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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Cordas para se andar em cima

Nem sempre a alegria é engraçada
ou a tristeza é deprimente.
Assim como o repouso cansa,
não se pode fazer o bem impunemente.

E se a paz fosse tranquila...?
E se tremer fosse de frio ou medo...?
A gente se exporia disfarçado
divulgando amplamente o segredo.

Quando grande, agir feito criança.
Comportar-se e pensar como a pedra.
Escancarar o que está mais do que trancado
e libertar o carrasco que encarcera.

Deturpar o claro sentido que encerra
o verso encompridado num enleio.
É tão longo e perdido que flutua
como a lua ao luar, rima no meio.

Nem sempre o fogo alto queima,
ou some o que desaparece.
Às vezes a cara atrás da máscara é mais feia
e nem sempre o estar presente comparece.

Esta vida é um recanto proibido
em cujo entorno há uma cerca que convida.
E com vida pode significar que está morto
e "está solto" pode ser "estar contida".

Na poesia a concordância é discordante
e o sentido deve ser mesmo o oposto.
Como às vezes o perto está distante
a face oculta não se vê no rosto.

Nem sempre o que sobra é o resto,
nem o manifesto é a revolução.
Se a gente pode sonhar de olhos abertos
por que não devanear com pés no chão?

... E acaba a luz,
numa feroz escuridão...

[Adhemar - São Paulo, 31/10/2011]

Um comentário:

tiaselma.com disse...

Adh, amigo, a penúltima estrofe é tão linda, sábia... Adorei!

Beijocas.