sábado, 31 de outubro de 2009

Primeiro amor adolescente

Longínquos sinais, tardios acenos.
Sopros suaves, ventos amenos.
Furtivos suspiros, inocentes folguedos.
Fugidios sorrisos, esquecidos brinquedos.

Uns breves toques propositais
dados por perdidos.
Uns fingidos desvios nem tão casuais,
faces e olhos ardidos.

Tanto esforço de atitudes parecendo normais...
Intra-peito, um coração fugitivo.
E lábios que nunca beijaram querendo mais,
querendo tudo, um mergulho impulsivo.

Até que a saudade cause lágrimas mortais
por essa dor nunca antes sentida;
nessa certeza de que todos os amores são fatais
até que morra o primeiro e surja outro em nossa vida...

[Adhemar - Santo André, 13/11/2008]

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

MAIS DE MIL


Ela vai, passa de leve, flutuando,
enquanto mil pares de olhos acompanham.
Conforme o movimento do oceano,
o corpo leve e solto vai andando.

Cabelos... Ah, cabelos! Vão balançando
em suave concorrência com o vento;
e vão tão soltos e vão leves tão sem tempo,
mil corações sobressaltados açoitando.

Volta zangada, mil cabeças vão virando;
sem importar-se, passo a passo, decidida,
já que é vaidosa e a paquera - inoportuna!

Sua conquista em mil cérebros é a fortuna
e ela não liga, nem dá bola pra torcida;
deixa pra trás mil diafragmas suspirando...

P/ K.
[Adhemar - São Paulo, 01/10/1987]

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Batidas aéreas

O reflexo.
O ar contido numa bolha.
Um som indefinível
estranhamente silencioso;
cores múltiplas se dividindo
e se espalhando.

O reflexo.
O reflexo feito uma janela
pra se olhar os sonhos.
Sonhos coloridos se dividindo
e se espalhando.

De repente o ar se expande.
Sonhos, luzes e reflexos
se libertando.
Um som mais definido
se ampliando, gritando.
A bolha, rompida,
se esconde.
Ganha o espaço
esse multitudo se comunicando!

P/ Maria Cristina Sanna
[Adhemar - 19/10/2009]

Prima

Brilhante e colorida, cosmopolita, extremamente convicta, grande parceira nos prélios de buraco, esporte predileto da gente! Feliz Aniversário, Cris, pontualmente com o atraso de sempre!

Adh2, 28/10/2009.

domingo, 25 de outubro de 2009

Profundidade


A gente nunca chega a conhecer completamente às pessoas. Aliás, a gente nunca chega a conhecer completamente nem à nós mesmos! Capacidades inatas, caráter, profundidade da alma... Enfim, podemos conviver conosco por uma eternidade de tempo sem perceber certos potenciais, sem reparar em alguns defeitos.

Somos uma espécie de bar onde há solitários, fanfarrões, bêbados e sóbrios, todos perdidos entre discussões inúteis e silêncios dispensáveis. Nesse interminável anoitecer, a gente vai ignorando o próprio cinismo. Aí, defrontamo-nos com esse nem tão estranho desconhecido que nos diz coisas vagamente familiares e que a gente entende mesmo em meio ao maior tumulto. Depois se lembra aonde tinha visto o ilustre e famoso quem: no próprio espelho...!

A gente fica tão distante de si mesmo que nos perdemos em meio a idéias e caminhos embaralhados, atitudes diversas, variadas, indecisas. Coça a cabeça, olha para os lados e senta próximo ao balcão esperando a próxima revelação: uma apresentação formal de nós, por nós, numa imprescindível - ainda que tardia - confraternização.

[Adhemar - São Caetano do Sul, 04a10/10/2005]

sábado, 24 de outubro de 2009

INGRATO

A minha rosa morreu;
morreu, murchou e secou.
No vaso permaneceu
enquanto a ilusão durou.

Descuido, desleixo? Talvez.
Mas longe eu fui, viajei,
procurar a cura da embriaguez
que, aliás, não encontrei.

E a rosa ficou sozinha
enquanto eu tentava espalhar
saudades de uma agonia
onde quer que pudesse passar.

Deixei-a abandonada
e degustei o dissabor...
Só eu poderia cuidá-la
como não cuidei do amor.

Frustrado, há tanto tempo voltei,
sem ter conseguido espalhar,
nos lugares onde passei,
a saudade que vem me calar.

Sem ter conseguido esquecer
o que agora ainda importa,
continuando a amar e sofrer
pela rosa que ora está morta.

Frustrado, arranco do vaso,
o talo seco que restou.
Chorando, constato arrasado
a raiz que ela criou...

O pirata acusou o vaso
- tão bem tratado e cuidado -
de infecundo e mordaz descaso;
um pirata claramente emocionado...

