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sábado, 19 de novembro de 2011

PERMEIO

Fixam os olhos um ponto no horizonte.
Firma-se a mão no apoio imaginário.
Pé-ante-pé, um passo arbitrário,
gotas de suor inundando a fronte.

Folha por folha forram o chão de outono,
o tear entrelaça fios vermelhos de tapetes
numa festa de serpentinas e confetes,
eleito um rei que é só festa e trono.

Tremem os olhos, no horizonte um ponto.
Tremem as mãos do imaginário apoio.
Tremem as águas, sobressaltando o arroio...
Treme o rei, desalentado e tonto.

Voam as águias, atentas presa à presa
e escondem-se delas os pequenos animais.
Esconde-se o tempo, que não volta atrás
e morre o vento, de lágrimas e tristeza.

Bem a tempo, o herói ressucita e levanta.
Forma uma banda, ensaia, toca e canta.
Recupera a um só tempo alegria, ânimo e vida,
tempera as tintas na tela colorida.

Acena ao céu, salva as águias e os bichinhos,
salva a flora, a fauna, a forma e a glória;
faz a fama, faz fortuna e faz história,
dá exemplos a bandidos e mocinhos.

Na doçura da existência e da alegria
realiza o herói um belo sonho:
com linda princesa contrai um matrimônio
e é um feliz casal, Herói e Utopia.

[Adhemar - S. Paulo, 12/03/2007]

De permeio, um belo pôr do sol que me mandaram.

Adhemar, 31/03/2008.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Bolhas de champagne

Sonhos... Ah! Os sonhos!
Esses doces devaneios,
preguiçosos veraneios
de ilusões, olhos tristonhos.

Um idealismo utópico,
dúvidas impossíveis;
um pensamento ilógico
com resultados incríveis!!!

Sonhos? Hoje teleguiados,
seguem a moda, a tendência;
pra satisfazer os mercados
e sem nenhuma inocência.

Que realismo mágico?
Que nada, que nada.
O desfecho tem que ser trágico;
e a notícia? Ilustrada.

Sonhos... Alguém ainda sonha?
Acho que é só pesadelo.
Depende da marca da fronha,
depende do balde de gelo...

[Adhemar - São Paulo, 08/06/2010]

terça-feira, 15 de novembro de 2011

CÃO-GUARDA

Por onde fores estarei atento
te precedendo ou te seguindo
adivinhando ou intuindo
cada teu movimento.

Onde pousares serei o entorno
te hospedando ou protegendo
aclamando ou elegendo
teu sossego sem transtorno.

Ao teu trabalho diligente
serei os meios, o equipamento,
o seu tempo, o seu momento
e teu manual permanente.

Quando dormires serei teu sonho
te acalentando ou cobrindo
te beijando ou sorrindo
do teu rosto sereno e risonho.

Quando acordares serei o dia
resplandecente e luminoso
te recebendo glorioso
para teu bem e alegria.

Por onde fores, por onde eu for
te idolatrando ou adorando
te divertindo ou consolando
será uma vigília de amor.

P/SM
[Adhemar - São Paulo, 13/07/2008]

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Resgate tardio

Folheando rascunhos, anotações esparsas,
quantas palavras cabem numa linha?
Quantos desenhos e rabiscos são comparsas?

Espaço em branco esperando
ou compondo o entorno das ideias errantes
nesse espaço desimportante abandonando...

Alguns versos, algumas frases, muitos traços.
Registros aleatórios dos pensamentos dispersos.
Toda uma obra nesse amontoado de esboços.

Pouca coisa faz sentido,
poucas causam alvoroço;
e muito imemorável assumido...

Comprometimento com a arte ou co'a verdade?
Nada disso. Apenas o aleatório escapulido
e sem compromisso, sem vaidade.

Na inútil salvação desse registro
vem poemas, vão projetos...
É melhor então parar com isso...

