domingo, 9 de outubro de 2011

ÍNDICE

Acabei de tomar banho. Sensação boa de asseio e finalmente cheiroso depois de um dia de intenso trabalho. Meio vestido, sento na minha cama e me deparo com a pilha de livros que está sobre meu criado-mudo.

Antes de falar dos livros, vamos aos objetos que os acompanham: o movelzinho é quadrado, de madeira escura e os livros estão divididos em três montes. O quarto quadrante do tampo do criado-mudo é ocupado por um rádio-relógio-telefone que tem a idade do meu casamento (assim como o movelzinho). Logo atrás dele está o primeiro monte de livros (e o mais alto). No canto do fundo, onde as paredes do quarto fazem o "L", estão dois livros embaixo do abajur - na verdade uma luminária de mesa de escritório - de base quadrada e lâmpada dicróica que, apesar do pessoal pensar que é chique, dá choque e esquenta perigosamente quando está acesa. Na frente da luminária e ao lado do rádio relógio estão outros dois livros. No meio dos livros há um bloco velho com folhas em branco (melhor seria dizer em amarelo); afinal, nunca se sabe quando uma ideia vai nos acordar, por isso a caneta na gavetinha logo abaixo... Completando o conjunto, dois guias do convênio médico (*1) e um rádio de pilhas (*2) - sim, um desses que se leva ao futebol pra colar no ouvido - aninhado na base da luminária-abajur.

Eis o inventário desta mini-biblioteca (será que os livros mais próximos de um homem são capazes de revelá-lo? Desvendá-lo para além do mistério de ter os livros à mão ao invés de tê-los na estante junto com tantos outros títulos? Veremos!) ordenado de cima para baixo, por lugar ocupado na pilha, seguido por um breve comentário.

1) O Evangelho segundo Jesus Cristo (*3) - de José Saramago.
A ser lido ainda, sou fã do autor de quem já li "A caverna" e "Jangada de pedra". Leitura densa, difícil, mas adoro o jeito de escrever do autor português.

2) As mentiras que os homens contam (*4) - de Luís Fernando Veríssimo.
Simplesmente idolatro o autor, cronista de mão cheia. Os livros dele que li se contam à dezenas, inclusive este, preciso guardá-lo.

3) Uma breve história do mundo (*5) - de Geoffrey Blainey.
Este livro escrito pelo professor americano é sobre a evolução da humanidade, suas origens e seus movimentos na ocupação do planeta. Didático sem ser muito maçante, mas ainda estou no capítulo 2!

4) O Segredo (*6) - de Rhonda Byrne.
A autora australiana resolve "revelar" e transmitir um conhecimento ancestral capaz de transformar a vida da pessoa, se ela assim o desejar. Não é muito inédito, é? Lido até quase o fim, acho que eu devia terminar a leitura para ficar milionário.

5) Leite derramado - de Chico Buarque.
Sou fã do autor, já li "Estorvo" e "Budapeste" e duas biografias dele escritas por outras pessoas. Mas este é um livro chato, meu ídolo que me perdoe. Também não acabei de ler, estou antes da metade, e mais não digo!

6) O guia das curiosas (*7) - de Marcelo Duarte e Inês de Castro.
Opa! Este não é meu!!! Stella - que tem o criado-mudo mais congestionado que o meu - deve ter posto este livro aqui pra livrar espaço ou pra me testar. Mas eu juro pra vocês: só li a capa!!!!!

7) As confidências de Arsène Lupin (*8) - de Maurice Leblanc.
Ainda não tenho todos os livros sobre o famoso "Ladrão de Casaca", sem dúvida meu herói de infância, não superado nem pelo Tarzan de Burroughs. Acho que reli este livro umas cinquenta vezes; daqui uns dias estarei andando por um dos cenários de suas aventuras. Voilá!

8) Os caminhos de um pracinha (*9) - de Vicente Pedroso da Cruz.
Já li duas vezes, está aqui para ser relido outra vez. O Sr. Vicente é meu vizinho, esteve presente na IIª. guerra mundial com a FEB e conta a história de quem viu de dentro, de forma simples e objetiva, sem drama. Este é um dos meus heróis de carne e osso.

9) A literatura portuguesa através dos textos (*10) - de Massaud Moisés.
Livro dos meus tempos de escola, tem mais de trinta anos! Apanhei-o da estante para esclarecer umas dúvidas, tempos atrás. Apesar de capenga (capa soltando, folhas amareladas) é bonito, muito objetivo, dá uma ótima panorâmica sobre o assunto que trata.

10) O eu profundo e os outros eus (*10) - Fernando Pessoa (e seus heterônimos).
Tem a mesma idade de seu predecessor nesta lista, talvez seja um dos livros que me atraiu para a poesia. Sobre o poeta português e sua genialidade melancólica não há nada que eu possa dizer que já não se saiba...

11) Noções de literatura portuguesa (*10) - de Y. Fujiama.
Este livro foi de meu pai, está comigo por causa do meu interesse pelo assunto. Não o li mais que superficialmente e a maior curiosidade deste livro é que em nenhum lugar consta o prenome do autor de sobrenome japonês e cuja inicial é Y.

12) Antologia poética (*10) - de Vinícius de Moraes.
Ganhei de Stella quando a gente ainda namorava, em janeiro de 1989. Eu já conhecia o autor; vocês conhecem...?

13 e 14) Antologia da literatura brasileira, volumes I e II (*11) - de Antonio Medina Rodrigues, Dácio de Castro, Fernando dos Santos Costa e Ivan Teixeira.
Só um ano mais novo do que seu "colega" de literatura portuguesa. Fui aluno do primeiro dos autores citados quando fiz o cursinho, em 1981. Saíram da estante na conferência que me obriguei a fazer para ter certeza de que um soneto meu tinha sido escrito por mim! (À época, não resisti e "assaltei" a biblioteca de minha mãe e reli algus clássicos como Bilac, Castro Alves, Gonçalves Dias e companhia bela, além desses dois volumes didáticos). Virou, mexeu ainda os consulto por qualquer motivo.

