizonte, uma cara alaranjada espiando a noite chegar. No plano azul esverdeado desse oceano de fim de tarde, a sombra da montanha em cujo ventre há um caminho. Há um caminho mais do que evidente cortando atalhos, levando a minas de preciosas coleções: carvão e diamantes, opostos tão parentes!

Pela última saída, os avisos sobre o perigo da chuva vermelha que leva consigo muito da essência desse ventre. Tanto carbono, tanto hidrogênio que talvez desse para fabricar gente! Tanta química e biologia num simples buraco sem fundo, num simples mistério oculto...

Da luz da bruma vermelha se apagando com a noite, a escura certeza desses veios ricos e silenciosos, tentadores e desafiantes. Carvão, carbono, caverna. Audácia, temores e vida pelo duto da montanha opressora, repleta de diamantes e de escuridão.

[Adhemar - São Paulo, 31/07/2008]

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

NATIVIDADE


Não importa muito como é que cada um vê ou sente o Natal. Na verdade, o mais importante é a lembrança dos significados implícitos que ele comporta, independentemente da crença de cada um. Há que se entender que o Natal tem um significado apenas simbólico do nascimento de Jesus. O filho de Deus? Um importante profeta? Um grande educador? uma referência atemporal - um exemplo de vida - para além de sua própria existência?

O que precisamos fazer é aproveitar a época de tradicional congraçamento para refletir um pouco sobre nós mesmos e o nosso papel diante de tudo o que os grandes mestres tentaram nos ensinar. Aproveitar a alegria do momento para aperfeiçoar nosso modo de vida, de abraçar com generosidade a idéia de ser mais solidário e mais humano. E não apenas por esses dias, mas por todo o próximo ano!

[Adhemar - São Paulo, 24/12/2009]

FELIZ NATAL

A todos àqueles que acreditam em alguma coisa maior e mais abrangente do que a si próprios; dentre tantos, àqueles que, com sua generosidade e paciência passam por aqui com seus olhos e palavras amigas: um grande e afetuoso abraço acompanhado dos melhores votos de BOAS FESTAS; que a Paz a Alegria e o Congraçamento sejam plenos! Luz e Energia a todos!!!

Adhemar, 24/12/2009.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Deslocamento

Interdependência de movimento.
Sincronização à gosto.
Passos combinados.
Rumos definidos, metros contados.
Ação conjunta no momento.

Um abraço - interdependência de ação.
Movimento simetricamente oposto
em mútua direção.
Resultado de certo afeto
ou de falsa afetação,
representando energia,
carregando baterias de longa duração.

Diferentes pontos ocupados
- ao longo do tempo -
improvisação.
Os trajetos em mapas errados
pedem outra marcação.

Nem bagagem, nem transporte,
nem companhia ou alimento.
Interdependência da sorte,
da carona em caminhão,
indo de encontro ao destino;
ou dele mesmo fugindo
rumo aos futuros possíveis
ou pra onde eles estão...

[Adhemar - Ibiúna, 27/10/2009]

Desencontramento!

E mais um dezembro apressado me atropela; mudou o computador de casa, mudaram os do escritório... Daí o mês fica meio banguela. Mas logo virá a saudação tradicional que todo ano me prometo deixar pra mais cedo e todo ano fica pro em cima da hora! Abraço,

Adhemar - 23/12/2009.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Evasiva

O que acontece neste coração?
O que acontece?!
Qual será o motivo dessa aflição?
O que te parece?!

Estendida a mão, está escuro...
Se for uma doença
não será o caminho mais puro
tomar consciência...?

Mas o que parece não é o que se pensa.
E nem se pretende
que este sentimento faça nascer descrença.
A gente se entende.

Abandonar a guarda, encarar de frente.
O que é ilusão?!
Quem é esse indigente
mendigando esmola do teu coração?!

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 17/09/1987]

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

POETISA DESPERTA

Andava então o talento adormecido,
esse que ora vemos tão desperto?
Foste ter à Terra que com tantos espíritos por perto,
faz do teu verso mais recôndito, aparecido.

Imagino-te na praia a declamar
em altos brados a tua bela poesia.
Pousam quietos os pássaros, cala-se o mar,
para te ouvirem com enlevo e alegria.

Calam-se os humanos a esperar
que saia um guia mais que emocionado
dessa tua mente abençoada e atenta.

Molham-se nossos olhos a chorar
Um pranto que nos tem irrigado
da felicidade com que tu nos alimenta!


P/ Selma Barcellos em www.tiaselma.com/2009/12/o-que-o-meu-mestre-mandar
Adhemar, São Paulo – 15/12/2009

sábado, 12 de dezembro de 2009

Meio de Minas

Ribeirão Vermelho, Perdões; Santana do Jacaré, Campo Belo. Santo Antonio do Amparo, Lavras, São João del Rey. Tiradentes, Prados, Itumirim. Tabocas, Conceição da Serra, Morro do Ferro.

Eita, trem bão sô!

Tanta história incutida, tanta riqueza lavrada. Arte Sacra, barrôca, arquitetura colonial. Sítios chácaras e fazendas, cavalos, gado, cafezais. Os horizontes estendidos - longe. O sol reavivando o verde das matas. Os pássaros cantando e o tempo, simplesmente passando.

Pode parecer meio piegas ou puramente banal. Mas é um novo contato com a vida, com brasileiros falando português corretamente e zelando, de certa forma, por tradições e pela história. Fora uns abnegados que a gente encontra por aqui, resgatando práticas de integração e respeito à natureza, produzindo coisas tão boas que uma porção de estrangeiros - de todo o mundo - admira e faz questão de comprar aqui. Muita capacidade, muita diligência e um baita sossego ao fazer, gostando de fazer e achando tempo de receber acolhendo os embasbacados turistas dos grandes centros urbanos ditos "civilizados"...

Por aqui faz sentido a frase "o Brasil não conhece o Brasil"; e pior, os brasileiros não conhecem os brasileiros...!

[Adhemar - Santo Antonio do Amparo, 14/07/2006]

Caminhos

Parece que foi ontem que estivemos nessa região do interiorzão de Minas Gerais. Quão gostoso é ouvir a língua pátria ser falada devagar, todas as letras de cada palavra sendo pronunciadas! Não só porisso mas é bom que se diga, este país tem jeito! Há muita gente que vive na simplicidade do lidar com a terra, aliada às novas tendências do "ecologicamente correto", "alimentação natureba" e outras bossas. A diferença é que fazem isso a séculos, sem precisar "aprender" na televisão; esses modismos de hoje foram inventados por quem passou lá, achou o óbvio bacana e resolveu adotar como "way of life" nos grandes centros - pra faturar algum em cima, é claro.

Não sou daqueles que acha que a solução pro mundo é a gente voltar pras cavernas. Mas que precisamos simplificar nossas vidas... Ah, precisamos!

Adhemar - 12/12/2009.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Inquebrável


Diante de um espírito superior apenas devemos prestar atenção a atmosfera; um espírito superior cerca-se da sabedoria que concentra. Observar e aprender a partir dos seus mínimos gestos, do seu modo de olhar. Um espírito superior não usa os seus circunstantes, mas os abraça e os faz pensar. Nunca se apressa na sua infinita paciência de esperar e, ora é velho, ora é criança em sua busca intensa de aproximação e semelhança.

Com um espírito superior a gente nunca é obrigado a concordar, sempre há margem para uma controvérsia, sempre há tempo para falar pensando antes. Um espírito superior também aprende, também brinca e se diverte; é sempre atento, se for preciso chama a nossa atenção, estimula a reflexão e traduz uma filosofia. Um amigo. Um espírito superior nos acalenta e incentiva, nos provoca e nos questiona.

Um espírito superior é um abrigo, um porto de atracação tranquila, um ídolo, um exemplo, um auxílio, um alimento, um motivo; um motivo pra gente querer ser melhor.

P/ NBS - um espírito superior
[Adhemar - Santo André, 15/12/2008]

Terreiro rico!

E por falar em espírito superior, hoje faz anos minha tia Norah. Não se preocupe tia, não vou dizer que são 78, sou discreto! Irmã mais velha de minha mãe (NBS - por acaso), matriarca do clã dos Sanna que já foi cantado neste blog em prosa e verso. Como os bons vinhos, só faz melhorar com o tempo. Muito aprendi ouvindo-a quando era apenas um aborrecente, depois moço, depois pai novo... Nem os braços-de-ferro que esporadicamente travamos no campo da política deixam de mostrar algo que a gente não viu, ou não apreendeu em todo o seu significado. Muita paz e saúde pra aguentar a gente, tia! Parabéns e beijão!

Adhemar, 06/12/2009.

sábado, 5 de dezembro de 2009

FUSÃO

O coração solitário tem saudade.
Tem saudade da antiga pureza
que foi perdendo no tempo.
Hoje, amargo e egoísta,
depara-se com o enorme muro vermelho;
sem espontaneidade para transpô-lo
e nem coragem para enfrentá-lo.
Susto após susto,
na insana atividade de se recalcar,
o coração solitário sente a explosão iminente.
Preso em si mesmo, desespera e chora
vendo através do pequeno orifício da cela
o sol ardente e redentor
a cobrar com seus raios o seu prórpio resgate.

O coração solitário,
pouco a pouco desbotando,
empalidece até quase a transparência da morte.
Vai se dissolvendo no remorso,
de tanto sofrimento.
E se funde na infinitesimal poeira cósmica
do seu cárcere.

[Adhemar - São Paulo, 17/02/1988]

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Garoa

Uma chuva fina e contínua se derrama.
Alguém reclama.
Tantos pensamentos molhados,
umidecidos, mofados,
numa interação com ventos frios,
alguém enregelado.

Uma chuva fina e contínua,
olhos arregalados,
como se coubesse um pouco mais de espanto.
Tantos pensamentos molhados,
falsos objetivos,
um calor necessário e desejado.

Uma chuva fina e contínua
de pensamentos afobados.
Alguém reclama
sem conseguir segurar os destinos,
uma sorte que se trama.
Um pensamento centrado,
chuva fria de adeus,
menos um drama.

[Adhemar - Ibiúna, 27/10/2009]

domingo, 29 de novembro de 2009

CÉUS

Tarde quente,
outonal em pleno inverno;
vai entorpecendo lentamente
um esquecimento interno.

Tarde azul,
uma clara cor fixada ao firmamento
ensolaradamente azul,
perdida, enevoada num aquecimento.

Tarde dourada,
num vigoroso contraste cromático
deixando a paisagem emoldurada,
proporcionando um irreal fantástico.

