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domingo, 27 de setembro de 2009

Exéquias


Libertos os pensamentos esparsos
numa algazarra de silêncio.
Estaremos todos nós um pouco mortos
nesse exílio voluntário
dentro de nós mesmos?
Evitando o convívio por preguiça,
a presença por cansaço
tão suspeito e tão sem graça...

Os pensamentos esparsos vão no vento,
até soprar as folhas secas
sobre nossas lápides - aqui jaz.
E uma solidão devastadora
de não se bastar a gente com a gente
como companheiros de jornada...

E lá estarão os pensamentos esparsos
procurando se arraigar
em antigas tradições ultrapassadas
de sorrisos, de piadas,
de filosofias baratas...

E os esparsos pensamentos libertos
vão nos conduzir pelas estradas dos esquecidos,
dos ingratos.
E quando quisermos por as coisas
nos seus devidos limpos pratos
será o deserto.
Estarão as nossas almas meio penadas,
meio à esmo,
errantes e desconsoladas...

E os espasmos pensantes libertinos,
achando que estão abafando
enquanto condenam a esse degredo
que é o inferno dentro de nós mesmos,
insondável, impossível, "insalvável".
Num pretenso repto repentino,
arrependido, arrepiado, pulsativo...

E o espanto pensativo liberado,
anestesiado no seu alienamento
fará da fome o seu próprio alimento
enquanto tenta enxergar à frente.
A visão toldada, embaçada
no livre pensar repetitivo
tenta criar um clima - um alívio -
tipo penitência punitiva...

A espessa liberdade pensativa
adormece embaraçada,
emaranhada em contradições dissertativas;
em contraponto, vai correndo na subida,
ofegante, palpitante, oferecida,
vai pro espaço,
vira cinza colorida...

E os libertos pensamentos esparsos,
ora férteis, ora fartos,
vão servir de epitáfio interessante para nós
que estaremos todos um pouco vivos
nesse exílio voluntário
para em volta de nós mesmos!!!

[Adhemar - São Paulo, 26/08/2009]

sábado, 26 de setembro de 2009

BENÇÃO

O ar frio,
a poesia,
a madrugada.

Chuva na janela,
visita da poesia,
temática desgastada.

Desgraçada.
Lançada ao vento,
ao mar,
às pedras,
despedaçada.

Palavras sem música,
ar frio,
e a estrutura do cais
balançada.

Palavras vãs,
senis, sem sentido,
solidão de alma pelada.

Atravessando a manhã,
tarde sonolenta,
noite despertada.

Perdendo o beijo da brisa,
a reza da missa
e a dor resguardada.

Sussurros,
segredos,
motins.
E a noite calada.

[Adhemar - São Paulo, 30/07/2000]

terça-feira, 22 de setembro de 2009

VINTE ANOS!

Se de tudo ao meu amor eu for atento
- e hei de proclamá-lo aos quatro ventos -
resistindo bravamente minha Stella
a vinte anos já, de casamento!

Se Deus a escolheu por criatura,
que adora os filhos, cuida deles e me atura;
talvez por ironia ou castigo
a colocou nesta louca aventura...

Bem feito! Quem mandou?! Casou comigo!
Apesar de rica, escultural e muito bela,
só lhe sobrou esta casca de marido!

Que se esforça, que a ama
mais que tudo e mais um pouco;
que por paixão se atira aos pés dela
declamando tantos versos feito um louco.

Que todo dia se promete em oração
fazer o impossível pra continuar a merecê-la;
e tê-la impressa dentro do próprio coração
e mesmo assim sequer jamais cansar de vê-la.

Pra responder tua pergunta de outro dia,
se após tanto tempo o casamento é um estorvo,
só posso te dizer, sem ironia,
que contigo tantas vezes casaria
quantas eu pudesse, de novo!!!

P/ Stella Maris
[Adhemar - São Paulo, 21/09/2009]

23/09/2009 - 20 ANOS

Ou seja, não vai se livrar da sarna tão cedo...
Sei que você sabe que meu jeito de agradecer tantas bençãos em nossa vida é através dessa irreverência, arengando essas besteiras que me deixam feliz quando te fazem sorrir. Beijão,

Adhemar, 23/09/2009.

domingo, 20 de setembro de 2009

DESCOBERTA

Parado no espaço, parado no tempo.
A súbita impressão de um grande envelhecimento,
das coisas em torno, das pessoas,
de certas idéias e de quase todo pensamento.

