Pesquisar este blog

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

ÍNTIMO E PESSOAL

Começou o segundo tempo,
algo mudou no intervalo.
Outra ideia vai ao campo,
no ar, no peito e no calo.
O jogo vai acabar
mas ainda há tempo.
Mudou-se o que muito havia para mudar,
o resto perdeu-se no vento.
Um jogo sem adversário
mas onde se está perdendo.
Virá-lo é mais do que necessário,
mesmo com os membros doendo.
Olhar além, para frente,
planejar o jogo, o passe.
Jogar envolvendo gente,
mas sempre com muita classe.
Gente - os companheiros -
cada um na melhor competência:
atacantes, meio-campo, zagueiros,
raça, arte e ciência.
Mas além de toda a elegância,
desde a preliminar,
os primeiros jogos, a infância,
lances pra recordar.
A sábia experiência dos amigos mais velhos
quando, nos campeonatos,
o time perdia no espelho,
perdiam-se papéis e contratos.
Depois, no auge da forma,
o estrelato, o mundo, a seleção.
Como regra geral ou norma,
altivo, soberbo e campeão.
Disputar amistosos,
torneios, taças, lauréis
sem esforços ditosos
representando os papéis…
Até a plena maturidade,
até ser o capitão do time.
Na penumbra ou claridade,
a jogada mais sublime.
E ora, último jogo,
no amor e na glória
é do guerreiro o epílogo
que vai entrar para a história:
com força, classe, prece e rogo,
numa virada, a vitória!

[Adhemar - São Paulo, 15/03/2004]

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

PROTESTO CHORADO

Árvore, raízes, critério.
Sublimação, alegrias iguais.
Ciência, amor, virtude.
Curiosidade e poder, mistério.
Parcela de bom dia.
Oportunidade, dificuldades, obediência.
Janela, liberdade inesperada.
O tempo, a mente, preocupações.
Trabalho perigoso, ciência:
beleza e arte essencial.
Força.
Razão nascendo.
Tudo normal...

Espelho prudente.
Instinto.
Controle parado.
Astúcia ou justiça?
Princípio.
Orgulho e vaidade.
Palavras melhores?
Ignorância.
Paixão, 
veleidades?
Estudo e originalidade.
Simples amostra de vazio,
nada nada pequeno.

Instante pensado,
mentiras.
Braços pendentes.
Olhos dormentes.
Mente despida.
Continência,
súbito impulso.
Recursos escassos,
fracassos inversos,
tremendos sucessos.
Prenúncio de despedida,
abraços,
adeus inocência...


[Adhemar - Atibaia, 07/01/2012]


Choro protestado

Escrito iniciado em São Paulo, a 25/11/2011, depois concluído na data e local indicados. Como tudo o que é provisório, sofreu algumas intervenções agora, na hora de ser transcrito para o blog, para completar sua falta de sentido, já que não consigo recordar por quais circunstâncias veio a ser elaborado...

Aproveito a deixa pra manifestar meus votos de Feliz Aniversário ao Sr. João Gabriel, 5 anos de pura travessura com sua carinha de anjo barroco! Outro dia contou lá em casa que tinha posto a professora *** no bolso (sic); o detalhe encantador da história é que a indicada vem a ser a própria diretora da escola... E eu não duvido nada... Beijão, sobrinho!

Adhemar, 28/01/2014.


domingo, 26 de janeiro de 2014

VIDA-TEMPO

O tempo.
Implacável.
Liberta e aprisiona.
Marca, irrevogável,
e abandona.

O tempo.
Pesado e indelével
da alma se adona.
Soberbo, invencível,
Barcelona.

O tempo.
Embala e impulsiona,
mitiga e afaga,
segura e tira onda,
afunda e estraga.

O tempo.
Amassa e enruga,
estica e quebra a marcha.
Esconde e põe em fuga,
procura e não acha.

