terça-feira, 7 de agosto de 2012

AMBIENTE


"Barulhos noturnos. Cheiro de pão. Mais de duas horas da manhã. O intenso silêncio da noite, carros ao longe, o zumbido da geladeira, a respiração das pessoas dormindo; os pingos da goteira vão se espaçando no seu ribombar nas calhas. A chuva cedeu seu espaço ao vento. Para escrever certas letras, é preciso parar e pensar. A copa de uma árvore toca reco-reco num telhado. Tic-tac, tic-tac. O incansável relógio faz o acompanhamento aos outros ruídos sutis: passos na rua molhada, o reflexo da luz nas paredes entrevisto pelas frestas das janelas. Súbito, a geladeira pára com um, dois, três estalos; esticam-se braços, farfalham lençóis ao movimento dos ‘dormintes’, cai uma gota da torneira da pia na cuba de inox. O cheiro de pão tranforma-se no ruído do saco se abrindo, do esgarçar a casca crocante da boca mordendo e os dentes mastigando. Nada do silêncio da faca na manteiga. Só pão. E o dia desponta clareando ruidosamente, a rua, o bairro, a cidade e a mente de alguém que passou a noite desperto para sentir a beleza de viver. Mesmo silenciosamente…"
[Adhemar - S. Paulo, 10/05/2003]

2 comentários:

Adh2bs disse...

Comentário por AABS — quinta-feira, 3 de abril de 2008 (19:31:50)
Com manteiga este pão desceria melhor. Mas pelo jeito o sono, a preguiça, a fome ou a falta de manteiga impediram ampliar o deleite.
[COMENTÁRIO IMPORTADO DO BLOG ORIGINAL]

Damaris disse...

Muito legaL. . . já tive noites assim. parece que nunca vai amanhecer!