Ser poeta é pensar poeticamente em tudo que se vê.
Ouvir o barulho dos pratos estilhaçando
e o tilintar dos talheres
caindo no chão e se espalhando.
Ser poeta é ocupar o pensamento
com todos os apelos visuais e sonoros
para transformá-los em versos
impressos a sangue, suor e outros fluidos.
É dizer o que se espera quebrando o esquema,
mudando o desenlace e improvisando o desfecho.
É fingir tão completamente que, como dizia Pessoa,
"chega a fingir que é dor a dor que deveras sente".
É ser tão verdadeiro nas mentiras
que a própria verdade se envergonhe de sua nudez e crueza.
É expor-se tão inacreditavelmente
que ninguém se atreva a invadir a sua publicidade.
É não fazer marketing, nem propaganda,
mas espalhar-se como o amor, boca a boca.
É ser, mais do que estar; é partir mais do que ficar;
é sentir, mais do que existir.
Ser poeta é complicar o resumo da história,
tirar da pedra a sua essência
e gritar na praia, mais alto do que o mar.
É ter areia nos olhos e, mesmo assim, enxergar;
abrir os braços ao vento como se fosse voar.
É voar em pensamento e, ao cair, se estatelar.
Ser viajante no universo,
mas tripulante ao invés de passageiro.
É eternizar cada instante, seja falso ou verdadeiro.
É deflagrar revoluções, andar pra trás pra avançar.
É pegar uma cadeira e se sentar;
é ter tudo diante de si, sobre a mesa, em frente a um papel branco.
É ficar tonto ante as palavras revoluteando em sua mente e desmaiar,
inédito de espanto.
[Adhemar - S. Paulo, 28/11/2004]
Ser poeta...
Escrito para fechar um pequeno opúsculo de lavra própria, chamado "Extemporal", dado de presente a amigos e parentes no Natal de 2004. Continha uma pequena seleção de textos e poesias escolhidos meio aleatoriamente, como a sequência de escritos que preenche este "blog".
Adhemar, 21/05/2008.
2 comentários:
PUBLICADO NO BLOG ORIGINAL EM 21/05/2008, recebeu o seguinte comentário do poeta José Luiz Vilar:
"Escrevo agora a mesma coisa que escrevo todas as vezes que leio os seus textos: Muito bom!
Gostei muito dos paradoxos e antíteses, pois além de representarem à vida contraditória de um poeta, são extremamente criativos. Não conheço bem o amor, mas estou impressionado com o seguinte trecho: 'É não fazer marketing, nem propaganda,
mas espalhar-se como o amor, boca a boca'.
È como se o amor não fosse sentimento, ou seja, não perturba; não enlaça; é apenas algo carnal que se prolifera como uma doença, vai de boca em boca; não tem espírito, apenas corpo.
Realmente,
Ser poeta é ser amor,
È ser a própria doença,
É ser e ter a doença de escrever.
Uma doença que nos hospitaliza
E deixa-nos sugando o soro da nossa própria veia
Deitados em uma maca de vida,
Maca que se encontra dentro de um quarto isolado e escuro da parte misteriosa da nossa mente.
Adhemar. Muito obrigado! Você acabou de me fazer escrever um poema. Parabéns pelo seu, ele está muito bom."
Na linha do comentário que me antecedeu, acho que ele afirma da negação e faz do aparente real, a negação. Tudo o que contraria a ordem natural das coisas é da alçada dos poetas, esses adoráveis doidivanas.
Maravilha, Adhemar! Um abraço e ótima semana.
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