domingo, 30 de junho de 2013

DUELO NOTURNO

Uma noite, na penumbra,
caminhando solitário
de repente vislumbra
uma torre, um campanário.
De tal visão inda se lembra
que nunca mais a esqueceu.
Ao pé dela uma contenda
que tanto sangue verteu.
Dois campeões encapuçados
ao pé de uma janela
duelavam, encarniçados,
ambos por uma bela.
Cruzam os ferros, terríveis,
quando um terceiro aparece.
Desafia os dois destemíveis
e a cada um diz que vence.
E tal duelo recomeça,
com os três se espicaçando.
O triste final se apressa
mas um quarto vai chegando.
É o que tem prioridade
- é o que aos outros vai dizendo.
Com tão pouca claridade,
os outros três o maldizendo.
E o desafiam também.
Duas duplas se enfrentando.
Por testemunha, ninguém;
só a bela está olhando.
Chega um quinto, o sexto, o sétimo,
todos na briga entrando.
Vão chegando, chega o décimo,
os contendores aumentando.
Ela olha indiferente
a tão singular combate.
Por ela briga tanta gente,
tanta gente que se bate.
É tão sonolenta a donzela,
que apaga sua candeia.
E sai devagar da janela
a rameira da aldeia…
[Adhemar - março/1983]
Duelo!
Outra bobagem escrita à época sob pseudônimo, numa série de cartas que trocava com um amigo. Qualquer hora apresento as barbaridades que ele escrevia de volta…
 
Adhemar, 29/06/2008.

DUELO GRAMATICAL

Desenterrado apesar de certas "licenças poéticas" levadas ao extremo, só pra fazer graça...

Adhemar, 30 de junho de 2013.

INTERSECÇÃO

Um exercício de retórica:
fachada de austeridade e força.
Apesar das aparências
mas visível além da dor,
existe um ponto fraco;
não revelado mas revelador.
O prumo, a pose, o porte.
Nada mais importa
se o espírito está quebrado.
Mas há no mundo dor maior -
não que console ou resolva;
apenas demonstra que há conserto
para o que está diante
do que vai errado.
Atravessando o tempo,
atravessando o espaço:
mudo e declarado!
[Adhemar - São Caetano do Sul, 18/05/2005]

sexta-feira, 28 de junho de 2013

RELÂMPAGO

O H da faísca
é como um vaso etrusco
que se quebra ao movimento brusco
e solta um cálculo que risca

Homem com M maiúsculo
dono de um nariz grego
fala por um olho cego
e pensa por um fraco músculo

O E da lâmpada se apaga
numa claridade bem disposta
escondida atrás de uma lagosta
rudemente bate e afaga

O A da moça atrapalha
perguntando à aeromoça
se ela vai dar uma força
ou se joga a toalha

O menino do L grande
se debate num estrago
no pesadelo devolvido ao lago;
morde a isca ou expande?

O N do velho envelhece
a palavra some na garganta
O B do traseiro se levanta
e a morte o rejuvenesce

O P de tudo interessa;
porém a poesia se aborrece
porque o poeta a esquece
mas, tudo bem, não há mais pressa...

[Adhemar - São Paulo, 05/02/2012]

quarta-feira, 26 de junho de 2013

INDAGAÇÃO

Às vezes surge uma pergunta
que se julga irrespondível.
Vem altiva, presunçosa e prepotente
e totalmente irresponsável.
Chega do nada, envaidecida e desvairada
como se única;
essa pergunta, irriquieta e assanhada
surpreende, provoca e arrebata,
causa espanto, causa pasmo e atrapalha
de tão sem nexo e de tão descabelada.
Essa pergunta caída de repente,
malevolente e mal intencionada
só quer por fogo em nossa vida atribulada.
Essa pergunta atrevida
apesar de tão dissimulada
é uma prensa que nos joga na parede
e nos obriga a repensar a própria vida.
Essa pergunta tão fatal e malfadada
vem de dentro,
rasga o cérebro e a razão abençoada;
rasga a alma já tão cheia de serviço,
semi-desesperada.
Essa pergunta que não cala,
não se aquieta e quer resposta.
Essa pergunta sempre sobe de repente
sem contexto e sem escala.
Quem sou eu?!
[Adhemar, 01/06/2007]
"That is the question!"
Essa pergunta tem uma co-irmã - "o que eu estou fazendo aqui?!". Nem sempre andam juntas, graças a Deus! Mas a resposta para ambas é o modo como vivemos a nossa vida. Eu acho…
Adhemar, 26/06/2008.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

MAGIA

O tempo vai passando e a gente até que muda um pouco. Porém permanecemos com as mesmas... manias! A vivência, as experiências e a observação nos ensinam muito. Mas... a gente aprende?! Sempre surge algo inesperado que nos põe de volta na mais inocente das infâncias ou na mais confusa das adolescências. A gente se vê diante das surpresas... surpresos! Às vezes é de graça, às vezes paga-se um preço.

O tempo vai passando e a gente aprende a confiar... desconfiando! Porém permanecemos com as mesmas ideias; liberdade, igualdade e fraternidade, socialismo e justiça... como se essas coisas existissem mesmo. E vivemos nessa imensa bolha do nosso ideário, ainda que algumas ambições se misturem dando um certo sentido a tanta ilusão.

O tempo vai passando, mas a saudade não.