15) Os Lusíadas - Luís de Camões.
Olha só, confesso: acho que inventei esta crônica só para falar desse livro! Primeiro, porque foi de meu pai; é uma edição antiga escrita em português original (?) - imagino que quase como o próprio Camões o redigiu... Se não foi em latim... Segundo, porque sobre ele meu pai estudou, a prova são inúmeras anotações feitas à lápis no próprio livro e outras tantas em papéis soltos dentro dele com a caligrafia miúda e elegante do meu velho. Um triste acidente sem data: a folha que contém as páginas 331 e 332 está rasgada, falta-lhes quase metade, cortando os versos do canto décimo - das estrofes 80 até 87.
A edição é repleta de notas explicativas e, apesar da idade do livro, está com bom aspecto. Ao entregá-lo a mim, minha mãe o pôs dentro de uma capa de couro marrom, menor do que o próprio o livro, mas que o protege bem. De quando em quando me pego a lê-lo, pequenos trechos que não consigo vencer porque me vejo examinando as anotações de meu pai; sobre figuras de linguagem, análise sintática, sinônimo dos vocábulos que não constam das notas, morfologia das palavras... E o meu pensamento transcende para aquele rapaz debruçado sobre o livro, talvez da mesma forma que eu esteja fazendo nos momentos em que o leio. Talvez - aquele rapaz d'antanho - divagando sobre a faculdade de direito que queria cursar e não o pode fazer por causa de dois décimos abaixo da nota mínima em latim. Talvez pensara que Camões o pudesse ajudar; quem sabe o ilustre português não tivesse escrito sua obra na língua-mãe...
Talvez estivesse pensando sobre se um dia tivesse um filho, esse indivíduo se debruçasse sobre o mesmo livro recordando o pai com um enorme carinho, cheio de saudade.
É ou não é uma edição muito rara?

Bem, meus amigos, é isso. Eis que uma lágrima pinga sobre esta folha como um ponto final neste inventário que se transformou numa recordação...

[Adhemar - São Paulo, 26/03/2010]

Índice revisado (*notas)

(*1) Atualmente esses guias médicos estão guardados em outro local.
(*2) Lamentavelmente, o radinho amarelo levou um tombo fatal e foi descartado, meses depois deste texto ser escrito.
(*3) Já lido e devidamente guardado, correspondeu a minha expectativa, mais do que deveria até.
(*4) Assertiva cumprida, guardei-o.
(*5) Continua na mesma, apesar que tirei o livro de lá e não sei onde está...
(*6) Continuo o mesmo pé-rapado de sempre, não terminei de ler e guardei assim mesmo, abrindo lugar.
(*7) Devolvido sem ler!
(*8) Guardei-o junto com os outros da coleção; não andei pelo cenário anunciado, não naquela época do texto, mas mais de um ano depois.
(*9) Relido e guardado, frequentemente encontro o autor em conversas sobre os tempos da grande guerra e outros, sobre o nosso Tricolor do Morumbi e sobre os filhos; ele tem duas filhas que criou praticamente sozinho, ao ficar viúvo quando elas eram pequenas.
(*10) Devidamente guardados. Embora ao Pessoa eu retorne amiúde.
(*11) Devidamente guardados, saíram de baixo da luminária.

Sobre esse texto escrito há mais de um ano e meio, cabe esta 2ª. edição revisada! Isto porque um surto de organização me fez guardar alguns dos livros elencados (conforme as notas numeradas). Sobre o movelzinho de canto - que eu deveria ter fotografado à época para mostrar o espanto dos quinze livros empilhados então - estão outros títulos. Além do velho bloco de folhas amareladas. Vejamos:

1) Florbela Espanca, poemas - de Maria Lúcia Dal Farra.
Biografia da poetisa portuguesa contendo seus poemas e célebres sonetos. Comprado num impulso do tipo oportunidade-preço-capricho, já estou além da metade. É... Fascinante!

2) Arcanjo Isabelito Salustiano e outras crônicas - de José Cláudio Adão.
Do meu amigo Cacá, do blog "Uai, mundo?", chegou ao topo da pilha: estou na iminência de começar a leitura.

3) Leite derramado - Chico Buarque.
Já cheguei na metade, continua chato, apesar de brilhantemente escrito.

4) Sabres e utopias - de Mario Vargas Llosa.
Ganhei de presente, a iniciar. Também sou fã do escritor peruano.

5) A cabana - de William P. Young.
Também ganhei, está na fila. Me disseram que a história é linda... A conferir.

6) A hospedeira - de Stephenie Meyer.
Não conheço a autora. Comprei no supermercado, tipo uma baciada. Ainda não li.

7) Os Lusíadas - Luís de Camões.
Cativo no lugar, livro de cabeceira...










Cabeceira (fotos: Adh2bs)

Adhemar, 09/10/2011.

Um comentário:

Adh2bs disse...

Sobre o texto, faltou acrescentar leituras da Internet! Já li três livros da Stefani Banhete, sendo que do último tenho uma cópia em arquivo gentilmente cedido por ela - "Rumo às estrelas". Todos são do tipo romance e aventura, muito bem engendrados pela autora.
Estou lendo atualmente mais dois: "É preciso ver os Anjos", de Bia Franco, no blog "drama na web". Uma história com muito suspense e lances dramáticos, eletrizante. E o outro é "Illegitimate", de Natália Smirnova, no blog "illegitimate novel". É uma história sobre pessoas... diferentes. Muito intrigante.
Abç,
Adh