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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

E não se fala mais nisso!

A poesia tem pernas curtas.
A inspiração é um surto que acomete o artista sempre em baixo do chuveiro.
Palavra sagrada, prosa enlevada.
O ar traduz todos os pensamentos; pena que é transparente.
O amor que importa transporta.
O beijo é uma espécie de telegrama; mas o resto da mensagem tem que ser entregue pessoalmente.
Deus está por aí mesmo; dê-Lhe um abraço, convide-O para um papo.
Até onde se saiba, a vida é uma só, mesmo.
Ponha em prática todas as suas teorias!

Feliz Ano Novo.

[Adhemar - São Paulo, 29/12/2011]

"Faísca", "Tarefa" e "Formatura"

Faísca

Relâmpago, cicatriz do céu.
De repente, iluminando uma existência
fútil e sem sentido.
De repente, tão importante.
Sentir falta do convívio
sem nunca ter convivido.

Nem alarmado, nem romântico.
Sentimental e sincero,
paixão repleta de ocultas dores.
Irresistível, porém,
só se sobrevive resistindo.
No maior dos sofrimentos,
continuar sorrindo.

E o desejo louco,
intuído pelo raio da tempestade,
lindo, louco e dolorido,
tanto mais aumenta quanto mais inibido.
Um irreprimível reprimido,
extenso então, sorrindo…

A tempestade agora já não tem relâmpago.
Tem apenas o âmago-coração do amor vivido.
Descoberto e curtido
o sentimento mais profundo
abre os braços e chora;
chora pedindo o mínimo momento do desejo contido.
Chora rezando pela alma do beijo perdido…

P/ SM
[Adhemar - São Paulo, 20/12/1988]

Facho

Com este, fechamos a “trilogia” de textos escritos nalgum dezembro perdido (vejam os outros dois, abaixo), para ilustrar os sentimentos díspares - para não dizer antagônicos - que me acometem sempre nesta época do ano. E aproveitar o ensejo para desejar a todos um Feliz 2009, que traga em seu bojo as realizações mais profundas ansiadas por cada um de vocês. Grande abraço!

Adhemar, 31/12/2008.

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TAREFA

O dom da vida nos foi dado
para o nosso aprimoramento;
buscar mais ajudar e participar
do que se beneficiar e assistir.

Acomodar a cabeça nos próprios braços
ou nos braços da amada;
acomodar os pensamentos no positivismo, na bondade
estar apto a receber metas para cumprir e viver.

Viver então de fato,
saber-se capaz de resolver, de assumir,
de liderar, de compreender.

Olhar para o adiante,
o azul, o infinito e o saber.
Concluir, além de toda a possibilidade
e… Viver!

[Adhemar - São Paulo, 23/12/2007]

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Formatura

Há uma foto entremeada num álbum. Especialmente essa foto traz recordações e lembranças que melhor ficariam se ignoradas. Não propriamente esquecidas: simplesmente ignoradas.

A foto mostra a mão serena, dedos queimados, segurando tranqüilamente uma folha de papel qualquer. Além disso, figura num dos dedos mais distantes da cicatriz no dorso, uma aliança dourada, de noivado. A gravata, o paletó e a camisa estabelecem uma elegância suspeita. Mas o rosto está tranqüilo, os olhos serenos e os cabelos emolduram esse rosto da maneira exata como deve ser. Porém, atrás dos olhos é que há um mistério, saudoso que ficou do antes daquele momento. E o estado de espírito presente nessa foto retrata um momento específico, muito particular e discreto; e as recordações que evoca referem-se a planos de vida e lindos sonhos que estão soterrados por uma avalanche de indiferença e indisposição.

O fruto criador, que do seu cerne dá a semente, está sêco. Mas como a semente “tem que morrer pra germinar”, vivemos por esperar e ver. Enquanto isso, fica o álbum fechado enquanto o rosto da foto mantém um indecifrável sorriso.

[Adhemar - São Paulo, 31/12/1987]

Retrato

Texto sobre uma foto do álbum da minha formatura da faculdade, ocorrida pouco mais de um ano antes. Essa época (final de ano) alterna o meu humor entre a alegria das festas, a melancolia do ficou pra trás e a expectativa otimista pelo futuro. A citação entre aspas é um verso de Gilberto Gil numa de suas mais lindas canções, chamada “Drão”.

Adhemar, 31/12/2008.

