domingo, 31 de janeiro de 2010

Representação


Fingi que não sabia escrever.
Insatisfeito, escondi os meios - papel, caneta e lápis.
Insatisfeito, fingi emburrecer.
Insatisfeito, fingi ser feliz.

Fingi que não tinha comporomisso com isso.
As palavras, fingi esquecer.
Fingi um fingimento esquisito,
fingi sorrir, fingi sofrer.

Fingi abandonar certas idéias;
fingi abraçar causas improváveis.
Fingi provar certas idéias velhas
e conhecer terrenos insondáveis.

De tanto fingir eu me perdi
e me acostumei à máscara do espelho.
De tanto fingir eu me esqueci
de como era azul o vermelho.

Insatisfeito de tanto fingir
pensei que era feliz de verdade;
e falsamente eu me feri
nessa fantasiosa realidade...

[Adhemar - São Paulo, 07/10/2009]

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

TRIO

Ana, Luiz e João.
Ela, uma quarentona;
Eles ainda na mão,
no colo, no mimo.

Ana, Luiz e João.
Coragem, audácia, intenção.
Ela, batalhadora;
dos dois é um aprendendo
e outro é ainda um cagão.

Ana, Luiz e João.
Ela é minha maninha,
xodó do coração.
Eles, os meus sobrinhos,
meu afilhado e o irmão.

Ana, Luiz e João.
Um trio mais do que especial
e que eu amo de paixão.

[Adhemar - São Paulo, 18/01/2010]

Trinca

Texto escrito dez dias atrás para minha irmãzinha, Ana Clara, um ser humano gigante. Casou tarde, teve os dois filhos, separou cedo... Publicado hoje, aniversário de João Gabriel, o caçula, um aninho! Meu afilhado, o Luiz Maurício, fez três anos em dezembro, são os caçulinhas da frota! Um grande beijo aos três, especialmente ao aniversariante!!!

Adhemar, 28/01/2010.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Eloquência engasgada

Muitas vezes eu não quero dizer nada e as pessoas me interpretam; noutras vezes, quando eu digo tudo do mais fundo de mim mesmo, ou não me entendem, ou me ignoram...

Agora, me vejo diante dos impasses: deixo a barba crescer? Mudo de emprego? Vou à Veneza?

Então eu improviso meu discurso certo de que as pessoas vão ouvir e aplaudir. Mas ninguém quer escutá-lo... Fico só. De repente, imerso em quietude e silêncio, escuto o arfar de expectativa da platéia; uma multidão a me cercar aguardando uma esmola de palavra que talvez eu nem venha a proferir!

Envolto em minha própria confusão, paro e escrevo. Tudo vai ali vomitadamente impresso em meu desleixo ansioso e meio aflito, de libertar tanta besteira aprisionada na forma de verso ou prosa. E no mais recôndito guardado as pessoas me pedem, querem ver, ler e ouvir minha profunda filosofia feita de nada. Nesse quando, até a mais infame das piadas ganha um sentido altissonante.

Surpreendido, escrevo então a sério, desenvolvendo minhas teorias... Torcem-se os narizes, afastam-se os mais fanáticos fantásticos, já desinteressados. Chego a óbvia conclusão que a gente só acerta quando é totalmente espontâneo, ingenuamente natural e sempre sincero. Disfarçou - se deu mal.

[Adhemar - São Paulo, 08/01/2010]

Engasgo eloquente

Fui apanhado de surpresa com a reprodução de um escrito no blog de minha amiga Selma Barcellos por estes dias; uns dias atrás, Gaby utilizou uma resposta em verso que lhe fizera no seu blog para seu perfil no Orkut (acho...). Resolvi postar o escrito (antes dos eventos citados) acima porque realmente me surpreende a repercussão de algumas coisas. E falo no assunto por absoluta falta de modéstia, supremo paradoxo, pois apesar de encabulado, fico por demais envaidecido. Voz de falsete: "acho que aprenderei a conviver com esta súbita fama que o sucesso carrega, espalhando minhas palavras que se pretendem menos sábias do que divertidas; que acalentem o coração dos leitores e lhes provoque um sorriso; que os faça balançar a cabeça e possam dizer ao final da leitura - este Adhemar tem cada uma..."

