terça-feira, 30 de dezembro de 2014

SERÁ

Plano elaborado.
Uma fuga.
Território desconhecido.
Soluço desconsolado.

O preço da liberdade,
não pago,
nunca antes cobrado.

Na rota,
um pântano.
Tanto anseio sedento.
Por espaço.
Por abertura.
E acabar afogado.

Preso ao ar livre.
Amarrado,
na própria ânsia da liberdade,
da essência,
da fidelidade a princípios sagrados...


[Adhemar - São Paulo, 22/12/2009]


SERÁ?

Desejamos a todos muitos planos elaborados e realizados neste 2015 que se aproxima; sem abrir mão de princípios sagrados para si mesmos. Que cada um saiba responder aos desafios que a vida impuser e possa, plenamente, encontrar o que busca.
Paz, saúde e felicidades.

Grande abraço,

Adhemar.

domingo, 28 de dezembro de 2014

REFERÊNCIAS

          O camarada era uma dessas raras pessoas. Coração atento, generosidade inata. Um dia desses, topou com um mendigo; o cara estava no chão, agonizando, sujo, maltrapilho e faminto. Nosso herói nem piscou: ajudou o mendigo a se levantar, o amparou e caminhou com ele para sua própria casa. Preparou-lhe um banho que o ajudou a tomar, preparou-lhe uma refeição que o ajudou a comer. Deu-lhe roupas limpas e o pôs para descansar pensando qua amanhã é um dia mais do que legal pra nascer.

        E nasceu. Nosso herói fez um lauto café, cheio de coisas para se comer. O mendigo aceitou e, bem barbeado, comeu. Comeu com gosto, com o atraso que trazia lá dentro...

         Finalmente, puseram-se a conversar; nosso herói querendo saber o que outro sabia fazer e se lhe interessava trabalhar. O mendigo, bem sério, suspirou e indagou se o seu benfeitor tinha alguma referência para apresentar, antes de lhe responder... Afinal das contas, sabe como é...!


[Adhemar - Sobrevoando MG, 06/04/2014]

sábado, 27 de dezembro de 2014

CONTO UM

          Vá você se fiar numa promessa! Ficar confiante, interessado, certo que o desenlace do negócio confiável, fio de bigode e papel assinado será aquele que você espera pela crença criada na lisura da outra parte. Pois sim! E os planos frustrados?! A dor aguda, intensa, o sofrimento pela decepção, pela angústia do prejuízo, do descumprimento de suas próprias obrigações com terceiros, decorrentes da quebra do compromisso que assumiram com você! Ô bosta! E o desfiar interminável de desculpas esfarrapadas - isso quando resolvem falar com você ao invés de sumir de vez - como é praxe! E aí está você, que não foge de compromisso nenhum, sem um puto no bolso e cheio de explicações inexplicáveis a dar para aqueles que estão furiosos com você. Mas, de repente, tudo se ajeita. Você dá um jeito, se empenha, se vira, cumpre sua parte sem que pudesse, mas ameniza o mau humor dos seus críticos que não querem saber se você foi passado pra trás e que apenas vão falar menos mal de você.

          Finalmente, você respira. Todo ferrado, mas com a sensação inigualável de ter mantido em pé sua palavra, seus compromissos, sua dignidade. Até atrair - pela sua postura correta, direita mesmo - outro negócio fantástico onde os interlocutores vão demonstrar sobejamente um autêntico agrado e confiança no seu trabalho, na sua atitude, em você; e você, sorrindo feliz com seu ar de idiota útil, caminha macio no rumo de uma nova arapuca...


[Adhemar - Santo André, 11/12/2008]

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

TRAÇOSPONTOS (*)

Soltam-se dos mapas uns trajetos,
vão e voltam, céleres trejeitos
de pouco espaço, passos incertos
em programas tortos, por direito.

Soltam-se das malas intenções.
Inventam-se escalas por decreto.
Em pouco tempo, destino certo,
acalenta o vento, os corações...

Vão as mochilas, cheias de afeto,
por lugares e coisas indiretas
onde o sonho fica bem concreto,
em programas tortos, linhas retas.

Soltam-se dos olhos emoções,
abrigadas por divinas bençãos
de um destino que não se tem nas mãos,
enquanto Deus escreve certo em orações.

Solta-se dos braços um adeus;
solta-se dos braços um abraço
todo inteiro, pedaço por pedaço,
democrático para crentes e ateus.

Solta-se do riso um palhaço,
raios e trovões num impropério,
estampa e cores num espalhafato.
Saltam segredos da caixa do mistério.