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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

SAUDAÇÕES

Passa o vento, passa a tempestade.
Passa o sonho, morre a ilusão.
Morre o olhar, distante e tristonho,
volta a esperança, saudade e coração.

Afoga a lágrima, cidade dolorida.
Forma colorida, efêmero balão.
Bolha de sabão, disforme, esvoaçante,
estoura adiante de vida e confusão.

Estrela radiante de brilho e alegoria.
Efêmera alegria, cinza de paixão.
Distante a mocidade, ciência já perdida,
confusa e dolorida, um facho de razão.

Passa o esculacho, a deixa insensata,
nata da loucura, velha maldição.
Ação da criatura, orgulho e vaidade,
especialidade, desgraça e perdição.

Perdido para o inferno, perdido na amargura,
riacho cristalino, turva situação.
Funda sepultura, devaneio interno,
onda de maré, sábia solução.

Permanecer ereto, sorrindo forte e em pé.
Manter a própria fé, sair renovação.
Saltar, lutar, seguir até onde bem vindo,
portal do paraíso, aqui neste mundão...

[Adhemar - São Paulo, 01/09/2011]

domingo, 25 de dezembro de 2011

Natal da Vó Júlia

Bichos saídos da casca. Louvores.
Saber da chuva só de olhar o céu.
Saber das plantas e conversar com elas.
Saber das crianças e todas as suas fases.
Conhecer o marido, as filhas, todos os netos. Os bisnetos. A tataraneta.
Louvores.
Os panetones feitos à mão,
o macarrão com nozes.
O arranjo de frutas.
Saber fazer das dificuldades uma alegria determinada.
Ensinar e aprender.
Montar o presépio, a árvore,
esperar de presente a genuína alegria das crianças -
bichos saídos da casca.
Lapidar uma jóia chamada família e agregá-la em torno de si até o último momento,
até o último suspiro;
fazer todos nós passarmos o último natal em torno dela
- como em todos os outros até então.
Um símbolo que se despediu mesmo na véspera de sua festa predileta.
Vai encontrar outros entes queridos já perdidos nessa outra esfera indecifrável,
certamente no paraíso;
próxima ao Deus pai.
Mãe, Vó, Tia, Bisa...

P/ Júlia Iandoli de Oliveira Braga (02/11/1914 - 24/12/2011)
[Adhemar - São Paulo, 25/12/2011]

Vó Júlia e Vô Luiz - Reveillon 2000-2001


domingo, 18 de dezembro de 2011

RETURNO

Em até tantas vezes cansado
sentei e esperei.
Esperei o cansaço ir embora,
esperei um sinal pra seguir.
Às vezes espero deitado,
em outras aguardo em pé
na iminência de ir e rir.

Eu até reconheço palavras
antes mesmo de ouvi-las.
Esperei um sentido profundo,
esperei alguém proferi-las
em algum discurso enfeitado
ou numa manifestação de fé;
e é assim que eu tenho esperado.

Nas molduras das telas em branco
parei e esperei.
Esperei imagens, pra vê-las,
esperei palavras pra ler.
Fico ali contemplando, parado,
até a noite vir com estrelas
e a imaginação vir preenchê-las.

Em até tantas vezes cansado,
ofegante, oprimido, largado,
esperei ansioso o futuro
sem tirar os pés do passado.
Fecho os olhos, olhar fatigado,
tentando lembrar o espírito puro
que a vida levou sequestrado...

[Adhemar - São Paulo, 08/09/2010]

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

X-PINGOS

Batem gotas fortes
explodem moléculas
Ações químicas
reações desconexas

Descargas elétricas
faíscas, curtos-circuítos
câmaras herméticas
lonas de circo

Equações e suas variáveis
gráficos, cálculos
teoremas físicos
filosofia, álgebra, alquimia

Sub-gotas que se multiplicam
referências que desaparecem
um atraso após os tic-tacs
e começa o espetáculo

Batem palmas fortes
explode o fugaz sucesso
morre de novo a folha morta
orgânica atitude

Alimento e suas variáveis
sementes do amanhã
ciência e matemática
receita e mapas

Analíticos sentimentos
poesia robótica...

[Adhemar - São Paulo, 08/01/2010]

domingo, 11 de dezembro de 2011

GÔNDOLA

Falei com Deus.
Não como falo sempre,
mas mais compenetrado,
mais atento.
Educado, polido, suplicante.