Adhemodesto, 27/01/2010

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

BRICOLAGEM

Num pedaço do espaço
a tampa da estampa
compõe um compasso.

Da palha, palhaço,
da roça, carroça,
do osso, caroço!

Na espera do espelho,
a jóia, o joelho
e o mesmo mormaço.

Do chá, a chaleira,
em cada cadeira
um amor-tecedor!

Da teia à cadeia
que prende e aprende
na rede ao redor.

E o sol é somente
aquele aquecedor...

Os pés, as pessoas,
o bem e as boas,
a paz - pasmaceira...

Inquieta quietude,
ato - atitude -
na doença e na dor.

Por fim, finalmente,
a letra, a palavra,
o tempo do tema
num terno poema,
eterno, de amor.

[Adhemar - São Paulo, 11/07/2009]

domingo, 17 de janeiro de 2010

ESPIRAL

A horas tantas
carregar o espasmo,
a liga da receita,
a massa e o entusiasmo.

Ah! horas tontas,
onde andar na procissão
é carregar o andor,
a cruz e o pão.

Demoras longas,
caminhar na ponte,
o parque, o lago;
e a sorte a espreitar de longe.

Destino fato,
como a vivência acerta!
Romântica, incurável
e praticante com a mente aberta.

Dizeres prontos
comunicados de maneira estranha.
A mente torta,
pensamentos retos com malícia e manha.

E guerras sanhas,
fortes poderes natos,
guerreiros breves e solenes
acinzentando os gatos...

Em terras santas,
a comboiar seu gado,
pastoreando almas em filas indianas,
todas de um só lado.

E a horas tantas
retornar do espanto,
tourear a calma,
entoar seu canto...

[Adhemar - São Caetano do Sul / Santo André, 19/05/2005]

sábado, 16 de janeiro de 2010

ES-TI-LHA-ÇOS

Um impulso domina.
Vem do fundo, anima.
Desatrelado,
puxa pensamento e mais pensamento,
tudo tão profundo,
não vai sobrar nada.
Sinto-me explodindo,
viro mil pedaços
mas há alguém que pode reconstruir tudo;
reunindo leve todos os fragmentos.
Trabalho difícil,
mesmo impossível,
mas há uma chance viva,
sinto que ela existe.
É como um impulso,
não sei se imagino.
Baseado nela, respirando fundo,
nas mais fundas forças me buscando,
me levanto, me animo.
Ainda que em pedaços,
ainda que explodindo.

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 17/09/1987]

F-R-A-G-M-E-N-T-O-S

Há um texto chamado Frag-men-tos, postado em 26/07/2009 que ocasionou agora a mudança do título deste, pouco menos antigo. No texto, nova inversão, onde está fragmentos era estilhaços. Enfim, coisa desta inteligência multi-facetada, falou, falou, falou e não disse nada!

Adhemar, 16/01/2010.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Fogo e aventura

De uma hora para outra resolvi assumir uma parte obscura de minha macheza: enfrentar uma churrasqueira! A começar pelo aquecimento - ou as preliminares: um exercício de pernas, braços e dedos, conferência geral dos instrumentos e limpeza dos apetrechos.

É bom que se diga, na manhã que antecede o crime já houve a incursão na padaria e no açougue, com nosso ar altivamente entendido escolhendo pães, linguiça, carne e carvão!

De volta ao lugar do evento, a seleção do material de apoio: assadeiras, bandejas, sal grosso, fósforos, meio pão, álcool ou óleo de cozinha; estes últimos para invocar a proteção divina e acender o fogo. Os rituais de preparação prosseguem desde o jogar as carnes no sal ou vice-versa, até o caprichoso arranjo do carvão - vegetal - no centro da churrasqueira que, ante nosso olhar compenetrado e sério parecerá a própria pira olímpica esperando a tocha que antecede aos jogos!

Uma vez posto fogo no verdadeiro templo de carvão armado ao centro da churraqueira, as atenções voltam-se para as carnes já cortadas ou não em seu banho de sal grosso - talvez para escapar do azar de serem maltratadas por um aventureiro qualquer metido a artífice de churrascaria... Furar as linguiças para que o calor da batalha lhes aqueça as intimidades e drene parte de suas gorduras que realimentarão o próprio fogo que as doura.