Prende-se o juiz, agora o jogo ficou sério.
Soltam-se faíscas das pedras do aprendiz.
Saltam os pontos e traços do desenho,
acaba o jogo, o resultado é ser feliz...


[Adhemar - São Paulo, 27/03/2014]

(*) Assim mesmo, tudo junto...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

DIZ TANTO

Tanta cor, tanta água
tanto seja lá como for
Tanto mar, tanto amor
tanta saída e entrada

Tanto giro, tonta dor
tanta loucura pronta
Tentação, tanta afronta
tanto ar voador

Tanto faz, tentador
tentativa e acerto
Tanta vida por perto...

Todavia, tanto amor
tanto amar por decerto
finalmente desperto...


[Adhemar - Santo André, 16/09/2014]

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

ROMARIAS

O amor, ah! O amor,
de que tanto se fala...
Gostar daquela mala sem alça,
xingar, apostrofar
e chamá-la ou chamá-lo de volta...

O amor...
Sua alma descalça,
a fé, a crença e a dor.

Amor, oh! Amor,
felicidade bendita,
norma de conduta não escrita,
coração, fidelidade...

Amor, palavra tão curta,
tão breve e profunda;
mesmo sussurrada se escuta
e o espírito de lágrimas se inunda...

Amor, amor, amor.
Na doçura e na doença,
na mágoa e na desavença,
na ventura e no calor.

Amor é o apelido da amada,
do amado, querido e querida.
Amar traz a alma enlevada
pois amar é a própria vida!


[Adhemar - São Paulo, 16/07/2008]

domingo, 14 de dezembro de 2014

INTERPRETAÇÃO REDUZIDA

Força ao pensamento.
Não parece muito tempo.
Diferente número bastante.
Soltas amarras, velas ao vento.
Salvas ao navegante.

Atitude exótica.
Heroísmo de encomenda.
Soltas amarras, vamos nós à parte prática,
destrambelhada e neurótica
dos movimentos à venda.

Firmar-se no presente,
pés plantados no convés.
Soltas amarras e dilemas importantes,
mudando rumos
nessa existência incoerente...


[Adhemar - São Paulo, 13/10/2011]

sábado, 13 de dezembro de 2014

REVALIDAR

Tentativa de "nascídio"
sair do ovo
parar ao sol

Movimento pouco
absorção de energias
pra depois vivenciar
pra depois sobrevivências
pra depois saber sorrir
pra saber viver

Parar ao sol
olhar azuis verdes azuis

Abrir os braços em cruz
Pensar
Viajar
Observar
Andar
Estudar 
Fazer

Todos os dias,
infinitamente,
renascer

Se não houver sol
ficar sob o cinzento
sob o chover
aproveitar o vento
respirar
aproveitar a força desse temporal

Beber
Aprender
Todos os dias, 
infinitamente,
até outra vez nascer...


[Adhemar - Santo André, 31/07/2014]

domingo, 23 de novembro de 2014

TRILHA

Pelo caminho, pedras coloridas. 
O mesmo caminho, as mesmas pedras e cores.
Pássaros, som da água correndo através das pedras, mas o caminho está ali.
Perspectiva misturada com a linha do horizonte, suaves colinas de uma cor tão leve. Mas o caminho continua por detrás das colinas, sempre adiante com um final indivisível misturado com as nuvens que "enevoam" o horizonte.
Iluminado pelo sol e sob o imenso azul do céu, porém, presente e sem desvios.
O caminho já trilhado está pra trás, na proporção dos passos.
E continua sempre.


[Adhemar - São Paulo, 27/09/1987]

sábado, 22 de novembro de 2014

PAIXÃO ATREVIDA

Um toque.
Quem é?
Não é nada,
só uma sensação que passou.

Um toque.
Quem é?
Não é nada,
foi a mesma sensação que voltou.

Passou mais uma vez e voltou.
Assim foi o dia inteiro.
Porém, se fez a tocaia.
Antes do próximo toque,
agarrada,
a sensação protestou.

Foi arrastada pra dentro,
trancada e interrogada.
Foi então que ela confessou:
estando desocupada,
pegou o primeiro coração que avistou.
Tocava e corria pra cima;
escondida observava.
Depois corria pra baixo
e, passando, tornava a tocar.
Até que foi surpreendida, 
apanhada,
teve que confessar.

O coração ficou comovido
e, distraído,
deixou-a ficar...

