Pesquisar este blog

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

INSONE


Não há como ir dormir.
Por que, se este dia acabar,
sei que vou te perder.
Perder para não prender.
Prender para cativar,
como queria a raposa (*).

Se este dia acabar
só me resta esperar que o sol volte,
para te iluminar.
Imaginar que o teu rosto dourado
é o que vai me restar.

Enquanto as nuvens não se dissiparem
a tempestade não vai passar.
Mas acontece que as nuvens são brancas,
você ainda está aqui, o céu está azul
e é tudo tão colorido
que a tempestade não parece iminente.

Mas ela é tão assustadora e presente
que nem os pardais cantam mais.
As palavras vão fugindo da mente
e a minha mão fica muda;
você desaparece lentamente
e não é rapto, nem fuga...

Até que um novo dia surja,
na tua ausência, o frio.
O sol de vez em quando aparece
para nos lembrar
que está pairando sempre
acima das nuvens...

O sol é maior, tal e qual a nossa vontade;
o sol que é nosso símbolo e que está tão ligado a nós...
Será sempre presente, mesmo nos dias chuvosos.
Distante, mas quente e soberano
como um belo sentimento recém-nascido,
mas que vai se por, sepultado...


(*) Referência ao livro "O pequeno príncipe" de Antoine Saint-Exupéry

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 31/07 a 02/08/1987]

domingo, 29 de agosto de 2010

Gaveta

Hoje, pela primeira vez
é a última vez que contemplo o teu retrato.
Desdobrei aquele teu recado de amor
num papel perfumado.
E rasguei sem reler,
pela primeira vez sendo a última vez,
sem coragem de queimá-lo.
O pó da folha seca de flor eu soprei
pois fui eu que te dei
e você devolveu.
A corrente e o anel,
o colar e o chapéu
e um chaveiro de camelô...
E o bilhete da sorte do realejo do rei
eu nem sei o que diz.
Fiz questão de lembrar de esquecer quão feliz
a gente acha que foi.
Não te expulso daqui
- só agora lembrei -
este lugar é o teu.
Vou voltar por caminhos
do mundo onde errei
até te encontrar outra vez.

[Adhemar - São Paulo, 06/07/2010]

sábado, 28 de agosto de 2010

AO PORTADOR


Nos contrastes pode-se encontrar algumas semelhanças. Contraste, encontro: palavras parentes. Na dessemelhança há uma certa parecença; nativa, arraigada e pontual. Nas igualdades acham-se diferenças, ocultas ou bem procuradas mas presentes.

Quem tem coragem esconde a covardia de não ter medo; os intrépidos só o são com certa prudência, como a saciedade dos famintos. Ao menos há o consolo de se chorar magoado. Grandes ódios abafados pelo amor do inimigo.

Malas pesadas pelas culpas e pelas vísceras reviradas de um enjôo assentado por uma solução básica - mas amarga! Erros e acertos compensados pelo fracasso chamado de experiência. Sucesso, então, aos empreendimentos errados.

Consumir os produtos vencidos antes do prazo de invalidade; escolher-se - compulsoriamente - os piores aspectos da feiúra enfeitada, disfarçada em beleza, em atitude ativamente desligada.

[Adhemar - São Paulo, 17/08/2005]

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Um troço


Dois passos,
dois braços.
Um esboço sincero,
um abraço.
Pra que mais?

Um amigo,
um traço.
Dois traços,
projeto.
Um sujeito,
objeto,
direto.

Um hiato,
um prato vazio.
Um tijolo.
O ar,
o gato,
o miolo.

O trigo,
o pão,
dois pedaços.
Um pano,
um rasgo,
dois trapos;
fiapos,
engasgo,
garganta.

Um nó,
duas lágrimas,
dó.
Solidão...
Um vazio,
dois vazios,
outro nó.

A história,
a lembrança,
a memória.
O mapa,
o rumo,
o desvio num tapa.

Coração,
dois pedaços.
E o pó...