A rosa criara raiz
e o pirata descuidado
sepultou-a no seu país
junto ao amor, lado a lado.

Pirata não tem país,
nem terra, bandeira ou amém.
Pirata não tem passado,
nem futuro também.

Aporta em qualquer canto,
viaja por anos a fio.
Cantando leva espanto
e alma ao seu navio.

Pirata infeliz? Talvez.
Só não conseguiu esquecer
que não haverá outra vez
para a rosa do amor reviver...

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 16/05/1988]

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Para saber...


Andava muito iludido
e consultei o coração
se não andava confundido
procurando confusão.

Ele calado: sim e não.
Mas não havia respondido
à delicada questão
de que estava escondido.

Mas ficou perturbado,
perdido no amor - paixão -
como se o tempo, escalado...

Precisou de uma lição
ficando desconsolado
e condenado à prisão...

[Adhemar - São Caetano do Sul, 12/05/2005]

domingo, 18 de outubro de 2009

Toque

Tua silhueta some,
evola-se no ar feito fumaça.
Sinto um vazio tão grande quanto intenso.
Enquanto isso, teu incenso assa.


O teu espírito,
que se exala e me perfuma,
vai me ocupando tão quente quanto adocicado,
me envolvendo em bruma e me deixando assado.

Teu vulto nítido,
me contorna e me ameaça.
Vai me invadindo sem saber o que se passa
e, quando sabe, bem la dentro do meu peito ele se esconde...

P/SHFC
[Adhemar - São Paulo, 11/05/1987]

sábado, 17 de outubro de 2009

DESCUIDO


E foi assim por acaso,
num gesto cheio de tentativa
que levantou-se uma hipótese
pouco provável e muito ativa.

Atirou-se uma pedra ao momento
que o vento nem desviou.
Atirou-se um insulto ao tempo
que pouco o incomodou.

E foi assim um acinte,
uma ofensa grave e teimosa.
Queimou-se a boca livre,
fechou-se a boca ruidosa.

E foi assim entre dentes,
o murmúrio da injúria
que por acaso a intenção
virou situação de penúria.

Inteiramente ao acaso
a boa intenção se perdeu.
O "por que" não vem ao caso
mas a incúria venceu.

Do mal entendido surgiu
pendência que não se encerra
e foi assim que se assistiu
o início de uma guerra.

E sem temor nem razão
a beligerância assume
uma tal proporção
que não se acaba nem se resume.

À paz, ao amor, ao perdão,
os homens preferem brigar.
Cegos de ódio ou paixão
por causas quem nem sabem lembrar...

[Adhemar - São Paulo, 12/10/2009]

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

São eles!


Que dizer dos três camaradas mais legais que eu conheço?

Chamar ao primeiro de criança chega a parecer um desaforo. Sujeito manso, dezenove anos de tranquilidade, daquele jeitão que só se altera quando joga mal o nosso tricolor (anda então muito agitado por estes dias!). É um ouvinte atento e paciente e suas reações vão se fazendo notar sutilmente ao longo do tempo. Um futuro jornalista que se chama também Adhemar - Adhemar Juan.

Chamar ao segundo de criança chega a parecer gozação. Apesar dos quase quinze anos, uma forma de pensar muito madura se manifesta na maior parte do tempo. Uma atenção constante e ponderada o faz uma espécie de maestro que tem sobre os outros (inclusive muitos adultos) uma inegável ascendência. O nosso doutor em assuntos de informática que se chama Marco Luiz.

Chamar ao terceiro de criança pode parecer apropriado. Por causa dos seus nove anos, de brincar e agir como criança que ainda naturalmente é. Mas já demonstra conhecimento e atitudes que o distinguem nesse momento da infância que antecede a adolescência. Um sujeito atento e interessado, ligado, ao mundo, antenado, que faz de jogar futebol seu passatempo predileto. Nosso pequeno grande homem, Vítor Samuel.

Não esqueçam do agasalho!
Tenham juízo, comportem-se.
Sejam educados, não façam nada que os envergonhe.
Já escovaram os dentes?

Beijão do papai pra vocês, Nossa Senhora os abençoe e proteja.

P/ AJ, ML e VS
[Adhemar - São Paulo, 12/10/1009]

São eles...

Os meus três melhores amigos, mais bacana ainda do que ser pai deles.

Adh, 12/10/2009.

domingo, 11 de outubro de 2009

Renovação B


É preciso sempre recomeçar,
passar a limpo e revisar.
A idéia mal expressa
será mal interpretada;
a ambiguidade terá sempre uma terceira via.
O herói será o vilão
e os vilões serão perdoados.

E lá estaremos a remontar a história,
como um grande vaso quebrado.
A cola de cada um
e a lembrança desse mesmo vaso
é que o fará ressurgir
- no máximo - remendado.
Seja com qual forma for
não passará de um amontoado de cacos
mais ou menos organizado.

