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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Toc, toc, visita!


Venha de lá um abraço
pra apertar essa saudade velha!
E a família, a parentada?
Na toadinha de sempre?
E a comida apimentada,
ainda te faz correr de repente?

Venha de lá; e as notícias?
Tudo está como antes?
E os amigos, os vizinhos?
Todos estão sozinhos
ou continuam comediantes?

E o Fulano? Morreu?!
Que coisa triste, não diga!
E aquela tal, sua amiga?
Casou, viajou, enricou?
E o seu Zé do boteco,
que batizava a cachaça,
fazia drinque de treco!

Venha de lá mais uma,
pelo menos uma cervejinha.
Ah, já não bebe - o doutor?!
Mas que receita mesquinha!!!
É o coração? É o amor?
Ou a malvada da Cidinha?

Venha de lá um água,
pra tomar esse comprimido...
O quê?! Me viu, relembrou...?
Ou só ficou deprimido?
É só saudade da turma,
da escola, do circo, do amigo!

Valeu, leve de cá um abraço,
foi bom te rever, volte sempre.
Abrace a todos por mim
com muito alarde e estrépito.
Tudo de bom pra você
e mais uma coisa, ah! Sim:
vê se troca de médico...

[Adhemar - São Paulo, 09/12/2009]

domingo, 21 de fevereiro de 2010

DYB


Por estes dias estou encerrando um ciclo; despeço-me de um amigo silencioso e econômico que me acompanhou aonde inventei de ir nesses três últimos anos. Aliás, me carregou. Não reclamou, não pediu mais do que um pouco de alimento - de quando em quando. Ingrato que sou, deixei nele alguns arranhões, um hematoma, além de uns esforços desnecessários - ainda que esporádicos - resultantes do meu mau humor eventual. Na sua infinita (?) compreensão de coisa - sabe que não sou apegado a objetos - prepara-se para missões talvez bem mais úteis do que me transportar. Além disso, sua passagem para outro companheiro de jornadas se presta a um propósito maior na vida deste seu primeiro dono: se livrar de um carnê com vinte e quatro páginas a vencer ainda e guardar a diferença dessas economias advindas de sua venda para empregar num projeto particular próximo.

Sim, pessoal, vendi um amigo por uns dinheiros aí. "Uno amigo que vale por Mille".

[Adhemar - 05/02/2010]

FIAT cinza

Para a multinacional italiana, esta vai de graça...

Realmente acho que os objetos estão aí para serem usados; passado o tempo em que precisamos deles, "adieu". Confesso que gosto do carrinho comprado novo em 2007, realmente silencioso, econômico, disciplinado (?!)... E bonitinho! Vai agora conduzir outras pessoas por outros caminhos; espero que fiquem satisfeitas como fiquei. Doravante, pelo menos até maio, este modesto (pfff!) escriba se locomoverá sobre os próprios pés, de ônibus, metrô - quiçá táxis - aviões e trens. Gôndolas? Acho que não.

Adhemar, 05/02/2010.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

ANTIORAÇÃO


Deus me livre e guarde
do rancor, da angústia,
- antes que seja tarde -
e da antiga renúncia.

Deus me proteja e aguarde
uma penitência breve
desse pecado que arde
merecendo pena leve.

Deus me ajude e socorra
nessa aflição tão urgente
e que me benza, antes que eu morra,
ou melhore daqui pra frente.

Deus me acompanhe - e me ature -
na Sua infinita afeição,
pois afinal, me segure,
sou Seu filho de criação...!

Deus me perdoe - também -
essa irreverência rasteira
na Sua bondade - amém -
desculpando esta brincadeira!

[Adhemar - Ibiúna, 27/10/2009]

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Deveres


Antigamente - ou de vez em quando -
uma história definia uma palavra.
Raramente - ou de vez em quando -
uma palavra identificava a história.

Uma palavra era motivo
para uma intensa reflexão.
Ou uma história era pretexto
pra se escolher uma palavra
que a representasse por ser fora do contexto.

Mistérios da criação?
Falta do que fazer?
Há quem considere essa história
de palavras, de escrever,
como pura vagabundagem:
assumo-me vagabundo então.

Hiatos de tempo preenchidos
com alguma imaginação.
Verborréia desvairada
ou desabafo intempestivo
como solene obrigação.

Versos quebrados, sem rimas,
sonoridade perdida por tradição.
Palavras se misturando,
critérios indistinguíveis,
moleza e afobação.

Uma oportunidade,
uma boca livre,
lápis e papel na mão.
Um acaso qualquer vira assunto,
um assunto qualquer, ocasião.

Aos trancos, barrancos e engasgos
desabam textos de montão.
Papéis cansados, aos rasgos,
contendo tanta bobeira,
tanta filosofia de balcão...

Até que chega o momento:
seca o fluxo, o exagero.
O vagabundo levanta, boceja,
abre os braços, se espreguiça.
Relê distraído o produto
que saiu de sua cabeça;
faz um muxôxo, despreza,
estala a língua na boca;
dá uma volta na praça
e só mesmo por muita pirraça
guarda o delírio no bolso...