Tarde morena,
deslizando suave pelo asfalto;
um abraço tépido, cálido e sereno
tratado então assim, meio por alto.

Tarde quente,
Encerra em si tanta preguiça,
tanto riso, tanta alegria tão contente...
Não se apressa nem se adia: se conquista!

[Adhemar - São Paulo, 17/08/2005]

sábado, 28 de novembro de 2009

Amor de peixe

Amores cíclicos ou amores ondulados?
Andar em círculos? Retornar ao passado?
Amor de circo, palhaçadas...
Máscaras, saudades, outras vidas e paixões.

Peixes, ah os peixes...
Deixe o francês ensimesmado
enquanto voa o seu amor desencantado
que saudoso, arrependido ou fragilizado,
volte como sempre,
volte outra vez...

P/ LMMM (comentário no post “A lenda do peixe francês” (24/10/09) no blog http//musicartepoetica.blogspot.com)
[Adhemar – São Paulo, 02/11/2009]

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Selma em Cascais

Que veia poética na prosa fluente,
essa em que uma ponta de saudade já se sente,
mesmo estando aí,
e bem contente!

Sobre a Cascais de cá eu digo agora,
está um cantinho a povoar-se de pequenos edifícios
que assim ao ver-se pelo lado de fora
denunciam de verdade o meu ofício.

Tua Cascais, por certo, é mais bonita,
esteja bem, esteja atenta pra contar
aos teus fãs sobre essa terra bendita
onde aos teus queridos foste encontrar!


P/ Selma Barcellos (http://www.tiaselma.com/2009/11/sinal-de-vida)
[Adhemar – São Paulo, 25/11/2009]

sábado, 21 de novembro de 2009

Fim do mundo

Sei fazer cerveja com água salgada;
já sou lacaio de muita gente,
um patrão só não seria diferente;
tenho medo de jacarés,
mas não dos que estão aos seus pés;
fluente em marcenaria...

Só que eu não iria,
não tomo cerveja quente
e seria uma teia de enganos.
Valeu, agradeço a oferta de emprego,
mas já tenho os meus próprios planos...

P/ Ninguém Envolvente (http://naoseenvolva.blogspot.com/2009/11/2012)
[Adhemar - São Paulo, 21/11/2009]

RITMO

Aberto o compasso, o espaço, o espelho.
Aberto o assunto, juntos os joelhos.
Falar do que é complicado,
mexer na ferida aberta.
Aposta no próprio coelho,
no favorito disparado,
aposta na aposta certa.

Não se aposta na aposta certa,
é feio, é descarado.
Descartado na testa,
na festa, almoxarifado.
Reserva do que é preciso,
precioso e protegido;
conserva do que é juízo,
protesto,
modo conciso.

No afago, apego e afeto,
no rosto um gosto disposto;
Nos pés, um passo mal dado,
nos dedos, um gesto amargo.
Parado também é pressa,
a presa, do espreitado.
No ar o assunto é vago,
fechado o primeiro compasso.
No ar um adeus ao espaço
do espelho embaçado.

[Adhemar - São Paulo, 18/11/2005]

terça-feira, 17 de novembro de 2009

DESTERRO

Exílio.
Uma ausência forçada.
Uma expulsão indireta.
A gente fora do nada.

Auxílio.
Um socorro de repente,
ajuda anunciada
para um apelo urgente.

Exílio.
Saudades da pátria amada.
Morada em terra estrangeira,
prometida e indesejada.

Auxílio.
Uma passagem pra frente,
para apoiar - interesseira -
a mão estendida e pedinte.

Exílio.
Uma solidão desacompanhada
não tendo ninguém por ouvinte
da queixa mais que magoada.

Auxílio.
Uma emboscada,
um desarme consciente
para uma alma exilada...

[Adhemar - Ibiúna, 27/10/2009]

domingo, 15 de novembro de 2009

Botânica

Um viajante anônimo observa
o movimento vital numa paisagem.
O amor na natureza manifesta
uma época de típica estiagem.

O amor é como a flor, sem água seca,
'inda que da melhor terra se alimente;
mas se de tal cuidado não se cerca,
ele padece em sofrimento, está doente.

Enfim, em todo caso, haja coragem!
E, se a timidez o desalenta,
no dizer palavras ele enfrenta...

A pior ou qualquer tormenta da viagem;
e, se de uma centelha ele se incensa,
de uma grande emoção se recompensa!

[Adhemar - Cuiabá, 22/07/1987]

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Entroncamento

Diante da dúvida eu me deito
de costas para a areia,
de frente pro céu azul.
ou pássaros voando,
ou as estrelas do cruzeiro do sul.

Diante da dúvida eu invento
outros caminhos mais serenos
enquanto a mente entremeia
pesamentos mais leves
para problemas pequenos.

Diante da dúvida eu respiro,
abro os braços e pergunto:
- o que queres, me explique,
se explique, que eu me viro
ou simplesmente mudo de assunto.

Diante da dúvida eu cumprimento,
peço licença e vou saindo...

P/ Gaby(http://gabysp.wordpress.com/2009/09/16/duvidas)
[Adhemar – São Paulo, 16/09/2009]

domingo, 8 de novembro de 2009

BIDIVISÃO

Machadada,
coco rachado;
metade pra cada lado,
dívida, dúvida
e um mal pago.

Facada,
queijo cortado.
Já não serve pro provérbio,
nem pro ditado.

Agulhas,
botão costurado;
tesoura,
pano cortado.
O que da união faz o açúcar
o calor o faz melado.

Unha -
migalha pela metade.
Tudo se divide,
infinitamente,
basta um pouco de vontade!

[Adhemar - São Paulo, 23/07/2009]

sábado, 7 de novembro de 2009

Sonhos... 40

UM DIA,
UM BELO DIA,
NASCEU UM SONHO.
UM SONHO TAL COMO OUTROS TANTOS,
MAS ENFIM TÃO VIVO,
TÃO PRESENTE,
TÃO NECESSÁRIO E TÃO REAL
QUE SE TORNOU A COISA
MAIS IMPORTANTE DA VIDA.
A CONSTRUÇÃO DESSE SONHO QUE NASCEU
É DIFÍCIL E MUITO COMPLICADA;
MAS TÃO EMPOLGANTE, TÃO DECISIVA,
QUE DECIDIR PASSOU A FAZER PARTE
COTIDIANA DESSE SONHAR
MAIS E MAIS A FRENTE,
SEMPRE ESSE SONHO.
E QUE SATISFAÇÃO
EMBALÁ-LO POUCO A POUCO,
TÊ-LO ENTRE AS MÃOS
TAL E TANTO,
QUE TANTO MAIOR PARECE
A CADA MOMENTO.
E FAZÊ-LO TÃO LINDO
QUANTO MAIS A IMAGINAÇÃO PERMITIR
É A ÚNICA E VERDADEIRA OBRIGAÇÃO
DE QUEM VIVE.
PODE SER O SONHO DE CADA UM
MAS É, PRINCIPALMENTE,
O SEU SONHO.

P/ Alexandre Augusto Braga de Souza
[Adhemar - São Paulo, 07/11/1987]

Sonhos... 18

Texto escrito assim mesmo, em letras maiúsculas, para o meu mano caçula, Alexandre, no dia de seus dezoitos anos. Nem sei se a gente sabia do que estava falando ao se referir a sonhos... À faculdade de agronomia? À experiência (internacional!) em irrigação? Ao saneamento ambiental (competência mais que reconhecida com nosso mano Álvaro!)? À Bia, sua linda filha? Enfim, aceite o abraço do seu mano véio ao reproduzir aqui o tributo aos seus dezoito anos bem no dia dos seus quarenta. Sucessos e felicidade, que você bem merece.

Adhemar, 07/11/2009.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

BENS

Por vezes é preciso analisar cuidadosamente o tempo disponível e gastá-lo todo num planejamento meticuloso do que poderia ser feito por ele mesmo - durante esse próprio tempo - sem maiores elucubrações. Depois, sair correndo atrasado, pois o planejamento do tempo gastou o tempo antes livre. Acumularam-se tarefas por fazer, acumularam-se atrasos. Tornou-se essencial resistir às provocações que serão outras atividades criadas, surgidas do nada e para nada destinadas.

Tal como um passatempo, passar a vida rogando por mais tempo e por mais tempo a fim de que seja o bem mais precioso e mais empobrecedor da nossa existência. Rezar com fervor para não sermos cobrados pelo tempo que desempregamos. Até nos despedirmos, como faço agora, pois estou sem tempo pra continuar esta lengalenga "destemperada"...

[Adhemar - Santo André, 15/01/2007]

E por falar em tempo...

Um afetuoso abraço e um terno beijo à minha madrinha, mãe de minha mãe, a Vó Júlia. Completa hoje 95 anos de existência, quase toda ela voltada para a família: além dos próprios pais, irmãos e irmãs, o Vô, as 5 filhas, 12 netos, 13 bisnetos e uma tataraneta! Incontáveis amigos e admiradores. Será que contei direito? Hoje, o fã clube vai se reunir em torno dela (uma de suas maiores alegrias). Até já, Vó!

Adhemar, 02/11/2009.

domingo, 1 de novembro de 2009

Implicâncias desérticas

No auge do trajeto, pouso forçado.
Deserto.
Uma inundação de nada,
absoluta e refratária.

Nos olhos,
um brilho dolorido por todos os lados.
Uma única fumaça sai da lata arregaçada.
Narinas ressecadas, pulmões opressos.
Um enorme calor apavorante,
pés inchados.

No mais alto,
um inclemente azul rascante.
Nem garganta, nem dentes.
A boca faz o gesto desnecessário
a procura do que não há,
dentro da sede.

Fusão de pensamentos.
Fusão de areia e céu no horizonte.
Elétricas tempestades,
elétricas ausências;
as mãos inquietas
evitando acenos vãos.

Visão de oásis,
folha quebrada pelo inexistente vento.
A mais absoluta solidão
entrando dentro,
numa discreta algazarra
de abandono e lassidão.

[Adhemar - São Paulo, 28/07/2008]

sábado, 31 de outubro de 2009

Primeiro amor adolescente

Longínquos sinais, tardios acenos.
Sopros suaves, ventos amenos.
Furtivos suspiros, inocentes folguedos.
Fugidios sorrisos, esquecidos brinquedos.

Uns breves toques propositais
dados por perdidos.
Uns fingidos desvios nem tão casuais,
faces e olhos ardidos.

Tanto esforço de atitudes parecendo normais...
Intra-peito, um coração fugitivo.
E lábios que nunca beijaram querendo mais,
querendo tudo, um mergulho impulsivo.

