Pesquisar este blog

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

PANCADA

Um suor cada vez mais amarelo.
Um som difícil de escutar.
Movimentos tolhidos.
Pouco alcance - o olhar.

Um odor penetrante,
impregnante.
Uma névoa turva.
Água densa, escura.

Uma linha reta -
cada vez mais curva.
Uma espinha ereta;
cada vez mais curva.

Um abandono,
complicado de largar.
Um lado plano,
vertente perpendicular.

Sinais fracos,
ruins de interpretar.
Sinos tão finos,
que não ousam badalar.

Um silêncio tão intenso
que quase dá pra escutar.
Um sonolento vento,
brisa preguiçosa sobre o mar.

Versos compridos ou curtos?
E as rimas,
não querendo se entregar...
Um sopro de vida
que não se deixa matar.

Um sereno tão sereno
que não molha a madrugada.
Apenas umedece o ar.

As palavras soltas,
fugitivas,
não se deixam mais prender.
A razão só queria compreender
esses sons atrapalhados,
tão difíceis de escutar.

Um apelo velado,
uma viagem pelo mar.

O coração, esse paspalho,
faz que não vai se comprometer
enterrado até o pescoço
nas mazelas em que foi se meter...

Um suor cada vez mais amarelo,
um abandono,
um apelo:
desse barco não dá mais pra descer...

[Adhemar - São Paulo, 12/01/2010]

domingo, 30 de dezembro de 2012

CAVALOS

Quebrado cavaleiro,
atleta, 
bicicleta.

Freadas e vôos,
amuradas,
estábulos.

Uma grande biblioteca,
asininos,
muares.

Vão os sons,
vai o vento,
Buenos Aires.

Pastos imensos,
intensos,
salgados.

Patas velozes,
atrozes,
atropelantes.

Pedras, caminhos,
desertos e sombras,
oásis.

Camelos,
desterros, 
saudades.

[Adhemar - São Paulo, 30/12/2000]

sábado, 29 de dezembro de 2012

DESENHO


"Desenhar é mais fácil que escrever. Até riscos aleatórios dá pra justificar, atribuir sentido; se não, pode-se - sempre - inventar."
"Desenhar permite a mão mais livre. Alinhar mão e mente é opcional, alternativo. Desenhar? Até de olhos fechados."
"Escrever é mais… compromisso. Movimento organizado, mãos e mente em sintonia, olhos atentos."
"Escrever é escutar o que vai por dentro, é escolher mais do que chutar embora sem alternativas presentes."
"Escrever é ser um cúmplice de si mesmo para assaltar a razão e os sentimentos, incomodar o alheio."
"Escrever é filosofar irremediavelmente, sem poder esquecer ou contrariar: escrever é deixar um testemunho silencioso, mas muito vivo; se revelar sem nenhuma sutileza nem disfarce."
"Escrever é desenhar de modo completamente inteligível; é confessar, datar e assinar. E não dá pra se esconder nas entrelinhas…"

[Adhemar - S. Paulo, 27/02/2004]

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

LUZES CRUZADAS

O que é da luz não se perde.
Onde precisar holofote,
eu facho.
Da vela o calor me chama.
Onde procurar lenha,
ela... acha.

Nas múltiplas estrelas cintilantes,
algumas cadentes;
me aposso dos raios incidentes,
das caudas faiscantes,
caldas quentes.

Na luz me quedo em silêncio,
caio calado.
Desminto o meu credo permanente,
meu urso diplomado
no discurso emocionado
do caldo transparente.

E súbito me entrego diferente
à tarefa do delírio.
O louco ensimesmado acende o círio;
ilumina o lírio
num vaso quebrado.

Jogo com palavras,
saio derrotado.

