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domingo, 31 de março de 2013

DISCURSO

Eu queria dizer algo atemporal
mas foi só uma tempestade de palavras.
Eu queria beber o temporal
mas foi só um afogamento em lágrimas.

Deixei o tempo, deixei as águas.
Libertei as letras,
as mãos abertas,
não usei canetas nem mágoas.

Adormeci a inspiração,
rifei as musas dos poetas.
Andei pra trás, na contramão,
por linhas retas.

Quis representar só figuração
e encantar bocas abertas
em tantas palmas de consagração,
por linhas certas...

Em certas linhas
quis derrubar o equilibrista,
roubar pra mim as coisas minhas,
todas numa lista.

Desviei tantos olhares
pra trás de ondas balançando
nuns malfeitos exemplares,
seriamente brincando!

Retornei de um desde quando
palmilhando vias seculares.
Nessas tantas linhas entortando
curvas espetaculares...

Despertei a admiração
de públicos inusitados
vendendo uma enorme coleção:
versos calados...

[Adhemar - São Paulo, 02/09/2011]

domingo, 24 de março de 2013

ATRASO


"Tardiamente acordou pra vida. Percebeu a maré alta quando a água já batia na bunda; desajeitadamente, atirou-se e começou a mover braços e pernas para sobreviver, ocupar o próprio espaço. Pateticamente, percebeu que estava no raso, os joelhos batendo na areia… Ao rir, engoliu água."
"Caminhou, com as ondas pelos tornozelos, pensando fortalecer as pernas e dando aos pés a infinita delícia do ir e vir dessa água amiga, tão íntima e tão misteriosa. Sentou-se diante do pôr-do-sol molhando-se na areia encharcada e movediça; sai siri! Mas o ocaso o comoveu."
"Dormiu ao vento brando sob o manto azul marinho de um estrelado céu. Nem areia, nem mosquitos; só o infinito firmamento por limite aos sonhos, devaneios e amores do descabelado penitente. Somente a imensidão do futuro e a proteção de Deus. E cantou na solidão desse único momento, ponteando a existência e tentando finalmente ser alguém com algum significado perante o universo. Abençoado pretensioso que nasceu de novo!"
"E riu de júbilo, ou de bobo. Acordou novamente sob o avermelhado sol da manhã ainda meio por detrás da linha do horizonte. Levantou-se brincando com a maré e seguro do caminho a seguir. Embora - até que enfim - sem correr, sem desespero. A criança virou homem; sai siri!"
[Adhemar - S. Paulo, 16/12/2004]
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TARDIO
Por estes dias, aliás hoje, este blog está fazendo 5 anos (isto é, o blog original continuado aqui). Contra todos os prognósticos, durou além do que achei que iria. Depositou pensamentos, expectativas, relatos, ideias e outras bobagens, compartilhadas pelo simples prazer de vê-las observadas por outrem. Contei aqui a minha primeira viagem para além do Atlântico acima da linha do Equador, a segunda, quiçá contarei a terceira. Enfim, o futuro ditará se continua ou pára o desfile de manifestações da vaidade de alguém que usa relativamente mal as palavras para deixar algo de si mesmo voando por aí...
Adhemar, 24/03/2013

domingo, 17 de março de 2013

SEREIA

Deitar-me na areia e contemplar o céu
infinitamente azul, sem vento,
ouvir apenas o barulho do mar...
Ver um pássaro passar
e nada mais a perturbar 
essa imensa paz.

Deitar-me na areia e não pensar;
a ausência total de pensamentos
absorvendo a imensa paz do céu azul.
Perceber, pouco a pouco,
o contato da areia com o corpo;
sem mover.
Perceber uma brisa tão suave
apenas pelo som das folhas nas árvores.

Lentamente,
em meio a tantas sensações puras e únicas,
adormecer num doce sono,
sem sonhar.
Após um tempo incontável,
ver o teu semblante aparecer.
Primeiro, em meio à bruma dos olhos fechados;
depois, pouco a pouco, entreolhando o céu.
Ver teu semblante nos raios do sol,
na barra do mar.
Levantar, então, no rumo do mar.
Ir até a água e mergulhar,
pra desarear 
e pra te encontrar...

[P/ BSF]
[Adhemar - São Paulo, 14/09/1987]


sexta-feira, 8 de março de 2013

IMAGEM

- “Quem é você?”

Estou - estamos - diante um do outro. A pergunta é pertinente. Cabelos brancos e revôltos - ele. Revôltos e brancos, os meus. Olhar malicioso e franco, se é que alguém consegue olhar assim, ele ri. Não dizemos nada. Nesta altura da vida, pouco temos a dizer, um ao outro. Mas dá pra ler um pensamento. Isto já nos aconteceu antes, há muito tempo. Mas antes. Tínhamos cabelos pretos, discutíamos por um minuto (penteados, ao menos?! Chego a achar que não). Tempos de água fria, de entusiasmo… Se alguém nos perguntasse o que tem a ver água fria com entusiasmo, riríamos. Associações livres que, quando jovens, contrariávamos.
Depois de outro silêncio, vejo-o sumir lentamente atrás do vapor de água quente no espelho…

[Adhemar - São Paulo, 24/05/1999]

E por falar em imagem…
Aproveitando a ocasião quero manifestar meu apreço por uma categoria especial de gente que Deus pôs no universo: as mulheres. Para mim, não há um dia específico pros homens ficarem puxando o saco que elas não têm. Todos os dias são dias de tratá-las bem, pois dão graça e beleza ao mundo, não só pela forma mas pelos gestos de que são capazes. Se não são perfeitas, quem de nós é? E, que apesar de muitas vezes não merecermos, ainda choram por nós…


Adhemar08/03/2009.