Até que a saudade cause lágrimas mortais
por essa dor nunca antes sentida;
nessa certeza de que todos os amores são fatais
até que morra o primeiro e surja outro em nossa vida...

[Adhemar - Santo André, 13/11/2008]

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

MAIS DE MIL


Ela vai, passa de leve, flutuando,
enquanto mil pares de olhos acompanham.
Conforme o movimento do oceano,
o corpo leve e solto vai andando.

Cabelos... Ah, cabelos! Vão balançando
em suave concorrência com o vento;
e vão tão soltos e vão leves tão sem tempo,
mil corações sobressaltados açoitando.

Volta zangada, mil cabeças vão virando;
sem importar-se, passo a passo, decidida,
já que é vaidosa e a paquera - inoportuna!

Sua conquista em mil cérebros é a fortuna
e ela não liga, nem dá bola pra torcida;
deixa pra trás mil diafragmas suspirando...

P/ K.
[Adhemar - São Paulo, 01/10/1987]

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Batidas aéreas

O reflexo.
O ar contido numa bolha.
Um som indefinível
estranhamente silencioso;
cores múltiplas se dividindo
e se espalhando.

O reflexo.
O reflexo feito uma janela
pra se olhar os sonhos.
Sonhos coloridos se dividindo
e se espalhando.

De repente o ar se expande.
Sonhos, luzes e reflexos
se libertando.
Um som mais definido
se ampliando, gritando.
A bolha, rompida,
se esconde.
Ganha o espaço
esse multitudo se comunicando!

P/ Maria Cristina Sanna
[Adhemar - 19/10/2009]

Prima

Brilhante e colorida, cosmopolita, extremamente convicta, grande parceira nos prélios de buraco, esporte predileto da gente! Feliz Aniversário, Cris, pontualmente com o atraso de sempre!

Adh2, 28/10/2009.

domingo, 25 de outubro de 2009

Profundidade


A gente nunca chega a conhecer completamente às pessoas. Aliás, a gente nunca chega a conhecer completamente nem à nós mesmos! Capacidades inatas, caráter, profundidade da alma... Enfim, podemos conviver conosco por uma eternidade de tempo sem perceber certos potenciais, sem reparar em alguns defeitos.

Somos uma espécie de bar onde há solitários, fanfarrões, bêbados e sóbrios, todos perdidos entre discussões inúteis e silêncios dispensáveis. Nesse interminável anoitecer, a gente vai ignorando o próprio cinismo. Aí, defrontamo-nos com esse nem tão estranho desconhecido que nos diz coisas vagamente familiares e que a gente entende mesmo em meio ao maior tumulto. Depois se lembra aonde tinha visto o ilustre e famoso quem: no próprio espelho...!

A gente fica tão distante de si mesmo que nos perdemos em meio a idéias e caminhos embaralhados, atitudes diversas, variadas, indecisas. Coça a cabeça, olha para os lados e senta próximo ao balcão esperando a próxima revelação: uma apresentação formal de nós, por nós, numa imprescindível - ainda que tardia - confraternização.

[Adhemar - São Caetano do Sul, 04a10/10/2005]

sábado, 24 de outubro de 2009

INGRATO

A minha rosa morreu;
morreu, murchou e secou.
No vaso permaneceu
enquanto a ilusão durou.

Descuido, desleixo? Talvez.
Mas longe eu fui, viajei,
procurar a cura da embriaguez
que, aliás, não encontrei.

E a rosa ficou sozinha
enquanto eu tentava espalhar
saudades de uma agonia
onde quer que pudesse passar.

Deixei-a abandonada
e degustei o dissabor...
Só eu poderia cuidá-la
como não cuidei do amor.

Frustrado, há tanto tempo voltei,
sem ter conseguido espalhar,
nos lugares onde passei,
a saudade que vem me calar.

Sem ter conseguido esquecer
o que agora ainda importa,
continuando a amar e sofrer
pela rosa que ora está morta.

Frustrado, arranco do vaso,
o talo seco que restou.
Chorando, constato arrasado
a raiz que ela criou...

O pirata acusou o vaso
- tão bem tratado e cuidado -
de infecundo e mordaz descaso;
um pirata claramente emocionado...

A rosa criara raiz
e o pirata descuidado
sepultou-a no seu país
junto ao amor, lado a lado.

Pirata não tem país,
nem terra, bandeira ou amém.
Pirata não tem passado,
nem futuro também.

Aporta em qualquer canto,
viaja por anos a fio.
Cantando leva espanto
e alma ao seu navio.

Pirata infeliz? Talvez.
Só não conseguiu esquecer
que não haverá outra vez
para a rosa do amor reviver...

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 16/05/1988]

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Para saber...


Andava muito iludido
e consultei o coração
se não andava confundido
procurando confusão.

Ele calado: sim e não.
Mas não havia respondido
à delicada questão
de que estava escondido.

Mas ficou perturbado,
perdido no amor - paixão -
como se o tempo, escalado...

Precisou de uma lição
ficando desconsolado
e condenado à prisão...

[Adhemar - São Caetano do Sul, 12/05/2005]

domingo, 18 de outubro de 2009

Toque

Tua silhueta some,
evola-se no ar feito fumaça.
Sinto um vazio tão grande quanto intenso.
Enquanto isso, teu incenso assa.


O teu espírito,
que se exala e me perfuma,
vai me ocupando tão quente quanto adocicado,
me envolvendo em bruma e me deixando assado.

Teu vulto nítido,
me contorna e me ameaça.
Vai me invadindo sem saber o que se passa
e, quando sabe, bem la dentro do meu peito ele se esconde...

P/SHFC
[Adhemar - São Paulo, 11/05/1987]

sábado, 17 de outubro de 2009

DESCUIDO


E foi assim por acaso,
num gesto cheio de tentativa
que levantou-se uma hipótese
pouco provável e muito ativa.

Atirou-se uma pedra ao momento
que o vento nem desviou.
Atirou-se um insulto ao tempo
que pouco o incomodou.

E foi assim um acinte,
uma ofensa grave e teimosa.
Queimou-se a boca livre,
fechou-se a boca ruidosa.

E foi assim entre dentes,
o murmúrio da injúria
que por acaso a intenção
virou situação de penúria.

Inteiramente ao acaso
a boa intenção se perdeu.
O "por que" não vem ao caso
mas a incúria venceu.

Do mal entendido surgiu
pendência que não se encerra
e foi assim que se assistiu
o início de uma guerra.

E sem temor nem razão
a beligerância assume
uma tal proporção
que não se acaba nem se resume.

À paz, ao amor, ao perdão,
os homens preferem brigar.
Cegos de ódio ou paixão
por causas quem nem sabem lembrar...

[Adhemar - São Paulo, 12/10/2009]

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

São eles!


Que dizer dos três camaradas mais legais que eu conheço?

Chamar ao primeiro de criança chega a parecer um desaforo. Sujeito manso, dezenove anos de tranquilidade, daquele jeitão que só se altera quando joga mal o nosso tricolor (anda então muito agitado por estes dias!). É um ouvinte atento e paciente e suas reações vão se fazendo notar sutilmente ao longo do tempo. Um futuro jornalista que se chama também Adhemar - Adhemar Juan.

Chamar ao segundo de criança chega a parecer gozação. Apesar dos quase quinze anos, uma forma de pensar muito madura se manifesta na maior parte do tempo. Uma atenção constante e ponderada o faz uma espécie de maestro que tem sobre os outros (inclusive muitos adultos) uma inegável ascendência. O nosso doutor em assuntos de informática que se chama Marco Luiz.

Chamar ao terceiro de criança pode parecer apropriado. Por causa dos seus nove anos, de brincar e agir como criança que ainda naturalmente é. Mas já demonstra conhecimento e atitudes que o distinguem nesse momento da infância que antecede a adolescência. Um sujeito atento e interessado, ligado, ao mundo, antenado, que faz de jogar futebol seu passatempo predileto. Nosso pequeno grande homem, Vítor Samuel.

Não esqueçam do agasalho!
Tenham juízo, comportem-se.
Sejam educados, não façam nada que os envergonhe.
Já escovaram os dentes?

Beijão do papai pra vocês, Nossa Senhora os abençoe e proteja.

P/ AJ, ML e VS
[Adhemar - São Paulo, 12/10/1009]

São eles...

Os meus três melhores amigos, mais bacana ainda do que ser pai deles.

Adh, 12/10/2009.

domingo, 11 de outubro de 2009

Renovação B


É preciso sempre recomeçar,
passar a limpo e revisar.
A idéia mal expressa
será mal interpretada;
a ambiguidade terá sempre uma terceira via.
O herói será o vilão
e os vilões serão perdoados.

E lá estaremos a remontar a história,
como um grande vaso quebrado.
A cola de cada um
e a lembrança desse mesmo vaso
é que o fará ressurgir
- no máximo - remendado.
Seja com qual forma for
não passará de um amontoado de cacos
mais ou menos organizado.

E seremos os mesmos nós mesmos
a inventar justificativas
- burras ou criativas -
para fazer a história "colar".
Sejam os pedaços desse vaso,
sejam outros fastos esparsos.
E recomeçando, passando a limpo,
não esquecendo de revisar.

Nessa novela esquisita,
realinhando os personagens
e mudando a história no meio,
só para variar...

[Adhemar - São Paulo, 11/09/2005]

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

ANSIEDADE

O vento cíclico da pressa se abate sobre o vivente logo após um período bem vivido. Um período vivido de fato, com tempo para olhar coisa por coisa, observar calmamente a paisagem e aprender - revivendo - um pouco de história. Período de hiato na conturbada vida urbana. Período infelizmente finado, bruscamente interrompido para quem estava praticamente parado!

De volta ao malfadado cotidiano, pouco a pouco aceleramos o ritmo, quase imperceptivelmente. Quando nos damos conta, fomos colhidos no vento cíclico da pressa. Realizamos as tarefas como autômatos, nunca desafogando a pilha de coisas por fazer e sequer analisando se o que é feito é realmente necessário. Perdido o crivo crítico, estamos totalmente engolidos pelo ciclone apelidado de vida moderna. Não prestamos mais atenção aos filhos, aos fatos, à conquista do campeonato, ao disse-que-disse, quem foi que disse, por que é que disse. Esquecemos de telefonar pra mãe, de visitar a vó e de dar um oi aos amigos. O trabalho se avoluma, o dinheiro escasseia e um abraço pra quem fica.