Parado no acaso e no acontecimento,
esperando o desenlace - surpresa -
aguardando um certo momento...
Blefando ou botando as cartas na mesa.

Parado no prazo do esquecimento,
as coisas se desmanchando, sumindo.
Passado o prazo de vencimento
de certas idéias, o pensamento vai indo...

Parado num hiato, um descanso.
Parado num ar - respirando -
vivendo para reconstrução, um espanto,
renovação, "re-movimento"...

[Adhemar - São Paulo, 27/08/2009]

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Oi!!!

Onde está você,
que não aparece onde costuma aparecer?
Cadê seu ar, sua graça,
cadê o ar que balança
quando você passa?

Onde está você,
seus doces, seus perfumes?
Onde está sua vida
que tanta vida empresta
ao ambiente onde você passa?

Quais seus novos caminhos,
roteiros, estradas?
Onde o sagrado chão que pisas?

Bem, vá em paz,
vá com Deus.
Mas sempre saiba que,
independentemente de onde estejas,
um coração estará contigo,
contigo estes olhos
e mãos espalmadas num aceno de adeus
ou, de até já...

[Adhemar - São Paulo, 18/01/2000]

domingo, 13 de setembro de 2009

IRONIA

A poesia escapou.
Foi um momento de distração
e ela saiu pela janela:
voou.

Me deixou aqui sozinho,
papel nas mãos,
todo enguiçado em pensamentos dispersos,
desconexos.

Para piorar a situação ela voltou.
Mas só até a janela
de onde acenou sarcástica
e sumiu.

Integrou-se aos longes recantos de minha mente
que estão fora de mim.
Eram palavras bonitas que eu ja vi alguma vez?
Talvez.

Agora ela fica rondando sem aparecer
só para me perturbar,
como uma sombra quando queremos sol...
Desgosto.

Me levanto e tomo um copo d'água
como se a poesia pudesse flutuar ali.
Alijo dos meus pensamentos a pequena malvada.
Perversa.

Depois me arrependo: perversa não.
Não existe poesia perversa.
Existe por versos, para se divertirem,
diversas.

A poesia queria brincar de esconder,
pensei depois.
Mas como capta pensamentos, magoada comigo,
desapareceu.

Sei que foi se guardar nalgum recanto
do meu subconsciente tão confuso,
que o choro foi crescendo,
esticando...

Os versos curtos
se encompridaram
nesta queixa
perdoada.

A poesia perdoou o poeta
pelas suas instâncias
e foi dormir muito quieta
como mandam as circunstâncias.

[Adhemar - Aracaju, 28/01/1988]

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Deslizamento

De ilusão me alimento,
e cuspo vento;
de ilusão eu me invento,
além do conhecimento.

De ilusão eu me transformo,
e retorno;
de ilusão eu me iludo,
fico mudo de padecimento.

De ilusão eu vou vivendo,
ilusão realizada,
chamo de vida,
subo a escada.

Na ilusão eu mergulho,
afogo o orgulho
e dou risada.

Comentário no blog "a morte de Gregor Samsa", post "anotações sobre metafísica (26/08/09)".
http://amortedegregorsamsa.blogspot.com
[Adhemar - São Paulo, 09/09/2009]

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

LABIRINTO

Mas que caminho é este que não reconheço?
Onde estou indo? E por quê?
Eu mesmo respondo: "se não sabes
não há mais ninguém que possa dizê-lo à você".

E assim têm sido os dias,
seguidas dúvidas e uma procura infinita.
Se uma não voltou ainda,
a outra já definiu, não fica.

Vou voar mais alto,
respirar além da estratosfera.
Se na carência de oxigênio líquido
ou na distância a percorrer inteira.

Hoje acho que sei o que sei;
mas minhas chances se foram quando eu não sabia.
Descrente do que descobri,
desperto e sem sabedoria...

Na chuva caminho pensando
no que este molhar significa.
Molhado e num rumo sem sentido
procurando saldar a velha dívida.

Arrastarei minha carcaça pelos campos,
pelos cantos e pelos encantos do resto da vida.
Se chegar a algum lugar
terei a chance de gritar de alegria uma vez ainda.

