domingo, 29 de dezembro de 2013

GRUPO


Andei dando uma busca

nessas comunidades digitais

procurando alguém

que nem sei se está nessas redes,

que nem sei se existe

mas contém uns tantos ideais.

Andei procurando gente
de uns modos virtuais,
personalidade que idealizei
com características reais;
nem precisa carne e osso,
face, nome ou coisas mais.

Andei pesquisando pessoas
por critérios abstratos;
já vi caras, caretas
e divertidos retratos.
Mas acabei encontrando um pentelho
não exatamente na “net”:
mas bem diante do espelho…

[Adhemar - São Paulo, 23/05/2006]

sábado, 28 de dezembro de 2013

CENA

Escutar a própria impassibilidade de braços cruzados.
Desdenhar a própria indiferença.
Relaxamento relapso.
Pose blasé.

Deitar os olhos sobranceiramente em domínios ignorados.
Assumir um fingimento.
Esquecido e afetado.
Representar uma indignação fajuta.
Falsificar no semblante um rubor,
um sentimento.
Interpretar feito um ator
numa cena de verdade.
Evidentemente, mentindo!
Aplicar uma ilusão,
se convencer
e fazer da pantomima um espetáculo.
Ou inverter.
E, assim que irromperem os aplausos,
sair descaradamente sem sequer agradecer...

[Adhemar - São Paulo, 24/09/2011]

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

ORAÇÃO

Senhor;
Talvez estejamos cometendo o pecado da soberba, confrontando tudo em que acreditamos com aquilo que aprendemos. Desafiando os rituais, interpretando as preces e, acima de tudo, pedindo e recebendo mais do que dando. No entanto, incorrigíveis e altivos, vimos a ti, mais uma vez - e certos de que nunca nos abandonaste - pedir (sem suplicar) que continue nos indicando os caminhos, de preferência os mais suaves e iluminados. De nossa parte - não é uma troca e sim nossa obrigação - continuaremos nos esforçando para sermos menos mesquinhos, mais solidários, mais atuantes perante nossas responsabilidades diante de nossa família, trabalho e sociedade. Fazei-nos enxergar melhor este mundo, as pessoas e a vida.
Cremos firmemente que quereis filhos fortes, justos e ativos, mais do que fracos, humilhados e rastejantes. Fazei-nos seguir os teus exemplos.
Até o céu,
Amém.
[Adhemar - Santuário de São Judas Tadeu, São Paulo, 18/06/2002]
Desafio…!
Escrito dentro da própria igreja, este atrevido invocamento representa a maneira como vejo nossa relação com o Criador; já que teve a sublime idéia de mandar Seu Filho como exemplo, me faz pensar se não preferia que a humanidade fosse menos subserviente em seus tantos pedidos e reclamos e mais pródiga em ações efetivas e agradecimentos!
Aproveito o ensejo para desejar a todos - independentemente da crença de cada um - um Feliz Natal, que essa data possa ser, além do simbólico aniversário de Jesus, um momento de reflexão para cada ser humano, preferencialmente no alegre convívio com os entes queridos. Que as bençãos desta época sejam abundantes e que permitam uma inspiração de paz e harmonia para o ano que se avizinha.
Grande e fraterno abraço,
Adhemar, 24/12/2008.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

CADEIRA

Na linha do limite da mesa
está uma pilha de livros.
Blocos de papel.
Anotações.
Na linha do limite da visão
estão todas as explicações.
Escrever
é o jeito de não esquecer,
de justificar
- ou ao menos tentar - 
uma existência de vagos sentidos,
de estranhas razões.
A linha do limite das decisões
que não se encontram nos livros,
nos blocos de papel
nem nas anotações.
O embarque de tantas histórias
nas plataformas de outras estações.
Matéria atraindo matéria
na proporção inversa das massas,
sabe-se lá por quais razões...
Na linha do limite da física,
sem muitas explicações.
Na linha do limite da história,
um horizonte de ilusões.
Poesia fora das linhas, 
calor fora dos verões...

Na linha do limite da mesa
há a cadeira e posições.
conforta pra pensar à frente,
casaco às costas
e outras divagações.
Prosa cheia de ritmo,
desenhos e projeções.
Nos limites do futuro,
linhas embaralhadas.
No conforto da cadeira,
ideias embaralhadas.
Na linha do limite dos pensamentos,
inúmeras soluções.
comidinha natureba,
feijoada e camarões.
No limite da linha da vara de pesca,
isca e variações.
Paris no meio da conversa,
Madri, Lisboa, aviões.
Viver o que vem pela frente
no limite da linha das emoções.
Mesmo afobado,
mesmo cheio de considerações.