P/ B.
[Adhemar - São Paulo, 14/09/2014]

domingo, 16 de novembro de 2014

COMPORTADO

A saudade me assaltou
rendeu-me o peito
nenhum esquecimento deixou
E na barbárie do seu ato
envenenou meu sentimento...

A saudade foi chegando
invadiu e me tomou
Quebrou tudo, se exaltou
uma velha dor foi se formando

Entre os cacos que a saudade foi deixando
uma artística luz se refletiu
Ofuscou tanto a desgraça dessa dor
que a saudade se assustando
até partiu

Nessa luz, nesse raio tão sublime
um fluido bom se insinuou
O coração, co'a esperança de um conserto
aceso e firme, te esperando, se acalmou.


[Adhemar - Corumbá, 25/07/1987]

sábado, 15 de novembro de 2014

WANTED

Já soube de quem buscasse santidade;
muita gente procura emprego;
outros tentam provar Deus
e tem àqueles em busca de si mesmos.

Alternativas de saúde,
tesouros misteriosos,
relíquias perdidas.
Tem quem queira receber o que é devido,
tem quem busque uma grana para as dívidas.

Poetas e sua luta por rimas,
ou por palavras elucidativas.
A ciência procurando luminares
que, por sua vez,
querem explicações do Universo...

E sucedem-se por quês,
a maioria deles resultando insucessos.
A saudade é uma pergunta,
a nostalgia é explicação.

Mas ainda resta a busca,
a procura por remédio
para os males do coração.
O seu par perfeito, quem não quer?
Mas aonde estará?
E na pesquisa esquadrinhada
vive-se uma vida sem que se perceba...

Até que, um belo dia,
cara a cara com o espelho
a gente se pergunte:
aonde está você?!


[Adhemar - São Paulo, 01/11/2011]

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

MOCHILA

Quebrei da canção um retrato
guardei um caco de saudade
quebrei um vaso de eternidade
um desastrado

Cortei a mão em vários rasgos
grudei um esparadrapo
quebrei mentiras em vários papos
molho tabasco

Dividi o amor, vários pedaços
mas não dei tudo, só fiapos
costurei mal cobras e sapos
apaguei rastros

Quebrei a cara, o peito, os braços
não emendei nem tratei
corri com pernas pra que não sei
fracos traços

Tracei rotas que não percorri
escolhi caminhos percalços
me expus à chuva, ao sol, aos mormaços
o que sequei, escorri

Guardei na sacola lembranças
da mochila que perdi
cheia das bobagens que sofri
fantasiosas e falsas
como esperança sem alças...


[Adhemar - Santo André, 13/08/2014]

domingo, 9 de novembro de 2014

PEDRAS

Saída de um pequeno orifício
rola uma pedra caída.
Desfaz um eixo, cadência.
Derruba a simetria.
Na porta de um edifício,
emergência, saída.
A pedra acha difícil
ocupar seu lugar no mundo,
ajudando uma força no prédio.

No pátio,
um parque de tradições.
Balanço, gangorra, pião.
Um alto muro espia,
uma areia forra o chão.
Há tanto riso espalhado
que a pedra sorri
alguma satisfação.

Na corda balança a bandeira;
na pedra, uma lição...


[Adhemar - São Paulo, 24/09/2011]

sábado, 8 de novembro de 2014

CENTRO

Árvores na praça.
Roda girando no eixo.
A pena pulando,
a dor no peito.

A dor de saudade girando.
A pena da dó acontecendo.
O peito pulando,
a praça sem graça...

Grossas lágrimas escorrendo.
Braços cruzados,
vozes gritando
um Não às correntes.

Correntes nas árvores.
Elos grossos cruzando.
Vozes arrancando
alguns gritos descontentes.

Roda girando no eixo.
Abraço na praça.
No bravo peito,
forte esperança pirraça...


[Adhemar - São Paulo, 26/01/2012]

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

OLHAR

Do mais alto é que se vê 
os reflexos do sol
sobre os telhados
sobre as árvores
sobre todas as coisas

Do mais alto é que se vê 
o longínquo
os indivíduos de cada espécie
os inauditos, os inaudíveis
os inéditos

Do mais alto é que se vê
quão pequeno se é
o luar, as estrelas
a música, a brisa
o amor e a mulher

Do mais alto é que se vê
o quão pouco se subiu
como se está longe de Deus
as nuvens tão brancas
o céu tão azul...

Do mais alto é que se vê 
o quanto se é insensível
como a felicidade é vadia
o trânsito congestionado
a barriga vazia

Do mais alto é que se vê 
a cabeça ôca
a alegria solta
a pipa rôta
e a ideia louca...

