Pesquisar este blog

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Desaparição

Um mágico perverso,
um truque besta:
estalar os dedos,
balançar a capa
e sumir do mapa.

No chão, a cartola vazia.
Jogada, vadia,
sob a qual não há mais nada;
nem mesmo uma bravata,
sequer o nó da gravata...

Coelhos e pombos em fuga,
lenços de cor pelo chão.
A bengala abandonada,
a cartola amassada,
o número sem conclusão.

Até que o público vá embora,
exausto, intrigado, inibido.
Lá dentro, muito cansado,
num canto qualquer do circo,
suspira o mágico escondido.

[Adhemar - São Paulo, 06/10/2010]

terça-feira, 27 de setembro de 2011

ESQUECIMENTO

Moldura vazia.
Profunda como um abismo.
Dor aguda, corrosiva,
surda e subversiva
controvertida no ostracismo,
fome que não se sacia.

Na cor excessivamente viva,
rascante como um assovio;
peça mexida no jogo,
chama de luz, um fogo,
cera quente num pavio,
dor de úlcera, abrasiva.

Arca posta de canto,
verso triste, chorado,
vertendo mágoa dorida;
quadro de tela colorida,
ainda que bem guardado
é lenço molhado de pranto.

Nas mãos, um adeus, um momento.
Nos lábios o beijo dourado,
sonhado, inatingível.
Nas mãos, o adeus impossível
tendo o ar movimentado
num sopro perdido de vento.

No vácuo, o som do bordado,
do céu inteiro em azul.
O manto - que não se estenda -
mais tudo que a memória não lembra;
da luz que vem lá do sul
e do céu, inteirinho estrelado.

[Adhemar - São Paulo, 03/5/2011]