[Adhemar - São Paulo, 26/09/2010]

Sequestro

É com certa estranheza que percebo o Google avisando de mansinho que vai acabar com os blogs... Espero não ter entendido direito. Quem sobreviver verá...

Adhemar, 14/11/2011.

domingo, 13 de novembro de 2011

EXISTÊNCIA

Ser poeta é pensar poeticamente em tudo que se vê.
Ouvir o barulho dos pratos estilhaçando
e o tilintar dos talheres
caindo no chão e se espalhando.

Ser poeta é ocupar o pensamento
com todos os apelos visuais e sonoros
para transformá-los em versos
impressos a sangue, suor e outros fluidos.
É dizer o que se espera quebrando o esquema,
mudando o desenlace e improvisando o desfecho.
É fingir tão completamente que, como dizia Pessoa,
"chega a fingir que é dor a dor que deveras sente".
É ser tão verdadeiro nas mentiras
que a própria verdade se envergonhe de sua nudez e crueza.
É expor-se tão inacreditavelmente
que ninguém se atreva a invadir a sua publicidade.
É não fazer marketing, nem propaganda,
mas espalhar-se como o amor, boca a boca.
É ser, mais do que estar; é partir mais do que ficar;
é sentir, mais do que existir.

Ser poeta é complicar o resumo da história,
tirar da pedra a sua essência
e gritar na praia, mais alto do que o mar.
É ter areia nos olhos e, mesmo assim, enxergar;
abrir os braços ao vento como se fosse voar.
É voar em pensamento e, ao cair, se estatelar.
Ser viajante no universo,
mas tripulante ao invés de passageiro.
É eternizar cada instante, seja falso ou verdadeiro.
É deflagrar revoluções, andar pra trás pra avançar.
É pegar uma cadeira e se sentar;
é ter tudo diante de si, sobre a mesa, em frente a um papel branco.
É ficar tonto ante as palavras revoluteando em sua mente e desmaiar,
inédito de espanto.

[Adhemar - S. Paulo, 28/11/2004]

Ser poeta...

Escrito para fechar um pequeno opúsculo de lavra própria, chamado "Extemporal", dado de presente a amigos e parentes no Natal de 2004. Continha uma pequena seleção de textos e poesias escolhidos meio aleatoriamente, como a sequência de escritos que preenche este "blog".

Adhemar, 21/05/2008.

sábado, 12 de novembro de 2011

Todos os dias e hoje

Me levanto todos os dias repetindo o mesmo ritual: agradeço a Deus o privilégio e a benção de estar mais um dia neste mundo. Poder ver o sol ou a chuva, sentir calor ou frio... Fazer minha pequena parte para contribuir com alguma coisa aqui, mesmo que ninguém perceba, mesmo que ninguém retribua. Tenho aprendido a reconhecer as recompensas desde o menor sorriso que por acaso alguém me dirija, até a maior ofensa que alguém me faça; injusta ou não, agradeço a oportunidade de aprender. Descubro que não há, de fato, nenhum inimigo por aí. A gente é que rotula aqueles que pensam diferente da gente, ou pensam (e agem) como a gente não gosta; esquecemos que é problema deles, mas quando me lembro, me perdôo por ser tão intransigente e deixo pra lá. Claro que o orgulho conta... Mas não pode nos dominar até nos deixar infelizes por causa daqueles que a gente acha que querem nos prejudicar.

Tenho aprendido que a gente não consegue tudo o que quer, que Deus aparentemente nos "tira" coisas ou pessoas; na verdade, Ele apenas está ensinando algo pra nós e aos outros, se o tempo da coisa ou pessoa acabou, ela sai de nossa vida e pronto. Tenho aprendido a chorar essas perdas sem que elas doam tanto, afinal Ele sabe o que faz. Como pode ver, tenho aprendido a seguir meu caminho tentando entender - e respeitar - a divina justiça, tentando merecer cada abençoado novo dia de vida e aperfeiçoar o que sou, por pouco que possa parecer.

