segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

PANCADA

Um suor cada vez mais amarelo.
Um som difícil de escutar.
Movimentos tolhidos.
Pouco alcance - o olhar.

Um odor penetrante,
impregnante.
Uma névoa turva.
Água densa, escura.

Uma linha reta -
cada vez mais curva.
Uma espinha ereta;
cada vez mais curva.

Um abandono,
complicado de largar.
Um lado plano,
vertente perpendicular.

Sinais fracos,
ruins de interpretar.
Sinos tão finos,
que não ousam badalar.

Um silêncio tão intenso
que quase dá pra escutar.
Um sonolento vento,
brisa preguiçosa sobre o mar.

Versos compridos ou curtos?
E as rimas,
não querendo se entregar...
Um sopro de vida
que não se deixa matar.

Um sereno tão sereno
que não molha a madrugada.
Apenas umedece o ar.

As palavras soltas,
fugitivas,
não se deixam mais prender.
A razão só queria compreender
esses sons atrapalhados,
tão difíceis de escutar.

Um apelo velado,
uma viagem pelo mar.

O coração, esse paspalho,
faz que não vai se comprometer
enterrado até o pescoço
nas mazelas em que foi se meter...

Um suor cada vez mais amarelo,
um abandono,
um apelo:
desse barco não dá mais pra descer...

[Adhemar - São Paulo, 12/01/2010]

domingo, 30 de dezembro de 2012

CAVALOS

Quebrado cavaleiro,
atleta, 
bicicleta.

Freadas e vôos,
amuradas,
estábulos.

Uma grande biblioteca,
asininos,
muares.

Vão os sons,
vai o vento,
Buenos Aires.

Pastos imensos,
intensos,
salgados.

Patas velozes,
atrozes,
atropelantes.

Pedras, caminhos,
desertos e sombras,
oásis.

Camelos,
desterros, 
saudades.

[Adhemar - São Paulo, 30/12/2000]

sábado, 29 de dezembro de 2012

DESENHO


"Desenhar é mais fácil que escrever. Até riscos aleatórios dá pra justificar, atribuir sentido; se não, pode-se - sempre - inventar."
"Desenhar permite a mão mais livre. Alinhar mão e mente é opcional, alternativo. Desenhar? Até de olhos fechados."
"Escrever é mais… compromisso. Movimento organizado, mãos e mente em sintonia, olhos atentos."
"Escrever é escutar o que vai por dentro, é escolher mais do que chutar embora sem alternativas presentes."
"Escrever é ser um cúmplice de si mesmo para assaltar a razão e os sentimentos, incomodar o alheio."
"Escrever é filosofar irremediavelmente, sem poder esquecer ou contrariar: escrever é deixar um testemunho silencioso, mas muito vivo; se revelar sem nenhuma sutileza nem disfarce."
"Escrever é desenhar de modo completamente inteligível; é confessar, datar e assinar. E não dá pra se esconder nas entrelinhas…"

[Adhemar - S. Paulo, 27/02/2004]

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

LUZES CRUZADAS

O que é da luz não se perde.
Onde precisar holofote,
eu facho.
Da vela o calor me chama.
Onde procurar lenha,
ela... acha.

Nas múltiplas estrelas cintilantes,
algumas cadentes;
me aposso dos raios incidentes,
das caudas faiscantes,
caldas quentes.

Na luz me quedo em silêncio,
caio calado.
Desminto o meu credo permanente,
meu urso diplomado
no discurso emocionado
do caldo transparente.

E súbito me entrego diferente
à tarefa do delírio.
O louco ensimesmado acende o círio;
ilumina o lírio
num vaso quebrado.

Jogo com palavras,
saio derrotado.

[Adhemar - São Paulo, 26/01/2012]

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

MADURAR


"Nascemos. Não há nada de novo a dizer sobre esse fato, de como germinou a semente que fomos, fecundados num ato de amor (ou de distração). Não importa como, nascemos. Não há ninguém mal-nascido."
"Também não há o que comentar sobre como nos desenvolvemos. É uma fase comparada a quase tudo, desde o brotar e tomar forma a planta até a aurora após surgir o sol. Entre nuvens e brumas, o calor da vida nos fez crescer."
"E da mocidade então? O lento desabrochar da flor, o sol em plenitude iluminando e aquecendo ao seu redor, a experiência de sair da infância para adolescência e do adolescente virando adulto. A fase aparentemente mais longa da vida, pois a gente vai virando gente, vai virando gente… e fica tão ‘gente’ que às vezes se isola, absoluto, sobre um pedestal com três pés. Os mais inteligentes vão permanecer imóveis, apenas atraindo para si a curiosidade e admiração pelo ‘maravilhoso’ equilíbrio. Os só espertos ainda precisarão da pose de surfista pois o pedestal vai oscilar e o jogo de cintura vai mantê-los no alto, braços abertos com estilo e um sorriso cínico de triunfo. Mas os incautos… Esses vão cair em grande estardalhaço sobre todos aqueles que nem conseguiram subir. A fantasia e a máscara é que os vai derrubar."
"E após essa fase, que acaba, vem o tempo de envelhecer. De ceder rugas ao passado, de pensar, mais do que se mexer. Os pedestais não assustam, as analogias falam em flores e frutos para colher. Será o tempo de contar histórias (principalmente pros netos) e de se consagrar no recanto mais íntimo do seu próprio ser. Um puro momento de alegria fruindo plenamente o fato de viver."
[Adhemar - S. Paulo, 30/05/2006]
Eis a foto da obra - resultado de um projeto nosso - cuja perspectiva foi postada em março (e uma outra imagem abaixo). A foto não faz justiça ao projeto, o autor da mesma, graças a Deus, vive de outra profissão!
Adhemar, 03/04/2008

