domingo, 27 de dezembro de 2009

"QUANTA"


No conforto de casa, na acomodação, a vida passa - aparentemente - mais devagar. Até os pássaros vistos da janela parecem parados no céu. Até o sol que entra pela mesma janela nos deixa aquecidos por um interminável instante. E me deparo com a incrível teoria de um estranho, de que o tempo não existe: não existe! Ironia ou revelação? Tento convencer os meus cabelos brancos da simpática teoria. Tento imaginar o espaço, único e monodimensional; tudo ao mesmo tempo agora! A suprema revelação: todas as decisões podendo ser reformuladas, tudo podendo ser revivido de forma alternativa, mais aporfeiçoada - quem sabe? E o verdadeiro dilema ético: arrepender-se ou não, de tudo, ou nada?! e optar por não voltar atrás; ser pretensamente original e viver a própria vida uma vez só, evoluindo e transformando cada ação num eterno momento presente - consciente - conspirando para que a matéria da qual somos feitos mais a energia que atraímos e acumulamos retorne, ou melhor, se transforme em algo cada vez mais interessante; ou, pelo menos, mais útil.

Digamos não às vidas paralelas, àquilo que poderíamos ter sido.

Digamos sim ao que somos e ao que seremos nessa estranha inexistência do tempo!

[Adhemar - São Paulo, 11/08/2005]

NATAL, 2006

Texto escrito em 2005 (aproveitado como cartão de natal em 2006) sobre as considerações de um físico indiano, Amit Goswami, de que o espaço, a matéria e o tempo só existem na nossa consciência. Acho que não entendi bem o que ele quis dizer - talvez sendo até melhor do que se tivesse entendido - porque meu QI de pedra de um maldito materialista custa a admitir a hipótese, por mais fascinante que pareça. E o assunto ainda me intriga, a ponto de, vez por outra, mergulhar nele de novo...

Adhemar, 27/12/2009.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Cavernas aparentes


Sobre a última saída paira uma bruma vermelha; uma luz estranhamente difusa se confundindo ao ocaso. Na linha do horizonte, uma cara alaranjada espiando a noite chegar. No plano azul esverdeado desse oceano de fim de tarde, a sombra da montanha em cujo ventre há um caminho. Há um caminho mais do que evidente cortando atalhos, levando a minas de preciosas coleções: carvão e diamantes, opostos tão parentes!

Pela última saída, os avisos sobre o perigo da chuva vermelha que leva consigo muito da essência desse ventre. Tanto carbono, tanto hidrogênio que talvez desse para fabricar gente! Tanta química e biologia num simples buraco sem fundo, num simples mistério oculto...

Da luz da bruma vermelha se apagando com a noite, a escura certeza desses veios ricos e silenciosos, tentadores e desafiantes. Carvão, carbono, caverna. Audácia, temores e vida pelo duto da montanha opressora, repleta de diamantes e de escuridão.

[Adhemar - São Paulo, 31/07/2008]

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

NATIVIDADE


Não importa muito como é que cada um vê ou sente o Natal. Na verdade, o mais importante é a lembrança dos significados implícitos que ele comporta, independentemente da crença de cada um. Há que se entender que o Natal tem um significado apenas simbólico do nascimento de Jesus. O filho de Deus? Um importante profeta? Um grande educador? uma referência atemporal - um exemplo de vida - para além de sua própria existência?

O que precisamos fazer é aproveitar a época de tradicional congraçamento para refletir um pouco sobre nós mesmos e o nosso papel diante de tudo o que os grandes mestres tentaram nos ensinar. Aproveitar a alegria do momento para aperfeiçoar nosso modo de vida, de abraçar com generosidade a idéia de ser mais solidário e mais humano. E não apenas por esses dias, mas por todo o próximo ano!

[Adhemar - São Paulo, 24/12/2009]

FELIZ NATAL

A todos àqueles que acreditam em alguma coisa maior e mais abrangente do que a si próprios; dentre tantos, àqueles que, com sua generosidade e paciência passam por aqui com seus olhos e palavras amigas: um grande e afetuoso abraço acompanhado dos melhores votos de BOAS FESTAS; que a Paz a Alegria e o Congraçamento sejam plenos! Luz e Energia a todos!!!