Na linha do limite dos desafios,
uma mesa cheia de lições.
Os lápis estão num pote;
a inspiração, nos corações...

[Adhemar - São Paulo, 19/04/2012]

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

RECONSTITUIÇÃO

"Aos pedaços e lentamente, 
eu me recomponho. 
Me recupero dos tropeços, 
de tantos recomeços, 
mas volto aos mesmos traços, 
aos embaraços do não saber."

"Não saber por onde, 
não saber por quê. 
Por quais caminhos percorrer novos retornos, 
novos compassos. 
Pra quem os braços estender? 
Como entender os enigmas, os impasses? 
A quais repertórios recorrer 
pra fugir do frio da indiferença, 
aguda como o aço?"

"Fragmentada e desinteligentemente 
ver morrer os sonhos no fracasso. 
Desorientadamente se perder, 
passo por passo. 
Ao desconhecido remeter 
um desespero crasso. 
E na desilusão se prometer 
um alentamento levantando os braços; 
e lutar insistentemente pra vencer 
os entraves e os nós. 
Nos desatados laços perceber 
que há vida possível além da dor."

"Nervos de aço vão ferver 
sem derreter na pedra o elo fraco. 
E se levantar, sorrir, correr, 
subir nos seus escombros 
para ver além do horizonte; 
sobre os próprios ombros 
olhar pra trás e aprender… 
Do lixo reciclado renascer, 
partir feliz e realizado; 
ser, estar, ficar, viver."

[Adhemar - S. Paulo, 03/05/2006]

domingo, 8 de dezembro de 2013

DIAGONAIS

Não é um manual de sobreviviência
Não é um livro de auto-ajuda
Não é um tratado de ciência
Também não é um Deus-nos-acuda.

Talvez um diário de bordo
Mas não "meu querido diário"
Não é a Bíblia, concordo
Nem é um boletim-semanário.

É apenas um pequeno registro
Ou um caderno de impressões
Suado, chorado, bem quisto
Que toque vossos corações...


[Adhemar - São Paulo, 27/05/2006]

sábado, 7 de dezembro de 2013

DO SILÊNCIO SOLENE

"Quando nada houver para ser dito, cale-se! Nada pior do que a verborréia inútil e desnecessária, sem conhecimento de causa e totalmente gratuita; tolamente desperdiçada. O grande pensamento conselheiro, representado na quietude do momento, antecede a grande frase, o resumo do absoluto: o que pode ser dito direta e objetivamente, acrescentando mais um passo na trajetória do assunto."
"É uma ciência. Palavra por palavra formando a grande teoria filosófica, simplificadora dos processos e meios de vida, enfim, assim definida em rasos e cortantes conceitos. Breve reflexão, conciso pronunciamento; que só deverá ser replicado após outro circunspecto hiato de sons e de caos."
"A organização precisa e contundente dos pensamentos mais íntimos vai ecoando pelas paredes da idéia geral que se necessita provar. Calmamente. E a idéia geral vai se construindo ponto a ponto. Entre um gole e outro, olhares penetrantes e suspiros profundos. Não seja idiota, não se deixe enganar. Fale do que não sabe com poucas e curtas frases, sustente com classe a sua tese, mesmo diante de um especialista. Mas apenas utilize o cerne da questão. E, se mesmo assim estiver perdendo a discussão, responda apenas com um solene silêncio essencial."
[Adhemar - S.Paulo, 13/12/2004]
Tese aplicada
Escrito após uma conversa de boteco onde estavam reunidos em torno de uma mesa diversos especialistas em generalidades.
Adhemar, 10/04/2008.

sábado, 30 de novembro de 2013

TUBOS

Funções. Distúrbios. Passagens.
Mudanças de humor.
Aparato.
E o famoso rumo dos acontecimentos
passa acelerado,
tanto para o futuro
quanto para o passado.
Frente e verso
da página virada hoje.

Arremessos. Arremedos. Complicações.
Raízes da equação.
Quantos graus...?
A temperatura amena da paz.
A divisão e o reaproveitamento
tanto para o pensamento
quanto para os ideais.
Centralidade da resposta
na própria questão.