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

PORTA

Falar sobre liberdade é legal! Mas é difícil... Liberdade é um conceito tão intangível quanto felicidade. Cada um acha que sabe o que é mas acaba encontrando uma ideia melhor.
Falar sobre liberdade é... É estar encarcerado num ideal, num desejo. É caminhar numa praia linda, deserta, mas com a areia muito fofa e a maré subindo.
Falar sobre liberdade é desabafar, do coração, as mágoas retidas. Mágoas causadas pela vida que só a liberdade é capaz de dissipar de mão dadas com a felicidade...
Falar de liberdade, para falar a verdade, é embaraçoso. É preciso soltar dos braços os grilhões e soltar do cérebro as palavras necessárias; porém estas, uma vez livres, voam rápidas e distantes deixando um cárcere vazio que é a cabeça oca.
E nesta ciranda louca, recolhem-se às suas mágoas as infelicidades. Por quê? Porque adeus liberdade, pássaro de asas brancas que os homens confundem e devoram...

[Adhemar - São Paulo, 22/09/2000]

sábado, 15 de dezembro de 2012

ENCONTRO



Perdoe a boca amarga, 
os olhos vermelhos, 
o ar distante.

Perdoe o beijo roubado, 
o coração calado, 
a indiferença constante.

Perdoe as contradições, 
a retaguarda exposta 
e as trincheiras cavadas.

As batalhas travadas, perdoe, 
bem como a fuga, 
a presença e a fome.

Perdoe os versos confusos, 
o pneu furado 
e a chuva lá fora.

Perdoe a cama desfeita, 
as malas feitas 
e o adeus de agora.

[Adhemar - Sto. André, 01/11/2004]

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

VÉU

Agora mesmo eu me dei conta
de que conheço tanta gente
que me fez depositário
de quantos segredos transparentes...

E que me falam incontáveis palavras
que me cobrem
e escorrem feito água na corrente

Mesmo agora me dei conta
de quanta gente me escolhe
para jogar palavras que as molhe
feito unção em cruz e vento.

Logo eu, tão desatento...
Tão sem tempo de passá-las à limpo
ou ao menos pensamento...
Penitência...

Agora mesmo estão deitadas
essa gente e as palavras
e a fé, o louvamento
e a ciência.

Quanta gente deposita e confia
sua rica longa história.
Quanta glória caprichada
na pausada letra fria...

Nessa caligrafia,
nesse passo além-espaço
aonde cabe a melodia
no tempo de um meio-dia,
meia-noite, meio maço...

Papéis envoltos num laço,
segredos perdidos pra sempre...

[Adhemar - São Paulo, 04/12/2012]

sábado, 24 de novembro de 2012

Campeonato de potoca (1)

Vejam o que se deu com um amigo meu: foi convidado para um casamento ao qual ele nem ia; mas sabe como é, não tinha nada pra fazer naquele dia, acabou indo. Caprichou na beca, lustrou os sapatos e colocou gravata - aliás, duas coisas que ele detestava fazer. Pois bem; emprestou um par de abotoaduras do pai dele, alfinete de gravata e o dinheiro do táxi. Chegou tão atrasado que a noiva já estava esperando há mais de hora e meia na porta da igreja quando ele entrou. Tudo bem, deu tchauzinhos aos conhecidos e aos desconhecidos, porque nesses momentos a igreja é terra de ninguém, e todo mundo lá dentro. 

Mas, espera que espera, deu-se que o noivo não aparecia. Com mais outra hora e meia de noiva na porta e já se desmanchando, alguém conseguiu ligar para o ausente, no celular. E não é que o cara estava a caminho das Bahamas? Pegou as passagens da lua-de-mel e se mandou pra lá com uma tremenda mocréia - pelo menos na recém balbuciada opinião da noiva quando parou de chorar. Mas acontece que a família não estava para aguentar o vexame: igreja lotada, festa encomendada, o pai da noiva intimou a moça a escolher uma vítima bem apessoada e, de preferência, solteiro. Vai que a menina, numa rápida olhada… Não é que ela escolheu o meu amigo? E ele ficou tão estatelado de surpresa que não reagiu. A moça não era de se jogar fora, a família era rica… Passaram a lua-de-mel no Guarujá e estão casados até hoje. E ele ainda não conseguiu entender o que outro foi fazer nas Bahamas.

