sexta-feira, 31 de julho de 2009

CLARIDADE

Encontrei uma Clarisse
cuja clareza e meiguice
diante de uma tolice
consolou, encaminhou.

Encontrei uma Clarisse
cuja boca me disse
pra que não me aborecesse
e deixasse o perdão chegar.

Encontrei uma Clarisse
cujo sorriso quem visse
deixava a zanga passar.

Encontrei uma Clarisse
cujos olhos, quem visse,
jamais esquecerá...

[Adhemar - Santo André, 15/12/2008]

Claríssima

Para alguém que me atendeu por causa e durante um aborrecimento por motivos puramente materiais (o aborrecimento, no caso). Além de encaminhar o problema para sua simples solução, ainda desarmou a ira tola e inútil que ia se formando em mim. Valeu, então.

Adhemar, 31/07/2009.

domingo, 26 de julho de 2009

Frag-men-tos

Na poesia peço perdão,
irresponsável por meus atos;
na poesia me penitencio.
Na poesia me escondo da solidão
no solitário abrigo,
o coração.

Onde estarei amanhã?
O que serei?

No fundo do mais fundo
de todos os desejos,
poemas se confundem
com a ânsia do fim;
fim da inquietude malsã
sem hoje e sem amanhã
que nos provoca até o derradeiro pavor...

O coração só suspira
num último favor.
A influência da sombra
esfria os corações.

O amor cultivado dá em flor delicada.
Cuidado e tratado não morre,
floresce por muito tempo...
Mas, muito tempo
não é "para sempre"...

[Adhemar - São Paulo, 22/05 e 12/06/1987]

E-S-T-I-L-H-A-Ç-O-S

Outro negócio escrito em duas vezes. Baseado em algo que li (perdoem-me, não me recordo de quem e não é uma transcrição direta também), escrevi os 5 primeiros versos na primeira data. O resto veio depois, no dia dos namorados, quando o relacionamento que eu vivia à epoca estava se desmanchando melancolicamente...

Adhemar, 26/07/2009

sábado, 25 de julho de 2009

CULPADO

Por que me olhas com teus olhos claros, transparentes?
Por que balanças os cabelos com tanta graça e cadência?
Por que te afastas levando o ar colorido em torno de ti?

Onde começa, onde termina essa febre de indagações sutis,
suspeitas, acusadas de um crime?
Por que essa busca para concluir que um crime perfeito
foi feito de forma magistral e sublime?
E por que o culpado se acusa,
se recusa a ficar na sombra?

E fica de olhos tranquilos,
encarando teus olhos claros, transparentes, investigativos...
E sorri ao ver teus cabelos
balançando com graça e cadência, tão diferentes...
E te seguindo quando te afastas
rebocado pelo ar colorido em torno ti...

[Adhemar - São Paulo, 20/06/2005 e 20/06/2009]

Acusado

Curiosamente, este texto foi iniciado em 20/06/2005. E justo hoje, quando procurava algo para postar no blog, achei o fragmento de papel onde estavam registradas as três primeiras frases e resolvi terminá-lo porque a sequência surgiu espontânea.

Adhemar, 20/06/2009

Condenado!

... E, sabe-se lá porquê, tive de interromper a transcrição no dia 20/06/2009, porisso este texto está sendo postado hoje!

Adhemar, 25/07/2009

domingo, 12 de julho de 2009

Soneto da ebulição

O espírito ágil e tão leve se eleva,
no enlêvo delicado e sentimento.
Emoção, sublime afeto, luz ou treva,
fragor clamante de sutil momento.

E na matéria limpa em movimento
há um preparar-se para adentrar a selva.
Não rudemente a transpirar ressentimento,
mas livre e solto como o próprio vento leva...

No coração, que ao último gesto se atreva
a afagar a mão do amor no abatimento
e se entregar, oh! Não! Não que não deva;

Mas ser maior na dor, no sofrimento,
enaltecer o dom de resistir e, ferva
o fervor de amar demais, a qualquer tempo!

[Adhemar - São Paulo, 09/08/1988]

Água fria

Estarei sempre a perseguir um soneto bem feito, uma das formas de poesia que mais aprecio; quem me dera ao menos uma vez chegar à perfeição de uma Florbela Espanca, um Camões, um Vinícius... Enquanto isso, bem-feito é pra quem lê...

Adhemar - 12/07/2009.

sábado, 11 de julho de 2009

GRAVIDADE

Sou apegado ao chão; um salto já significa um afastamento demasiado ousado da terra. Subir uma escada só se justifica a partir de uma lógica absolutamente irretorquível e inescapável. Voar, então, nem se fala! Asas delta, pára-quedas, aviões, foguetes e satélites são um produto do delírio e da pretensão humana em se igualar a Deus.

Claro que há exceções: por exemplo, quando a gente salta da margem para nadar num rio, ou no mar; quando o pulo, originado por um forte impulso, resulta numa bela cabeçada ao gol; e até na mesmo para defender a bola se o saltador em questão for um goleiro.