Fumaças helicoidais...


[Adhemar - São Paulo, 30/11/2011]

domingo, 24 de novembro de 2013

MINHA AVÓ

EIS
Trazer-se aos noventa anos é sublimar uma condição tão divina que a própria luz natural se encarrega de iluminar o caminho.
Chegar aos noventa anos, ao estrelato absoluto que nenhum "Oscar" jamais conseguirá recompensar. É uma consagração - talvez ofegante - mas um desafio altivo e vivaz que os sofrimentos e alegrias não chegam a abalar.
Estar, aos noventa anos, cheia de compostura e energia para reptos e premiações, reunir seguidores e adeptos, separar estranhamentos e unir desafetos; ensinar brincando e amar incondicionalmente.
Sinceridade?
Não é para qualquer um não.
Somente uns poucos escolhidos e muito preparados.
Somente um enorme coração onde cabemos todos nós.
Somente nossa Mãe, Vó, Bisavó e Tetravó…
Parabéns, Vó Júlia, saúde e juízo, hem?
Orgulho de todos nós.
[Adhemar - São Paulo, 02/11/2004]
Vó Júlia
Pois é, moçada, amanhã ela vai completar 94 anos! Apesar de um pouco confusa, pela fragilidade da saúde, ainda tem energia para conversar, adora os bisnetos (e tem uma tataraneta que mora no Espírito Santo), ainda brinca com eles e se encanta com eles! Sobreviveu ao falecimento de uma filha (Tia Nilce - "post" de 11/07/08), do meu avô (Meu avô - "post de 28/05/08) e está aí, um exemplo de determinação e dedicação à família. Temos muito em comum: gostamos de abacaxi (nossa fruta predileta), achamos que a boa educação e a gentileza cabem em qualquer lugar sem ocupar espaço, ela me ensinou muito sobre as diversas fases por quais passam as crianças e pequenos truques que auxiliaram na educação dos meus filhos e, de quebra, ela é minha madrinha! Deixo aqui um grande beijo e um enorme abraço de mais do que neto, fã mesmo. E peço a gentileza da tia Nádia (outra pessoa que será devidamente relatada aqui) ler pra ela essa babação de ovo aí em cima, apesar de ter dado a ela o texto principal deste "post" há quatro anos. Amanhã almoçaremos juntos pra te reverenciar, Vó.
Adhemar, 01/11/2008.

VÉSPERA
E por falar em véspera: o texto acima foi postado um dia antes do aniversário de minha avó Júlia (94 anos, então), em 01/11/2008. 
Com Vítor e João, dois de seus bisnetos, em foto tirada em 24/12/2010, exatamente um ano antes de sua partida.
Saudade...
Adh, 24/11/2013.

VÉSPERA

Certamente haverá desencontros, 
descaminhos, revelações. 
Outros planos, desencaixes, desilusões.
Certamente será preciso ouvir outras opiniões. 
Descobrir novos ambientes, 
enxergar mais e maior, novas razões.
Certamente haverá angústias na vida, nos corações. 
Será preciso virar a página, 
registrar a história e suas mil versões.
Certamente será preciso destinar um olhar profundo 
ao abismo das desilusões; 
e o poeta cansará da rima 
e suas limitadas significações. 
Despertará a um só tempo, 
criatividade e moderações. 
E declarará a sua independência, 
comunicando ciência 
de que irá viver ao seu bel-prazer, 
pagando o ‘carnê’ a prestações; 
no entanto, 
se perderá entre tantas combinações 
que seguirá autônomo, impávido e orgulhoso, 
sem ninguém pra dar satisfações…

[Adhemar - S. Paulo, 23/03/2008]

Véspera!
Tem esse nome porque foi escrito um dia antes de começar o "blog"(*); Adhãããã…" Luís Fernando Veríssimo escreveu que, em certas ocasiões, a gente devia deixar o óbvio em paz… Por coincidência, na frase "Será preciso virar a página…" justamente esse trecho é a última frase na folha do rascunho; e já não lembro se a escrevi por causa disto, ou do contexto. Legal!
Adhemar, 08/04/2008.
(*) O blog original, no caso [Arq&Poesia: Lit. (terra)]

sábado, 23 de novembro de 2013

CANÇÃO MANIFESTO PROTESTO POEMA POESIA

Com vontade de escrever
   me faltou inspiração
      tentei me convencer
         a escrever uma canção

            De um ritmo incerto
         que, sem ser um manifesto,
      até tenta chegar perto
   de esboçar algum protesto...