Falei com Deus,
com a voz mais funda,
mais emocionado.
Voz da necessidade.
Reflexos de uma incapacidade
relutante e obstinada.

Falei com Deus.
Minhas verdades,
fraquezas,
intenções e fracassos.
Opções duvidosas,
opções endividadas.

Falei com Deus.
Fiz meus planos,
promessas,
renovei votos,
projetei esforços.

Falei com Deus.
Gaguejante, balbuciando,
humilde e recatado,
disfarçando um atrevimento
orgulhoso e esticado.

Falei com Deus
relatando defeitos.
Fiz um negócio,
tipo sociedade
sem contrato,
só consórcio.

Falei com Deus.
E ele me ouviu e me atendeu.

[Adhemar - Santo André, 28/11/2000]

Nau

Texto utilizado num cartão de Boas Festas de 2002 entregue em família.

Adhemar, 11/12/2011.

sábado, 10 de dezembro de 2011

BOATOS

"Ouvi falar de você, por aí, mania de ouvir!
Pare de dar bandeira, ou ninguém haverá de parar de falar.
Seu sonho de gás evolou-se na academia,
a sua grande mania: alugar, reformar, ampliar…"

"Tá cheio de gente querendo ver seu balão estourar,
parede sem casca, bolor a mofar.
Você pendurou toda a sua alegria no mercado central;
tanta mercadoria, tanto blá, coisa e tal.
Espalhou que era mestre e profissional,
sua fama correu, aumentou, carnaval!"

"Mas aí o caldo entornou,
caiu uma árvore bem na rua principal.
Você se escondeu, se amoitou,
foi parar no hospital.
Sua pose caiu, sua imagem ruiu,
despencou do pedestal."

"E agora você, que nem os cacos catou,
volta à tona, bacana, normal;
por cima do chão que pisa,
por baixo do céu do quintal.
Vem com a mesma pantomima,
gingado, balanço total;
não aprendeu nas quedas, nos ovos que pisa mal.
Dá panos aos fofoqueiros, faz a alegria geral.
Voltou pra boca do povo, sem glória e sem capital!"

"Ouvi falar de você, por aí, e é só pau…"


[Adhemar - S. Paulo, 20/11/2003]


Escrito no ônibus, na volta do trabalho, atrás de duas fofoqueiras referindo-se a alguém, pretensamente muito convencido. Lá pelo meio da conversa, o coletivo entrou numa rua onde, de fato, havia caído uma árvore; há outras referências no texto de elementos do trajeto, entremeados com eventuais elementos da conversa. Ops, desculpem; eu disse duas fofoqueiras? Esqueci de mencionar um mal-educado xereta que ficou ouvindo a conversa…

Adhemar, 28/03/2008.

domingo, 4 de dezembro de 2011

GUERRAS

Já nadei contra a corrente; já remei contra a maré. Mas isso foi no tempo em que era bacana, era "cult", e não como agora quando isso significa só desbunde.

Também já lutei no "front" de outros, alinhado com aqueles que gritavam mais. Se não cheguei a empunhar as armas, meio que cozinhava para os batalhões. Mas me recusei a hastear a bandeira virada.

Subi nos palcos. Gritei das arquibancadas. Teci grossas críticas sem entender do assunto. Bolei inúmeras teorias só pra justificar o que eu acho. Se subi em alguns muros, não joguei pedras nos gatos. E logo em seguida eu desci.

Já escrevi contando letras - e sílabas - atrás de um alexandrino perfeito. Mas - feito um Drummond - desisti. Me recusei a mudar de assunto antes de levar uma surra. E mesmo estropiado ainda insisti. O tempo se encarregou de me provar que estava errado.

Algures, tenho mais dúvidas do que consigo estudar. Tenho mais rugas, um óculos novo, mas um certo receio do que vou enxergar. Me propus outros desafios que farão me multiplicar. O conforto de não ceder aos caprichos dos outros e grandes intransigências pra me sustentar...

[Adhemar - São Paulo, 20/08/2011]

Batalhas

Amigos. Comecei a trabalhar em um novo emprego. E fazendo projetos numa área onde ainda não havia atuado, é desafiador e bacana (no momento do escrito acima, o desafio era outro, em outro lugar). O tempo para o blog ficou escasso, vou precisar de um período para me ajustar a nova rotina. Grande abraço,

Adhemar, 05/12/2011