Do mais alto é que se vê 
o tamanho do coração
a distância do horizonte
as areias, o mar
o pescador, o navio...

Do mais alto é que se grita
Ah! como a vida é bonita
dádiva bendita
que a gente nem acredita
começa e acaba escrita!


[Adhemar - São Paulo, 20/02/2001]

terça-feira, 28 de outubro de 2014

CRENÇA

Falsidade, autenticidade.
Conceitos próximos.
Dependentes da fé,
ser ou não ser,
maioridade moral.

Haveres, poderes,
muita informação.
Confusas ideias
quanto mais claras são.

Convicções oportunistas,
profissões desempregadas de fé.
A energia do mito,
as caminhadas a pé.

Sair dos medos
e das falsas alegorias.
Salvar-se triunfalmente
nas metas traçadas, nas alegrias...


P/ NBS
[Adhemar - São Paulo, 28/01/2014]

domingo, 26 de outubro de 2014

INVERSÃO DE ÂNIMO

No pacato caos da manhã fria
na escuridão da alma revoltada
na beleza de uma repentina revoada
uma súbita e inesperada alegria

Uma volta e a fé vem renovada
na certeza de uma alma cristalina
aprendendo a escutar de quem ensina
o encanto d'alegria inesperada

O milagre de Deus chegou co'a oração
aliviando as penas já passadas
demonstrando pro futuro boas jornadas
com otimismo e muita fé no coração...

[Adhemar - São Paulo, 26/05/2006]

domingo, 19 de outubro de 2014

AVALANCHE

Da cabeça vão brotando pensamentos
numa profusão assustadora;
no coração, amontoados sentimentos
que a razão não organiza nem perdôa.

Dos pensamentos vai brotando confusão,
a situação vai ficando esquisita;
os sentimentos inflamados - rebelião - 
são encarcerados sem direito a visita.

A confusão, por sua vez, dobra as esquinas
e a esquisitice se espalha na cidade.
Revolução que ganha o mundo, se multiplica,
libertando sentimentos, confundindo a verdade...

Das esquinas vão brotando pensamentos
numa confusão encantadora.
O motim inunda o mundo - sentimentos -
numa inspiração libertadora...


[Adhemar - São Paulo, 13/07/2008]

terça-feira, 14 de outubro de 2014

VALIDADE

Palavras duras, versos quebrados,
braços cruzados, descompostura.
Cinzas esfumaçadas, ainda quentes,
letras doentes, amontoadas.

Sentidos sempre invertidos, desconfiados,
descontrolados mas divertidos.
Letras corridas, descabeladas,
atrapalhadas, esbaforidas...

Palavras quentes, amontoadas,
afobadas, cinzas, doentes;
remediadas pelos abraços
das letras dos passos crentes.

Pisada mansa, fala contida,
dolorida, ainda criança.
Repouso tenso, extenuado,
deixando encharcado lenço.

Folha virada, assunto extenso,
trabalho intenso, linda alvorada.
sol no horizonte, espionando
a madrugada nova de ontem.

Folha virando, noite estrelada,
inaugurada no céu marinho;
muito devagarinho, escura e rara,
errada logo de cara, descontrolada.

Sonhos escuros, versos dobrados
e detalhados, malditos, impuros.
Sentidos desconfiados, belas palavras,
atordoadas, cabelos arrepiados...

Palavras livres em versos amordaçados.


[Adhemar - Santo André, 16/09/2014]

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

COMPANHEIRA STELLA, ANO 25!

Dizer que parece que foi ontem
Soa meio exagerado.
Dizer que parece ‘faz’ um século
Também não é apropriado.
Mas é eterno e tem durado!

O mais bonito desse amor
É que consegue ser amigo,
Companheiro e compreensivo.
O mais incrível desse amor
É que é evolutivo.
Toda a zanga é passageira
E da paixão não é cativo.
O ciúme é tranqüilo,
Nunca foi obsessivo.
Se alguém bate na porta
A gente ri, não dá ouvidos...

Dizer que parece que foi muito
É um tanto possessivo.
Dizer que, talvez foi pouco,
É melífluo ou esquivo.
Mas é eterno e altivo!


P/ SM
Adhemar – São Paulo, 23/09/2014.

VINTE E CINCO ANOS!

Dia 23/09/2014 completamos 25 anos de casamento. Muito abençoados, com três filhos incríveis; nada mais a declarar e muito muito muito para agradecer à Deus.

Adhemar - 26/09/2014.

BLOG - SEIS ANOS E MEIO...