Nesse ponto os nervos já estão em frangalhos, o cérebro cansado e as reações automáticas. O sono já não repousa, ignoramos dores físicas e morais. Muitos sucumbem nessa fase. Um coração estourado, aneurisma, acidente de carro. Parar?! Só esticado no próprio velório. "Tão bom, coitado, tão dedicado..." Que nada! Era só mais um idiota estressado! Um ideal de vida esquecido, uma luta obstinada por nada. Esquecido dos pés no riacho, esquecido do céu estrelado; esquecido o sorriso sincero, a graça de um momento de convívio... Presente nessa lembrança torturante só mesmo a covardia de não fazer nada para mudar a própria história...

[Adhemar - São Paulo, 15/08/2006]

domingo, 4 de outubro de 2009

ABANDONO

Nas canções que eu canto
tu me lembras sempre;
pra secar teu pranto
eu fiquei ausente...

Também,
não te escrevo mais!
Qual sentido tem
querer-te e ter paz...?

Também,
qual é o meu caminho?
Quis ter-te comigo
e fiquei sozinho...

O caminho vai
muito além dos cantos,
das canções que canto
pra secar meu pranto...

(p/ BSF)
[Adhemar - São Paulo, 30/09/1987]

Acolhida...

Postado no "Duelos Literários" em 30/09/2009.

sábado, 3 de outubro de 2009

Soneto para adiante


No indevassável adiante estás ausente,
na bruma espessa do incerto tu sumiste.
Na minha busca inconsolável e inconstante
tua imagem em meu coração insiste.

Em cada verso mais alegre ou no mais triste,
tua presença é tão certa quão vibrante.
E nessa lida ilusória ainda existe
a esperança eterna e tão arfante.

E no soneto mal composto e embaraçante
o coração que está orando não desiste;
vai além olhando a estrela mais brilhante.

Silencioso em seu torpor inebriante,
pensa em voltar ao primeiro onde tu o viste
e te encontrar no indevassável adiante!

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 30/09/1987]

Soneto... para trás?!

Quando achei este texto me veio a mesma sensação que tive logo após escrevê-lo: "fui traído por minha memória e acabei reproduzindo algum soneto dos nossos grandes poetas clássicos..." (há uma anotação ao lado do rascunho mandando verificar). Por via das dúvidas, resolvi reler alguns (obedecendo ao meu próprio conselho), desde o Barroco - Gregório de Matos - passando pelo Classicismo - Cláudio Manoel da Costa e Thomás Antonio Gonzaga. Não deixei de fora os Românticos - Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela, Casemiro de Abreu e Castro Alves - nem o Parnasiano - Olavo Bilac. Foi um prazeroso reencontro. Posso dizer que não encontrei nada semelhante embora não possa negar a influência ou a canhestra intenção de imitá-los. Eu, que não sou de gostar muito da maioria do que escrevo, me atrevo a confessar que é meu escrito predileto. Mas, se alguém identificar algo parecido, por favor, me avise enviando o escrito e o nome do autor. No entanto, se por acaso fui eu mesmo que produzi isso aí, dá licença...

Adhemaisconvencidoimpossível! São Paulo, 03/10/2009.

domingo, 27 de setembro de 2009

Exéquias


Libertos os pensamentos esparsos
numa algazarra de silêncio.
Estaremos todos nós um pouco mortos
nesse exílio voluntário
dentro de nós mesmos?
Evitando o convívio por preguiça,
a presença por cansaço
tão suspeito e tão sem graça...

Os pensamentos esparsos vão no vento,
até soprar as folhas secas
sobre nossas lápides - aqui jaz.
E uma solidão devastadora
de não se bastar a gente com a gente
como companheiros de jornada...

E lá estarão os pensamentos esparsos
procurando se arraigar
em antigas tradições ultrapassadas
de sorrisos, de piadas,
de filosofias baratas...

E os esparsos pensamentos libertos
vão nos conduzir pelas estradas dos esquecidos,
dos ingratos.
E quando quisermos por as coisas
nos seus devidos limpos pratos
será o deserto.
Estarão as nossas almas meio penadas,
meio à esmo,
errantes e desconsoladas...

E os espasmos pensantes libertinos,
achando que estão abafando
enquanto condenam a esse degredo
que é o inferno dentro de nós mesmos,
insondável, impossível, "insalvável".
Num pretenso repto repentino,
arrependido, arrepiado, pulsativo...

E o espanto pensativo liberado,
anestesiado no seu alienamento
fará da fome o seu próprio alimento
enquanto tenta enxergar à frente.
A visão toldada, embaçada
no livre pensar repetitivo
tenta criar um clima - um alívio -
tipo penitência punitiva...

A espessa liberdade pensativa
adormece embaraçada,
emaranhada em contradições dissertativas;
em contraponto, vai correndo na subida,
ofegante, palpitante, oferecida,
vai pro espaço,
vira cinza colorida...

E os libertos pensamentos esparsos,
ora férteis, ora fartos,
vão servir de epitáfio interessante para nós
que estaremos todos um pouco vivos
nesse exílio voluntário
para em volta de nós mesmos!!!

[Adhemar - São Paulo, 26/08/2009]

sábado, 26 de setembro de 2009

BENÇÃO

O ar frio,
a poesia,
a madrugada.

Chuva na janela,
visita da poesia,
temática desgastada.

Desgraçada.
Lançada ao vento,
ao mar,
às pedras,
despedaçada.

Palavras sem música,
ar frio,
e a estrutura do cais
balançada.

Palavras vãs,
senis, sem sentido,
solidão de alma pelada.

Atravessando a manhã,
tarde sonolenta,
noite despertada.

Perdendo o beijo da brisa,
a reza da missa
e a dor resguardada.

Sussurros,
segredos,
motins.
E a noite calada.

[Adhemar - São Paulo, 30/07/2000]

terça-feira, 22 de setembro de 2009

VINTE ANOS!

Se de tudo ao meu amor eu for atento
- e hei de proclamá-lo aos quatro ventos -
resistindo bravamente minha Stella
a vinte anos já, de casamento!

Se Deus a escolheu por criatura,
que adora os filhos, cuida deles e me atura;
talvez por ironia ou castigo
a colocou nesta louca aventura...

Bem feito! Quem mandou?! Casou comigo!
Apesar de rica, escultural e muito bela,
só lhe sobrou esta casca de marido!

Que se esforça, que a ama
mais que tudo e mais um pouco;
que por paixão se atira aos pés dela
declamando tantos versos feito um louco.

Que todo dia se promete em oração
fazer o impossível pra continuar a merecê-la;
e tê-la impressa dentro do próprio coração
e mesmo assim sequer jamais cansar de vê-la.

Pra responder tua pergunta de outro dia,
se após tanto tempo o casamento é um estorvo,
só posso te dizer, sem ironia,
que contigo tantas vezes casaria
quantas eu pudesse, de novo!!!

P/ Stella Maris
[Adhemar - São Paulo, 21/09/2009]

23/09/2009 - 20 ANOS

Ou seja, não vai se livrar da sarna tão cedo...
Sei que você sabe que meu jeito de agradecer tantas bençãos em nossa vida é através dessa irreverência, arengando essas besteiras que me deixam feliz quando te fazem sorrir. Beijão,

Adhemar, 23/09/2009.

domingo, 20 de setembro de 2009

DESCOBERTA

Parado no espaço, parado no tempo.
A súbita impressão de um grande envelhecimento,
das coisas em torno, das pessoas,
de certas idéias e de quase todo pensamento.

Parado no acaso e no acontecimento,
esperando o desenlace - surpresa -
aguardando um certo momento...
Blefando ou botando as cartas na mesa.

Parado no prazo do esquecimento,
as coisas se desmanchando, sumindo.
Passado o prazo de vencimento
de certas idéias, o pensamento vai indo...

Parado num hiato, um descanso.
Parado num ar - respirando -
vivendo para reconstrução, um espanto,
renovação, "re-movimento"...

[Adhemar - São Paulo, 27/08/2009]

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Oi!!!

Onde está você,
que não aparece onde costuma aparecer?
Cadê seu ar, sua graça,
cadê o ar que balança
quando você passa?

Onde está você,
seus doces, seus perfumes?
Onde está sua vida
que tanta vida empresta
ao ambiente onde você passa?

Quais seus novos caminhos,
roteiros, estradas?
Onde o sagrado chão que pisas?

Bem, vá em paz,
vá com Deus.
Mas sempre saiba que,
independentemente de onde estejas,
um coração estará contigo,
contigo estes olhos
e mãos espalmadas num aceno de adeus
ou, de até já...

[Adhemar - São Paulo, 18/01/2000]

domingo, 13 de setembro de 2009

IRONIA

A poesia escapou.
Foi um momento de distração
e ela saiu pela janela:
voou.

Me deixou aqui sozinho,
papel nas mãos,
todo enguiçado em pensamentos dispersos,
desconexos.

Para piorar a situação ela voltou.
Mas só até a janela
de onde acenou sarcástica
e sumiu.

Integrou-se aos longes recantos de minha mente
que estão fora de mim.
Eram palavras bonitas que eu ja vi alguma vez?
Talvez.

Agora ela fica rondando sem aparecer
só para me perturbar,
como uma sombra quando queremos sol...
Desgosto.

Me levanto e tomo um copo d'água
como se a poesia pudesse flutuar ali.
Alijo dos meus pensamentos a pequena malvada.
Perversa.

Depois me arrependo: perversa não.
Não existe poesia perversa.
Existe por versos, para se divertirem,
diversas.

A poesia queria brincar de esconder,
pensei depois.
Mas como capta pensamentos, magoada comigo,
desapareceu.

Sei que foi se guardar nalgum recanto
do meu subconsciente tão confuso,
que o choro foi crescendo,
esticando...

Os versos curtos
se encompridaram
nesta queixa
perdoada.

A poesia perdoou o poeta
pelas suas instâncias
e foi dormir muito quieta
como mandam as circunstâncias.

[Adhemar - Aracaju, 28/01/1988]

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Deslizamento

De ilusão me alimento,
e cuspo vento;
de ilusão eu me invento,
além do conhecimento.

De ilusão eu me transformo,
e retorno;
de ilusão eu me iludo,
fico mudo de padecimento.

De ilusão eu vou vivendo,
ilusão realizada,
chamo de vida,
subo a escada.

Na ilusão eu mergulho,
afogo o orgulho
e dou risada.

Comentário no blog "a morte de Gregor Samsa", post "anotações sobre metafísica (26/08/09)".
http://amortedegregorsamsa.blogspot.com
[Adhemar - São Paulo, 09/09/2009]

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

LABIRINTO

Mas que caminho é este que não reconheço?
Onde estou indo? E por quê?
Eu mesmo respondo: "se não sabes
não há mais ninguém que possa dizê-lo à você".