Acrobata, palhaço ou mágico
armarei meu circo onde for recebido.
Me sentirei bem pago e agradecido
se a desconhecida me der um sorriso.

Onde quer que estejas, desconhecida,
te encontrarei e resgatarei esse sorriso.
Ainda que ande pela vida toda.
Ainda que chore por tê-la perdida...

[Adhemar - São Paulo, 07/09/1988]

09-09-09

Hoje, a mãe da então desconhecida faz 70 anos. Em plena forma, D. Sogra é uma daquelas pessoas dedicadas e cuja grandeza não se mede em palavras... Ainda trabalha, adora os filhos e idolatra os netos. Se um dia, por qualquer motivo eu brigar sério com minha esposa, vou encerrar a discussão dizendo dramaticamente: "eu vou pra casa da sua mãe!".

Adhemar, 09/09/2009.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

PASSOS

Não planejei estar aqui.
Não pedi para nascer.
Nunca soube o que ia ser
e agora estou aqui.

Na  multidão não me distingui.
Ponho o dedo no nariz.
Muito aos trancos sou feliz,
pouco ao mundo devolvi.

Quem mais eu quisera ver
foi quem mais me desiludiu:
- O que acha de poesia?
- Uma é bom, pouca é chato, muita um saco!

Chutei lata, estou aqui.
Pé na jaca, estou aqui.
Quedei-me surdo, teimoso,
a poesia está aqui.

Voltei às rimas enfim.
Muito ou pouco, eis o saber
das palavras que, ao escrever,
significam pra mim.

Estou aqui, graças a Deus.
Sei escrever (?), ainda bem.
Só não espero também
agradar aos olhos teus...

P/ a 1a. editora que me disse "não".
[Adhemar - São Paulo, 03/09/2004]

Mimado...

E convencido, fiquei chocado com a postura "comercial" da editora que nem quis orçar a edição de um livro de poesia (ainda que só para satisfazer meu ego - aliás - um "egão"). Ou seja, nem pagando...!

Adhemar, 07/09/2009.

domingo, 6 de setembro de 2009

Tempos modernos

Onde está o sentimento
neste mundo apressado?
Onde está o gesto amigo,
a mão estendida,
o dinheiro emprestado?

Cadê os fiadores,
a confiança,
o fio do bigode?
Quem tem tempo pro papo tranquilo,
pro café, pro... Quem pode?!

Visitar os amigos,
ir a festas juninas
ou a outras quaisquer?
Onde vai um tempinho pros filhos
ou pra sair co'a mulher?

E a rotina estressante,
só trabalho e só compromisso?
Em casa limpeza e arrumações;
nada de restaurante, zoológico
ou parque de diversões...

Até o velho "futiba",
só na televisão.
Nem mesmo ir ao quintal
pra andar de patinete!
Por fim, a bronca fatal,
se está a jogar no computador o moleque:
- Saia daí, menino,
que o papai precisa entrar na internet...

[Adhemar - 21/07/2000]

sábado, 5 de setembro de 2009

PERDIDO

Emaranhado numa estranha confusão
já não sabe se encontrado ou se perdido.
Não marcou seu caminho pelo chão
nem com migalhas, nem com longo fio comprido.

Não quebrou pontas de galhos
nem riscou à faca troncos.
Não marcou referências ou atalhos
nem se muniu de mapas prontos.

Embarafustou-se num estranho labirinto,
nenhuma bússola nem abertura para o sol;
nem marcos, nem balizas, nenhum sinal distinto
nem armas, nem provisões, nem cantil, nem embornal.

Tão embaraçado, tão atrapalhado e confuso...
Um cansaço e um desânimo deplorável.
Catatônico e tão fora de fuso
e metido num "imbroglio" miserável.

E os sentidos alertando: "saia dessa seu palhaço!"
E o desencontro continua, vai girando.
E o cabra-cega dando à esmo cada passo
e no seu rumo cada vez mais entortando.

E a consciência animando: "vai poeta!"
"Vai por caminhos nunca dantes navegados".
O sujeito abre os olhos e se compenetra
da missão a seguir, rumos sagrados.

"Esses rumos acharás", diz a razão,
"se escutares tua voz e tua alma".
"Vais achar teus caminhos, tua calma
se escutares o teu próprio coração..."

[Adhemar - São Paulo, 28/04/2006]