[Adhemar - Ibiúna, 27/10/2009]

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

NAVEGANTE


Coisas bonitas,
palavras bonitas,
alegria;
conjunções sol, céu e mar.
Isto é o momento presente,
presença constante e otimista
de um crescente bem estar.

Bem estar íntimo e pessoal,
ter os pés firmes
nas decisões finais.
Não sofrer
e nem chorar coisas banais
guardando em si toda a energia pra viver.
Enchendo os pulmões de ar,
sorrindo e agilizando os sinais
de tempos pacíficos e bons.
Aclamando alguns ideais
e sossegando idéias dispersivas.

Realinhada a estratégia de vida
sopram ventos reais
nas velas erguidas.
Alinhado o rumo,
tudo bem,
vamos lá.

[Adhemar - Aracaju, 29/01/1988]

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Cinzas


Quando fui Carnaval
tu eras destaque,
tu eras cabrocha
e porta-estandarte.

Quando fui Carnaval
tu eras menina,
tu eras confete
e a Colombina.

Quando fui Carnaval
e tu serpentina,
tu eras a festa,
o samba e a rima.

Quando fui Carnaval
tu eras a fantasia,
tu eras a música,
desfile e alegria.

Agora sou quarta ranzinza
deixando a cidade
tão quieta e vazia;
tu és só saudade...

[Adhemar - São Paulo, 13/07/2008]

sábado, 13 de fevereiro de 2010

TEMPESTADE

Furacão, tovelinho;
pensamentos rodopiando.
Num tornado, redemoinho,
o cérebro dilacerando.

O coração aceso,
um ciclone incendiando.
Mais de um pensamento preso
e o vendaval vai aumentando.

Nem bonança, nem bom tempo.
Apenas destruição.
Perdão e consentimento
confortando o coração.

Um lampejo, um momento
e três minutos de atenção.
Alma, amor, sentimento
e muita disposição;
Fôlego, ar e alento,
vai começar a reconstrução.

[Adhemar - São Paulo, 10/08/2005]

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Inumeráveis suspeitos


Ruídos abafados.
Murmúrios, suspiros.
Silêncios improvisados,
pânico, tiros.

Uma briga asséptica,
sangue lento em rios.
Na tragédia uma estética,
sem lógica, sem desafios.

No dia seguinte, a polícia,
o velório,
a notícia;
é o desconhecido notório.

E inumeráveis sujeitos,
desentendidos,
candidatos a suspeitos,
mocinhos, bandidos...

No dia seguinte ao seguinte,
simplesmente,
o esquecimento.

[Adhemar - São Paulo, 11/07/2009]

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

PANCADARIA


Ultimamente tenho andado nervoso demais. Não que de ordinário eu seja calmo, um mar de tranquilidade, mas não chego a ser um sujeito agitado. No entanto tenho destratado, tenho pentelhado, proferido excessivos e longos discursos à guisa de sermão, desfiado um rosário de palavrões ou expressões grotescamente grosseiras, enfim, uma merda (olha aí...). E as idéias então?! Umas maluquices que não me passavam pela cachola nem quando era adolescente (e outras que só), tipo abrir caminho aos trancos, ser o primeiro pra tudo ignorando os mais velhos (pouca gente a esta altura), os mais jovens, as senhoras gestantes; derrubar portas a pontapés, gritar por qualquer coisa e por nada, arrumar briga, atropelar, matar, retornar pra conferir e repassar por cima outra vez, preferencialmente com requintes de crueldade!

Jogar tudo pra cima, sair por aí à esmo, comer porcaria, cuspir no chão, andar nu em qualquer lugar (seria um espetáculo e tanto), vadiar, cantar de madrugada e vender poesia em cruzamento. Deixar a barba crescer, deixar o cabelo crescer também (já que não dá pra deixar pretejar) e levantar a perna pra coçar... Ao invés de escrever declamar, improvisar, não pensar muito pra não doer. Tudo isso até cansar, parar num canto qualquer, deitar e adormecer.

[Adhemar - São Paulo, 30/01/2010]

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Chuva de sal


A ausência do mesmo pensamento
me fez ver que não havia sol.
O frio e a tristeza matinais
condiziam com a ausência maior.

Quando o sol resolveu aparecer,
a saudade era maior.
Ligados ao pensamento,
o sol, você e o desaparecimento.

A memória nublada de lágrimas.

* * *

O coração vai ocupado
rumo ao sul do equador.
Onde pelo sol for alcançado
estará alimentado de amor.

O tempo vai ficar nublado
e as rimas em desvalor.
Ainda assim orientado,
o acompanhará o calor.

Calor mais que interiorizado
e que cauteriza uma dor.
O coração que se julgava experiente...

Pois de outra feita foi martirizado,
transformou-se num ótimo cantor;
e assim tranquilo, ao teu lado vai contente...

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 02/08/1987]