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domingo, 13 de novembro de 2011

EXISTÊNCIA

Ser poeta é pensar poeticamente em tudo que se vê.
Ouvir o barulho dos pratos estilhaçando
e o tilintar dos talheres
caindo no chão e se espalhando.

Ser poeta é ocupar o pensamento
com todos os apelos visuais e sonoros
para transformá-los em versos
impressos a sangue, suor e outros fluidos.
É dizer o que se espera quebrando o esquema,
mudando o desenlace e improvisando o desfecho.
É fingir tão completamente que, como dizia Pessoa,
"chega a fingir que é dor a dor que deveras sente".
É ser tão verdadeiro nas mentiras
que a própria verdade se envergonhe de sua nudez e crueza.
É expor-se tão inacreditavelmente
que ninguém se atreva a invadir a sua publicidade.
É não fazer marketing, nem propaganda,
mas espalhar-se como o amor, boca a boca.
É ser, mais do que estar; é partir mais do que ficar;
é sentir, mais do que existir.

Ser poeta é complicar o resumo da história,
tirar da pedra a sua essência
e gritar na praia, mais alto do que o mar.
É ter areia nos olhos e, mesmo assim, enxergar;
abrir os braços ao vento como se fosse voar.
É voar em pensamento e, ao cair, se estatelar.
Ser viajante no universo,
mas tripulante ao invés de passageiro.
É eternizar cada instante, seja falso ou verdadeiro.
É deflagrar revoluções, andar pra trás pra avançar.
É pegar uma cadeira e se sentar;
é ter tudo diante de si, sobre a mesa, em frente a um papel branco.
É ficar tonto ante as palavras revoluteando em sua mente e desmaiar,
inédito de espanto.

[Adhemar - S. Paulo, 28/11/2004]

Ser poeta...

Escrito para fechar um pequeno opúsculo de lavra própria, chamado "Extemporal", dado de presente a amigos e parentes no Natal de 2004. Continha uma pequena seleção de textos e poesias escolhidos meio aleatoriamente, como a sequência de escritos que preenche este "blog".

Adhemar, 21/05/2008.

2 comentários:

Adh2bs disse...

PUBLICADO NO BLOG ORIGINAL EM 21/05/2008, recebeu o seguinte comentário do poeta José Luiz Vilar:
"Escrevo agora a mesma coisa que escrevo todas as vezes que leio os seus textos: Muito bom!
Gostei muito dos paradoxos e antíteses, pois além de representarem à vida contraditória de um poeta, são extremamente criativos. Não conheço bem o amor, mas estou impressionado com o seguinte trecho: '“É não fazer marketing, nem propaganda,
mas espalhar-se como o amor, boca a boca'.”
È como se o amor não fosse sentimento, ou seja, não perturba; não enlaça; é apenas algo carnal que se prolifera como uma doença, vai de boca em boca; não tem espírito, apenas corpo.
Realmente,
Ser poeta é ser amor,
È ser a própria doença,
É ser e ter a doença de escrever.
Uma doença que nos hospitaliza
E deixa-nos sugando o soro da nossa própria veia
Deitados em uma maca de vida,
Maca que se encontra dentro de um quarto isolado e escuro da parte misteriosa da nossa mente.
Adhemar. Muito obrigado! Você acabou de me fazer escrever um poema. Parabéns pelo seu, ele está muito bom."

Cacá - José Cláudio disse...

Na linha do comentário que me antecedeu, acho que ele afirma da negação e faz do aparente real, a negação. Tudo o que contraria a ordem natural das coisas é da alçada dos poetas, esses adoráveis doidivanas.

Maravilha, Adhemar! Um abraço e ótima semana.