domingo, 27 de fevereiro de 2011

PIADAS



Parece incrível mas, há pouco tempo, estava com o que precisava em minhas mãos. Olhei, apalpei, cheirei... Fui informado que era meu, que me emprestariam, mas... Não poderia pegar. Teria que sair e voltar, pedir outra senha de novo e, esperar. Tudo porque uma lei, uma norma, uma burocracia elementar me impedia. E quem poderia entregar? Outro alguém bem ao lado, praticamente no mesmo lugar; menos graduado mas mais autorizado, enfim...

Parece incrível mas, quem eu chamei está. Porém não posso falar, há um limite ou tabela, escala pra organizar. Mesmo que organizar custe idas e vindas, esperas, delongas, papéis. Tudo para dizer o "indizível", desconto do que está escrito mas pode não ser!

Parece incrível mas, nesse lugar me disseram que o escrito não é bem assim. E, pasmem, quem me disse foi quem escreveu! E quando perguntei onde estava o remédio, afinal, a remissão oficial, o homem gaguejou, chamou por socorro, engasgou.

Parece incrível: o tempo passou e continuo no mesmo lugar esperando alguém me dar o que é meu e que já esteve comigo; que me digam se vale o escrito, qual escrito e o recibo; e se tudo isso valerá ou será alterado. Parece incrível que eu esteja aguardando tudo isso calado onde deveria explodir para me fazer ouvido.

Parece incrível porém, que outros que reclamam do mesmo também, na hora de se revoltar - do levante, do chute no balde, motim - estão todos impedidos por outros compromissos, sei lá. Então, eu grito sozinho. E vem alguém me expulsar.

[Adhemar - Santo André, 03/03/2004]

Mais real do que a ficção

Escrito (exceto o trecho final) enquanto eu estava aguardando ser atendido (pela 2a. vez no mesmo dia) na prefeitura de um pujante município do Abc paulista, é tudo verdade. Fui esclarecer uma dúvida sobre um processo de aprovação de projeto; quem me atendeu tinha redigido o trecho da lei que suscitava dúvidas e, além de não ter reconhecido isso e não entender a própria redação, não podia me entregar o papel que pedia alterações (destinado ao autor do projeto) porque eu teria que entrar na fila de novo para que uma atendente pegasse o processo de novo e aí sim, o papel me seria entregue! Além de me sugerir para falar com outra pessoa sobre a mesma dúvida, só que não poderia ser nesse dia, teria que voltar outra vez porque "hoje não é o dia dela atender"... Logicamente furioso, mesmo contendo a baba e a vontade de estrangular o dito cujo, chamei pelo gerente da praça de atendimento - soltando fumaça pelas ventas - para que me esclarecesse quem fora o imbecil que ditara aquelas regras malucas. Diante de alguns tímidos protestos de outros munícipes que se juntavam ao meu clamor, fui convidado a me retirar do recinto acompanhado de dois seguranças solícitos e marombados que gentilmente sugeriram que eu fosse esfriar a cabeça no temporal que desabava lá fora.

Diga-se de passagem, poderia ter sido escrito em qualquer outra prefeitura deste pujante "florão da América", a qualquer tempo.

Adhenar, 27/02/2011.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

MAIS PASSOS

No rumoroso silêncio de um cinzento meio-dia...
Na alvoroçada tranquilidade da balançada uma hora;
o horizonte 'inda está longe,
a margem habitada 'inda está próxima.

No suave ondular da via rápida,
das nuvens, do céu, do ar
e das inúmeras pernas e mentes que não cansam...
Na expectativa discreta ou embasbacada;
um aguardar o sol, a luz, calor.

Nas imagens que somem aparecendo...
Nos espelhos da ilusão de ver à frente...
Na margem direita que vai ficando distante...
Nas imagens que vão aparecer sumindo;
nos espelhos quebrados de tantos cacos refletindo...

Nas cores vivas desbotando...
E tantos pés e mãos, que vão andando.
Na certeza do destino incerto,
no perto se aproximando...
No amor, na amizade e no até quando...
Num porto qualquer de rio...

O partir, o voltar,
tantas voltas por aí;
mas não em qualquer lugar.
Especificamente num aqui,
a alegria de estar!