[Adhemar - S. Paulo , 07/03/2003]

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

LADEIRA

As palavras brotam em torrentes
que não se consegue deter
Se atrapalham, se inventam
mas não param
Ora são como trigo
que demora a crescer
e de que o vento espalha os grãos
Ora são como cactus,
cheios de espinhos por fora
mas cheios de água fresca por dentro

As palavras desembestam sem freio
Malcriadas ou doces
Cortantes como um tapa na cara,
ou doces
Pegajosas, meladas, 
ou doces

As palavras desengolfam espessas,
inventadas,
vomitadas e nauseantes
Simpáticas, afáveis, molhadas
Cuspidas ou traduzidas,
volúveis

E mesmo assim, 
às vezes não dizem tudo.
Palavras são ladras vadias
Ou são redentoras,
ou são o mundo.

[Adhemar - São Paulo, 22/09/2000]

domingo, 11 de novembro de 2012

AGITOS

O mar é de um azul esverdeado fora de propósito.
O céu é de um azul claro ofuscante.
O calor é abafado e aconchegante.

A paisagem - de tão linda - é desconcertante.
O ar é gostoso e envolvente.
A receptividade especial de sua gente
faz do lugar um ambiente fascinante.

Senhoras e Senhores, 
apresento-lhes deste mundo um aprazível recanto.
Situado como u'a benção,
um verdadeiro Jardim do Atlântico.

Respeitosamente tiremos os nossos chapéus;
 e aplaudamos,
este amor de lugar chamado Ilhéus.

[Adhemar - Ilhéus, 27/01/2008]

PASSAGEM


"Os dias vão passando assim, com esses ‘ésses’; desfilam céleres, o sol nasce e se põe ensinando-nos a finitude cíclica das coisas, do inconsistente e do indócil."
"Vagam as nuvens confusas, chover onde? Tapam o sol como peneiras por onde os grãos do tempo se escolhem, se graduam. Vagam as palavras, comunicação cada vez mais difícil entre os seres, que até Deus pode estar achando de revisar a sua obra."
"Cacos do pensamento espatifado se espalham, esse é o novo rumo, a nova era… Na idade das razões desconhecidas, do esquecimento voluntário, das obrigações de autor inédito, todos os dias a reciclar seu lixo, suas entranhas e orações…"
"Sempre um faz por onde, um como, um quando! Sempre uma atitude, uma bandeira, um faz-de-conta; sempre uma tontura, um labirinto, um escabelo; sempre um trem lotado, descarrilhando…"
"E o tempo lava, seca e vai passando!"
[Adhemar - S. Paulo, 16/10/2003]
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NAVEGANTES


(Postado originalmente em Arq&Poesia: Lit.1 em 28/03/2008)

Este ‘post’ é dirigido ao comentarista mais frequente deste espaço. Mas vale pra todos.
Prezado AABS; respondendo sua pergunta inicial, ‘conosco mesmos’ é, no mínimo, muito esquisito. Estava a ponto de te chamar de analfabeto, quando me dei conta que também não sei! Portanto, ignorância em matéria de língua pátria é conosco mesmo, assim no singular. Se o ACS ou LAS estiverem nos lendo, por favor, elucidem. O convite vale a outros navegantes mais versados para explicar a questão. Quanto à qualidade ou tema das fotografias, este sofrível poeta e não muito melhor arquiteto estaria irremediavelmente ferrado (com o perdão da má palavra) se dependesse de ser fotógrafo. E olhando especificamente a foto da praia, concluí que poderia ser qualquer uma, função do ângulo, enquadramento, foco e assunto. Então, peço-lhe que acredite que foi tirada em Ilhéus, de fato.
Para finalizar, vejo que enrolação é conosco mesmo. Abração, fui.
Adhemar, 28/03/2008
Projeto de 1996 ou 1997, ainda não construído para Igreja de Santa Luzia, em Mauá / SP. De vez em quando sonho em ganhar sozinho na mega-sena para construí-lo, de tão bonito que eu acho que é. A iluminação natural incidindo na nave e no altar, a acolhida aos fiéis que a forma de concha dá… O salão paroquial (edificação retangular que se vê a esquerda) a comunidade já fez.

Em 2012...
Ainda não ganhei na loteria, portanto, continua como está...
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Adhemar, 11/11/2012

sábado, 3 de novembro de 2012

CICLOTIMIA

Descobri, aos quase cinquenta anos, que a vida começa sólida, Certezas permanentes, gente cuidando da gente, alimentação garantida e abraços quentes. Na medida em que vamos crescendo, tudo vai se desmanchando.

Descobri que a supressão de nossa ignorância e o crescimento da consciência vão nos sufocando. Certezas insustentáveis se sucedendo, tudo ruindo. Considerações absurdas sobre o mundo vão se multiplicando e várias portas vão se abrindo.

Descobri que as portas não levam a parte alguma. Certezas apavorantes nascendo, mais conhecimento gerando mais dúvidas. Vamos nos tornando reféns dos acontecimentos. Quanto maior nossa experiência, menos controle. Entregamos as rédeas do nosso mundo a um cocheiro fantasma que não as pega - e fica rindo.

Descobri que o processo, apesar de cruel, é lindo. Certezas suspeitas são presas, vão se julgando, A paz nunca chega, melhor continuar lutando.