E seremos os mesmos nós mesmos
a inventar justificativas
- burras ou criativas -
para fazer a história "colar".
Sejam os pedaços desse vaso,
sejam outros fastos esparsos.
E recomeçando, passando a limpo,
não esquecendo de revisar.

Nessa novela esquisita,
realinhando os personagens
e mudando a história no meio,
só para variar...

[Adhemar - São Paulo, 11/09/2005]

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

ANSIEDADE

O vento cíclico da pressa se abate sobre o vivente logo após um período bem vivido. Um período vivido de fato, com tempo para olhar coisa por coisa, observar calmamente a paisagem e aprender - revivendo - um pouco de história. Período de hiato na conturbada vida urbana. Período infelizmente finado, bruscamente interrompido para quem estava praticamente parado!

De volta ao malfadado cotidiano, pouco a pouco aceleramos o ritmo, quase imperceptivelmente. Quando nos damos conta, fomos colhidos no vento cíclico da pressa. Realizamos as tarefas como autômatos, nunca desafogando a pilha de coisas por fazer e sequer analisando se o que é feito é realmente necessário. Perdido o crivo crítico, estamos totalmente engolidos pelo ciclone apelidado de vida moderna. Não prestamos mais atenção aos filhos, aos fatos, à conquista do campeonato, ao disse-que-disse, quem foi que disse, por que é que disse. Esquecemos de telefonar pra mãe, de visitar a vó e de dar um oi aos amigos. O trabalho se avoluma, o dinheiro escasseia e um abraço pra quem fica.

Nesse ponto os nervos já estão em frangalhos, o cérebro cansado e as reações automáticas. O sono já não repousa, ignoramos dores físicas e morais. Muitos sucumbem nessa fase. Um coração estourado, aneurisma, acidente de carro. Parar?! Só esticado no próprio velório. "Tão bom, coitado, tão dedicado..." Que nada! Era só mais um idiota estressado! Um ideal de vida esquecido, uma luta obstinada por nada. Esquecido dos pés no riacho, esquecido do céu estrelado; esquecido o sorriso sincero, a graça de um momento de convívio... Presente nessa lembrança torturante só mesmo a covardia de não fazer nada para mudar a própria história...

[Adhemar - São Paulo, 15/08/2006]

domingo, 4 de outubro de 2009

ABANDONO

Nas canções que eu canto
tu me lembras sempre;
pra secar teu pranto
eu fiquei ausente...

Também,
não te escrevo mais!
Qual sentido tem
querer-te e ter paz...?

Também,
qual é o meu caminho?
Quis ter-te comigo
e fiquei sozinho...

O caminho vai
muito além dos cantos,
das canções que canto
pra secar meu pranto...

(p/ BSF)
[Adhemar - São Paulo, 30/09/1987]

Acolhida...

Postado no "Duelos Literários" em 30/09/2009.

sábado, 3 de outubro de 2009

Soneto para adiante


No indevassável adiante estás ausente,
na bruma espessa do incerto tu sumiste.
Na minha busca inconsolável e inconstante
tua imagem em meu coração insiste.

Em cada verso mais alegre ou no mais triste,
tua presença é tão certa quão vibrante.
E nessa lida ilusória ainda existe
a esperança eterna e tão arfante.

E no soneto mal composto e embaraçante
o coração que está orando não desiste;
vai além olhando a estrela mais brilhante.

Silencioso em seu torpor inebriante,
pensa em voltar ao primeiro onde tu o viste
e te encontrar no indevassável adiante!

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 30/09/1987]

Soneto... para trás?!

Quando achei este texto me veio a mesma sensação que tive logo após escrevê-lo: "fui traído por minha memória e acabei reproduzindo algum soneto dos nossos grandes poetas clássicos..." (há uma anotação ao lado do rascunho mandando verificar). Por via das dúvidas, resolvi reler alguns (obedecendo ao meu próprio conselho), desde o Barroco - Gregório de Matos - passando pelo Classicismo - Cláudio Manoel da Costa e Thomás Antonio Gonzaga. Não deixei de fora os Românticos - Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela, Casemiro de Abreu e Castro Alves - nem o Parnasiano - Olavo Bilac. Foi um prazeroso reencontro. Posso dizer que não encontrei nada semelhante embora não possa negar a influência ou a canhestra intenção de imitá-los. Eu, que não sou de gostar muito da maioria do que escrevo, me atrevo a confessar que é meu escrito predileto. Mas, se alguém identificar algo parecido, por favor, me avise enviando o escrito e o nome do autor. No entanto, se por acaso fui eu mesmo que produzi isso aí, dá licença...

Adhemaisconvencidoimpossível! São Paulo, 03/10/2009.