Aproveitando que todo o conteúdo original do blog do terra já se encontra neste espaço, alteramos a foto e a cor deste blog. O Museu do Ipiranga é pertinho de casa, sempre agradável de se  visitar.

Adhemar - 26/09/2014.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

CARROSSEL

Beleza imperfeita, assimétrica,
um riso forçado,
uma nervosa alegria.
Uma profunda tristeza,
linda, encaracolada…
Um acidente, um acaso,
um fato abstratamente concreto;
uma fruta madura apodrecendo,
um xereta discreto…
Uma foto muito antiga
representando um hoje possível.
As mãos procurando inquietas
uma posição mais tranquila.
O tempo escorrendo certo.
Um revestimento que não protege.
Inexperiência repleta de sabedoria
que, mesmo cheia não se completa.
Apesar de ter muitas rodas
ainda é uma bicicleta.

[Adhemar - São Paulo, 08/02/2009]

Parece mentira!
Pois é, logo hoje, recomeçar com a sabedoria inexperiente, incompleta, logo quem nunca soube - e não sabe - andar de bicicleta! Pra quem acha que isso não tem nada a ver, que é só um amontoado de palavras aparentemente aleatórias, eu só digo uma coisa: banana não tem caroço…
Adhemar, 01/04/2009.

VISITA ILUSTRE ÀS ORIGENS

O poder transformador do homem é admirável e temível. Sua profunda capacidade de antever situações que demandam preparo, extração, fabricação e montagem e sua capacidade de enfeitar, adornar ou simplesmente estabelecer o novo ambiente ou novo objeto.
Estupefato, vejo um terreno dar lugar a um prédio; vejo minério se transformando em carros, máquinas, moldes e ferramentas para fazer outras coisas. Vejo a montanha virar pedras e as pedras virarem obras, ou jóias.
Aí, volto os olhos para trás e vejo o terrível poder transformador do homem: vejo a montanha virar um imenso buraco, vejo a floresta virar deserto, vejo minérios virarem armas e árvores tornarem-se dinheiro. E de repente eu vejo o dinheiro virar a cabeça dos homens, transformando capacidade em cobiça, inteligência em “esquema”.
Estarrecido, vejo o enorme poder da violência, nascido do poder da miséria, da opressão e da ganância; e o absoluto poder da mídia transformando tudo em fatos vendáveis e irretorquíveis, ainda que distorcidos e fabricados.
Então, vejo um índio carajá formando-se advogado para entender tudo isso. E voltar para a sua aldeia de origem e contar ao seu povo espantado as incríveis contradições do “Tori” (homem branco). Não entende a profunda agressão à natureza e aos outros homens! Não entende o trabalho que tem o “Tori” oprimindo, matando e juntando bens para não fazer nada depois! Não entende por que o incoerente “Tori” não tira o que precisa do rio, das matas, do mar e da terra, calma e sossegadamente como fazem os índios, tidos por indolentes por esse mesmo sobranceiro e intolerante “Tori”.
Socorro, meu Deus, eu quero ser índio!

[Adhemar - São Paulo, 29/04/2006]

Data vênia
Peço desculpas por não citar o nome do chefe dos carajás que foi estudar direito para tentar entender o “Tori” (e representar sua tribo para defender sua terra e os seus direitos), simplesmente não o registrei à época e esqueci. Escrevi esse texto após ler uma reportagem em que ele era o entrevistado. Lembro que chorei ao perceber como somos uns pobres diabos mesquinhos, gananciosos e sem a menor noção do que é viver em comunhão com a natureza; e esta ainda vai dar o troco, simplesmente eliminando a raça humana do planeta… Provavelmente,  só vão sobrar aqueles, que, puros de alma, ainda a respeitarem: os índios e todos os “nativos” assim entendidos os que vivem em harmonia com sua terra - ou com o que dela ainda não tivermos destruído…
Adhemar, 02/04/2009.

DESEJOS SIMPLIFICADOS

Nadar de braçadas num oceano tranquilo.
Balançar numa rede durante o mormaço da tarde.
Passar o tempo chuvoso debruçado sobre um bom livro.
Passar o verão e outono caminhando à toa na praia.
Ver crescer o coqueiro - e esperar que o côco caia!
Inspirar profundamente o cheiro das plantas após a chuva.
Assistir o pôr-do-sol no horizonte
até a noite surgir estrelada.
Observar o céu azul marinho
naquela paz que nada perturba.
Comer sem gula nem hora
erva-dôce e cachos de uva.
Respirar ar puro o dia inteiro,
beber água da fonte mais pura.
E ter flores, as mais coloridas,
num grande e belo canteiro.
Apreciar na intimidade
as formas da companheira.
Amar sem urgência nem culpa,
fazê-la feliz num momento
que dure a vida inteira;
e cantar em prosa e verso
o sucesso da dupla…
Viver simplesmente em paz com o mundo.
Viver simplesmente em paz com a gente mesmo.
Viver com saúde de menino taludo
e comer a feijoada completa,
com caipirinha, tutu e torresmo!

