Parece incrível mas, há pouco tempo, estava com o que precisava em minhas mãos. Olhei, apalpei, cheirei... Fui informado que era meu, que me emprestariam, mas... Não poderia pegar. Teria que sair e voltar, pedir outra senha de novo e, esperar. Tudo porque uma lei, uma norma, uma burocracia elementar me impedia. E quem poderia entregar? Outro alguém bem ao lado, praticamente no mesmo lugar; menos graduado mas mais autorizado, enfim...
Parece incrível mas, quem eu chamei está. Porém não posso falar, há um limite ou tabela, escala pra organizar. Mesmo que organizar custe idas e vindas, esperas, delongas, papéis. Tudo para dizer o "indizível", desconto do que está escrito mas pode não ser!
Parece incrível mas, nesse lugar me disseram que o escrito não é bem assim. E, pasmem, quem me disse foi quem escreveu! E quando perguntei onde estava o remédio, afinal, a remissão oficial, o homem gaguejou, chamou por socorro, engasgou.
Parece incrível: o tempo passou e continuo no mesmo lugar esperando alguém me dar o que é meu e que já esteve comigo; que me digam se vale o escrito, qual escrito e o recibo; e se tudo isso valerá ou será alterado. Parece incrível que eu esteja aguardando tudo isso calado onde deveria explodir para me fazer ouvido.
Parece incrível porém, que outros que reclamam do mesmo também, na hora de se revoltar - do levante, do chute no balde, motim - estão todos impedidos por outros compromissos, sei lá. Então, eu grito sozinho. E vem alguém me expulsar.
[Adhemar - Santo André, 03/03/2004]
Mais real do que a ficção
Escrito (exceto o trecho final) enquanto eu estava aguardando ser atendido (pela 2a. vez no mesmo dia) na prefeitura de um pujante município do Abc paulista, é tudo verdade. Fui esclarecer uma dúvida sobre um processo de aprovação de projeto; quem me atendeu tinha redigido o trecho da lei que suscitava dúvidas e, além de não ter reconhecido isso e não entender a própria redação, não podia me entregar o papel que pedia alterações (destinado ao autor do projeto) porque eu teria que entrar na fila de novo para que uma atendente pegasse o processo de novo e aí sim, o papel me seria entregue! Além de me sugerir para falar com outra pessoa sobre a mesma dúvida, só que não poderia ser nesse dia, teria que voltar outra vez porque "hoje não é o dia dela atender"... Logicamente furioso, mesmo contendo a baba e a vontade de estrangular o dito cujo, chamei pelo gerente da praça de atendimento - soltando fumaça pelas ventas - para que me esclarecesse quem fora o imbecil que ditara aquelas regras malucas. Diante de alguns tímidos protestos de outros munícipes que se juntavam ao meu clamor, fui convidado a me retirar do recinto acompanhado de dois seguranças solícitos e marombados que gentilmente sugeriram que eu fosse esfriar a cabeça no temporal que desabava lá fora.
Diga-se de passagem, poderia ter sido escrito em qualquer outra prefeitura deste pujante "florão da América", a qualquer tempo.
Adhenar, 27/02/2011.