Voar para os braços da amada, estar nas nuvens e levitar de felicidade são exemplos de metáforas permitidas, aceitáveis. Flutuar, principalmente a alma desprendida do corpo é a última das metáforas, o melhor dos impasses e, quem sabe, o mais belo ângulo de contemplação da terra e do espaço.

[Adhemar - São Bernardo do Campo, 27/12/2005]

quinta-feira, 9 de julho de 2009

MUDANÇA RELATIVA

Quase fechei o livro
quase fechei os olhos
quase abandonei idéias
quase passei batido...

Quantos soluços contidos
quanta ignorância perdoada
quanta água passada
quantos desejos tortos...

Um "script" perdido
um papel desempenhado
desempenho improvisado
uma vida de imprevistos...

Quanto talento guardado
quase fechei o livro
um perdido encontrado
e o discurso de improviso...

Quantas previsões descartadas
quantos erros nas provas
quantas notas erradas
quantos caminhos mortos...

Um desespero em tocaia
uma entrada fechada
quase um convite aceitável
uma saída encontrada...

Quantos recuos em fuga
quase uma retirada
uma batalha perdida
e a guerra está encerrada...

Que o horizonte é amigo
quase noite enluarada
quantas estrelas no céu
qual um cometa atrasado...

Eclipse, areia, maré
a sedução esperada
quase uma via fechada
enquanto caminha a pé...

Um ponto de interrogação?
Quase uma frase assim.
Reticências... Exclamação!
Uma vírgula, um ponto e fim.

[Adhemar - Santo André, 28/03/2007]

domingo, 5 de julho de 2009

Desmoronamento ritual

Assim, num gesto impulsivo,
um vislumbre, um repente.
Percebo que não consigo
seguir em frente.

Daí, num momento afobado,
ridículo e muito impreciso
percebo que não acabo
nem aviso.

Sucede um desastrado gesto
inconcebido, perturbado;
percebo que manifesto
um desagrado.

Nessa clausura abro um postigo
e, cego, não vejo nada.
Talvez seja um amigo
esta cela abandonada.

Até que num gesto irrefletido,
um improviso, ousadia,
percebo que não desisto
ainda que acabe o dia.

E sem saber como ou direito,
eu desabafo, abro o peito
e fico assim meio sem jeito
neste verso mal feito...

[Adhemar - São Paulo, 31/07/2008]

sábado, 4 de julho de 2009

Perspectiva

Eu queria ser um desenho
desses tridimensionais.
Pode ser um estranho desejo
de estranhas reações normais.

Um desenho em preto e branco,
com sombras e tudo mais.
Significativo, no entanto,
linhas dramáticas e reais.

Ou um desenho colorido,
com brilhos, anúncio grátis.
Apegado a um papel querido,
esquadros, réguas e lápis.

Seria um desenho nítido,
com firme e belo traço.
Significado transparente e límpido,
curvas feitas a compasso.

Não seria jamais prisioneiro!
Livre, sem preocupações ou ruga
estaria, sempre ligeiro,
escapando pelos pontos de fuga!

[Adhemar - São Paulo, 03/02/2000]

sexta-feira, 3 de julho de 2009

DESPEDIDA

Vejo tua flor todos os dias.
Converso com ela.
Imaginamos juntos o tempo futuro,
quando ela estiver contigo.

"Não vai esquececer de te regar?"
"Será?"
"Te porá no sol?"
"Te olhará com carinho?"
"Te dará amor?"

E pra cada resposta, sempre sim e sim,
imaginamos os olhos teus a velar a flor,
pois o melhor cuidado que ela pode ter
é o de ter teus olhos a vê-la crescer.

A receita é simples:
água duas vezes;
quando amanhecer e ao entardecer.
O resto é o teu olhar,
é vê-la crescer.

Ver que a vida é um lindo florescer
e quanto amor que há
em folhas abrindo
e na flor surgindo...

A mensagem simples
que aqui se diz
é: - cuida bem da flor,
vive e sê feliz.

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 09/09/1987]

quinta-feira, 2 de julho de 2009

QUEM...2

É poeta quem diz que é,
seja a poesia concreta
sobre amor ou mulher;

Poeta é quem diz que é,
na poesia analfabeta
ou numa rima sem pé.

Mas, se poeta é qualquer um,
cada um não é um qualquer
com sua mente aberta;

E mentir, ou provar uma tese
numa teia de palavras sem fé
enaltece, enobrece, agradece...

Ser poeta é saber traduzir
o que não se fala em línguas quaisquer;
é vender o seu peixe miúdo
num quiosque à beira do mar.

É sentir, é viver, é morrer
e só de amor se alimentar.
Ser poeta é resistir a escrever
só enquanto a alma aguentar.

Ser poeta é romper os grilhões
e se deixar capturar.
Uma fonte de água a jorrar
lágrimas, risos, olhar...

Poeta?! Qualquer um pode ser.
Basta sentir e vibrar,
basta amar e sofrer.

[Adhemar - 04/06/2009]