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segunda-feira, 31 de março de 2014

BELA

Pelo céu da noite estão estrelas frias.
Cada uma brilha diferente,
ficam iluminando a gente
por tantas noites e por tantos dias.
Mas a estrela maior está dormindo
de mãos postas sob o travesseiro.
Tento imaginar seu rosto fagueiro,
com gosto, sorrindo.
Sorrindo de um sonho de estrela,
de dona de todas as noites,
de dona de todas as águas,
de dona de todos os brilhos.
No brilho do gelo das estrelas
multiplicando os raios, fulgores,
sorrindo um prisma de cores
e linda, tão linda, dormindo.
P/ BSF[Adhemar - São Paulo, 19/08/1987]

domingo, 30 de março de 2014

AVISO CELESTE

Estava andando distraído,
pensando na vida,
dando um tempo para o coração.
Precisava ser arejado,
respirar um pouco
e ter seu meio cicatrizado.

A vida é engraçada.
A intuição, então, falhou.
Na primeira distração -
o coração - de alguém se ocupou.

Primeiro, foi a razão que alertou;
mas concentrou mais atenção.
O menor gesto encantou
e agradou ao coração.
Situação delicada...
Tanta afinidade nasceu
que a amizade com amor se misturou.

Aturdido, o tempo passou
e a temperatura do peito
ficou febril...
Uma confusão se estabeleceu,
o coração está curioso,
parece que percebeu...
e aceitou...
A razão confiou no destino
que é o melhor mensageiro do céu...

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 13/09/1987]

quarta-feira, 19 de março de 2014

GAIATICE - VSm

Um homem vivido e experiente costuma achar que resolve tudo. Considera-se imune às surpresas, nas dificuldades costuma dizer: ” essa eu tiro de letra”. Então, um belo dia, ele se vê na contingência de levar o filho caçula à escola, pela primeira vez (para o filho, é claro). Vai planejando ficar lá o tempo que a escola decidir pois o pequeno pode estranhar, chorar, essas bossas. Chegado o momento, hora da despedida, ué?! Cadê o menino?! Já entrou, não disse nem tchau e, ao que parece, vai feliz da vida! E o babaca do pai, cuja boca já nem fecha de espanto, cai da pose e sai chutando lata, o rabo entre as pernas e pensando quantas surpresas mais a vida ainda vai apresentar…
P/ Vítor Samuel[Adhemar - São Paulo, 04/02/2004]
Este também promete…
Nosso caçulinha, o Vítor, que fez 9 anos dia 25 último, realmente não deu trabalho na primeira vez em que foi à escola. Aliás, já tinha ido com ele antes, no dia da matrícula, e havia algumas crianças no curso de férias. A diretora o convidou para fazer algumas atividades com elas enquanto eu preenchia a papelada. Ela ficou encantada, pois quando ele entrou na sala onde as crianças estavam, ele disse o seguinte: “oi gente, eu sou o Vítor; vocês querem ser meus amigos?” Ia fazer 4 anos, a figurinha… Então já demonstrava a enorme vontade de ir à escola, afinal, os irmãos não iam?! Independente, auto-confiante, conversa muito bem dando opiniões consistentes sobre todos os assuntos. Ainda me deixa embasbacado muitas vezes, tal e qual no primeiro dia de aula…
Aproveitando o ensejo, hoje (01 de março) é o aniversário da nossa princesinha - única sobrinha (que tem sete primos!) - Ana Beatriz, a Bia, faz três aninhos, é linda, muito inteligente e meiga, adora a primaiada que só tem mimos com ela; filha de meu irmão Alexandre, faremos uma festa conjunta pros dois (Bia e Vítor) daqui a pouco. Parabéns aos dois!
Adhemar, 01/03/2009.

Agora são 9!

Nesse meio tempo entre a postagem original e hoje, Bia ganhou um irmãozinho que fará três anos em maio. Vítor já fez 14, enfim, o tempo passa tão rápido que daqui a pouco vamos estar elencando os netos! 
Esclarecendo o "9": Três deles são meus filhos, mais dois de cada um de meus três irmãos dá 9.

Adhemar, 19/03/2014

domingo, 16 de março de 2014

VERSÓRIA

Embriagado por inebriante perfume 
que não existe mais
Evocado pela memória
Evolado por saudade
Equivocado pela ausência de ciúme

Tanta dor já é demais
Física, real e da história
respirando com dificuldade
afogada numa lágrima magoada
desconectada do que o sentimento faz

Antes fosse peremptória
esta lembrança e sua crueldade
que fere esta alma torturada
no mais fundo de sua prisão
onde foi encarcerada de forma compulsória

Embriagado pela adversidade
mantém olhos calados, boca fechada
Quem sabe assim escuta o coração
ou aprende a evitar a emboscada
o rancor e a maldade

Embotado, com a alma tão cansada
simplesmente deita-se no chão
Sente a dureza da pedra gelada
e não é pior do que a velocidade
da dor pungente e embaçada

Determinado, finalmente junta as mãos
em torno de uma corda desfiada
ainda resistente, pela idade
fortemente nas grades amarradas;
e ele arranca a janela da prisão!


[Adhemar - São Paulo, 02/11/2013]


VERSÓRIA
(subst. fem. Náut. Ant.)