[Adhemar - São Paulo, 16/07/2012]

domingo, 28 de outubro de 2012

QUEM DISSE...?

Reviver o que passou - principalmente o mais legal - é interessante. A gente interpreta aqueles momentos com o filtro da experiência de hoje, ou com lentes de aumento... Dessa forma, me lembro da gente; de como eu gostava de estar perto de você e de sua fingida indiferença, embora eu ache que você deu chance, tipo: ficar por perto esperando as perguntas - ou pelo menos uma.
Eu me arrumava antes, caprichava na beca; e ficava te rodeando... A felicidade passageira mas intensa de uns poucos quandos você me escolhia entre tanta gente para pedir uma boba opinião sobre o tolo assunto daquele infinito instante. Abria-se o leque do pavão, a Bela e a Fera... Até você escolher outro pra continuar a conversa desmanchando o encanto.
A nossa proximidade fazia mágicos aqueles momentos; e o afastamento fazia mágicos os pensamentos, a imaginação disparada, o coração desassossegado. Até o controle quase absoluto, a pose do carinha estufado tentando atrair a atenção da musa, que sumiu no mundo perto e distante.
Longos anos se passaram. Você nunca morreu nem sumiu da memória ou dos sentimentos. Enfim, suprema glória, guardo as palavras de um inesperado reencontro junto com a lua, solitária e bela, emoldurada num quadro com a tua assinatura. Para sempre nunca é tarde, antes hoje do que eternamente.

P/APC
[Adhemar - São Paulo, 06/05/2012]

domingo, 21 de outubro de 2012

CIRCULAR

O sonho acaba, levante-se antes.
Interrompa esse delírio tentando trazê-lo para a realidade. Não se lamente, continue aqui - fora do sono - o sonho lá de dentro. Transforme-o nesse devaneio - que é o sonho de olho aberto mas, completamente vidrado - que te leva pela vida e pra frente.

O devaneio acaba, deite-se antes.
Leve-o para o sonho, resolva essa parada. Delire febrilmente, pois essa é a hora de explorar a realidade, extrapolar o metafísico. Porque você sabe: o sonho acaba, é melhor levantar antes...

[Adhemar - São Paulo, 06/05/2012]

domingo, 30 de setembro de 2012

TRECHO

Na imobilidade do momento
nos curtos passos do longo tempo
- pequeno trajeto -
pequenos trejeitos.

Um espaço logo ocupado
nos curtos passos do longo tempo
- um passado -
aparências e fantasias se enlaçam
num pronto bailado.

Na imobilidade dos movimentos
um momento pesado.
Inúmeras considerações
pequenos trejeitos.

Nesse abraço dessa dança sem jeito
o amor atordoado.
O coração manda no trecho
no direito
no pecado.

Nos curtos passos dança e tormento
um doce alimento
de um apaixonado...

[Adhemar - São Paulo, 26/01/2012]

sábado, 29 de setembro de 2012

POLARIDADE

Na intensidade do momento
na imensidão
na urgência de movimento
intenção...

Na obtusa conclusão
na adversidade
na face oculta da razão
oportunidade...

Na melhor parte da verdade
na própria mão
na violenta crueldade
um coração...

Na flor, no amor, na paixão
na cidade
na intensa visão
liberdade...

No fogo, na falsidade
na discussão
no discurso, na piedade
no perdão...

Na sombra do pavilhão
morosidade
no ar e na contramão
perenidade...

Na forja, na umidade
forno e fogão
Espera e contrariedade
emoção...

Às claras, exposição
novidade
verso, inverso, morosidade
decepção...

[Adhemar - Ibiúna, 28/09/2010]

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

GUARDANAPO

Eu sou do tempo da poesia escrita em guardanapo de bar. Como este excerto, por exemplo.
Eu sou do tempo do beijo na mão, da flor em botão, dos olhos nos olhos, da boca sorrindo nos olhos.
Eu sou do tempo em que o preço do amor não era medido por um vaso de flor, ou caixa de bombom.
Eu sou do tempo de namorar no portão...

Eu sou do tempo passado, do tempo presente e do futuro contigo.

Beijão.

P/ SM (23 anos de casório)
[Adhemar - 02/12/2011 e 26/09/2012]

Papel

Até a "boca sorrindo nos olhos", foi escrito no guardanapo e estava guardado num dos cadernos. O restante foi escrito agora e ambos para a musa do poeta...

Adhemar, 26/09/2012


terça-feira, 11 de setembro de 2012

GALPÃO (G2)


Galpão (G2)