[Adhemar - São Paulo, 07/01/2010]

domingo, 22 de agosto de 2010

RUMORES


Não dê ouvidos aos boatos,
ignore os murmúrios,
feche-se para as fofocas;
desconte os "teatros",
fique acima do burburinho,
afaste-se das potocas.

Preste muita atenção
às noticias mais sérias
e às defesas de tese.
Considere a informação
de fontes não deletérias,
fidedignas, que se preze.

Passe ao largo das mentiras,
deixe pra lá a história
em que só se crê por favores.
Mas afine as suas antenas
e prepare a memória
para guardar os rumores.

[Adhemar - Santo André, 13/10/2008]

sábado, 21 de agosto de 2010

Alagamento


No encontro dos reflexos há um brilho;
cor indefinível,
talvez azul, talvez sei lá.
Um fundo branco, um vapor,
uma voz mal colorida,
uma emoção,
uma natureza já sem vida.

No encontro dos reflexos há um mundo em dimensão
sem medida dos anseios,
na espera,
na explosão disforme
onde o brilho acende e refulge sem razão,
sem esperança
e não conforme.

No encontro dos reflexos...
Avaliado um pequeno instante
em que os olhos tímidos,
recolhidos da visão,
abaixam um piscar
na sagrada presença:
o coração.

No encontro dos reflexos, o desencontro permanente.
A busca intensa da intenção coroada em pensamentos
nos caminhos, nos desvios,
na órbita da sensibilidade,
na trajetória da proteção;
na proteção dos sentimentos
e da presença em permanência...

No encontro dos reflexos,
todas as lágrimas das lembranças
que se tem derramado em profusão...

[Adhemar - São Paulo, 16/10/1987]

domingo, 15 de agosto de 2010

HÉRNIAS

No ôco, no toco, no baixo;
no acho, no chute, no louco.
Maluco, eunuco, riacho:
diabo, diacho, é pouco!

Rouco acenando co's braços,
no aço brilhando inteiro.
Nos intervalos, espaços,
no risco, caneta tinteiro.

Breves claros chiados.
Arroubos ufanos diários
dos cavaleiros montados,
corcéis, alazões, relicários.

Fogo, pedras e paus.
Olhares esguios e maus.
No ôco do espaço cabeça,
no pronto pro que aconteça.

No tronco, na bronca, na rua,
o encontro, a palavra e a fé;
na íntima mentira mais nua,
a vítima segue em pé.

Na rima, no clima, no fato,
compasso de sol e de notas
descalças ou com o sapato
caminham pra fora das rotas...

Janelas, janeiros e contras,
pilantras, malandros, janotas,
encantos que, feitas as contas,
são istmos, pedras, ilhotas.

Desperto do devaneio
o poeta lê seu delírio.
Acende no cérebro um círio
e apaga uma idéia no meio...

[Adhemar - São Paulo, 02/05/2006]

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Cidade em foco

Um desarranjo,
um céu meio cinza e nebuloso,
um calor meio nervoso
e alguém tocando banjo.

Um ranger de mola,
um trânsito do inferno,
muita gente de terno
e alguém numa viola.

Um meio chão,
ora terra, ora asfalto
onde ressoa o som do salto
e ao longe, um violão.

Uma bancada meio alta,
um pregoeiro, um sino;
os risos de um menino
ouvindo flauta.

Só livre meio táxi.
Um rubor de fim de tarde
bem no meio de um alarde
é alguém tocando um sax!

[Adhemar - São Paulo, 29/04/2010]

Cidade e música

No metrô da Espanha e da Itália também é muito comum ter gente tocando nos corredores ou nos vagões a troco de umas moedas. Como é dura a vida de artista ambulante...

Adh, 29/04/2010

domingo, 8 de agosto de 2010

ADHEMAR I (Adh1)

Uma intensa saudade perdura:
deste amigo ausente em plano físico.
Em questões éticas - morais -
sempre foi intransigente,
mil exemplos deu, ou talvez mais.

Apesar dos mapas era chegado a uma aventura.
Nunca se perdia e nos guiava.
Resgatar suas "faturas"
era tudo o que desejava;
e por isso, ele dizia,
é que trabalhava.

