segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Outros rumos

Freqüentemente eu me pergunto em que ponto é que a gente perde as rédeas do próprio destino. Qual é esse momento mágico - ou trágico - quando a gente começa a agir no embalo, através de impulsos forçados pelas circunstâncias. Quando é que começa a reflexão sobre nossos "deveres" e isso acaba justificando pra nós mesmos as nossas decisões; e quase todas contrárias ou em desacordo com as nossas mais profundas convicções.
Será ao final da infância? Será que é por isso que os adolescentes são tão rebeldes? Por que percebem a camisa-de-força que a família em particular e a sociedade em geral quer enfiar neles? Alguém consegue viver plenamente a seu modo no mundo de hoje? E antigamente? Alguém conseguia?
Digo isso porque estou assistindo a dois filmes distintos: os meus filhos tentando assimilar seus papéis sem saber que são papéis falsos - ou forçados - e querendo mergulhar nesse redemoinho devorador de personalidades e modelador de autômatos; e a minha própria história em que a maioria das ações empreendidas, mesmo as melhores, não passaram de uma fantasia, uma máscara ou um cenário estudado e justificado para parecer independente e original. De tudo o que sonhei fazer na adolescência, ou seja, de minhas aspirações mais autênticas, só realizei a família. Pode não ser pouco; mas todo o resto foi - e tem sido - uma categórica encenação perante a "comunidade". Mal consigo viver do que sei fazer, não chego a ser de fato escritor - como profissão - não sou professor e ainda por cima estrago o arquiteto (aspiração que considero legítima, mas que surgiu num improviso) administrando a mesquinha miudeza de um dia-a-dia inexpressivo, por vezes chato, direcionado a trocar uma suposta competência por uns poucos dinheiros. E me desespero porque não quero este tipo de angústia pros meus filhos, quando chegarem à idade em que estou, fazendo este tipo de questionamento para se conformar com a vida que levaram, criando justificativas do tipo "jogo do contente" e formatarem seu futuro nessa mesma base porque será muito tarde ou muito difícil e radical mudar de postura; e assimilarem a consciência de que assim será enquanto durarem neste mundo. Ou pior, se carregarem de culpa porque comem enquanto há tantos famintos.
Não quero parecer ingrato porque, apesar de tudo, a vida – Deus – foi muito generosa comigo. Apesar de estar reclamando eu tive, sempre, muita sorte. E isso me deixa preocupado pois – pelos privilégios e pela trajetória sem sobressaltos até agora – me sinto em dívida com o mundo. Devia realizar algo além das "obrigações" porque alguém tão abençoado não pode passar pela vida sem algo mais. Tudo bem que estão aí três seres humanos extraordinários para nos suceder; mas a vida, neste momento, me cobra mais. Porque posso mais. Mas como, se me sinto refém da própria história criada por mim para esse obscuro protagonista que sou eu?!
[Adhemar - Santo André, 19/09/2008]

3 comentários:

C@urosa disse...

Meu bom poeta amigo Adhemar, um texto profundo e generoso de um homem feliz e autêntico, a franqueza transpira pelo seus poros.Parabéns pelo belo texto.

forte abraço

c@urosa

Cacá - José Cláudio disse...

Olá, Adhemar!

Acho que somos reféns da história, sim, mas não tanto de nossa propria história e sim de uma corrente que nos arrasta para um lugar comum e ao tentarmos desgarrar dele, os elos quase nunca querem ir rompendo-se. Nem que fosse cada um para o lado que melhor lhe conviese e nem que fossem todos para o mesmo lado, porém autônomos (mas coesos). Isso é que dá certa angústia. Acho e acredito que a família é esta possibilidade que Deus nos legou para que nossos rebentos possam alterar os rumos das coisas e isso vejo que você conduziu com uma grande competência. Apraz muito.

Obrigado pelo apoio e solidariedade em minha perda e um grande abraço. Paz e bem.

tiaselma.com disse...

Você me emociona, Adhemar. Simples assim.

Beijocas.