Projeto (2.008) de um galpão que está sendo construído em Vinhedo / SP, é o segundo (por isso "G2") numa área que foi dividida em três. Em 2.007, fizemos o projeto do "G1" - foto abaixo - mas o "G2" vai ficar mais legal ainda.
Coloco propositalmente duas imagens de obras construída e em construção neste 11 de setembro, porque a parte mais penosa de minha profissão é ter que desmanchar algo pronto pra construir outra coisa (não é o caso destes galpões, porque o terreno estava livre). Reconheço que tem muito "lixo" em pé precisando ser derrubado; mas vocês não fazem idéia de como se desperdiça bons materiais na maioria absoluta das demolições. Tanto é verdade que existem empresas especializadas em desmontes técnicos para aproveitamento do que vai ser demolido; e nós, da construtora Tramil, procuramos fazer o mesmo em reformas e obras novas que entram no lugar de outras edificações. Mas no mundo de hoje, nem sempre há tempo ou interesse num trabalho de reaproveitamento. Imaginem então o choque da gente diante da destruição deliberada, proposital e que ainda por cima custou milhares de vidas de pessoas que sequer tiveram a oportunidade de se defender! Há sete anos estava num dia calmo, voltando pra casa após visitar uma obra logo cedo e não precisaria sair mais pelo resto do dia; ouvi a notícia dos "acidentes" no rádio do carro; cheguei em casa, liguei a TV no exato instante em que o segundo dos prédios estava desabando. Pensei em ir buscar meus filhos na escola, ficar abraçado com eles e com minha esposa num cantinho qualquer lá de casa esperando o mundo acabar de vez.
Adhemar, 11/09/2008.
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San Nicholas


Voltou à baila porque está sendo construído (um grupo adquiriu o terreno e os direitos sobre o empreendimento) e porque fomos convidados a enviá-lo para uma publicação especializada. Resgato-o do blog original para mostrá-lo aos amigos daqui.


Adhemar, 11/09/2012

Vila Residencial San Nicholas
O projeto apresentado no "post" anterior foi aprovado agora em setembro e é resultado de um trabalho bastante detalhado, tanto em termos do produto em si, como dos aspectos técnicos e legais que envolvem uma iniciativa desse tipo. Sob meu ponto de vista, retrata a maneira ideal de morar: poucas casas para uma grande área bem arborizada, espaços confortáveis e várias possibilidades de uso.
O lançamento está sendo estudado em função da "temperatura" do mercado face ao momento econômico; sua concepção me convenceu, definitivamente, sobre o que é "morar" - sob meu ponto de vista enquanto profissional da área.
Para finalizar, informo que este - salvo melhor juízo - será o último dos "posts" sobre arquitetura neste blog, que doravante irá tratar apenas das maltratadas letras em infindáveis cadernos que me atulham as prateleiras do cérebro e, por que não dizer, do coração. Sobre projetos vamos tratar em outras esferas que, assim que estiverem prontas, vou convidá-los a conhecer.
Adhemar, 25/10/2008.
Arquivado em: ArquiteturaOpinião I Comentários (2)

APRESENTAÇÃO (LOGOTIPO)

VISTA GERAL

FACHADA DAS CASAS

PLANTA PAV. TÉRREO

PLANTA PAV. SUPERIOR
FICHA TÉCNICA:
CONCEPÇÃO DO EMPREENDIMENTO: CONSTRUTORA TRAMIL
Geraldo Magella Cressoni
PROJETO: CONSTRUTORA TRAMIL
Arq. Adhemar Braga de Souza
IMAGENS: Arq. Douglas Tsui (vista geral)
UL - DIGITAL (imagens digitalizadas)
CONSULTORIA DE INSTALAÇÕES:
Saneamento básico:
 (distribuição de água, captação de águas pluviais e coleta de esgoto):
Eng. José Carlos Ferragut
Concepção geral de instalações hidráulicas e gás:
Eng. Cláudio José M. Oliveira
Concepção geral de instalações elétricas e iluminação:
Eng. Marco Antonio Lupo

Adhemar - S. Paulo, 25/10/2008.
Arquivado em: ArquiteturaImagem I Comentários (1)

domingo, 9 de setembro de 2012

PRIMEIRO ENCONTRO

No refletir a luz do sol
o teu rosto me ilumina.
A palavra mais serena
em tua boca se sublima.

No refletir a luz do sol
o teu rosto se anima.
Em teu olhar vejo a luz plena
da silhueta da colina.

Um pequeno instante em nossas vidas
que a luz do sol abençoou.
E os pensamentos se enlaçaram.

Entre muitas tantas dúvidas
nossa atenção não se apressou
e nossas almas voaram.

P/ BSF
[Adhemar - Campo Grande, 23/07/1987]

domingo, 26 de agosto de 2012

PONTAS

Saída. Fachada. As aparências se impondo. Diplomacia rasgada, sem impasse: Só desacordo. Acontecimento iminente, providências urgentes. A emergência, a gravidade e a pose ante um problema... dos outros! a rica circunstância e o agradecimento por nada.

Passos macios. a pressa desenfreada. Um verso após o outro numa prosa desastrada. As exigências do negócio: uma enorme paciência e muita disposição pra levar pancada. As dores importantes e desnecessárias...

Sáida. Fechada! Ao invés das aparências, a incongruência do indefinido. Bloqueios, Contrapartidas negadas. Planos inclinados, vozes abafadas. No exterior, os rumores advindos de uma turba exaltada. Um passo em falso no cenário, um gesto mal interpretado. A voz vacila, o canto oscila, as palavras caem no vazio de não serem escutadas. O chamado inconcluso. O arquivo arrombado...