E assim têm sido os dias,
seguidas dúvidas e uma procura infinita.
Se uma não voltou ainda,
a outra já definiu, não fica.

Vou voar mais alto,
respirar além da estratosfera.
Se na carência de oxigênio líquido
ou na distância a percorrer inteira.

Hoje acho que sei o que sei;
mas minhas chances se foram quando eu não sabia.
Descrente do que descobri,
desperto e sem sabedoria...

Na chuva caminho pensando
no que este molhar significa.
Molhado e num rumo sem sentido
procurando saldar a velha dívida.

Arrastarei minha carcaça pelos campos,
pelos cantos e pelos encantos do resto da vida.
Se chegar a algum lugar
terei a chance de gritar de alegria uma vez ainda.

Acrobata, palhaço ou mágico
armarei meu circo onde for recebido.
Me sentirei bem pago e agradecido
se a desconhecida me der um sorriso.

Onde quer que estejas, desconhecida,
te encontrarei e resgatarei esse sorriso.
Ainda que ande pela vida toda.
Ainda que chore por tê-la perdida...

[Adhemar - São Paulo, 07/09/1988]

09-09-09

Hoje, a mãe da então desconhecida faz 70 anos. Em plena forma, D. Sogra é uma daquelas pessoas dedicadas e cuja grandeza não se mede em palavras... Ainda trabalha, adora os filhos e idolatra os netos. Se um dia, por qualquer motivo eu brigar sério com minha esposa, vou encerrar a discussão dizendo dramaticamente: "eu vou pra casa da sua mãe!".

Adhemar, 09/09/2009.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

PASSOS

Não planejei estar aqui.
Não pedi para nascer.
Nunca soube o que ia ser
e agora estou aqui.

Na  multidão não me distingui.
Ponho o dedo no nariz.
Muito aos trancos sou feliz,
pouco ao mundo devolvi.

Quem mais eu quisera ver
foi quem mais me desiludiu:
- O que acha de poesia?
- Uma é bom, pouca é chato, muita um saco!

Chutei lata, estou aqui.
Pé na jaca, estou aqui.
Quedei-me surdo, teimoso,
a poesia está aqui.

Voltei às rimas enfim.
Muito ou pouco, eis o saber
das palavras que, ao escrever,
significam pra mim.

Estou aqui, graças a Deus.
Sei escrever (?), ainda bem.
Só não espero também
agradar aos olhos teus...

P/ a 1a. editora que me disse "não".
[Adhemar - São Paulo, 03/09/2004]

Mimado...

E convencido, fiquei chocado com a postura "comercial" da editora que nem quis orçar a edição de um livro de poesia (ainda que só para satisfazer meu ego - aliás - um "egão"). Ou seja, nem pagando...!

Adhemar, 07/09/2009.

domingo, 6 de setembro de 2009

Tempos modernos

Onde está o sentimento
neste mundo apressado?
Onde está o gesto amigo,
a mão estendida,
o dinheiro emprestado?

Cadê os fiadores,
a confiança,
o fio do bigode?
Quem tem tempo pro papo tranquilo,
pro café, pro... Quem pode?!

Visitar os amigos,
ir a festas juninas
ou a outras quaisquer?
Onde vai um tempinho pros filhos
ou pra sair co'a mulher?

E a rotina estressante,
só trabalho e só compromisso?
Em casa limpeza e arrumações;
nada de restaurante, zoológico
ou parque de diversões...

Até o velho "futiba",
só na televisão.
Nem mesmo ir ao quintal
pra andar de patinete!
Por fim, a bronca fatal,
se está a jogar no computador o moleque:
- Saia daí, menino,
que o papai precisa entrar na internet...

[Adhemar - 21/07/2000]

sábado, 5 de setembro de 2009

PERDIDO

Emaranhado numa estranha confusão
já não sabe se encontrado ou se perdido.
Não marcou seu caminho pelo chão
nem com migalhas, nem com longo fio comprido.

Não quebrou pontas de galhos
nem riscou à faca troncos.
Não marcou referências ou atalhos
nem se muniu de mapas prontos.

Embarafustou-se num estranho labirinto,
nenhuma bússola nem abertura para o sol;
nem marcos, nem balizas, nenhum sinal distinto
nem armas, nem provisões, nem cantil, nem embornal.

Tão embaraçado, tão atrapalhado e confuso...
Um cansaço e um desânimo deplorável.
Catatônico e tão fora de fuso
e metido num "imbroglio" miserável.

E os sentidos alertando: "saia dessa seu palhaço!"
E o desencontro continua, vai girando.
E o cabra-cega dando à esmo cada passo
e no seu rumo cada vez mais entortando.

E a consciência animando: "vai poeta!"
"Vai por caminhos nunca dantes navegados".
O sujeito abre os olhos e se compenetra
da missão a seguir, rumos sagrados.

"Esses rumos acharás", diz a razão,
"se escutares tua voz e tua alma".
"Vais achar teus caminhos, tua calma
se escutares o teu próprio coração..."

[Adhemar - São Paulo, 28/04/2006]

domingo, 30 de agosto de 2009

Subvertido!

Quis fazer uma quadra,
só que errei o tema:
encaixei Lampião - e uma ladra -
que de ninguém tem pena.

Olhe, pus Ronald Bigs!
Um belo ladrão - oh! Sim!
E, sem querer, pus aqui
Mancha Negra e Arsène Lupin.

Só faltou mesmo Robin Hood
nesta quadras confusa,
ou bandidos de Hollywood...

Coisa que não se usa...
Enfim, saí mesmo da trilha
e quadra virou "quadrilha"!

[Adhemar - novembro/1981]

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

HISTÓRIAS

O tempo despista os perseguidores; acelera-se ou se retrai marcando os segundos, os minutos e as horas. Daí para dias, semanas e meses é um pulo. Quando nos dermos conta, já foram anos, lustros ou décadas; nós, que atravessamos uma mudança de século! E o tempo sempre adiante, segue em desabalada carreira fazendo-nos dizer asneiras dada a nossa pressa urgente. Hipnoticamente. Com as pálpebras cansadas vemos o tempo despistar seus perseguidores e vemos envelhecer o universo dentro do mesmo tempo, incontido e cruel.
[Adhemar - Boituva, 29/07/2005]

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Cenário

*
Linda, nua e adormecida
esconde os olhos claros, tão profundos.
O semblante tão sereno até suspira
sonhando certamente, outros mundos.
*
A janela, de tão ampla, mostra a fonte
tão suave no seu leve murmurar.
O dia clareando esquece o ontem
preparando emoções que vão passar.
*
O quarto bagunçado - tudo por guardar -
mostra, discreto, as emoções da noite.
O sol, nem tão discreto, a apontar
aos passarinhos o rumo da fonte.
*
Enfim, a vida aos poucos parece despertar
do matutino torpor, tão natural.
A brisa entra silenciosa a perfumar
enquanto o dia promete uma paz total...
***
[Adhemar - São Paulo, 22/05/1987]

domingo, 23 de agosto de 2009

ASSIM DO NADA...

Uma perturbadora sensação, tão de repente,
advinda de um perfume, um sorriso, uma risada.
Perder o rumo, desorientado viajante,
sem bagagem, sem lembrança, sem mais nada.
*
Na meia-luz da meia-noite num instante
salta aos olhos a aflição desesperada.
No ôco do coração desimportante
sem passado, sem perdão, desconsolada.
*
No brilhar de escuros olhos, um flagrante
na voz tonitroante e ensolarada,
envolvente, sussurrante, aveludada.
*
Nem promessas, nem futuro, nem a alma entusiasmada;
somente uma visão pessimista e intrigante
de ser o amor uma besteira e o coração um farsante!
***
[Adhemar - Santo André, 07/11/2008]

sábado, 22 de agosto de 2009

Carta de amor

Amada.

Por que e pra que são as únicas perguntas. Lembrar de você, pensar e desesperar num nó: esquecido por ti me pergunto por que. Por que tua obsessiva presença nos meus sonhos? E nos meus pensamentos? A razão da procura está em cada canto onde passo.

Músicas sensíveis me retiram da realidade e me fazem procurar-te no mais alto onde tu possas estar. Depois, o pensamento se desvia, eu fico triste, registro no bloco os pensamentos opressivos - nesse calor que tua lembrança me traz... Mais uma vez estás aqui, tão viva que já nem posso ver a tua flor.

Sinto vontade de escrever, chorar, escrevo e choro numa esperança insana de te comover; choro pela tua flor morta nessa minha inépcia de te amar desesperadamente...

E é só o que posso fazer.

P/BSF
[Adhemar - São Paulo, 12/10/1987]

Flor morta

Originalmente poesia, este texto foi "ajeitado" para ser enviado ao blog "Duelos Literários". Passem por lá!

Adhemar, 22/08/2009.

domingo, 16 de agosto de 2009

Torpor

Véspera de gripe.
Assar os dedos na testa.
Um anseio aflito pra tossir.
Um globo ocular dolorido,
o outro doido pra dormir.

Um frio enorme,
agasalhado,
num tremor muito suado.
Coriza e iceberg.
Ossos vibrados.
Cabeça grande,
o resto entregue.

Véspera de gripe;
crise de vitamina.
Uma fome nauseada
e muito creme por cima.
Dói até o cabelo,
um espirro muda o clima.

Conforto no desassossego
a se indispor no aconchego.
Entrecortar o soluço
e sufocar com remédio...

[Adhemar - São Paulo, 28/07/2008]

Suína?

Escrito muito antes de aparecer a tal da gripe suína, esse texto surgiu numa véspera de gripe. Aliás, quando aparecem os sintomas, resisto obstinadamente em "aceitá-los", mentalizo que não vou adoecer e fico me repetindo isso como um "mantra". Aprendi isso com minha mãe e quase sempre dá certo... É lógico que essa providência vem devidamente acompanhada de precauções e, raramente, por remédios. Mas voltando pra "influenza"; hoje, um espirro não só muda o "clima" como pode provocar um linchamento...

Desejo a todos muita saúde e, sem pânico, alguns cuidados a mais!

Adhemar, 16/08/2009.

sábado, 15 de agosto de 2009

SELOS!!!

Ah, é...