Ao final dessa oração diária, feita logo ao acordar, invoco outro "mantra" que tem me ajudado a atravessar até os dias mais difíceis: "hoje, nada vai me aborrecer". E sigo esse firme propósito até ir dormir outra vez.

Grande abraço,

Adh

Carta p/ Gaby em
http://gabysp.wordpress.com/2010/01/11/desistir-jamais/#comments

[Adhemar – São Paulo, 14/01/2010]

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

OI

Bom dia, bons dias
apesar da chuva fria.

Boa tarde, boas tardes
apesar do sol que arde.

Boa noite, boas noites
apesar do vento, o açoite...

Releve esta introdução,
excêntrica ou pedante
que não tem a intenção
de parar ou ir adiante.

Observe que apresentamos
os problemas com tudo junto
para que tempo não percamos
indo direto ao assunto.

Respeitosamente pedimos
com muita consideração
que leve em conta que abrimos
o nosso coração.

Em versos idos e vindos
pela porta que adentramos
trazendo os momentos lindos
que passamos.

Se mudam tamanhos, a métrica,
se muda o assunto, disperso,
ligamos a corrente elétrica
que volta a organizar o verso.

Por que é que aqui viemos?
Para lhe dar o prazer
de estar onde estivermos
e nos dar a conhecer.

Analise o documentos, o currículo;
mesmo criterioso e exigente,
um folhetim em fascículo
é a história da gente.

E o aqui ora presente,
depois de tanta prosápia,
sutilmente pressente
que será corrido a tapa.

Espero, até constrangido,
não ter estes versos ao vento;
e que tendo se divertido
não tenhas perdido tempo...

[Adhemar - São Paulo, 11/11/2004]

Ui

Este troço só está aqui por que foi escrito num 11/11. Não gosto deste texto, não sei porque o escrevi, não sei porque não tentei melhorá-lo. Desculpem.

Adhemar - temperamental! Em 11/11/2011.



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

PASSATEMPO

A mensagem subentendida nos surpreende
semi-oculta na paisagem e na atitude.
A atitude, conforme nos transforma em gente,
mais manifesta sua própria plenitude.

Através do espaço a mensagem se espalha
atingindo plena um enorme contingente;
pena que a maioria receptora se atrapalha
e nem a entende, infelizmente.

Porém, um potencial adormecido
em cada destinatário humano
pode processá-la e dar sentido
não deixando margem a engano.

Esse potencial é muito poderoso
e começa por filtrá-la na razão.
Interpretada faz o homem corajoso
pois termina por chegar ao coração.

Entendida a mensagem a gente cresce
e, unidos num propósito, damos as mãos.
Vamos fazer o mundo melhor do que parece
pois estaremos todos juntos, como irmãos.

[Adhemar - Santo André, 04/09/2006]