Adhemar, 24/12/2009.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Deslocamento

Interdependência de movimento.
Sincronização à gosto.
Passos combinados.
Rumos definidos, metros contados.
Ação conjunta no momento.

Um abraço - interdependência de ação.
Movimento simetricamente oposto
em mútua direção.
Resultado de certo afeto
ou de falsa afetação,
representando energia,
carregando baterias de longa duração.

Diferentes pontos ocupados
- ao longo do tempo -
improvisação.
Os trajetos em mapas errados
pedem outra marcação.

Nem bagagem, nem transporte,
nem companhia ou alimento.
Interdependência da sorte,
da carona em caminhão,
indo de encontro ao destino;
ou dele mesmo fugindo
rumo aos futuros possíveis
ou pra onde eles estão...

[Adhemar - Ibiúna, 27/10/2009]

Desencontramento!

E mais um dezembro apressado me atropela; mudou o computador de casa, mudaram os do escritório... Daí o mês fica meio banguela. Mas logo virá a saudação tradicional que todo ano me prometo deixar pra mais cedo e todo ano fica pro em cima da hora! Abraço,

Adhemar - 23/12/2009.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Evasiva

O que acontece neste coração?
O que acontece?!
Qual será o motivo dessa aflição?
O que te parece?!

Estendida a mão, está escuro...
Se for uma doença
não será o caminho mais puro
tomar consciência...?

Mas o que parece não é o que se pensa.
E nem se pretende
que este sentimento faça nascer descrença.
A gente se entende.

Abandonar a guarda, encarar de frente.
O que é ilusão?!
Quem é esse indigente
mendigando esmola do teu coração?!

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 17/09/1987]

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

POETISA DESPERTA

Andava então o talento adormecido,
esse que ora vemos tão desperto?
Foste ter à Terra que com tantos espíritos por perto,
faz do teu verso mais recôndito, aparecido.

Imagino-te na praia a declamar
em altos brados a tua bela poesia.
Pousam quietos os pássaros, cala-se o mar,
para te ouvirem com enlevo e alegria.

Calam-se os humanos a esperar
que saia um guia mais que emocionado
dessa tua mente abençoada e atenta.

Molham-se nossos olhos a chorar
Um pranto que nos tem irrigado
da felicidade com que tu nos alimenta!


P/ Selma Barcellos em www.tiaselma.com/2009/12/o-que-o-meu-mestre-mandar
Adhemar, São Paulo – 15/12/2009

sábado, 12 de dezembro de 2009

Meio de Minas

Ribeirão Vermelho, Perdões; Santana do Jacaré, Campo Belo. Santo Antonio do Amparo, Lavras, São João del Rey. Tiradentes, Prados, Itumirim. Tabocas, Conceição da Serra, Morro do Ferro.

Eita, trem bão sô!

Tanta história incutida, tanta riqueza lavrada. Arte Sacra, barrôca, arquitetura colonial. Sítios chácaras e fazendas, cavalos, gado, cafezais. Os horizontes estendidos - longe. O sol reavivando o verde das matas. Os pássaros cantando e o tempo, simplesmente passando.

Pode parecer meio piegas ou puramente banal. Mas é um novo contato com a vida, com brasileiros falando português corretamente e zelando, de certa forma, por tradições e pela história. Fora uns abnegados que a gente encontra por aqui, resgatando práticas de integração e respeito à natureza, produzindo coisas tão boas que uma porção de estrangeiros - de todo o mundo - admira e faz questão de comprar aqui. Muita capacidade, muita diligência e um baita sossego ao fazer, gostando de fazer e achando tempo de receber acolhendo os embasbacados turistas dos grandes centros urbanos ditos "civilizados"...

Por aqui faz sentido a frase "o Brasil não conhece o Brasil"; e pior, os brasileiros não conhecem os brasileiros...!

