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sábado, 24 de novembro de 2012

Campeonato de potoca (1)

Vejam o que se deu com um amigo meu: foi convidado para um casamento ao qual ele nem ia; mas sabe como é, não tinha nada pra fazer naquele dia, acabou indo. Caprichou na beca, lustrou os sapatos e colocou gravata - aliás, duas coisas que ele detestava fazer. Pois bem; emprestou um par de abotoaduras do pai dele, alfinete de gravata e o dinheiro do táxi. Chegou tão atrasado que a noiva já estava esperando há mais de hora e meia na porta da igreja quando ele entrou. Tudo bem, deu tchauzinhos aos conhecidos e aos desconhecidos, porque nesses momentos a igreja é terra de ninguém, e todo mundo lá dentro. 

Mas, espera que espera, deu-se que o noivo não aparecia. Com mais outra hora e meia de noiva na porta e já se desmanchando, alguém conseguiu ligar para o ausente, no celular. E não é que o cara estava a caminho das Bahamas? Pegou as passagens da lua-de-mel e se mandou pra lá com uma tremenda mocréia - pelo menos na recém balbuciada opinião da noiva quando parou de chorar. Mas acontece que a família não estava para aguentar o vexame: igreja lotada, festa encomendada, o pai da noiva intimou a moça a escolher uma vítima bem apessoada e, de preferência, solteiro. Vai que a menina, numa rápida olhada… Não é que ela escolheu o meu amigo? E ele ficou tão estatelado de surpresa que não reagiu. A moça não era de se jogar fora, a família era rica… Passaram a lua-de-mel no Guarujá e estão casados até hoje. E ele ainda não conseguiu entender o que outro foi fazer nas Bahamas.

[Adhemar - S. Paulo , 07/03/2003]

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

LADEIRA

As palavras brotam em torrentes
que não se consegue deter
Se atrapalham, se inventam
mas não param
Ora são como trigo
que demora a crescer
e de que o vento espalha os grãos
Ora são como cactus,
cheios de espinhos por fora
mas cheios de água fresca por dentro

As palavras desembestam sem freio
Malcriadas ou doces
Cortantes como um tapa na cara,
ou doces
Pegajosas, meladas, 
ou doces

As palavras desengolfam espessas,
inventadas,
vomitadas e nauseantes
Simpáticas, afáveis, molhadas
Cuspidas ou traduzidas,
volúveis

E mesmo assim, 
às vezes não dizem tudo.
Palavras são ladras vadias
Ou são redentoras,
ou são o mundo.

[Adhemar - São Paulo, 22/09/2000]

domingo, 11 de novembro de 2012

AGITOS

O mar é de um azul esverdeado fora de propósito.
O céu é de um azul claro ofuscante.
O calor é abafado e aconchegante.

A paisagem - de tão linda - é desconcertante.
O ar é gostoso e envolvente.
A receptividade especial de sua gente
faz do lugar um ambiente fascinante.

Senhoras e Senhores, 
apresento-lhes deste mundo um aprazível recanto.
Situado como u'a benção,
um verdadeiro Jardim do Atlântico.

Respeitosamente tiremos os nossos chapéus;
 e aplaudamos,
este amor de lugar chamado Ilhéus.

[Adhemar - Ilhéus, 27/01/2008]

PASSAGEM


"Os dias vão passando assim, com esses ‘ésses’; desfilam céleres, o sol nasce e se põe ensinando-nos a finitude cíclica das coisas, do inconsistente e do indócil."
"Vagam as nuvens confusas, chover onde? Tapam o sol como peneiras por onde os grãos do tempo se escolhem, se graduam. Vagam as palavras, comunicação cada vez mais difícil entre os seres, que até Deus pode estar achando de revisar a sua obra."
"Cacos do pensamento espatifado se espalham, esse é o novo rumo, a nova era… Na idade das razões desconhecidas, do esquecimento voluntário, das obrigações de autor inédito, todos os dias a reciclar seu lixo, suas entranhas e orações…"
"Sempre um faz por onde, um como, um quando! Sempre uma atitude, uma bandeira, um faz-de-conta; sempre uma tontura, um labirinto, um escabelo; sempre um trem lotado, descarrilhando…"
"E o tempo lava, seca e vai passando!"
[Adhemar - S. Paulo, 16/10/2003]
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NAVEGANTES


(Postado originalmente em Arq&Poesia: Lit.1 em 28/03/2008)

Este ‘post’ é dirigido ao comentarista mais frequente deste espaço. Mas vale pra todos.
Prezado AABS; respondendo sua pergunta inicial, ‘conosco mesmos’ é, no mínimo, muito esquisito. Estava a ponto de te chamar de analfabeto, quando me dei conta que também não sei! Portanto, ignorância em matéria de língua pátria é conosco mesmo, assim no singular. Se o ACS ou LAS estiverem nos lendo, por favor, elucidem. O convite vale a outros navegantes mais versados para explicar a questão. Quanto à qualidade ou tema das fotografias, este sofrível poeta e não muito melhor arquiteto estaria irremediavelmente ferrado (com o perdão da má palavra) se dependesse de ser fotógrafo. E olhando especificamente a foto da praia, concluí que poderia ser qualquer uma, função do ângulo, enquadramento, foco e assunto. Então, peço-lhe que acredite que foi tirada em Ilhéus, de fato.
Para finalizar, vejo que enrolação é conosco mesmo. Abração, fui.
Adhemar, 28/03/2008
Projeto de 1996 ou 1997, ainda não construído para Igreja de Santa Luzia, em Mauá / SP. De vez em quando sonho em ganhar sozinho na mega-sena para construí-lo, de tão bonito que eu acho que é. A iluminação natural incidindo na nave e no altar, a acolhida aos fiéis que a forma de concha dá… O salão paroquial (edificação retangular que se vê a esquerda) a comunidade já fez.

Em 2012...
Ainda não ganhei na loteria, portanto, continua como está...
Arquivado em: ArquiteturaOpinião I Comentários (0)
Adhemar, 11/11/2012

sábado, 3 de novembro de 2012

CICLOTIMIA

Descobri, aos quase cinquenta anos, que a vida começa sólida, Certezas permanentes, gente cuidando da gente, alimentação garantida e abraços quentes. Na medida em que vamos crescendo, tudo vai se desmanchando.

Descobri que a supressão de nossa ignorância e o crescimento da consciência vão nos sufocando. Certezas insustentáveis se sucedendo, tudo ruindo. Considerações absurdas sobre o mundo vão se multiplicando e várias portas vão se abrindo.

Descobri que as portas não levam a parte alguma. Certezas apavorantes nascendo, mais conhecimento gerando mais dúvidas. Vamos nos tornando reféns dos acontecimentos. Quanto maior nossa experiência, menos controle. Entregamos as rédeas do nosso mundo a um cocheiro fantasma que não as pega - e fica rindo.

Descobri que o processo, apesar de cruel, é lindo. Certezas suspeitas são presas, vão se julgando, A paz nunca chega, melhor continuar lutando.

[Adhemar - São Paulo, 16/07/2012]