[Adhemar - São Paulo, 25/01/2012]

terça-feira, 7 de agosto de 2012

FATOS


"Deu-se que Fulano morreu. Assim, de repente, e ele nem percebera. Quando começou a desconfiar, já estava na enorme ante-sala de recepção, entre o céu e o inferno. Então, mais conformado, começou a olhar em volta e apreender a situação: diante de uma enorme mesa, ao centro, estendia-se uma fila interminável de pessoas, digo, almas, que não parava de aumentar. Ao longo da imensa mesa central, centenas de atendentes confinados por uma espécie de guichê, iam recebendo os aflitos desencarnados, procurando minimizar sua confusão mental; e após uma espécie de tácito acordo, os espíritos dirigiam-se alternadamente ora para a porta do céu, ora para a porta do inferno. Intrigado com tamanha precisão na distribuição do pessoal, o Fulano dirigiu-se diretamente a um guichê que acabara de vagar - mesmo diante do protesto do espírito que chegava e de quem era a vez:"
"- Por favor, mocinha, uma informação?"
"- Qual sua senha, senhor…?"
"- Eu não peguei a fila não. Mas por que é que vai um sim, um não, pro céu e pro inferno?"
"- Bem, senhor, já que perguntou…"
"E rabiscou uma espécie de formulário que entregou ao recém-chegado, indicando uma terceira porta que ele, até então, não notara: VIA ALTERNATIVA. E ele foi, mais intrigado ainda, porque ela dissera que o purgatório era no vestíbulo de cada um dos departamentos - um no céu, outro no próprio inferno. Foi pensando nisso que abriu a porta. Ao entrar, caiu no vazio; a princípio, muito claro, caiu devagar. A medida que caía mais rápido, ia escurecendo também, até o escuro total numa velocidade vertiginosa; até o baque, brusco, violento e dolorido. Abriu os olhos, se achou em sua própria cama numa manhã qualquer de abril."
[Adhemar - Sto. André, 21/10/2005]
O fato:
A princípio, me parece o relato de um sonho deveras sonhado; ou terá sido só um cochilo sobre a mesa, no serviço? Apesar que o rascunho não está babado…
Adhemar, 29/03/2008

AMBIENTE


"Barulhos noturnos. Cheiro de pão. Mais de duas horas da manhã. O intenso silêncio da noite, carros ao longe, o zumbido da geladeira, a respiração das pessoas dormindo; os pingos da goteira vão se espaçando no seu ribombar nas calhas. A chuva cedeu seu espaço ao vento. Para escrever certas letras, é preciso parar e pensar. A copa de uma árvore toca reco-reco num telhado. Tic-tac, tic-tac. O incansável relógio faz o acompanhamento aos outros ruídos sutis: passos na rua molhada, o reflexo da luz nas paredes entrevisto pelas frestas das janelas. Súbito, a geladeira pára com um, dois, três estalos; esticam-se braços, farfalham lençóis ao movimento dos ‘dormintes’, cai uma gota da torneira da pia na cuba de inox. O cheiro de pão tranforma-se no ruído do saco se abrindo, do esgarçar a casca crocante da boca mordendo e os dentes mastigando. Nada do silêncio da faca na manteiga. Só pão. E o dia desponta clareando ruidosamente, a rua, o bairro, a cidade e a mente de alguém que passou a noite desperto para sentir a beleza de viver. Mesmo silenciosamente…"
[Adhemar - S. Paulo, 10/05/2003]

IDA



"Por onde ir é uma questão recorrente. Estamos sempre procurando e as invenções nos levam à distração de ficar olhando os novos meios de transporte. Então, quando despertamos desses doces devaneios tecnológicos, estamos atrasados, perdidos e desorientados."
"Com quem ir é uma questão delicada. Sempre parecerá que poderemos nos fazer acompanhar por todos ou, por qualquer um. Mas, na prática, muitos nos rejeitam, outros querem impor o seu próprio itinerário; alguns planejam excessivamente o trajeto, as paradas e o destino. Há quem não queira sair do lugar. E há quem vá totalmente indiferente aos meios, aos rumos e ao ponto final."
"O que levar depende da disposição que se tem no que se vai fazer pelo caminho. Na produção de idéias e coisas, atitudes e decisões. A comunicação - se necessária -  com os acompanhantes, os circusntantes e os transeuntes. A publicidade que  vai agitar, pública ou particular, à torcida, aos inimigos e aos civis…"
"Finalmente, a dependência de uma filosofia concreta ou arbitrária, pensamentos passando tão rápidos que a bagagem estará composta de loucura. Definições tão exatas num repertório variado e aberto, que a loucura parecerá uma lucidez lúdica, lógica e sensacional. E, até que enfim, partir para esse mundo artificial de cientistas, românticos e poetas."
[Adhemar - Sto. André, 01/11/2004]

CONFLITO


"Areia nos olhos,
peso nos ombros;
escolhas, restolhos,
ruínas, escombros."
"Guerra infinita,
antagonista perdida.
O tempo agoniza
numa tumba escondida."
"Pagamento ou troca,
negócio ou escambo
recolhido na toca
cada passo é um tombo."
"Ora fora, ora dentro,
à esquerda ou direita;
ou acima, ou no centro,
tão cansada, não deita."
"O nervoso, a tensão
nem dissipa nem tenta.
Na calma, na confusão
simplesmente aguenta."
"Livrou armas na fuga;
só deixou provisão:
uma faca, uma luva,
chocolate e pão."
"A corda, o cantil,
a esperteza, o terreno.
Um mapa sutil,
um código pleno."
"Uma pena, o papel,
uma idéia, um rito.
Uma prece pro céu,
um murmúrio e um grito."
[Adhemar - S. Paulo, 13/12/2004]

domingo, 29 de julho de 2012

CONSTELAÇÕES

Um risco,
na ponta do instrumento;
curva no mapa, 
corte no vidro.
Uma falsa impressão,
sem ouvido;
Uma falsa visão,
risco branco...