O tempo.
Interessa e escracha,
engessa e desperta,
explode e desencaixa
a porta aberta.

O tempo.
Libelo e manifesto
passa e não volta;
vai pra longe-perto
e desgasta.

O tempo.
De velho conhecido
a cruel e carcereiro;
trata como amigo
e tortura o prisioneiro.

O tempo...
Invenção insuperável.
Cativeiro supletivo.
Um rico miserável,
pra sempre relativo...

[Adhemar - São Bernardo do Campo, 26/01/2014]

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

MEU PAI

"Pai."
"Sentei-me na tua cadeira preferida para ver o mundo do teu ponto de vista; para tentar entendê-lo à tua maneira, sem heroísmo inútil, sem gabolice, sem baboseira. Para entender tua trajetória, teu idealismo objetivo e direto: a família, o encaminhamento dos filhos. Na ditadura ou na democracia, não desperdiçou atos, nem palavras. Empregou cada gesto e cada sentença na construção de elos sólidos, principalmente os morais: caráter e honestidade - nossa maior herança. Passo após passo, construiu um invólucro forte: estudou um por por um, fez seu teto e ainda proporcionou abrigo e acolhida para cada filho, cada nora e cada neto. Fosse com apoio sólido - material - fosse com apoio inabalável, moral."
"Companheiro e amigo, confiante na vitória e no sucesso para que preparou todos nós. Espelho, exemplo, se não foi perfeito - quem de nós é? - chegou perto. Traçou seu caminho, representou seu papel, entendeu-se com Deus para sair de cena - sem ensaio - mas como combinado. E saiu. Sorriu e saiu."
"Ensinou-nos a viver e a morrer dignamente."
Para: Adhemar Agostinho de Souza (28/05/34-07/06/01)
[Adhemar - S. Paulo, 09/06/2001]
Sobre meu Pai
A vida já pregou golpes duros na gente, mas até hoje, esse foi o maior. Éramos (ainda somos, creio) grandes amigos, era um homem de uma simplicidade estonteante. Confiava na lógica do imponderável como um cientista tem fé na ciência. A imagem que fica de sua morte prematura (pelo menos na opinião deste filho) é exatamente essa: cumprido seu papel com coragem e galhardia, saiu de cena. E seja lá onde estiver, um grande abraço.
Adhemar, 19/04/2008.

MEU FILHO
Hoje meu filho do meio, o Marco, está completando 19 anos (ele fez um comentário na postagem original, reproduzido nos comentários desta). Resolvi relembrar meu pai que, apesar do tempo de ausência, ainda faz uma falta danada, saudade doída. "It's life, brother, it's death", é o que nos diria meu velho...
Adhemar - São Paulo, 20/01/2014.

domingo, 19 de janeiro de 2014

BOLHA

A genialidade de uma ideia é muito suspeita. Desconfiemos, pois, do brilho intenso das grandes sacadas. O tempo - às vezes nem tão longo depois - se encarrega de mostrar que aquilo não era tão viável assim, ou prático. Aí, seremos obrigados a sustentar só com retórica convincente; ou retumbante...

A genialidade de uma ideia se dissipa muito intensamente; se dissolve nos próprios desdobramentos, nas consequências ou nos efeitos. Obriga-nos a fantasiar e mascarar os fatos que a desmentem e nos provocar poderes mágicos. Para sustentá-la neste ponto só a genialidade de outra ideia que a suceda ou explique.

A genialidade de uma ideia é "canhestramente" insustentável; é nesse argumento mesmo que nos apoiamos para justificá-la:  sua improbabilidade. Quanto mais estranhas as razões que apresentarmos, mais fantástica ela será, ou melhor, irá parecer!

A genialidade de uma ideia só tem como se defender se gerar uma grande ilusão "indesmentível"...