[Adhemar - São Paulo, 13/07/2008]

SETENTA ANOS

Esta é uma história originada de uma ferida aberta. Uma laceração destilando as inquietações de uma alma determinada, decidida a imprimir um peso específico e certeiro a cada palavra - dita ou escrita - para que não pairem dúvidas sobre sua idoneidade ou intenções; firmemente convicta que é melhor não estancar tal hemorragia.
Não importa o risco de amputação de um membro, nem a palidez decorrente da perda de todo o sangue. O mesmo que em vão já foi derramado e também aproveitado em transfusões. Não há dor, embora não haja anestesia. Indiferente à temperatura de ebulição, de encontrar algum apoio para as mãos ou da existência de curativos e desinfetantes, esta é uma história parada no centro de uma poça vermelha.
De repente, bem no meio desse enorme corte, começa a sair a própria essência da carne, nervos e músculos, revirados numa revolta. E a medida que vão saindo, vão formando um novo corpo revitalizado, fazendo a velha casca murchar e cair como o miolo do sol no centro de sua auréola. É o fim do seu banho hematóide. É a reencarnação física renovada terminando pelo próprio cérebro ora remoçado. E uma nova película nasce e envolve o novo reencarnado.
Uma vez pronto, ele pisca os novos olhos. Olha em volta de si e se dá conta de que o que foi antes está no chão, como lixo hospitalar ou restos mortais de um cachorro atropelado. E por pensar nisso, repara que está complemente nu - inclusive de referências. A desvantagem de ter o repertório vazio é que é mais difícil recomeçar; a vantagem é que está livre para fazer o que bem entender, sem medo de errar. Descalço, salta os próprios destroços procurando se situar, saber onde está, o que é e por onde começar. Por exemplo, achar uma cama e deitar; achar o seu sono e dormir; achar o seu mundo e sonhar.

P/ Tia Nancy
[Adhemar - São Paulo, 25/05/2004]

Tia Nancy
Na verdade, ela fez setenta anos em 3 de julho de 2004; mas havia escrito este texto antes, dedicado a essa irmã de minhã mãe que sempre foi protetora dos sobrinhos, a voz da razão e da concórdia nas disputas entre nós… Casada com o Tio Antonio - o Tonho, uma espécie de ídolo da gente com jeito simples e companheiro - ela continuou nos homenagenado com suas feijoadas excepcionais, cuscuzes sublimes e mousses de maracujá de fazerem os deuses descerem à terra. Tímida, assustou-se com o teor desse texto cujo conteúdo achou violento; ela, que renasceu tantas vezes de situações difíceis que a vida lhe impôs, inclusive agora, enquanto se recupera de uma cirurgia no abdomen. Mas tem tudo a ver com ela, esse texto “vermelho” que é nossa cor predileta (dela e minha). Que Deus te abençôe e proteja, Tia Nancy!
Adhemar, 14/04/2009.

RACIOCÍNIO

     A lógica é muito relativa e precisa ser contrariada para se confirmar. Mais refletida, passa a se justificar melhor, sai fortalecida dos desafios lançados. O fio condutor do pensamento lógico é contínuo, intenso e resistente. A lógica, por si só, é quase uma ciência. É apaixonante e jamais será contraditória.
     A lógica é muito orgulhosa. Porque faz sentido, porque tem razão. Sempre se prova, mesmo numa linha tortuosa sempre prevalece, sempre ganha. Vira teses e tratados, grandes filosofias. Abstratamente concreta, a lógica ensina, encadeia e apresenta sentido; cobra uma postura ou apoio. A lógica, porém, tem vertentes. Ramificações perceptíveis, prováveis, outras tantas certezas derivadas da certeza central e dominante.
      A lógica é loucamente irritante.