Um traço unindo estrelas.
Um risco no espaço,
um falso brilho, 
um refugo;
um cansaço!
Um intérprete atrevido,
um vento brando.
Imenso mar esquecendo,
um oceano espelhando...

[Adhemar - São Paulo, 06/04/2010]

segunda-feira, 23 de julho de 2012

MODÉSTIA

Heróis celebrados no encontro.
Conversa.
Passeios anacrônicos,
lógica reversa.
Convenção de vilões.
Eleito o perseguido da hora
numa singela homenagem dos ladrões.

Escura e complexa lógica,
sem revelações.
Paixão pelo mau gosto,
pelo drama,
por ignorar lições.

Novo capítulo se acresce a essa trama.
O rei desperto
na casa da rainha
faz o cavalo pular da torre
e o bispo cair da cama.
Ah! e os seus peões...!

Aberta e modesta
a quadrilha angustiada
com a própria missão:
chamar o herói pra festa,
traje fino, eficiente,
sem a capa e sem a máscara.
Olhos nos olhos então.

A casa, a sala, o mar;
todo o espaço é bem adequado.
No entorno, arquibancada;
no centro, um tablado.
Um luxo cultural
pra se cumprir o ritual.

Até que chega a polícia
e acaba com o golpe.
O herói inocente se salva,
a ala má da história se zanga,
fica brava.
E como em toda história que se preze
o herói acha a mocinha e se casa.

[Adhemar - São Paulo, 12/02/2012]

Heroísmos

É a segunda vez que um herói se casa no fim de um escrito meu, o primeiro se casava com a Utopia...
Por falar em heroísmos e utopias, os tempos andaram difíceis e ainda estão meio complicados. Começou que meu laptop ficou com a placa de rede zoada, não conectava na internet nem à cabo! Isso faz uns meses já; fiquei na base do chapéu na mão pra poder usar equipamento emprestado aqui em casa. E por que não dei um jeito nisso? Porque nosso foco de concentração mudou pra nossa admirada heroína que revelou mais uma face: a coragem enorme. Mamãe se pegou com um tumor malvado, precisou operá-lo e vai fazer um tratamento definitivo para "cancerlamento" dele, Estivemos acompanhando-a, inclusive no dia da cirurgia, não sobrou tempo pra mais nada. 
Nesse meio tempo, outro herói completou 50 anos (em maio); comecei um texto rebuscado e cheio de grandiloquência que não se completa... Estava no meio do enigma quando ele nos convidou para vê-lo com sua banda, Rock Tracks, tocar num barzinho perto da minha casa. E reencontrei o primo Luiz numa forma sensacional, de espírito jovem, muita energia na batera (sim, além de publicitário ele é baterista). Nessa noite, após chegar em casa, saiu outro texto que qualquer hora destas faço aparecer por aqui.
Finalmente, hoje criei vergonha na cara e, mediante sessenta e cinco paus, comprei um "bagulho nervoso" (não, não é um cigarrinho malandro) que tem acesso USB e capta a rede sem fio; finalmente estou na posse de meu espaço virtual outra vez!
Ah, sim, hoje também é aniversário do meu filho mais velho, Adhemar Juan, fez 22 anos. Fomos jantar fora em família, ele com sua generosidade ambulante, sua calma paciente e sua grandeza latente...

Peço desculpas aos amigos deste espaço, prometo que vou pondo a leitura em dia e palpitando no espaço de vocês com a sem-cerimônia de sempre.

Abraços,

Adhemar - 23/07/2012

sábado, 30 de junho de 2012

PROFUNDIDADE ABSOLUTA

Olhos fechados.
Lembranças...
Imagens coloridas.
O engrandecimento das emoções repetidas.
A divisão dos sentimentos,
o compartilhamento,
as fases divididas...

Boca hesitante,
frases diletantes...
Palavras fugidias.
O acontecimento contestado e brilhante.
Luz se apagando,
o esmaecimento,
imagens coloridas...

Braços levantados.
Lamentos...
Momentos revividos.
O esquecimento do que está distante.
O dia está morrendo,
a noite está chegando,
paisagens dissolvidas...

[Adhemar - São Paulo, 21/06/2012]

domingo, 17 de junho de 2012

Meu tio (Sanna)

Despedida de um fã




Uma nova estrela ascendeu, acendeu.
E como entendia de luz, de luta…
Pequena estatura física irradiando uma grandeza
cujo diâmetro será infinito enquanto durar sua obra.
Sua obra, como a de outros mortais,
não é exatamente o que fez; mas o modo como fez.
Com vontade, com força, com determinação.
Com orgulho, tenacidade, altivez, independência.
E ainda lhe sobrou espaço para estender a mão.
Sei que sim.