Mas apenas pelo gosto
   nunca pelo tema
      acabou perdendo o posto
         e chegou a ser poema

            O poeta que fazia
         tentou fazer assim:
      produzir uma poesia
   que agora chega ao fim...


[Adhemar - São Paulo, maio/1981]


domingo, 17 de novembro de 2013

O HOMEM ARTIFICIAL

          Hoje em dia fazem crianças através de provetas quando o método antigo me parece muito melhor. Aí, o indivíduo "elaboratoriado" vai crescendo e, durante o seu crescimento, ingere comida enlatada ou sintética; o que, sem dúvida, confere-lhe certa "fibra".
          Seu desenvolvimento é assistido por produtos químicos que ele ingere não diretamente da natureza, como deveria ser, mas: mercúrio do açúcar, bromato de potássio do pão, flúor do dentrifício, cloro da água, alumínio e ferro dos alimentos cozidos em panelas, inseticidas e pesticidas de verduras, legumes e grãos em geral, palha lavada (vulgo - café), água suja (vulgo - leite), afora cromo, ferróxidos e outros componentes advindos dos peixes. Respira chumbo e carbono, quando tem a "sorte" de viver numa cidade grande.
          Eis aí uma bela criação de Deus, ligeiramente alterada por nós: o ser humano artificial!

[Adhemar - agosto/1981]

ARREMATE

  "Após tantas voltas o caminho desemboca na mesma solidão de sempre. Apenas os deveres movimentam a engrenagem e fazem a produção dos movimentos. A luz mortiça e embaçada provoca um véu em frente aos olhos. Mesmo assim, a gente enxerga o destino: transmitir a capacidade de sobrevivência dentro de estreitos limites para que o sangue do nosso sangue vá em frente e realize-se de modo independente e original - em relação a nós mesmos - e seja feliz."

[Adhemar - Boituva, 29/07/2005]

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

SALTO

Cabeça de televisão
Notícia de jornal
Mãos de pouca ação
Deformidade normal

Água com limão
Água com açúcar
Problema e solução
Imagem especular

Susto e maldição
Bendita propaganda
Guerra e contramão
Fruta na quitanda

Verdade e distração
Paisagem da janela
Ideia e coração
Apagar da vela

História e tradição
Calma animal
Futuro, escuridão
Bacana e informal...


[Adhemar - São Paulo, 18/05/2011]

domingo, 10 de novembro de 2013

BRIGA

Você está sempre disposto
a me descompor, discursar.
Me enfia o dedo no rosto
e só fala comigo a gritar.
Pra você estou sempre errado,
não sei nada e por aí vai.
Pra você sou um pobre coitado
que onde estiver, a casa cai!
E você, sempre destemperado,
desanca, descasca e bate.
Eu me finjo de aleijado
para não ir ao combate.
Você já não fala: só grita
Se eu lhe digo "bom dia",
desejando-lhe paz, alegria,
responde: "bom dia por quê?" e se irrita.
E gesticula, e se agita,
nunca nada está bom.
Eu peço: "olha o enfarte, olha a vida,
cuida do coração…"
Não joga uma bola, uma carta,
não toma um chope, vergonha!
Não sai do lugar, não desata,
sempre essa cara de pamonha!
Depois diz que a vida é que é chata,
chato é você, um pentelho.
Não conhece a própria cara,
parece que não tem espelho…
Então, olho no olho, eu - sacana -
"vai te catar, desencosta,
vê se me esquece, desencana,
parece que tu cheirou bosta…"
Finalmente, pra minha surpresa,
você calmo no braço me pega.
Suspira, se apóia na mesa,
reconhece o nervoso, não nega.
Me diz: "tua voz, tão amiga,
em tanto tempo de briga
não me disse sequer uma vez:
- agora te amarro, te bato,
vamos rolar no mato
aos socos e pontapés!"
[Adhemar - S. Paulo, 12/04/2001]
Briga…
A propósito da lembrança de uma discussão havida com um grande amigo num passado… passado! Na verdade, nos dávamos muito bem, ele sempre muito educado, aquele dia sugeriu que brigássemos (de brincadeira, por que nossas desavenças eram muito civilizadas, quase chatas). E mesmo sem isso, brigas ou discussões ásperas, sumiu na poeira do tempo. Vi-o pela última vez no velório de meu pai, pouco nos comunicamos depois disso, enfim, espero que ele ainda ande pelo bom caminho.
Adhemar, 20/04/2008

sábado, 9 de novembro de 2013

ANTOLOGIAS ERRÁTICAS

Quando formos fazer um exercício de retroagir ao passado, espicaçando as lembranças do que fomos ou do que fizemos, teremos de por à prova uma fértil imaginação para recriar uma realidade virtual mais generosa - em julgamento e conteúdo.