[Adhemar - São Paulo, 27/06/2006]

DELÍRIO MELANCÓLICO

Gotas de suor no rosto,
cabelo desfeito, camisa rasgada.
Uma vaga sonolência que não define o que se faz;
não é suficiente para dormir,
não é estimulante para acordar.
Ouvem-se os sons da noite no quintal.
Uma festa, a festa da noite.
Fechar os olhos e pensar,
um velho hábito.
Calmo e velho hábito.
Calmamente pensar e sentir o desejo de ficar só.
Não sei se o pensamento e a calma trazem você.
(E é bom).
Cada vez mais tranquilo tento me buscar em mim,
mas não consigo.
Já me desprendi, em outra esfera te espero.
A saudade vem me chamar dos devaneios,
dizer que a manhã se aproxima
e que é necessário sonhar.
A música é tão linda,
não dá vontade de parar de escutar.
Imagino: você me convida
pois há tantas convenções por derrubar.
Versos e mais versos me assaltam e fogem,
bandidos da minha alma.
Há tantas convenções por derrubar…
Com versos, socos,
talvez seja preciso gritar.
Enfim, puxar a cortina de um palco
e libertar a liberdade atrás dessas cortinas…
O mar, o sol e a liberdade.
Livre e feliz para ir aonde quiser.
Gotas de suor no rosto.
Gotas de lágrimas,
gosto de sal.
Gotas de lágrimas a rolar
e a secar aonde caem…

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 29/08/1987]

ENTÃO...!

Pra dizer “eu te amo” é preciso “entender de amor”?
O desententido entende o que o especialista jamais consegue apreender;
quanto mais entendido acha ser
mais perguntas e mais perdido…
O que do amor perdidamente há que se entender
é que o amor não é para ser estudado,
rotulado,
analisado
ou classificado:
apenas é preciso viver.
E o amor inesperado surgirá
fraterno,
romântico,
filial,
apaixonado,
egoísta ou generoso,
fiel ou relaxado.
Então o amor é pra amar
ou deveria ter perguntado?!

(Comentário no blog de Danny Z.)
Adhemar, 17/04/2009.

MUDANDO DE ASSUNTO

Numa palavra, uma virada.
Muda-se o tema da conversa.
Num instante contava-se piada;
no outro, uma disputa controversa.
Erguem-se as vozes numa acalorada discussão.
Erguem-se os copos para um brinde qualquer.
Num instante fala-se de assuntos do coração;
no outro, fala-se apenas de mulher.
E o futebol então, sempre presente.
Más notícias de política ou de economia.
Nesse ritmo, mesmo que não se aguente
pede-se mais uma e a conversa se esvazia.
Entre dúvidas e certezas se navega
nessa ebulição da mente etílica.
Uma tese que se prova ou teoria que carrega
a se provar numa experiência empírica.
A família e o trabalho - corolários -
e lembranças e memórias mil…
Amigos mortos, casamento, aniversários,
o mundo em geral e o Brasil.
Até que o que morre é a conversa,
cada um ensimesmado e pensativo.
Pede-se a saideira que desperta
e que devolve a cada cela o seu cativo…
[Adhemar - São Paulo, 04/10/2008]
Mudando de palavra
Onde se lê “cela”, no último verso, pensei em trocar por “vida”; mas preferi deixar como estava no original. Adote a expressão que melhor lhe parecer…
Adhemar, 19/04/2009.

LOCAL!!!

          Som ambiente, conforto, frescor de sombra de árvore sem cocô de passarinho mais a amplitude de um espaço aberto. Mesmo assim é um espaço interno; um vasto espaço interno onde tudo pode acontecer, inclusive o ruído de um regato de água límpida e fria para completar o recanto do folgado.
          Esse maravilhoso lugar existe e produz coisas majoritariamente estranhas, mais em forma de palavras do que imagens ou espaços tridimensionais: é o meu cérebro, um lugar perturbador e fascinante, que eu não consigo tirar da cabeça!

[Adhemar -  São Paulo, 22/08/2005]

ESTRUTURA

Tantos assuntos tontos,
tantos espantos tensos,
teimas nos panos quentes,
temas temidos tempos.
Prosa ambígua, rasa.
Cada metade basta,
causa maldade tola,
atola na mesma casa.
Máscaras, rosto atrás.
Más caras, feios roteiros.
Toda intenção de fato
é feito um assunto tosco…
Pernas andando retas,
setas soltando fogo;
jogo, archote, dado,
carta, deixa que eu pago.
Deita a cama no lago;
logo o amor se desfaz
na paz do que for tudo,
sobretudo… Se for capaz!
[Adhemar - São Paulo, 21/07/2005]
Demolição…
Há uma nota no radapé do rascunho: “melhorar muito”. Desculpa aí, não deu.
Adhemar, 25/04/2009.