[Adhemar - Santo Antonio do Amparo, 14/07/2006]

Caminhos

Parece que foi ontem que estivemos nessa região do interiorzão de Minas Gerais. Quão gostoso é ouvir a língua pátria ser falada devagar, todas as letras de cada palavra sendo pronunciadas! Não só porisso mas é bom que se diga, este país tem jeito! Há muita gente que vive na simplicidade do lidar com a terra, aliada às novas tendências do "ecologicamente correto", "alimentação natureba" e outras bossas. A diferença é que fazem isso a séculos, sem precisar "aprender" na televisão; esses modismos de hoje foram inventados por quem passou lá, achou o óbvio bacana e resolveu adotar como "way of life" nos grandes centros - pra faturar algum em cima, é claro.

Não sou daqueles que acha que a solução pro mundo é a gente voltar pras cavernas. Mas que precisamos simplificar nossas vidas... Ah, precisamos!

Adhemar - 12/12/2009.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Inquebrável


Diante de um espírito superior apenas devemos prestar atenção a atmosfera; um espírito superior cerca-se da sabedoria que concentra. Observar e aprender a partir dos seus mínimos gestos, do seu modo de olhar. Um espírito superior não usa os seus circunstantes, mas os abraça e os faz pensar. Nunca se apressa na sua infinita paciência de esperar e, ora é velho, ora é criança em sua busca intensa de aproximação e semelhança.

Com um espírito superior a gente nunca é obrigado a concordar, sempre há margem para uma controvérsia, sempre há tempo para falar pensando antes. Um espírito superior também aprende, também brinca e se diverte; é sempre atento, se for preciso chama a nossa atenção, estimula a reflexão e traduz uma filosofia. Um amigo. Um espírito superior nos acalenta e incentiva, nos provoca e nos questiona.

Um espírito superior é um abrigo, um porto de atracação tranquila, um ídolo, um exemplo, um auxílio, um alimento, um motivo; um motivo pra gente querer ser melhor.

P/ NBS - um espírito superior
[Adhemar - Santo André, 15/12/2008]

Terreiro rico!

E por falar em espírito superior, hoje faz anos minha tia Norah. Não se preocupe tia, não vou dizer que são 78, sou discreto! Irmã mais velha de minha mãe (NBS - por acaso), matriarca do clã dos Sanna que já foi cantado neste blog em prosa e verso. Como os bons vinhos, só faz melhorar com o tempo. Muito aprendi ouvindo-a quando era apenas um aborrecente, depois moço, depois pai novo... Nem os braços-de-ferro que esporadicamente travamos no campo da política deixam de mostrar algo que a gente não viu, ou não apreendeu em todo o seu significado. Muita paz e saúde pra aguentar a gente, tia! Parabéns e beijão!

Adhemar, 06/12/2009.

sábado, 5 de dezembro de 2009

FUSÃO

O coração solitário tem saudade.
Tem saudade da antiga pureza
que foi perdendo no tempo.
Hoje, amargo e egoísta,
depara-se com o enorme muro vermelho;
sem espontaneidade para transpô-lo
e nem coragem para enfrentá-lo.
Susto após susto,
na insana atividade de se recalcar,
o coração solitário sente a explosão iminente.
Preso em si mesmo, desespera e chora
vendo através do pequeno orifício da cela
o sol ardente e redentor
a cobrar com seus raios o seu prórpio resgate.

O coração solitário,
pouco a pouco desbotando,
empalidece até quase a transparência da morte.
Vai se dissolvendo no remorso,
de tanto sofrimento.
E se funde na infinitesimal poeira cósmica
do seu cárcere.

[Adhemar - São Paulo, 17/02/1988]

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Garoa

Uma chuva fina e contínua se derrama.
Alguém reclama.
Tantos pensamentos molhados,
umidecidos, mofados,
numa interação com ventos frios,
alguém enregelado.

Uma chuva fina e contínua,
olhos arregalados,
como se coubesse um pouco mais de espanto.
Tantos pensamentos molhados,
falsos objetivos,
um calor necessário e desejado.

Uma chuva fina e contínua
de pensamentos afobados.
Alguém reclama
sem conseguir segurar os destinos,
uma sorte que se trama.
Um pensamento centrado,
chuva fria de adeus,
menos um drama.

[Adhemar - Ibiúna, 27/10/2009]