Dentre tanta gente que há neste mundo,
se distinguiu por ver mais longe, mais rápido e melhor.
Não se contentou com o óbvio e, do simples,
fez o sofisticado, o eficiente.
Decolou - sem o dispensável reconhecimento público -
da mediocridade geral do nosso século.
Vai habitar o plano superior dos especiais, seus iguais.
Perante quem o conheceu,
será sempre uma imagem de firmeza e luminosidade.
Independente dos pecados, da dureza e das tristezas da vida.
Tal como um cometa, enorme massa de matéria quente e brilhante,
passou, surpreendeu e sumiu.
Inesquecível e cadente.
Sua descendência incandescente carrega sua herança:

Inteligência e perspicácia.
Ousadia e perseverança.
Arte e habilidade.
Técnica e dedicação.

Cada um leva também o orgulho de se saber capaz e as lindas cores da Fênix.

Para Antonio Sanna (20/04/1922-17/06/1998)
[Adhemar - S. Paulo, 18/06/1998]


Amigo, mais do que Tio.

Hoje completam-se dez anos de ausência. Éramos muito próximos, ele tinha uma grande paciência comigo, desde algumas conversas de tio para sobrinho, na minha adolescência, até o me levar a algumas empresas conhecidas dele, no empenho por um emprego de desenhista para o aspirante a arquiteto. E quando fizemos um projeto de iluminação para uma academia de ginástica? Fizemos não, ele fez. Me ensinou a calcular a luminosidade necessária para os ambientes, conforme a luminária e o tipo de luz emitida, inclusive. Me honrou com sua companhia me convidando para conhecer seu laboratório de testes de iluminação em sua casa (à época, o único certificado no Brasil por uma instituição internacional especializada no assunto). Fez testes de iluminação para as maiores fabricantes de luminárias do Brasil (aliás, é autor dos projetos da iluminção original da pista de descida da Rodovia dos Imigrantes, em São Paulo, e do Aeroporto Intercional do Galeão - no Rio de Janeiro). Inventou e fabricou brinquedos pedagógicos. Nunca se vangloriou disso, e nem de ter projetado o atual formato das máquinas de lavar roupas com a tampa em cima. Nascido na Itália, perdeu a família na segunda guerra mundial. Enfrentou todo o tipo de dificuldades e de preconceitos (tinha um ligeiro defeito em uma das pernas em consequência de uma poliomielite). Mas dificuldades físicas nunca o impediram de trabalhar. Tinha um gênio pra lá de difícil, mas era amoroso, sem que se esperasse dele um passar a mão na cabeça. Mas o coração era enorme, e mole. Sua vida daria um livro dos bons (quem sabe se por estas mesmas mãos que ora relembram com tanta saudade), de aventura, romance, sofrimento e glória. E no desfecho, só omitiria a covardia deste pretenso admirador entusiasta, que nos últimos tempos de sua vida, hospitalizado, doente, e até mesmo no dia de sua morte, preferiu chorar de longe.
Adhemar, 17/06/2008.

Catorze anos então
 
No resgate dos textos do blog original, não poderia deixar de registrar este. Os motivos estão explicados no próprio texto, e no comentário que resgatei também, consta nos comentários, abaixo.
 
Adhemar - 17/06/2012.

domingo, 10 de junho de 2012

DESGLÓRIA

Uma luz se acende na memória
iluminando ideias e ideais.
Uma sombra se projeta na esperança
de reencontros com quem não volta mais.

Na ausência um torpor invade frio
uma causa em instância já perdida
mesmo que a defesa, com ardor e muito brio,
tenha sido veementemente enternecida.

Estacionada lá no peito uma dor funda
que o poeta não iluda nem confunda
nem agrave na tristeza a sua dor...

Essa memória que é tão doce e dolorosa
que o o coloca em pânico, ou polvorosa,
é sua própria história de amor.

[Adhemar -  São Paulo, 30/07/2009]

domingo, 3 de junho de 2012

CONVICÇÕES

Abraço apertado de saudade.
Ausência sentida,
jurisprudência.
Intermináveis mudanças,
aliança trocada de mão.
Um adeus agora,
abraço apertado de saudade
é pra depois.

Assunto tratado em reuniões,
sucessivas decisões para braços cruzados.
Repaginar os problemas de sempre
com ênfase no "sempre";
pois são os outros - sempre -
que detêm as melhores soluções.

Olhos na paisagem.
Olhos nos olhos.
Acordos implícitos.
Abraço apertado de saudade,
olhos molhados de verdade.

Verdades tratadas em reuniões.
O negócio é apresentá-las como mentiras
fantasiosas, fantásticas:
vende mais,
basta parecerem ilusões.

Tempo sem máscaras,
já foi.
Tempo deslocado,
olhos semicerrados,
abraço apertado,
de saudade...

[Adhemar -  São Paulo, 09/11/2011]