Fui generosamente agraciado pela Nina - do blog "O que sobra do bagaço" com um selo - Vale a pena ficar de olho nesse blog - criado por Sandra Françoso (cujo blog não tive oportunidade de visitar ainda). É preciso que eu diga que custei a entender essa coisa de selo, porque a princípio achava que era "fetiche de blogueiro", brincadeira ou uma espécie de identidade entre blogs que tratassem de assuntos semelhantes. Então comecei a fuçar a história de selos colocados em blogs até chegar a seguinte conclusão: é uma forma de reconhecimento entre as pessoas que acabam apreciando o conteúdo de outros blogs com os quais se identificam. Eu mesmo aderi a essa história de blog como um teste para o interesse que aquilo que escrevo possa ter para para outras pessoas... E acabei descobrindo um mundo interessantíssimo, encontrando gente como a gente que expressa o que pensa ou o que inventa de maneiras muito legais, onde a gente aprende bastante sobre a gente mesmo e sobre os outros. E deixei de encarar o blog como uma mania (inclusive minha) e passei a ver esse tipo de comunicação como um fórum livre, onde formam-se redes de amigos virtuais atraídos pelo assunto ou pela forma como que escrevem.

Enquanto isso, eis que me presenteiam com outro selo, dado simultaneamente por dois blogueiros no "Arquitetura e poesia: Literatório 2": Master Blog, oferecido por Finityster do blog "Eu quero que você leia" e por Shintoni, do "Duelos Literários" do qual já participei algumas vezes.

Para finalizar, gostaria de expressar meu agradecimento pela distinção e de esclarecer que, vaidoso e convencido que sou dessas coisas, aceitei os dois selos e suas respectivas regras com meus indicados. E declaro que, só não estão postados ainda porque não consigo importar as imagens! Assim que meu asessor para assuntos de informática me ensinar eles estarão aqui e lá; aliás, estou tentando juntar o conteúdo mais antigo para este blog e ficar com um só.

Grande abraço,

Adhemar.

domingo, 9 de agosto de 2009

Encontro sonhado


Precisei imaginar, forjar uma imagem possível: meu pai. Me esperando num canto de um lugar onde nunca esteve antes, sorriu e me abraçou, me deixou beijá-lo; embora lembrando-me que não éramos muito disto. Deu uns conselhos para que eu administrasse melhor a situação. Recomendou-me o que não sou capaz de fazer: prudência e determinação! Está alegre com os netos (meus filhos e os de meu irmão), com a inteligência de todos e o desenvolvimento de cada um. Preocupa-se com o que leva seu nome pois é quase igualzinho ao pai... Alertou para a atenção aos demais, todos muito levados e atrevidos. Comentou nosso time lamentando por um passado que não volta mais. E fez um pedido antes de iir embora: "menino, cuida de tua mãe..."

[Adhemar - São Paulo, 10/05/2003]

Visão forçada

Quis tanto sonhar com meu pai que, em não conseguindo, inventei esse aí. Na época do texto, ainda não estavam conosco a filha de meu irmão caçula, nem os filhos de minha irmã. Mesmo onde esteja, por certo o pai está inchado de orgulho com a netaiada (são oito, atualmente...). Enfim, sempre muita saudade, ainda mais nesses dias evocativos.

A todos, um grande abraço pelo dia dos pais, ainda que eles estejam ausentes fisicamente, pois estarão sempre presentes na vida da gente; e para aqueles que tiverem os seus ainda por perto, curtam o seu velho pois quando ele não está por aí faz uma falta danada... Seja qual for o relacionamento que cada um tem com o seu; por pior que alguém ache que seu pai é, lembre-se que ao menos um espermatozóide legal ele tinha de bom!

Adhemar, 09/08/2009.

sábado, 8 de agosto de 2009

RODA

O homem inventou a invenção,
a mentira bem intencionada,
a lorota deslavada
e a inocente omissão.

O homem inverteu a inversão,
a fúria descontrolada,
a ira desgovernada
e a angústia do coração.

O homem emocionou a emoção,
a maneira bem educada,
a despedida chorada
e o aceno de mão.

O homem racionalizou a razão,
a filosofia desesperada,
a morte bem educada
e o adeus na negação.

O homem rezou a oração
na senda mais que sagrada,
abençoado na estrada
e santo na imensidão.

O homem nasceu campeão
na sua senda trilhada,
passo a passo palmilhada
e rica de intenção.

O homem criou a criação,
uma beleza ensaiada,
um "big bang", mais nada,
e cresceu na imensidão...

[Adhemar - Santo Antonio do Amparo - MG, 08/07/2006]

Quadrado

Estarei ausente mais do que de costume; um novo desafio se apresenta, um trabalho instigante e - espero - recompensador. Enquanto me provo capaz (sabe-se lá!), talvez falte tempo pra cá. Grande abraço,

Adhemar, 08/08/2009.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

PALOMA (Colomba)

A pequena coisa branca abriu as asas, se molhou, se sacudiu e voou. Voou só um pouquinho, para saber se já podia. Voltou à fonte e ficou a olhar em volta. Saltitou, depois bebeu. Vislumbrou perigo nuns olhos felinos e mansos. Mansos demais.

Alçou-se mais acima e não parou, pois reptilmente a esperavam noutro galho. Então quedou-se muda e silenciosa, batendo as asas num ponto seguro do ar, acima da fonte.

Pressentiu apenas sob o imenso céu azul a intenção rapina de um ponto que crescia velozmente. Rapidamente decidiu-se num vôo mergulhado e ágil enquanto s esgueirava dos perigos. Foi quando viu os olhos inocentes lhe acenando. Infantil, pensou-se segura e aproximou-se. Mal deu tempo de identificar o estampido: apenas viu o lindo sorriso, sua última visão do mundo que sumia.

Ficou caída, toda branca e gotejada de vermelho, doce símbolo da paz.

[Adhemar - Aracaju, 28/01/1988]

sábado, 1 de agosto de 2009

Impressões

Sair para tomar um ar, respirar e... Ver o céu estrelado. Cidade grande não tem céu estrelado. Na cidade grande a gente também não tem tempo de olhar para cima.

Continuar com a mesma ansiedade de antes, agora por saber não poder prolongar a estadia no ar puro, sob o céu estrelado. Calor sem pressa, céu azul - claro de dia, marinho à noite.

Entroncamento de caminhos para um pouco de história: base de bandeirantes aqui perto (Porto Feliz), formação geológica específica mais adiante (Itu)... Enfim, o epicentro de uma paz perfeita. Mas como tudo o que acontece de mau jeito quando a gente leva uma vida errada, fim, acabou. Temos de ir embora.

Retorna a ansiedade angustiada, cresce o mau humor, afloram nossas fraquezas na rotina corrida. Adeus, tranquilidade, até a vista bem viver e bem curtir a natureza...

[Adhemar - Boituva, 21/04/1999]

sexta-feira, 31 de julho de 2009

CLARIDADE

Encontrei uma Clarisse
cuja clareza e meiguice
diante de uma tolice
consolou, encaminhou.

Encontrei uma Clarisse
cuja boca me disse
pra que não me aborecesse
e deixasse o perdão chegar.

Encontrei uma Clarisse
cujo sorriso quem visse
deixava a zanga passar.

Encontrei uma Clarisse
cujos olhos, quem visse,
jamais esquecerá...

[Adhemar - Santo André, 15/12/2008]

Claríssima

Para alguém que me atendeu por causa e durante um aborrecimento por motivos puramente materiais (o aborrecimento, no caso). Além de encaminhar o problema para sua simples solução, ainda desarmou a ira tola e inútil que ia se formando em mim. Valeu, então.

Adhemar, 31/07/2009.

domingo, 26 de julho de 2009

Frag-men-tos

Na poesia peço perdão,
irresponsável por meus atos;
na poesia me penitencio.
Na poesia me escondo da solidão
no solitário abrigo,
o coração.

Onde estarei amanhã?
O que serei?

No fundo do mais fundo
de todos os desejos,
poemas se confundem
com a ânsia do fim;
fim da inquietude malsã
sem hoje e sem amanhã
que nos provoca até o derradeiro pavor...

O coração só suspira
num último favor.
A influência da sombra
esfria os corações.

O amor cultivado dá em flor delicada.
Cuidado e tratado não morre,
floresce por muito tempo...
Mas, muito tempo
não é "para sempre"...

[Adhemar - São Paulo, 22/05 e 12/06/1987]

E-S-T-I-L-H-A-Ç-O-S

Outro negócio escrito em duas vezes. Baseado em algo que li (perdoem-me, não me recordo de quem e não é uma transcrição direta também), escrevi os 5 primeiros versos na primeira data. O resto veio depois, no dia dos namorados, quando o relacionamento que eu vivia à epoca estava se desmanchando melancolicamente...

Adhemar, 26/07/2009

sábado, 25 de julho de 2009

CULPADO

Por que me olhas com teus olhos claros, transparentes?
Por que balanças os cabelos com tanta graça e cadência?
Por que te afastas levando o ar colorido em torno de ti?

Onde começa, onde termina essa febre de indagações sutis,
suspeitas, acusadas de um crime?
Por que essa busca para concluir que um crime perfeito
foi feito de forma magistral e sublime?
E por que o culpado se acusa,
se recusa a ficar na sombra?

E fica de olhos tranquilos,
encarando teus olhos claros, transparentes, investigativos...
E sorri ao ver teus cabelos
balançando com graça e cadência, tão diferentes...
E te seguindo quando te afastas
rebocado pelo ar colorido em torno ti...

[Adhemar - São Paulo, 20/06/2005 e 20/06/2009]

Acusado

Curiosamente, este texto foi iniciado em 20/06/2005. E justo hoje, quando procurava algo para postar no blog, achei o fragmento de papel onde estavam registradas as três primeiras frases e resolvi terminá-lo porque a sequência surgiu espontânea.

Adhemar, 20/06/2009

Condenado!

... E, sabe-se lá porquê, tive de interromper a transcrição no dia 20/06/2009, porisso este texto está sendo postado hoje!

Adhemar, 25/07/2009

domingo, 12 de julho de 2009

Soneto da ebulição

O espírito ágil e tão leve se eleva,
no enlêvo delicado e sentimento.
Emoção, sublime afeto, luz ou treva,
fragor clamante de sutil momento.

E na matéria limpa em movimento
há um preparar-se para adentrar a selva.
Não rudemente a transpirar ressentimento,
mas livre e solto como o próprio vento leva...

No coração, que ao último gesto se atreva
a afagar a mão do amor no abatimento
e se entregar, oh! Não! Não que não deva;

Mas ser maior na dor, no sofrimento,
enaltecer o dom de resistir e, ferva
o fervor de amar demais, a qualquer tempo!

[Adhemar - São Paulo, 09/08/1988]

Água fria

Estarei sempre a perseguir um soneto bem feito, uma das formas de poesia que mais aprecio; quem me dera ao menos uma vez chegar à perfeição de uma Florbela Espanca, um Camões, um Vinícius... Enquanto isso, bem-feito é pra quem lê...

