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sábado, 24 de outubro de 2009

INGRATO

A minha rosa morreu;
morreu, murchou e secou.
No vaso permaneceu
enquanto a ilusão durou.

Descuido, desleixo? Talvez.
Mas longe eu fui, viajei,
procurar a cura da embriaguez
que, aliás, não encontrei.

E a rosa ficou sozinha
enquanto eu tentava espalhar
saudades de uma agonia
onde quer que pudesse passar.

Deixei-a abandonada
e degustei o dissabor...
Só eu poderia cuidá-la
como não cuidei do amor.

Frustrado, há tanto tempo voltei,
sem ter conseguido espalhar,
nos lugares onde passei,
a saudade que vem me calar.

Sem ter conseguido esquecer
o que agora ainda importa,
continuando a amar e sofrer
pela rosa que ora está morta.

Frustrado, arranco do vaso,
o talo seco que restou.
Chorando, constato arrasado
a raiz que ela criou...

O pirata acusou o vaso
- tão bem tratado e cuidado -
de infecundo e mordaz descaso;
um pirata claramente emocionado...

A rosa criara raiz
e o pirata descuidado
sepultou-a no seu país
junto ao amor, lado a lado.

Pirata não tem país,
nem terra, bandeira ou amém.
Pirata não tem passado,
nem futuro também.

Aporta em qualquer canto,
viaja por anos a fio.
Cantando leva espanto
e alma ao seu navio.

Pirata infeliz? Talvez.
Só não conseguiu esquecer
que não haverá outra vez
para a rosa do amor reviver...

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 16/05/1988]

2 comentários:

uai, mundo? disse...

Sua poesia é arrebatadora. Dá até uma vontade de virar uma espécie de pirata do bem e singrar mares nunca dantes navegados. Adorei! Abraço, paz e e bem.

Adh2bs disse...

Comentário por Selma Barcellos — segunda-feira, 26 de outubro de 2009 (20:29:24)
Pirata não tem país,
nem terra, bandeira ou amém.
Pirata não tem passado,
nem futuro também.
Redondinho.
Beijocas.