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domingo, 26 de agosto de 2012

PONTAS

Saída. Fachada. As aparências se impondo. Diplomacia rasgada, sem impasse: Só desacordo. Acontecimento iminente, providências urgentes. A emergência, a gravidade e a pose ante um problema... dos outros! a rica circunstância e o agradecimento por nada.

Passos macios. a pressa desenfreada. Um verso após o outro numa prosa desastrada. As exigências do negócio: uma enorme paciência e muita disposição pra levar pancada. As dores importantes e desnecessárias...

Sáida. Fechada! Ao invés das aparências, a incongruência do indefinido. Bloqueios, Contrapartidas negadas. Planos inclinados, vozes abafadas. No exterior, os rumores advindos de uma turba exaltada. Um passo em falso no cenário, um gesto mal interpretado. A voz vacila, o canto oscila, as palavras caem no vazio de não serem escutadas. O chamado inconcluso. O arquivo arrombado...

[Adhemar - São Paulo, 25/01/2012]

terça-feira, 7 de agosto de 2012

FATOS


"Deu-se que Fulano morreu. Assim, de repente, e ele nem percebera. Quando começou a desconfiar, já estava na enorme ante-sala de recepção, entre o céu e o inferno. Então, mais conformado, começou a olhar em volta e apreender a situação: diante de uma enorme mesa, ao centro, estendia-se uma fila interminável de pessoas, digo, almas, que não parava de aumentar. Ao longo da imensa mesa central, centenas de atendentes confinados por uma espécie de guichê, iam recebendo os aflitos desencarnados, procurando minimizar sua confusão mental; e após uma espécie de tácito acordo, os espíritos dirigiam-se alternadamente ora para a porta do céu, ora para a porta do inferno. Intrigado com tamanha precisão na distribuição do pessoal, o Fulano dirigiu-se diretamente a um guichê que acabara de vagar - mesmo diante do protesto do espírito que chegava e de quem era a vez:"
"- Por favor, mocinha, uma informação?"
"- Qual sua senha, senhor…?"
"- Eu não peguei a fila não. Mas por que é que vai um sim, um não, pro céu e pro inferno?"
"- Bem, senhor, já que perguntou…"
"E rabiscou uma espécie de formulário que entregou ao recém-chegado, indicando uma terceira porta que ele, até então, não notara: VIA ALTERNATIVA. E ele foi, mais intrigado ainda, porque ela dissera que o purgatório era no vestíbulo de cada um dos departamentos - um no céu, outro no próprio inferno. Foi pensando nisso que abriu a porta. Ao entrar, caiu no vazio; a princípio, muito claro, caiu devagar. A medida que caía mais rápido, ia escurecendo também, até o escuro total numa velocidade vertiginosa; até o baque, brusco, violento e dolorido. Abriu os olhos, se achou em sua própria cama numa manhã qualquer de abril."
[Adhemar - Sto. André, 21/10/2005]
O fato:
A princípio, me parece o relato de um sonho deveras sonhado; ou terá sido só um cochilo sobre a mesa, no serviço? Apesar que o rascunho não está babado…
Adhemar, 29/03/2008

AMBIENTE


"Barulhos noturnos. Cheiro de pão. Mais de duas horas da manhã. O intenso silêncio da noite, carros ao longe, o zumbido da geladeira, a respiração das pessoas dormindo; os pingos da goteira vão se espaçando no seu ribombar nas calhas. A chuva cedeu seu espaço ao vento. Para escrever certas letras, é preciso parar e pensar. A copa de uma árvore toca reco-reco num telhado. Tic-tac, tic-tac. O incansável relógio faz o acompanhamento aos outros ruídos sutis: passos na rua molhada, o reflexo da luz nas paredes entrevisto pelas frestas das janelas. Súbito, a geladeira pára com um, dois, três estalos; esticam-se braços, farfalham lençóis ao movimento dos ‘dormintes’, cai uma gota da torneira da pia na cuba de inox. O cheiro de pão tranforma-se no ruído do saco se abrindo, do esgarçar a casca crocante da boca mordendo e os dentes mastigando. Nada do silêncio da faca na manteiga. Só pão. E o dia desponta clareando ruidosamente, a rua, o bairro, a cidade e a mente de alguém que passou a noite desperto para sentir a beleza de viver. Mesmo silenciosamente…"
[Adhemar - S. Paulo, 10/05/2003]

IDA



"Por onde ir é uma questão recorrente. Estamos sempre procurando e as invenções nos levam à distração de ficar olhando os novos meios de transporte. Então, quando despertamos desses doces devaneios tecnológicos, estamos atrasados, perdidos e desorientados."
"Com quem ir é uma questão delicada. Sempre parecerá que poderemos nos fazer acompanhar por todos ou, por qualquer um. Mas, na prática, muitos nos rejeitam, outros querem impor o seu próprio itinerário; alguns planejam excessivamente o trajeto, as paradas e o destino. Há quem não queira sair do lugar. E há quem vá totalmente indiferente aos meios, aos rumos e ao ponto final."
"O que levar depende da disposição que se tem no que se vai fazer pelo caminho. Na produção de idéias e coisas, atitudes e decisões. A comunicação - se necessária -  com os acompanhantes, os circusntantes e os transeuntes. A publicidade que  vai agitar, pública ou particular, à torcida, aos inimigos e aos civis…"
"Finalmente, a dependência de uma filosofia concreta ou arbitrária, pensamentos passando tão rápidos que a bagagem estará composta de loucura. Definições tão exatas num repertório variado e aberto, que a loucura parecerá uma lucidez lúdica, lógica e sensacional. E, até que enfim, partir para esse mundo artificial de cientistas, românticos e poetas."
[Adhemar - Sto. André, 01/11/2004]

CONFLITO


"Areia nos olhos,
peso nos ombros;
escolhas, restolhos,
ruínas, escombros."
"Guerra infinita,
antagonista perdida.
O tempo agoniza
numa tumba escondida."
"Pagamento ou troca,
negócio ou escambo
recolhido na toca
cada passo é um tombo."
"Ora fora, ora dentro,
à esquerda ou direita;
ou acima, ou no centro,
tão cansada, não deita."
"O nervoso, a tensão
nem dissipa nem tenta.
Na calma, na confusão
simplesmente aguenta."
"Livrou armas na fuga;
só deixou provisão:
uma faca, uma luva,
chocolate e pão."
"A corda, o cantil,
a esperteza, o terreno.
Um mapa sutil,
um código pleno."
"Uma pena, o papel,
uma idéia, um rito.
Uma prece pro céu,
um murmúrio e um grito."
[Adhemar - S. Paulo, 13/12/2004]