Finalmente, após uns quatro ou cinco copos de cerveja - porque ninguém é de ferro e o calor da responsabilidade é intenso - colocar a mercadoria nas grelhas, nos espetos; entre um gole e outro ir inventando as mais tresloucadas teorias porque, churrasqueiro que se preza tem a mesma natureza de um verdadeiro pescador!

[Adhemar - São Paulo, 01/01/2010]

sábado, 9 de janeiro de 2010

SIMPLICIDADE

.
Cada fato, cada movimento,
como roupa estendida no varal
secando ao vento do sentimento,
acima do bem e do mal.

Cada gesto de entendimento -
como cantar no banheiro - é normal,
soprando pro esquecimento
o premeditado ato banal...

Notícia, entretenimento,
perdida no mesmo jornal
que embrulha o bom argumento
num envoltório formal.

Negócio, contrato, fomento,
comida, bebida, água mineral;
destilados, munição, alimento,
fome sobrenatural.

Pecado e julgamento,
exposição do lado animal.
Sentença: o banimento
pro espaço sideral.

E o universo, desatento,
asila essa alma imortal...

[Adhemar - São Paulo, 13/07/2008]

domingo, 3 de janeiro de 2010

NOITES

.
Alma aflita -
reflita.

Alma irmã -
sã.

Alma, reflexo da lua,
nua,
reverso do espelho -
vermelho.

Alma iluminada -
tratada.

Filosófica definição de interior,
superior.

Alma descansada -
sentada.

Alma curiosa -
laboriosa.

Alma.
Espírito das madrugadas -
calma.

Espírito das luzes,
das trevas,
da transparência,
das névoas...

Alma esperançosa,
vitoriosa.

Alma manhã -
prateada,
aurora anunciada.

Pólo do sentimento,
das atitudes...
Depositária fiel das virtudes.

Alma religião.
Mão.

Diáspora sim/não,
tola fraqueza,
sábia decisão.

Alma preocupada?
Calada.

Alma,
serena e eterna.

[Adhemar - São Paulo, 30/07/2000]

sábado, 2 de janeiro de 2010

Extravagância refrescante

Eis-me aqui,
me apresentando e me expondo
eu me confundo;
vencendo uma timidez
tão sem sentido...

Eis-me aqui.
Vencido mas nunca me entregando
mesmo que não seja
e mesmo que não veja
o que não vi.

Eis-me aqui,
reclamando, conclamando
e declamando
palavras aleatórias
dos versos que perdi.

Eis-me aqui
mais uma vez me procurando
numa ausência,
num vazio,
num fraquejo...

Enquanto isso,
a vida vai passando
e eu, altivo,
inderrotável,
sempre aqui.

Eis-me aqui
tal como sou,
com sol, com chuva,
como Neruda,
confesso que vivi.

Eis-me aqui.
Libertando uns versos
e fazendo diferenças
que ‘inda não percebi:
esparsos restos...

Nem criminoso, nem confesso;
nem perverso, nem vilão;
nem perfeito, nem bufão.
Apenas um ser vivente,
diferente e... Igual!

[Adhemar – São Paulo, 11/07/2009]

BAÚ

Neste solitário abrigo,
neste solar tão preservado quanto antigo
estão guardadas as mais antigas lembranças.
É num quarto bem fechado
mas se faz hora da limpeza.
Emoções presentes
que outras não temos guardadas similar...
Ao olhar as ultrapassadas auto-defesas,
que não servem mais pra nada;
tantas poesias desperdiçadas,
isto é,
despedaçadas na inclemente ação do tempo.
Recordações misturadas.
Tudo desarrumado neste solitário abrigo,
ora aberto para resgatar o que é inútil
e dar lugar à tralha nova;
novas emoções,
novas poesias e, quem sabe,
até o lindo momento erigido
ao profundo e inesperado sentimento novo.

[Adhemar - São Paulo, 28/08/1988]

Baú aberto

Publicado no "Duelos Literários" para o tema de dezembro/2009.