PRESENÇA MARCANTE

Modestamente se apresenta
o circo de um homem só.
Leão, domador e palhaço,
homem-bala, trapezista, macaco…
Picadeiro, o papel,
recebe variados números
acompanhados de atenção e pipoca.
A caneta é o próprio trapézio
sem rede num salto idiota.
A lona, quase rasgando…
O tema é o amor, a paixão…
Suspiros, piruetas, momices,
reverências, caretas e cambalhotas.
Respeitável público:
o poeta despede-se a tempo,
acaba uma temporada;
a trupe faz suas malas
pois há outras vítimas a aguardá-la.
Novo lugar, velhos truques.
Expõe-se de novo o artista
com descoberta retaguarda…
[Adhemar - São Paulo, 01/02/2009]
Respeitável público
Este “blog” está fazendo um ano de vida mesmo hoje! E pela primeira vez ficou “abandonado” por tanto tempo… Aliás, não sei o que fiz com esse inadministrável senhor, o tempo, que não o tenho para as coisas da escrita e leituras! A vida está passando como um vendaval sacudido. Enquanto me “seco” e tento entender o que passa, vou tentar subtrair alguns segundos dessa agitação tresloucada para passá-los aqui, junto ao nosso “bando” virtual. Grande abraço a todos,
Adhemar, 24/03/2009.

SOB A CHUVA

Sob o guarda chuva das palavras insistentes,
“para enganar o tédio”,
surge uma prosa poética
sólida como um prédio,
suave como água corrente
escorrente dos temporais.
Esse tempo insistente
parece chato e doente
porém, não voltará mais.
E as palavras impressas,
eternas, necessárias, sem pressa,
vão ficar para sempre
desatadas da garganta,
dos punhos, do pensamento…
Achadas por um momento,
enfermas por um instante,
tratadas no sentimento
e de novo insistentes,
refratárias, circunstantes…
P/ Gabriela Domiciano (do blog “Devaneios”)
[Adhemar - São Paulo, 01/02/2009]
Guarda-chuva
Tenho ainda vários escritos originados de comentários e postagens em outros blogs desse nosso círculo tão interessante de afinidades, inclusive mais antigos do que estes que já foram mostrados.  Aos poucos eles irão aparecendo… E quem sabe outros mais não irão se sucedendo? Alguém sempre diz algo que nos intriga ou nos faz pensar e gerar uma reflexão escrita. Desde já vou agradecendo aos inspiradores…
Adhemar, 28/03/2009

EVOLUÇÃO

A árvore caiu!
Por qual mistério
o homem descobriu
que o pau dava papel?
A árvore caiu!
Por qual mistério
o homem descobriu
que a abelha dava mel?
A árvore caiu!
Por qual mistério
o homem descobriu
na galhada o fogaréu?
A árvore caiu!
Pelo mistério da observação
que o homem descobre coisas
eu tiro o meu chapéu!

[Adhemar - São Paulo, 14/06/2006]

domingo, 14 de setembro de 2014

NOTA DO AUTOR

          Este setembro marca o fim dos blogs no terra, onde este blog originalmente começou. Por esse motivo, resolvi salvar de uma vez todo o conteúdo de lá que não se encontrava aqui, incluindo comentários (estava salvando aos poucos, ver marcadores Arq e Poe: Lit1). Daí a quantidade absurda de posts este mês.

          Este setembro marca os 25 anos de casamento deste que vos escreve, portanto, mais alguma coisa há de vir por aí; além de uma mudança de aspecto que a gente faz nos meses de março (aniversário do blog) e setembro pra não enjoar da cara dele...

          Grande abraço a todos, deixem suas impressões ao nos visitar.

Adhemar, 14/09/2014

DESVIO

Sair da rotina, outra perspectiva.
Balançar uns conceitos,
balançar o corpo,
sacudir as idéias.
Parar; respirar.
Revestir uns degraus
e pisar com cuidado
para não escorregar.
Vibrações pulsantes,
sonhos por despertar.
Uma carona, um atalho,
laços por amarrar;
provas pra conferir,
notícias pra relatar.
Orientar os perdidos.
Varrer e sacudir o tapete,
olhar profundamente e suspirar.
Medir a tensão de um momento,
espreguiçar…
Manter o leme, o rumo,
se distrair, se perturbar…
Cair em si.
Refletir, escolher,
não hesitar.
Construir, aprender e ousar.
Sair de si.
Conferir e arriscar.
Se compenetrar, se preparar e,
em se perdendo, se achar!

[Adhemar – São Caetano do Sul, 13/04/05]