[Adhemar - São Paulo, 20/08/2011]

terça-feira, 18 de junho de 2013

VELÓRIO

Quase ninguém se preocupa com isso;
ter maior ou mais compromisso,
maior empenho e comprometimento,
frisar um vínculo por merecimento...

Até que um dia, sem mais nem aviso,

Vem a cova rasa, a lágrima sem riso.
Despreocupado do próprio futuro, olhos fixos,
a gente se perdendo em meio aos falsos elogios...

Seremos uma ilha por todos os lados cercada

de atributos dos quais não tivemos nada;
uma ilha - e não porto seguro -
nem exemplo nem convite para novos desafios...

Nesse momento até a vela ao nosso lado se acaba,

as flores exalam seu cheiro nauseante na fumaça.
A gente desce, a impaciência sobe
e o povo vai embora dissipando a glória efêmera que nos cobre...

[Adhemar - São Paulo, 11/05/2011]

terça-feira, 11 de junho de 2013

TRAJETO E CADEIA

Trajeto…
Hora cara.
Rastreamento, limpeza, reflexo.
Essência do amor.
Alinhamento aleatório
de novos e antigos conceitos.
Formando projetos.
Conveniências.
Acessórios genuínos.
Mundo avesso,
autorizações e mandados.
Tudo compreendido entre duas extremidades:
opção e ação.
Manchas nos olhos
toldando a visão.
Luz de velas,
todos vivos,
velando a escuridão!
Cadeia…
Disco desconto dez contos.
Torno contorno coturno.
Mulher melhor meu olhar.
Poesia, pó e azia, pô! É a Ásia!
Oculta, ó culta! É curta.
Associação só social há só ação.
Contágio contagem quanta gente!
Passaporte passa a porta passa e aposta.
Contato com tato comodato.
Partida partitura par de atitudes.
Relação reação releitura.
Agita a gente agente.
Dormente tormento da mente
o escuro obscuro obtuso
contudo com tudo contente;
teimoso ter mais, terminou.
E não há nenhuma dúvida:
definitivamente endoidou!
[Adhemar - São Paulo, 06/05/2005]
Delírio
Não lembro se estava com febre, ou de fogo… O fato é que… Também não entendi!!!
Adhemar, 21/06/2009.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

DIAGONAL

Olhar enviesado, travessia.
na distância,
no cumprimento dos compromissos,
nos sons confusos,
no processamento
e numa suspeita atitude.

Uma certa palidez,

um tremor,
o pavor de um momento.

Um certo silêncio 

para sempre perdido,
uma sequência,
uma consequência dos atos impensados,
inspirados e circunspectos.

Olhar exato, contido,

preciso mas ainda enviesado;
atravessado, atalhado,
dramático e decidido.

Olhar profundo,

olhos fechados,
tempo parado...
Paira no ar uma eletrizante corrente
de sentimentos controversos.

Linhas suaves,

balanço controlado,
presença marcada por leveza.

Enfim olhar satisfeito

e o espírito mais bem preparado
pelos e para os próximos momentos...

[Adhemar - Santo André, 25/06/2007]

terça-feira, 4 de junho de 2013

OBRA SJOp

Obra SJOp

Reforma radical executada na Igreja de São José Operário, em Santo André. Apenas duas paredes ficaram em pé, reconstruímos reforçando a estrutura, alterando a cobertura. O projeto é de uma arquiteta ligada à paróquia e a obra foi realizada em 2002 pela construtora Tramil, da qual faço parte.
Adhemar, 11/06/2008.

PROJETOS
Estou trabalhando novamente para o pessoal da Tramil; aliás, estivemos em contato permanente durante os últimos 4 anos; é uma espécie de segundo lar...
Adhemar - 04/06/2013.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

TROCA

Abrem-se as páginas de abril;
azul claro ao fundo,
abaixo de tênues linhas em anil.

Um verso murmurado em língua estrangeira.

O trem apitando,
a ferrovia está além dos verdes jardins.

Todas as canções parecem monocórdicas.

Os ventos se calam,
os pássaros descansam.

O sol amarelo e quente,

vermelho e abafado,
passos quietos se aproximam.

Abrem-se as páginas da paisagem,

na areia onde o mar se desenrola.

A fotografia em branco e preto

oculta essa alegoria entrelaçada das cores,
da luminosidade e do silêncio.

O silêncio rompido

pelo zumbido de um inseto.

O inseto rompido

pela velocidade do batráquio que o devora.

O verso alaranjado em língua estrangeira

fechando as páginas desbotadas de janeiro...

[Adhemar - São Paulo, 18/02/2012]

sábado, 1 de junho de 2013

PREVISÕES

Bola de Cristal
cartas de Tarô
Jeito ocidental
banhos de ofurô

Búzios, cartomante
borra de café
O bom viajante
segue a pé

Adivinhos, videntes
leitura de mão
bons antecedentes
e cana, cela de prisão

Sina, dita, destino
o futuro e o coração
Ingenuidade de menino
e sabedoria de ancião

História e filosofia
nada é previsível
Entre possibilidade e visão
os caminhos do impossível...

[Adhemar - Paris, 19/04/2011]

Notre Dame (foto: Adh2bs)

Turistas (foto: turista americana)

Castelo de Vincennes - pavilhão do Rei (foto: SM)

Castelo de Vincennes - pavilhão da Rainha (foto: Adh2bs)