"Que faturas?"
Alguém perguntaria.
Era ver de cada filho a formatura,
ver seus filhos conquistarem ferramentas
para enfrentar o mundo;
ver cada um de nós mais preparado
do que ele próprio talvez tenha logrado.

Então,
rola uma lágrima de saudade
deste ser amigo e pai,
pai e amigo.
Enfatizou e ensinou-nos
o valor de uma família
e que tudo o mais importa pouco;
vai-se longe passo a passo.

Pai:
onde estiver, olhe por nós;
e vai daqui um grande abraço.

P/ Adhemar Agostinho de Souza (28/05/1934-07/06/2001)
[Adhemar - São Paulo, 28/05/2010]

Paiê

Dureza. Desculpa aí, o olho embaçou. Feliz dia dos Pais, quem não for pai é filho. Sendo filho e sendo pai afirmo: todo o dia é dia de louvar o seu. Abraço,

Adh2, 08/08/2010

sábado, 7 de agosto de 2010

Água-viva


Olhos vivos, penetrantes,
perturbadores em perfeita assimetria.
Expressão endurecida desde antes,
divertindo-se em perversa alegria.

Olhar atento e profundo,
perscrutador e pulsante
aterrorizando o mundo,
vigorosamente interessante.

Uma visão larga e abarcante
queimando o horizonte, resoluta.
De uma claridade ofuscante
e de uma precisão absoluta.

Uma vista que não hesita nem tateia.
É altamente fria e objetiva.
Enreda e aprisiona em sua teia,
acerta e ambiciona, bem precisa.

Um olho a girar pelo Universo,
sempre rodando em órbitas espirais.
Viajando e agarrando cada verso
e encarcerando cada um pra nunca mais...

[Adhemar - São Paulo, 07/01/2010]


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

FIGURA

Finalmente, parei pra pensar.
Não adiantou nada.
Uma imagem nítida,
congelada,
paralisava minhas ondas cerebrais.

Um trovão irrompe no silêncio
da noite da minha consciência.
Seu clarão iluminou a imagem,
então mais colorida.
Imagem bonita e viva.

Finalmente parei pra olhar:
a imagem se transformara
numa pessoa querida.

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 05/08/1987]

Parábola hiperbólica

A trajetória dos caroços de melancia intriga. Partem da boca, impulsionados por um ligeiro movimento dos lábios e descem certos no alvo visado. O que instiga nesse mistério é a função pedagógica ou psicológica que eles tem. A curva perfeita, a queda tão calma e a agradável sensação de poder sobre os minúsculos caroços de melancia.

Plantar melancia em si não é um fim. Mas o prazer da expulsão sistemática aliado ao gosto da fruta é inalienável. Assim, pode-se concluir de uma vez só que, comendo melancia, ninguém morde a língua.

[Adhemar - São Paulo, 05/08/1987]

domingo, 1 de agosto de 2010

SOSSEGO


Tenho a impressão que, bem devagar e aos poucos vou encontrando minha tribo. Cada vez mais irmãos e iguais encontrados nos lugares certos.

Lentamente vou despertando para minha verdadeira vocação: falar, falar, falar e falar. Discursos, proclamas, em voz alta ou por escrito; e vai ficando mais e mais difícil renegar essa vocação, sufocar essa verborréia desvairada.

Serenamente vai se formando na idéia o meu verdadeiro lugar. Um pé no mundo, outro na aldeia, a tribo e com o que trabalhar...

P/ meus amigos virtuais deste blog.
[Adhemar - São Paulo, 01/08/2006]

Inquietações

Texto escrito ano e meio antes de começar esse negócio de blog. Apesar de exatos 4 anos atrás - o texto - ainda não sei bem como vou materializar essa coisa de escrever virar profissão. Meu filho mais velho iniciou um blog que já virou site (http://www.futeboldeclasse.com.br); quem sabe aí o início embrionário para alguém das antigas também...

Adhemar, 01/08/2010.