[Adhemar - São Paulo, 24/09/2011]

domingo, 12 de janeiro de 2014

TEMPESTADE NO PÃO-DE-AÇÚCAR

Na montanha o teu rosto sorriu.
Pleno mato o teu rosto corou.
Mais um pouco e um corpo caiu.
Desde o alto ele veio e saltou.
Tua febre em teu rosto dourou
e o teu sangue em vão se esvaiu.
O teu corpo alado planou
mas teu coração apressado sumiu.
Depois de tanto chegar e partir e chegar,
sempre há o encontro do nunca esperar.
Se visto uma vez, vê-se sempre,
no inimaginável lugar…
Na ânsia de ver e rever,
a lembrança de um outro lá.
Assim, na distância do tempo,
passada a nuvem, passado o vento,
o reencontro em Cuiabá!
P/ D.-RJ
[Adhemar - Cuiabá, 21/07/1987]

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

PRETEXTOS ARGUMENTADOS...

Aos poetas é permitido explicar-se confundindo; saindo do meio-fio da racionalidade para cair - embarafustando-se - numa teia de palavras desconexas cujo sentido é um código oculto no coração dos leitores.

Aos poetas é permitido infringir certas leis, é permitido fugir para dentro das próprias prisões; e de estarem presos ao ar livre e de gritarem para espantar os medos... e os ladrões...

Aos poetas é permitido subverter os grilhões em pássaros feridos e soltar todas as feras de sua mata nativa; bradando alegorias e alusões à sua prosa altiva, cujo sentido é mobilizar seus leitores para as suas revoluções.

Aos poetas é permitido cometer todos os exageros em nome de suas fracas convicções...


[Adhemar - São Paulo, 23/04/2012]

sábado, 4 de janeiro de 2014

RECIPROCIDADE

"Quando a situação parecer ambígua, houver duas hipóteses possíveis aparentemente antagônicas, escreva bem devagar. É para dar tempo de pensar entre duas palavras ou, a cada letra, para que a frase se desenvolva coerente e conclusiva. O próprio papel refletirá o caminho a seguir. Cada traço, cada curva de cada caractere escrito dará uma pista para que o assunto se descubra, se revele e se fixe."
"Após o período introdutório - normalmente o mais difícil - o assunto segue seu curso sem dar margem a respostas para eventuais indagações. Esse segundo trecho cria uma espécie de fixação pelo tema, apresentando mais desafios do que soluções. Outras dúvidas surgirão para múltiplas respostas possíveis. Aí é que o texto ganha corpo, vida e independência. Porque a gente perde o controle e não pode mais alinhar palavras a esmo, sob pena de estragar o início promissor. Nesse ponto é que o recheio do texto precisa introduzir uma expectativa no leitor. Na continuidade desse desenvolvimento, a expectativa deve se tornar uma verdadeira ansiedade, quase que um pequeno terror. O leitor deve se perguntar: - Onde é que isto vai dar?!"
"Para finalizar, com o leitor quase em transe, o escrito deve iniciar o desenlace, o ‘gran finale’ sem, no entanto, se deixar adivinhar ou perceber. É outra das partes difíceis, normalmente cada um tem um método peculiar de encarar esse momento, sem contar a ansiedade do próprio autor. E cada sílaba deve ser pronunciada a meia-voz, cada passo deve ser medido e calculado para o enorme sorriso de satisfação do cliente ou para a queima do livro…"
[Adhemar - S. Paulo, 21/05/2006]
Diz aí…
Chegou até aqui? Então? Funcionou?!
Adhemar, 23/04/2008.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

LAMPEJOS

Voz do universo
ecoando nas estrelas
palavras em verso
prazer em vê-las...

Luz cintilante
refulgindo fria
e muito brilhante
na alegria...

Calado o espelho
que tudo reflete
que pensa vermelho
e se diverte...

Calor de agasalho
abrigando o espaço
pousa no galho
sem embaraço...

Coração aflito
joelhos no chão
uma prece, um grito:
apenas paixão...

[Adhemar - São Paulo, 08/11/2013]