Vamos separar essas memórias em capítulos, tipo: origem e infância, adolescência e heroísmo, maturidade e experiência. Vamos pintá-los todos em tons que vão do benevolente ao condescendente, pincelando aqui e ali uns tons de exaltação berrante.

Para terminar, o epílogo, concluindo num monumental e inevitável auto-indulto...

[Adhemar - São Paulo, 06/10/2010]

terça-feira, 5 de novembro de 2013

PRÉ-SENTIMENTO

Hoje, aqui, agora
dando continuidade ao incerto,
ao perfume e ao deserto.
Fotografando o instante,
ver tão de perto quão distante.
Um vazio que se prolonga e é perverso.
A falta de chão, de pés,
de horizonte.
E no mais baixo ponto do caminho,
uma ponte.
Travessia obrigatória,
amurada tentadora.
Lá em baixo uma forte correnteza
pra levar e carregar tanta tristeza;
radicalmente,
secar a fonte.
Mas o olhar se ergue adiante.
Em contraponto ao vazio,
outro desafio se apresenta.
Mais alguns passos na direção do pra frente,
impulsionado por curiosidade e orgulho.
Outros obstáculos,
novo mergulho.
Mais envolvimento, energia e compromisso.
E a fugaz felicidade de atuar,
usar a capacidade,
ou quase isso.
E de repente se dar conta
que a história se repete
na continuidade do incerto.
[Adhemar - São Bernardo do Campo, 30/03/2005]

Editora, estúdio e pensionato

Obra na Vila Mariana, São Paulo / SP, feita por nós em 1999.
O prédio da frente é de escritórios e contém um estúdio de TV, outro de rádio. Ao fundo (quase não aparece), o prédio da residência de padres de uma congregação, na época; atualmente eles venderam ou alugaram o imóvel mas ele continua lá, com o mesmo aspecto. Tem instalações modernas, acabamento de alto padrão e infra estrutura completa.
O projeto (1998) é dessa moça aí, a maiorzinha, arquiteta Stella Maris. Pra azar dela, pedi um autógrafo em 1989 e ela assinou… a certidão de casamento! Se lascou…

A menorzinha é nossa afilhada, Isabella.
Adhemar, 11/04/2008.

sábado, 2 de novembro de 2013

"VIRTUNSTÂNCIAS"

Paro por um momento olhando para as árvores. Tento vislumbrar o futuro em contraponto ao passado: paralelos.

A saudade é uma névoa esquisita que embaça a visão para frente e impede a visão para trás. Os fatos estão ali, nítidos, mas disfarçando-se confundindo-se entre si.

A saudade será mais outras noites sem dormir.

P/ Júlia Iandoli de Oliveira Braga
[Adhemar - São Paulo, 25/12/2011]

"Circunstudes"

Escrito no dia seguinte ao do seu falecimento, no meio do aturdimento da dor da perda que, apesar de anunciada por tanto tempo, sempre indesejada... 
Hoje a Vó Júlia estaria completando 99 anos.
Passamos - família reunida - aquele Natal em torno dela, como em todos os anos anteriores desde que me lembro. Ano passado falhamos. Pouco esforço de alguns, aparente desinteresse de outros...
Quem sabe este ano recuperamos esta tradição tão gostosa e da qual sinto falta...

Adhemar, 02/11/2013

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

RELEITURA

Repasse.
Palavras em revista.
Sentido!
Sanções ao desarrumado,
entendimentos;
ordem subversiva...

Sentido!
Palavras enfileiradas.
Perfilhamento esquadrejado.
Olhares distantes,
sentimentos contidos.
Marcha adiante,
palavras andando.

Distanciamento uniforme,
botas brilhando;
avanço tático sistematizado.
Batalha...!
Palavras guerreando,
palavras sucumbindo...