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Outros rumos

Freqüentemente eu me pergunto em que ponto é que a gente perde as rédeas do próprio destino. Qual é esse momento mágico - ou trágico - quando a gente começa a agir no embalo, através de impulsos forçados pelas circunstâncias. Quando é que começa a reflexão sobre nossos "deveres" e isso acaba justificando pra nós mesmos as nossas decisões; e quase todas contrárias ou em desacordo com as nossas mais profundas convicções.
Será ao final da infância? Será que é por isso que os adolescentes são tão rebeldes? Por que percebem a camisa-de-força que a família em particular e a sociedade em geral quer enfiar neles? Alguém consegue viver plenamente a seu modo no mundo de hoje? E antigamente? Alguém conseguia?
Digo isso porque estou assistindo a dois filmes distintos: os meus filhos tentando assimilar seus papéis sem saber que são papéis falsos - ou forçados - e querendo mergulhar nesse redemoinho devorador de personalidades e modelador de autômatos; e a minha própria história em que a maioria das ações empreendidas, mesmo as melhores, não passaram de uma fantasia, uma máscara ou um cenário estudado e justificado para parecer independente e original. De tudo o que sonhei fazer na adolescência, ou seja, de minhas aspirações mais autênticas, só realizei a família. Pode não ser pouco; mas todo o resto foi - e tem sido - uma categórica encenação perante a "comunidade". Mal consigo viver do que sei fazer, não chego a ser de fato escritor - como profissão - não sou professor e ainda por cima estrago o arquiteto (aspiração que considero legítima, mas que surgiu num improviso) administrando a mesquinha miudeza de um dia-a-dia inexpressivo, por vezes chato, direcionado a trocar uma suposta competência por uns poucos dinheiros. E me desespero porque não quero este tipo de angústia pros meus filhos, quando chegarem à idade em que estou, fazendo este tipo de questionamento para se conformar com a vida que levaram, criando justificativas do tipo "jogo do contente" e formatarem seu futuro nessa mesma base porque será muito tarde ou muito difícil e radical mudar de postura; e assimilarem a consciência de que assim será enquanto durarem neste mundo. Ou pior, se carregarem de culpa porque comem enquanto há tantos famintos.
Não quero parecer ingrato porque, apesar de tudo, a vida – Deus – foi muito generosa comigo. Apesar de estar reclamando eu tive, sempre, muita sorte. E isso me deixa preocupado pois – pelos privilégios e pela trajetória sem sobressaltos até agora – me sinto em dívida com o mundo. Devia realizar algo além das "obrigações" porque alguém tão abençoado não pode passar pela vida sem algo mais. Tudo bem que estão aí três seres humanos extraordinários para nos suceder; mas a vida, neste momento, me cobra mais. Porque posso mais. Mas como, se me sinto refém da própria história criada por mim para esse obscuro protagonista que sou eu?!
[Adhemar - Santo André, 19/09/2008]

domingo, 6 de novembro de 2011

ZERO-Z

Contrariando as expectativas,
desafiando a lógica,
nadando contra a corrente.
Andando na contramão,
se rebelando.

Liderando o motim,
vivendo na contravenção.
Clandestino, marginal,
se divertindo no caos.
Invertendo valores,
combatendo a velha moral;
derrapando na ética,
desenquadrando,
desestabelecendo.

Ironizando a seriedade,
desestabilizando geral.
Pegando estradas erradas,
atalhando fora da principal.
Vivendo por sortilégio,
planejando só o acaso.
Voltando ao começo no fim,
zerando a contagem,
bebendo à coragem,
escrevendo bobagem...

[Adhemar - São Paulo, 08/01/2010]

terça-feira, 1 de novembro de 2011

APUROS

Aí, começou outra vez. Resmungos, suspiros, reclamos. Poucas idéias, pouca ação... Olhar perdido pro nada. Cabeça oca. Resmungos, suspiros, reclamos. A monótona repetição. E o nada cruzando o nada, numa leve depressão. Que, em todo caso, é uma boa desculpa. Um surfista se afogando numa onda de chavões. Resmungos, suspiros, reclamos. Uma emboscada da mente. Um sequestro: qual o resgate pra inteligência embotada? Avisar a polícia? Não.

Silêncio. Luz. Olhar perdido pro nada. Indefinida sensação. O amor, o orgulho, a paixão. Tudo em segundo plano, numa média depressão. O quê? Isto é outra piada?! Não. É a comida fora do ponto, é nenhum lugar pra apoiar as mãos.

A inteligência sequestrada vai sucumbir no cativeiro. A dor de cabeça não. O espaço se expandindo? Cabe mais nada, portanto. O nada cruzando o nada, cabeça oca, inteligência sequestrada... Profunda depressão. É uma ótima desculpa, talvez mais que isso, excelente! E a mente chama o elefante, pequeno diante do nada, diante da pouca ação. O surfista se levantando, os chavões o derrubando. Resmungos, suspiros, reclamos. Dores particulares. A monótona repetição... E o elefante se lembrando!

[Adhemar - São Paulo, 01/11/2011]