Adhemar - 12/07/2009.

sábado, 11 de julho de 2009

GRAVIDADE

Sou apegado ao chão; um salto já significa um afastamento demasiado ousado da terra. Subir uma escada só se justifica a partir de uma lógica absolutamente irretorquível e inescapável. Voar, então, nem se fala! Asas delta, pára-quedas, aviões, foguetes e satélites são um produto do delírio e da pretensão humana em se igualar a Deus.

Claro que há exceções: por exemplo, quando a gente salta da margem para nadar num rio, ou no mar; quando o pulo, originado por um forte impulso, resulta numa bela cabeçada ao gol; e até na mesmo para defender a bola se o saltador em questão for um goleiro.

Voar para os braços da amada, estar nas nuvens e levitar de felicidade são exemplos de metáforas permitidas, aceitáveis. Flutuar, principalmente a alma desprendida do corpo é a última das metáforas, o melhor dos impasses e, quem sabe, o mais belo ângulo de contemplação da terra e do espaço.

[Adhemar - São Bernardo do Campo, 27/12/2005]

quinta-feira, 9 de julho de 2009

MUDANÇA RELATIVA

Quase fechei o livro
quase fechei os olhos
quase abandonei idéias
quase passei batido...

Quantos soluços contidos
quanta ignorância perdoada
quanta água passada
quantos desejos tortos...

Um "script" perdido
um papel desempenhado
desempenho improvisado
uma vida de imprevistos...

Quanto talento guardado
quase fechei o livro
um perdido encontrado
e o discurso de improviso...

Quantas previsões descartadas
quantos erros nas provas
quantas notas erradas
quantos caminhos mortos...

Um desespero em tocaia
uma entrada fechada
quase um convite aceitável
uma saída encontrada...

Quantos recuos em fuga
quase uma retirada
uma batalha perdida
e a guerra está encerrada...

Que o horizonte é amigo
quase noite enluarada
quantas estrelas no céu
qual um cometa atrasado...

Eclipse, areia, maré
a sedução esperada
quase uma via fechada
enquanto caminha a pé...

Um ponto de interrogação?
Quase uma frase assim.
Reticências... Exclamação!
Uma vírgula, um ponto e fim.

[Adhemar - Santo André, 28/03/2007]

domingo, 5 de julho de 2009

Desmoronamento ritual

Assim, num gesto impulsivo,
um vislumbre, um repente.
Percebo que não consigo
seguir em frente.

Daí, num momento afobado,
ridículo e muito impreciso
percebo que não acabo
nem aviso.

Sucede um desastrado gesto
inconcebido, perturbado;
percebo que manifesto
um desagrado.

Nessa clausura abro um postigo
e, cego, não vejo nada.
Talvez seja um amigo
esta cela abandonada.

Até que num gesto irrefletido,
um improviso, ousadia,
percebo que não desisto
ainda que acabe o dia.

E sem saber como ou direito,
eu desabafo, abro o peito
e fico assim meio sem jeito
neste verso mal feito...

[Adhemar - São Paulo, 31/07/2008]

sábado, 4 de julho de 2009

Perspectiva

Eu queria ser um desenho
desses tridimensionais.
Pode ser um estranho desejo
de estranhas reações normais.

Um desenho em preto e branco,
com sombras e tudo mais.
Significativo, no entanto,
linhas dramáticas e reais.

Ou um desenho colorido,
com brilhos, anúncio grátis.
Apegado a um papel querido,
esquadros, réguas e lápis.

Seria um desenho nítido,
com firme e belo traço.
Significado transparente e límpido,
curvas feitas a compasso.

Não seria jamais prisioneiro!
Livre, sem preocupações ou ruga
estaria, sempre ligeiro,
escapando pelos pontos de fuga!

[Adhemar - São Paulo, 03/02/2000]

sexta-feira, 3 de julho de 2009

DESPEDIDA

Vejo tua flor todos os dias.
Converso com ela.
Imaginamos juntos o tempo futuro,
quando ela estiver contigo.

"Não vai esquececer de te regar?"
"Será?"
"Te porá no sol?"
"Te olhará com carinho?"
"Te dará amor?"

E pra cada resposta, sempre sim e sim,
imaginamos os olhos teus a velar a flor,
pois o melhor cuidado que ela pode ter
é o de ter teus olhos a vê-la crescer.

A receita é simples:
água duas vezes;
quando amanhecer e ao entardecer.
O resto é o teu olhar,
é vê-la crescer.

Ver que a vida é um lindo florescer
e quanto amor que há
em folhas abrindo
e na flor surgindo...

A mensagem simples
que aqui se diz
é: - cuida bem da flor,
vive e sê feliz.

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 09/09/1987]

quinta-feira, 2 de julho de 2009

QUEM...2

É poeta quem diz que é,
seja a poesia concreta
sobre amor ou mulher;

Poeta é quem diz que é,
na poesia analfabeta
ou numa rima sem pé.

Mas, se poeta é qualquer um,
cada um não é um qualquer
com sua mente aberta;

E mentir, ou provar uma tese
numa teia de palavras sem fé
enaltece, enobrece, agradece...

Ser poeta é saber traduzir
o que não se fala em línguas quaisquer;
é vender o seu peixe miúdo
num quiosque à beira do mar.

É sentir, é viver, é morrer
e só de amor se alimentar.
Ser poeta é resistir a escrever
só enquanto a alma aguentar.

Ser poeta é romper os grilhões
e se deixar capturar.
Uma fonte de água a jorrar
lágrimas, risos, olhar...

Poeta?! Qualquer um pode ser.
Basta sentir e vibrar,
basta amar e sofrer.

[Adhemar - 04/06/2009]

terça-feira, 30 de junho de 2009

Infância

Tem horas que a vida parece música de Bach: uma interminável introdução. A gente vai caminhando de olhos fechados - ou olhando de lado - no rumo do abismo. E não para. A gente está na iminência de fazer uma besteira, e não para. Aí a gente vê que não é mais criança, bate uma saudade danada dos pés de milho, da casca da espiga, de subir em árvore, assustar passarinho, ver carreira de formiga, fazer brinquedo de galhos e pedras, jogar bola na lama, sequestrar as bonecas da irmã, resgatar amigos imaginários, casar com a moça mais bonita do sonho e não querer tomar banho! Lambuzar a cara de doce, brincar no castigo, ler gibi dentro do livro ao invés de estudar... Falar palavrão e ficar repetindo, esquecer papel de bala no chão...

De repente acorda do devaneio, vê que não é mais criança e chega a conclusão de que ser gente grande é um saco! Mas descobre que a criança ainda existe e se a gente deixar ela triste aí é que complica mais!

E não sai da introdução...

[Adhemar - Santo André, 13/10/2008]

domingo, 28 de junho de 2009

DESENTORTAR

De uma folha morta
a terra se alimenta;
e sempre foi assim,
pouca gente nota.
De uma linha torta
a gente se endireita
mesmo que no fim
bata à própria porta.

De uma ferramenta
a idéia se constrói.
E sempre foi assim,
muita gente aumenta.
De uma linha certa
acha-se onde dói
mesmo que no fim
não seja doença.

De uma folha branca,
de uma ferramenta,
um verso se constrói.
Mesmo que o poeta
em sua presença
não se queixa nem lamenta,
não saiba se aguenta
nem perceba aonde dói!

[Adhemar - Santo André, 10/01/2007]

sábado, 27 de junho de 2009

DESABRIGO

Até romper seus próprios rancores
e desafiar a gravidade,
matar de fome os seus temores
e saltar sobre a cidade.

Marcar a reunião com os algozes,
evitar a via engarrafada;
faltar e gravar as suas vozes
e se justificar com a piada...

Cozinhar em fogo brando os problemas
e retemperá-los com surpresa.
Desmanchar a receita e os esquemas
com salada, aperitivo e sobremesa.

Suportar os piores estertores
até romper com seus próprios dissabores.
Levantar para comprar novos humores,
investir na bolsa de rumores
e tentar sacar alguns amores;
porém levando em si algum pudor e muitas flores...

[Adhemar - São Paulo, 27/06/2008]

quinta-feira, 25 de junho de 2009

SORRIR

A noção do que já foi o tempo...
Se perdeu...
No perdão de um vago esquecimento
que não esqueceu.
Na presença,
que do coração é o alimento,
o sentimento sobreviveu.
Sua força,
uma reta ascendente,
acendeu...
Acendeu a primeira chama
que nos chamou,
nos prendeu.
Presos num lindo reencontro
que delicadamente denuncia
o que a mais terna amizade
nem traiu nem escondeu...

P/SHFC
[Adhemar - São Paulo, 08/05/1987]

Chorar!

Escrito para uma linda amiga que me roubou um beijo que lhe neguei.

Adhemar, 25/06/2009.

domingo, 14 de junho de 2009

ASAS CORTADAS

De repente me dou conta:
cada vez mais afastado do sonho
eu me nego, eu me entrego e eu me estranho
numa vasta estrada que desponta.

De repente me dou conta:
como o rei da fábula estou nu,
por toda pressa dessa vida estou cru
no beco sem por onde nem saída encontra...

De repente me dou conta:
apostas encerradas, fico fora.
O que será que acho agora
nessa louca vida tonta?

De repente, uma afronta:
realidade e sonho apartados,
nós do mundo, mais que alienados
numa vida que já não é da nossa conta!

[Adhemar - São Paulo, 04/10/2008]

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Por que 'fiz' esta... Saudade

PQ

Fiz só pra você
estes versos tão meus
que ora deixam de ser
pois agora são teus.

Sabes que gosto de ti.
Moras dentro de mim
onde existe um lugar,
coração, chamado assim.

Sei que a felicidade
é você sempre bem perto.
Se de ti tenho saudade,
longe estás, por decerto...

Procurei as melhores palavras
mas são as que não existem
para dizer o que sinto
quando te vejo, amada...

SD

Andando pelas ruas da cidade
penso naquela que roubou meu coração;
e, quando começa a tempestade,
dentro do peito é que sinto o trovão...

Molhado o rosto numa nuvem só de água,
que vem lá do fundo da canção,
o barco afunda levando antigas mágoas
carregadas nesta pobre embarcação...

P/ MG
[Adhemar, setembro/1981]

quarta-feira, 10 de junho de 2009

AUSÊNCIA

Sombra vazia,
descabelada.

Grito terrível,
agonia,
uivo,
gemido,
desarmonia.

Medo,
terror,
castiçal.

Tortura lenta,
hipocrisia,
pacto fatal.