[Adhemar - Rio da Prata (a bordo do "Silvia Ana"), entre Montevideo e Buenos Aires]


Interior do "Silvia Ana": turistas! (foto: SM)
Rio da Prata, saindo do porto de Montevideo (foto: Adh2bs)
Porto de Buenos Aires (foto: SM ou ML)
Porto de Buenos Aires, carros saindo da embarcação "Silvia Ana", vinda de Montevideo (foto: ML)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Uma versão de adeus

I

O tempo entrefechado,
o chão está molhado;
são as lágrimas do dia.
Traje cinza, despedida,
adiada enquanto se podia.

O ar está zangado,
o horizonte, emburrado.
É a cara da contrariedade
pelo adeus meio forçado
da saída da cidade.

O abraço meio frouxo,
os olhos estão roxos;
é por causa de chorar.
já que o adeus é obrigatório,
mesmo tristes, toca andar.

O vento é como um suspiro,
a chuva é como um retiro;
a partida é uma etapa a encarar.
De repente, esta despedida
seja apenas um "até já..."

II

Sempre andar para frente
atenta e altivamente
mas, olhando pra trás - de vez em quando.
Dar aquele passo adiante
mas, se despedindo, agradecendo.

Quem passou em nosso caminho,
propositalmente direitinho,
enviados pela obra desse acaso chamado Deus,
mercendo nosso respeito, nossa gratidão
e nossa promessa de retorno...

Sempre andar para frente
com um orgulhoso presente,
com um orgulhoso passado
na bagagem do coração:
obrigado y muchas gracias, Montevideo - Uruguay.

[Adhemar - Montevideo, 08/01/2011]


Placa do Estádio Centenário, Mvd (foto: ML)


































Estádio Centenário, Mvd, vista interna (foto: AJ)































Teatro Solis, Montevideo (foto: SM)
































Teatro Solis, Montevideo (foto: SM)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

MANCADAS



Já imitei o jeito esquisito de alguém falando, falando com esse alguém. Já falei mal de um povo estando no país dele! Já confundi em que ano estava o meu filho na escola, mas não foi por um, foi por três!!!

Já contei piada de português para um próprio. Já xinguei aparelho que não funcionava sem ter posto o fio na tomada! Já procurei a caixa de fósforos na geladeira e já os guardei lá aguma vez também. Falei de herança em velório de rico, pulei o muro de casa com a chave no bolso; cheguei atrasado em casamento - o que não seria tão grave se não fosse um dia atrasado. Já comi doce com forminha e tudo, comi enfeite de mesa pensando que era doce e já procurei a privada numa cozinha! E ainda bem que foi só isso...

Amarrei lata em rabo de gato, apertei campainha e corri; já peguei do bolo o maior pedaço e me servi antes dos outros! Já fechei guarda-chuva imaginário, fui pra casa de condução porque esqueci que estava de carro. Vestir meias de cores diferentes, então? Já nem considero mais...

Já pedi cafezinho em farmácia, ri muito alto na missa e já gargalhei num enterro. Mais de uma vez usei palavras equivocadas querendo dizer justamente o contrário. Já fingi que estava no ônibus errado pra não pagar a passagem!

Já dei comida aos animais no zoológico...

[Adhemar - São Paulo, 18/01/2011]

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Poente

Não é à toa que o olhar se perde no horizonte.
A noite nascendo do dia descendo atrás da linha.
A água ondulada onde um rio-mar se deita
e não à toa o olhar perdido se deleita...

Não é à toa que a gente anda à esmo em cada rua.
A cidade se abrindo, te sorrindo e acolhendo.
Poucos mistérios - se desvenda a cada esquina -
e se escondendo, languidamente, na cortina...

Não é à toa que o sol nasce e ilumina
essa água benfazeja em cada fonte.
A cidade se entrega pura e nua
e num enlace de amor ela se deita.

Não é à toa que a cidade nos abraça.
Cada recanto, monumento, cada praça.
Ela nos conta - calada - a sua história,
chora saudades, ri seus feitos pra quem a olha...

Não é à toa que o olhar se perde em sua fronte...

[Adhemar - Montevideo, 06/01/2011]

Puerta de la Ciudadela, Mvd (foto: Adh2)
























Rambla 25 de Mayo, Edif. do Governo - Ciudad Vieja, Mvd (foto: SM)



















Rambla Grã Bretaña, Mvd (foto: SM)