Não há como ir dormir.
Por que, se este dia acabar,
sei que vou te perder.
Perder para não prender.
Prender para cativar,
como queria a raposa (*).
Se este dia acabar
só me resta esperar que o sol volte,
para te iluminar.
Imaginar que o teu rosto dourado
é o que vai me restar.
Enquanto as nuvens não se dissiparem
a tempestade não vai passar.
Mas acontece que as nuvens são brancas,
você ainda está aqui, o céu está azul
e é tudo tão colorido
que a tempestade não parece iminente.
Mas ela é tão assustadora e presente
que nem os pardais cantam mais.
As palavras vão fugindo da mente
e a minha mão fica muda;
você desaparece lentamente
e não é rapto, nem fuga...
Até que um novo dia surja,
na tua ausência, o frio.
O sol de vez em quando aparece
para nos lembrar
que está pairando sempre
acima das nuvens...
O sol é maior, tal e qual a nossa vontade;
o sol que é nosso símbolo e que está tão ligado a nós...
Será sempre presente, mesmo nos dias chuvosos.
Distante, mas quente e soberano
como um belo sentimento recém-nascido,
mas que vai se por, sepultado...
(*) Referência ao livro "O pequeno príncipe" de Antoine Saint-Exupéry
P/ BSF[Adhemar - São Paulo, 31/07 a 02/08/1987]