[Adhemar - São Paulo, 26/01/2012]

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

MADURAR


"Nascemos. Não há nada de novo a dizer sobre esse fato, de como germinou a semente que fomos, fecundados num ato de amor (ou de distração). Não importa como, nascemos. Não há ninguém mal-nascido."
"Também não há o que comentar sobre como nos desenvolvemos. É uma fase comparada a quase tudo, desde o brotar e tomar forma a planta até a aurora após surgir o sol. Entre nuvens e brumas, o calor da vida nos fez crescer."
"E da mocidade então? O lento desabrochar da flor, o sol em plenitude iluminando e aquecendo ao seu redor, a experiência de sair da infância para adolescência e do adolescente virando adulto. A fase aparentemente mais longa da vida, pois a gente vai virando gente, vai virando gente… e fica tão ‘gente’ que às vezes se isola, absoluto, sobre um pedestal com três pés. Os mais inteligentes vão permanecer imóveis, apenas atraindo para si a curiosidade e admiração pelo ‘maravilhoso’ equilíbrio. Os só espertos ainda precisarão da pose de surfista pois o pedestal vai oscilar e o jogo de cintura vai mantê-los no alto, braços abertos com estilo e um sorriso cínico de triunfo. Mas os incautos… Esses vão cair em grande estardalhaço sobre todos aqueles que nem conseguiram subir. A fantasia e a máscara é que os vai derrubar."
"E após essa fase, que acaba, vem o tempo de envelhecer. De ceder rugas ao passado, de pensar, mais do que se mexer. Os pedestais não assustam, as analogias falam em flores e frutos para colher. Será o tempo de contar histórias (principalmente pros netos) e de se consagrar no recanto mais íntimo do seu próprio ser. Um puro momento de alegria fruindo plenamente o fato de viver."
[Adhemar - S. Paulo, 30/05/2006]
Eis a foto da obra - resultado de um projeto nosso - cuja perspectiva foi postada em março (e uma outra imagem abaixo). A foto não faz justiça ao projeto, o autor da mesma, graças a Deus, vive de outra profissão!
Adhemar, 03/04/2008

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

PORTA

Falar sobre liberdade é legal! Mas é difícil... Liberdade é um conceito tão intangível quanto felicidade. Cada um acha que sabe o que é mas acaba encontrando uma ideia melhor.
Falar sobre liberdade é... É estar encarcerado num ideal, num desejo. É caminhar numa praia linda, deserta, mas com a areia muito fofa e a maré subindo.
Falar sobre liberdade é desabafar, do coração, as mágoas retidas. Mágoas causadas pela vida que só a liberdade é capaz de dissipar de mão dadas com a felicidade...
Falar de liberdade, para falar a verdade, é embaraçoso. É preciso soltar dos braços os grilhões e soltar do cérebro as palavras necessárias; porém estas, uma vez livres, voam rápidas e distantes deixando um cárcere vazio que é a cabeça oca.
E nesta ciranda louca, recolhem-se às suas mágoas as infelicidades. Por quê? Porque adeus liberdade, pássaro de asas brancas que os homens confundem e devoram...

[Adhemar - São Paulo, 22/09/2000]

sábado, 15 de dezembro de 2012

ENCONTRO



Perdoe a boca amarga, 
os olhos vermelhos, 
o ar distante.

Perdoe o beijo roubado, 
o coração calado, 
a indiferença constante.

Perdoe as contradições, 
a retaguarda exposta 
e as trincheiras cavadas.

As batalhas travadas, perdoe, 
bem como a fuga, 
a presença e a fome.

Perdoe os versos confusos, 
o pneu furado 
e a chuva lá fora.

Perdoe a cama desfeita, 
as malas feitas 
e o adeus de agora.

[Adhemar - Sto. André, 01/11/2004]

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

VÉU

Agora mesmo eu me dei conta
de que conheço tanta gente
que me fez depositário
de quantos segredos transparentes...

E que me falam incontáveis palavras
que me cobrem
e escorrem feito água na corrente

Mesmo agora me dei conta
de quanta gente me escolhe
para jogar palavras que as molhe
feito unção em cruz e vento.

Logo eu, tão desatento...
Tão sem tempo de passá-las à limpo
ou ao menos pensamento...
Penitência...

Agora mesmo estão deitadas
essa gente e as palavras
e a fé, o louvamento
e a ciência.

Quanta gente deposita e confia
sua rica longa história.
Quanta glória caprichada
na pausada letra fria...

Nessa caligrafia,
nesse passo além-espaço
aonde cabe a melodia
no tempo de um meio-dia,
meia-noite, meio maço...

Papéis envoltos num laço,
segredos perdidos pra sempre...

[Adhemar - São Paulo, 04/12/2012]