[Adhemar - São Paulo, 27/10/2011]

terça-feira, 29 de outubro de 2013

CARAMBA, QUE DIFÍCIL!


É tempo de tormentas e tempestades.
É tempo de contradições.
É tempo de desafiar heranças, princípios e lições.
É tempo de perder certas imunidades.
É tempo de inescapáveis tentações.
É tempo de se atravessar o deserto.
É tempo de contrariedades e reflexões.
Análises estruturais, costumes e tradições.
É tempo de canalizar os mais profundos desejos.
É tempo de encerrar a segunda fase e assumir novas missões.

[Adhemar - S. Paulo, 26/10/2005]

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

SENHORIO

A verdade é uma rude verdade
encoberta por transparência.
Apresenta uma certa inocência
mas oculta a sua vaidade.

A vontade se sente à vontade
pra chegar e sentar na varanda.
E nunca impede quem anda
de se desviar da maldade.

A saudade sente saudade
de ser nostalgia e patroa.
Ela vai estar numa boa
sempre entendendo quem sabe.

A metade divide metade
multiplicando ações no mercado.
Na alta todo mundo ao seu lado,
na baixa eles chegam mais tarde!

O assunto desvia do assunto
porque precisa se despedir.
Se a vida é chegar e sair?
Tudo bem, sou eu que pergunto...

[Adhemar - São Paulo, 28/01/2012]

domingo, 27 de outubro de 2013

ASSUNTO




Queria escrever um tratado,
tratar de um tema mais sério.
No entanto, e não sem mistério,
de modo bem-humorado.

Queria discorrer de um problema
e também discordar do óbvio.
No entanto, sem ser impróprio,
ser do absurdo um emblema.

Queria provar uma tese
ainda que fosse estranha;
e distorcê-la, sem manha
tornando o dogma em hipótese.

Ao redigir essa monografia
fosse me revelando um esteta;
desmascarando o poeta
provando que tudo é poesia…




[Adhemar - São Paulo, 21/05/2006]

LINHAS

"O compasso invisível traça arcos imaginários. A ponta fixa gira acompanhando a ponta que risca o mundo em pensamento e saudade. Do alto quase se vê esses arcos e ângulos diáfanos gerados pelo movimento da ponta móvel do instrumento. O mundo é o papel, o mapa do cartógrafo, do comandante do navio. É uma reprodução dos caminhos que se lê nas estrelas, que indicam e refletem a ponta do compasso que se mexe enquanto a ponta sêca apenas gira seguindo e olhando para onde vai você."
[Adhemar - São Paulo, 09/10/2007]
Pavilhão (no centro da foto) comercial em Barueri / SP - de uma grande empresa nacional que reformamos em 2002, interna e externamente, instalações, asfalto, guarita, paisagismo. Foi um intenso trabalho físico realizado em prazo muito curto, mas que deu uma enorme satisfação em fazer.
Adhemar - 08/04/2008.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

DESESPERO VELHO

"Quisera ter a coragem de outrora, 
sem pânico nem desconfiança. 
Quisera ser maior, mais abrangente, 
sem receio da queda ou decadência. 
Mas um pavor pouco a pouco se infunde. 
Uma indecência, uma insciência. 
É fraco, já, o coração e se confunde: 
razão, emoção ou consciência?"

"Pavor, paúra;

disposição só na lembrança. 
O espelho mostra a desfigurada feiúra, 
cabelos arrepiados e sem remorsos. 
Chegar impávido aos pés descalços da própria sepultura 
e, num adeus, fugir da morte, 
passos espertos, ou falsos."

"Ofegante, escondido e atalhado, 
no caminho do distante ir seguindo. 
Sem um mapa vai ficando atrapalhado; 
mesmo assim, nem voltando atrás, nem perseguindo 
um não sei quê, pra não sei onde. 
Lugar comum, monotonia."

"E sentado olhar a vida; 
passou tanto que amadurece o sentimento e o desencanto. 
Na memória, a lembrança mais querida 
desmaiada num baú, posta de canto. 
Fechar o livro, fechar os olhos 
e desiludir o próprio espanto. 
E acenar de longe, sem sorrir. 
Entrar na densa névoa do próximo compromisso."

"Viver como se deve é mais que isso."

[Adhemar - Sto. André, 16/03/2005]