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sábado, 28 de setembro de 2013

CAMPEONATO DE POTOCA (15)

FESTA CENSURADA…
Qual não foi a hemorróida que não tive
depois de um funesto rega-bofe;
cheio de piriris, canapés e acepipes
que descreverei nestas estrofes.
Tudo quanto queiras teve a festa,
nada mais porém do que o impasse
surgido após que esta besta
ficou esperando o desenlace.
Chego cedo à festa, após curto trajeto.
O ônibus vazio até veio depressa.
Smoking, gravata borboleta - chique à beça -
Há quanto tempo a esta roupa eu desinfeto!
Na porta, mal acredito, está meu nome
entre o de quinhentos e tantos granfinados
(não é no céu a festa, e ai, que fome!).
Eu lá, entre tantos quinhentos convidados.
Todo feliz, vou em frente pro salão.
Logo de cara um garçom vem me abordar:
- Cavalheiro, o que deseja pra tomar?
- Um "giardino" por favor, e sem limão.
(Foi a dica de um amigo que segui;
- peça um "giardino" com toda a pose granfa!)
Veio o "giardino", sei lá eu que alquimança,
fui bebendo e olhando tudo quanto vi.
E o primeiro desastre veio logo:
o tal, que não sei eu de que compêndio,
"giardino" era forte e feito incêndio
desceu qual um vulcão que cospe fogo!
Passado o susto, do qual ninguém se apercebeu,
encontro conhecidos à distância.
Tchauzinhos discretos, fora instâncias,
vejo u’a morena chamar… Eu.
A passo lento - pura dança - chego a ela
conversando sobre todos os assuntos;
desde queijos ralados até presuntos,
descubro que ela gosta de costela.
Vai daí que a moça tem fino apetite,
digo, daí vai que ela tem bom paladar.
Eu disse a ela que gostava de pescar
e pra comer preferia sanduíche.
E, conversando, chega a hora do jantar.
Suculentos pratos vêm à mesa,
finamente servem-se os antepastos.
Eu ao lado dela fui sentar…
Não percebi que diversa natureza
não nos compatibilizava em matéria de repastos.
E mergulhei na sugestão apetitosa,
ainda com dor de garganta - o "giardino"!
Comi aquilo tudo qual menino,
mas bem comportado e mão jeitosa.
Por falar em mão, a perna dela
era tão roliça e tão macia…
Digo, ela disse, porque ela
falava sempre e muito, de alegria.
Mergulhei num "champollion" efervescente,
na moqueca com molhos e aspargos;
uns dos pratos, não sei quais, eram amargos,
outros porém, como a sopa, eram picantes.
No final desse banquete - ah! Meus dias!
Achei que eles estavam já contados…
Da garganta ao intestino tudo ardia;
e os dôces da sobremesa eram melados.
Mexer a minha boca eu mal podia
e ela a falar desembestava!
Tantas piadas sujas que contava,
tanto e tanto mais e tanto ria.
E champagne e vinho e champagne;
e vinho e champagne e vinho e vinho.
Tudo flutuando, eu tão levinho,
pensava: quando for pra casa Deus acompanhe!
Depois, apavorado, uma piscina
onde o povo ia caindo, todos bêbados;
homens de fraque, de cartola e as meninas
de vestido, de mantô e de brocados.
Ela e eu, entretanto, nos salvamos.
Não sei como, nem por quê, mas num momento
ela disse em me levar pro apartamento
dirigindo o carro dela, não enxergando!
E eu pensando "agora estou perdido!
Esta mulher me pega e põe na cama
e eu ‘necas de biterbas na tipama’
e… Ai! Meu tubo interno! Tão ardido…"
Assim pensava eu quando entramos.
E tal como desconfiei, ela sumiu.
Voltou toda séria  e me despiu.
Ordenou que eu me deitasse, sem reclamos.
Aí, ela sentou e, toda eclética
perguntou o que eu sentia, de qual lado.
Expliquei-lhe: "dói-me desde a boca até o rabo!"
E ela examinou-me, era médica!
[Adhemar - São Paulo, 07/05/1984]

2 comentários:

Adh2bs disse...

Este é o último da série "campeonato de potoca" publicado nos blogs; há alguns já postados aqui, outros a colocar oportunamente.
O primeiro dos comentários da época é de um de meus críticos mais ferozes, não por acaso, meu filho...!

COMENTÁRIOS NO ORIGINAL:

Comentário por Marco Luiz — sábado, 4 de outubro de 2008 (21:27:00)
Meu Deus! Que coisa mais “pra baixo”…
Bem escrito, mas não muito feliz.

Comentário por Manhosa — terça-feira, 7 de outubro de 2008 (12:46:37)
Adorei…
Como é a vida… cada um lê e interpreta conforme seu eu…
O 1º comentário… diz ser para baixo…
Eu achei fantástico…
Uma realidade do rapaz pobre…
Mas… curtindo tudo que a vida oferece…
Não dá a mínima… ‘ Ônibus…Smoking’…
O final… criação fantástica…
Fuga pela tangente…
Hilário…
Parabéns…
Bjs.
OBS: Amanhã vou iniciar em março de 2008…
Quero saborear… letrinha por letrinha…

Jéssy disse...

Olá, quanto tempo eu não vinha aqui! Mas é incrível, sempre que venho sou surpreendida com textos maravilhosos e de uma estética impecável.
Parabéns