Sombra da morte,
heresia,
sombra da escuridão.

[Adhemar - São Paulo, 20/08/1987]

domingo, 7 de junho de 2009

NOTORIEDADE

De repente me descubro acenando à esmo para tanta gente que me cumprimenta. Alguns acrescentam palavras de apoio e estímulo; outros se limitam a breves acenos aprovadores. Enlevado, deixo-me flutuar em frente, olhando para todos os lados e aquiescendo com as manifestações surpreendentes. Em meio a essa algazarra, me pego pensando: "por quê? O que foi que eu fiz de relevante - ou importante? Quem sou eu nesse contexto popular? Um babaca bem promovido? Ou um reles tolo apalermado e convencido?"

De repente me descubro subindo dentro do nevoeiro desse cenário. As pessoas se despedindo, se dispersando até sobrar só um - que nunca vejo. O meu mais ardoroso fã, meu seguidor incansável. Bate palmas, pede bis, aplaude tudo o que eu faço. Uma dúvida me abate: dispenso esse pobre palhaço? Não, muito pelo contrário; o encorajo e alimento. Dou-lhe abrigo, respaldo, incentivo, justifico-o, defendo-o. Afinal, esse fã leva o meu nome, o meu talento e o meu cansaço.

[Adhemar - Santo André, 05/09/2008]

sábado, 6 de junho de 2009

ESTOFO

Quando fui o homem
dono de uma imensa liberdade,
eu mesmo me amarrei.

Quando Deus proporcionou
outra oportunidade,
eu mesmo desperdicei.

Quando Deus quis que eu visse
mais longe e mais profundidade,
eu mesmo me ceguei.

Quando Deus quis que eu batesse
com força e com vontade,
eu só apanhei.

Ser feito de couro grosso
ou cérebro mineral
não orgulha e não entristece.
Horizonte muito curto
e cinzas de um carnaval
podem ser o que parece...

O fazer, o aqui, o agora
aparentemente aleatórios
em tudo o que acontece
é correr olhando pra cima,
ignorando o terreno,
sem perceber que se desce!

[Adhemar - São Paulo, 11/10/2006]

terça-feira, 2 de junho de 2009

Migrações

De saída uma certeza
- beleza desfeita no tempo -
em movimento satisfeita,
perdida por um momento...

E na densa natureza
em mesa posta na frente,
diferente e complicada,
aplicada e presente...

Em revoada na alteza,
realeza abandonada e proscrita
traz escrita em verso e prosa
orgulhosa, abençoada ou maldita?

Na imprevisível surpresa,
na rareza, na abundância,
na importância da altura,
na impostura da distância...

Em idas e vindas, represa,
uma moleza contagiante
diante da viagem de encomenda
da reprimenda inconstante...

No fim - concluída a empresa -
na firmeza da convicção,
da razão de seguir adiante
esse viajante, o coração!

[Adhemar - São Paulo, 17/05/2009]

domingo, 31 de maio de 2009

COSMO

Filosofar sobre tudo e sobre nada, sobre como é relativa a vida, as atitudes, a banalidade dos seres humanos.Vivemos nos esforçando para fazer coisas inúteis, coisas que alguém vai criticar e vai querer modificar. Quantos encaram o problema de frente quando ele existe?! Quase ninguém. Quantos aparecem para condenar a solução dada por um intimorato desprendido?! Centenas, às vezes milhares de infelizes que antes estavam omissos para não cansar seus curtos braços.
Como diria um ilustre pensador: "o que somos nós diante da infinitude do universo?"
Alargar os horizontes é, antes de tudo, respeitar as diferenças entre as pessoas. É ter uma atitude de compreensão, não necessariamente passiva ou inativa, mas tolerante e solidária. Crescer é reconhecer os próprios defeitos e não tripudiar sobre as limitações alheias. Ser alguém é - sobretudo - agir honradamente sem abusar da própria capacidade mas sem subestimá-la também.
Ser alguém é transitar serenamente nessa intangível divisa entre a própria liberdade e a louca vontade de mandar nos outros!

[Adhemar - São Paulo, 31/05/2006]

domingo, 17 de maio de 2009

SENTIDOS

Foi numa santa sexta-feira,
uma emoção que ainda espanta,
um sopro no coração
- centro do corpo.

Ainda tenta sentir dentro
o sentimento que sustenta
a idéia tonta - e o movimento -
angustiosa espera...

Uma virtude curiosa,
palavra perdida - atitude -
dissipada, arrependida,
repentina e ultrapassada.

Nem confete nem serpentina;
a história se repete
na sequência da glória
sem amor e sem ciência.

Segue relatando a dor
do amor ressucitando
qual o Filho do Criador
no meio da fé e do brilho.

E o espírito, quem é?
É o poeta? É o infinito?
É uma tampa secreta,
aberta numa sexta-feira santa.

[Adhemar - São Paulo, 10/04/2009]
(uma sexta-feira santa)

sábado, 16 de maio de 2009

Aparecendo...

Catado o instrumento de escrever,
desenhar,
a mão sobe certeira:
três balançadas no ar,
desce e apóia no papel;
a tradução vai começar.

Um esboço ainda que embaçado
está se formando no espaço;
vibra na mão balançando,
ocupa seu lugar sem embaraço
aparecendo no papel
como se fosse seu lar.

A mão parece uma antena,
um silencioso radar.
Capta o que vai no universo,
no cosmo e mais além
fazendo o recado viver,
fazendo a mensagem pulsar.

Ao final da intempestiva transmissão
se aquietam instrumento e condutor.
O assunto estampado em letras,
desenhos ou signos então
fazem figura e se apartam do autor.
Anônima, segue silente para outra aventura
essa corajosa mão.

[Adhemar - Santo André, 25/08/2008]

terça-feira, 12 de maio de 2009

RETORNO

De repente, estou aqui.
As velhas coisas conhecidas
parecem que estão rindo de mim.

Um fio d'água escorrendo no rosto
e as coisas ainda rindo,
ou parecem assim.

Se sou tão estranho
nesse mesmo aqui de antes
devo concluir que estou nascendo de novo.

A cada coisa nova que nos acontece
há todo um modo novo de ser.

Ainda não sei quem sou;
apenas um ilustre conhecido
que esteve por aqui e passou.

Na palavra mística de um movimento novo,
uma fuga preciosa de corais e flores.

De repente, estou aqui.
Querendo não estar,
mas não conseguindo sair.

[Adhemar - São Paulo, 31/07/1987]

Revival

Ah! Como a vida é cíclica! E a história sempre repete. De repente, estou aqui...

Adhemar, 12/05/2009.

sábado, 11 de abril de 2009

Ocorrência

As palavras se perderam cantadas ao vento,
escorridas pelo ralo do chuveiro
ou pelos ecos do pensamento...

As palavras se perderam foragidas, exiladas,
refugiadas do seu próprio sentido,
estranhas e mortificadas.

As palavras se perderam caladas,
embriagadas de desentendimento,
frustradas, entediadas pelo divertimento.

As palavras se perderam consagradas a um momento,
a um amor , uma paisagem,
uma passagem no portal do tempo.

As palavras se perderam confundidas,
misturadas aos gritos da torcida...

As palavras se perderam, se encontraram
e resolveram não dizer mais nada.

[Adhemar - São Paulo, 10/04/2009]

terça-feira, 7 de abril de 2009

LUA

O espaço infinito dividido em astros.
O coração é como espaço infinito,
infinitos astros.

Nós, que não somos nada,
temos um infinito espaço guardado em nós,
vibrante, pulsátil.

Lembre sempre
- e nos momentos mais angustiosos -
que és a Lua nesse meu cosmo interno.
Um pequenino mas brilhante astro,
lindo de se ver em todas as fases,
influente nas marés, nos ventos,
nas tempestades...

Inspiradora de canções, poemas,
amor e... Saudades!

P/ SM
[Adhemar - 24/05/1999]

sábado, 4 de abril de 2009

ATROPELAMENTO

Emergência, urgência, premência...
Pressa, atraso, angústia.
Desalinhamento.
Olhar crítico sobre a posição do quadro.
Olhar analítico sobre a posição de tudo,
impossivelmente convencido e posudo.
Irremediavelmente obtuso.

Análise, diagrama, esquema.
Um projeto detalhado ou um problema?
Diante do desastre a contemplar extasiado,
o olhar meio espantado,
meio poema...
Afirmativamente abestalhado,
atrapalhado abantesma...

Objetividade, produtividade e lucro.
Correr atrás do próprio rabo
como se fôra um cachorro meio xucro.
Deprimente olhar esbugalhado,
estabelecido e delicado,
delirantemente distraído;
deliberadamente espalhado.

Afirmativo, positivo e avançado,
talvez flagrado em posição de impedimento.
Desconsolado, descolar um fingimento,
valentemente, segurar no fio desencapado.
Balançar a cabeça num fingido entendimento
do incompreensível, resumido e detalhado.

Piada de um palhaço engraçado,
contraditória em trajetória desviada.
Alçar os braços num gesto de vitória
mesmo perdendo na saúde e na doença.
Paralisado em alta velocidade,
acelerado e parando ao mesmo tempo;
se dividindo, se desintegrando
em tantas partes que contar já é história.

Cintilando cada fragmento,
em órbita no espaço divagando;
vai transformando em estrela, cada pedaço,
mais intenso, mais perdido e mais brilhando.
Futuro, experiência e esperança.
Planejamento impreciso e falhando.
Num momento voltar a ser criança
e sentir-se, outra vez, recomeçando!

[Adhemar - São Paulo, 08/02/2009]

domingo, 29 de março de 2009

Guardados

A verdade, depois de um tempo, aparece. Se revela. Às vezes fica esquecida num canto, um fundo qualquer de baú, debaixo de muita poeira. E alguém sempre assopra.

A verdade é uma amiga perversa. Está sempre certa. Às vezes se disfarça e espreita. Nem sempre é o atalho mas, ao contrário do crime, compensa.

A verdade é uma atleta, forte e vencedora. Mesmo quando perde permanece soberana e... Soberba. Aliás, é irmã da honra, do fio de bigode, do caráter e da vergonha na cara. É irmã da coragem...

A verdade é sempre completa, mesmo desconhecida ou apócrifa; às vezes está exilada, mas volta por cima, altiva. De quando em quando a verdade é herdeira da mentira.

A verdade é exata, matemática. Regida pelos astros, regular como as marés. A verdade está nas estrelas, no dia claro, nos temporais e na floresta.

Mas a verdade também é urbana, é filosófica e profunda. Nada mais humano do que uma boa verdade.

[Adhemar - São Paulo, 26/06/2006]