Cabo ou corda, para fazer voltar a vela.

sábado, 15 de março de 2014

REVELAÇÕES 1 E 2

1
"Tenho vivido um dia de cada vez. Parece bom, parece fácil mas é só prático. Um dia de cada vez, sem noção do conjunto, sem plano de vôo."
"O registro do que vai ficando para trás: amigos por rever, coisas importantes por fazer, fatos e momentos, descanso ou brincadeira, férias que não chegam, exposições que acabam e a gente não foi ver. Um enorme rastro de incompetência e má administração. E o rascunho do que vai ficando pra frente: o grande projeto que não vem, livros que não se publicam, campeonato de futebol de botão… Convites que não se faz aos amigos, convivências envelhecidas pelo desleixo, pelo viver o dia-a-dia apequenado pela roupa suja, o lixo pra fora e a burocracia geral."
"Tenho vivido um dia de cada vez, e mal. Escondido atrás de afazeres, de uns poucos momentos privados, todos desperdiçados em releituras inúteis, em planejamentos furados."
"Tenho vivido um dia de cada vez sonhando com o amanhã, sonhando com a loteria, uma hipotética herança, direitos, "royalties’, sorteios."
"Tenho vivido um dia de cada vez procurando a rima perfeita ou a perfeita justificativa para o que soar diferente. Tenho lançado palavras desalinhadas com o pensamento de um repertório limitado. Um dia de cada vez, como um condenado."
2
"Penteio o cabelo que já não tenho, lá de onde eu venho isso não basta."
"Semeio o vento que já me veio, lá pelo meio isso não passa."
"Tiro uma água de um côco sêco, grito no eco, lá vem resposta."
"Chuto o cão, tiro o nó da gravata, lá pela mata é uma proposta."
"Tomo um banho na cascata como quem mata aula de canto."
"Tiro um sarro, perco a piada; lá na estrada não se chega a tanto."
"Largo tudo, largo o espanto, no meu recanto a rua é larga."
"Largo a pena, rasgo o papel… aqui no céu não precisa mais nada…"

[Adhemar - S. Paulo, 27/02/2004]

3?!
Onde estão as metáforas? A serviço de pensamentos aparentemente pessimistas… que desperdício. Sabiamente, diz o velho chavão: nada como um dia após o outro que dias melhores virão. A propósito, tenho um amigo, colega de trabalho, que responde ao cumprimento "como vai?" dizendo assim: "melhor que ontem, pior que amanhã!". Amém!
Adhemar, 22/04/2008.

sexta-feira, 14 de março de 2014

DIVAGAÇÕES AO TEMPO

I.

         Ousaram tentar defini-lo. Ousaram dizer que ele não tinha. Não tinha o quê? Ousaram duvidar dele. Acusaram-no de impassibilidade diante dos fatos. Tempo.

         Tempo é vida. Estamos parados no tempo assim como vivemos. O tempo não começa nem termina; é como a linha matemática dos números, na qual estamos parados no ponto zero.

         O tempo não passa por nós. Nem tampouco nós por ele. O futuro vem ao nosso encontro enquanto o passado nos foge. E o presente é o eterno zero em que vivemos.

         O presente é cada futuro chegando, cada passado indo embora. Não é passado nem futuro posto que é instante. É o menor momento de nossa vida, é nossa vida toda.

         Tempo é um momento de luz. O futuro é um ponto branco no horizonte. O passado se perde na escuridão. Mas o tempo não se perde. Nós é que o perdemos por ganhá-lo, vivendo.

II.

Outrora fui o que não sou. Vivido ou não, passou. Se era bom, não sei. Sem saudade, sem vontade, vou sendo.

III.

Aquele mendigo era cheio de detalhes. O paletó rôto que havia sido de meu pai, ainda conservava a mesma elegância com que o próprio sacudia a sua embriaguez. A calça, não de todo amarrotada, combinava com o sapato mais ou menos gasto. A barba por fazer. Senti pena. Então, virei de costas para o espelho. É o mendigo que se afasta.



[Adhemar - São Paulo, 12/08/1981]

"Devagarções"

Meu Deus...! Um dos escritos mais antigos que consegui desenterrar: 

a percepção do 

tempo por um rapaz aos dezoito anos! Bota tempo nisso...



Adhemar, 14/03/2014.

terça-feira, 11 de março de 2014

MAIS UM

Mais uma vez esperar.
Onde não se cultiva a planta,
onde não se planta um jardim;
esperar uma não encomenda,
recomendar remédios, comida, capim.
Capim pra mim… Vou pastar!
Vou pastar porque o burro que nasci é imortal.
Coisa e tal, tal como um animal
que do pó veio;
e que retornará ao mesmo pó.
Nunca mais é muito tempo pra esperar.
A mente desmente as coisas por fazer
e o melhor a fazer é navegar.
Apenas quando o mar se acalmar,
oceanicamente nos acolher.
Os barcos e mais um vão afundar.
Sem maré, nem vento, nem temporal.
O marinheiro imprudente se dará mal
e quantos mais vão aprender?
Mais um? Mais dois? Mais três?
Outra frase, outra maiúscula.
Outra mácula, nódoa, mancha.
Se da máscula postura a rua escura
indica o caminho no altivo crepúsculo
ao possuidor da maior musculatura.
Da besteira de tentar a formatura,
o anel, o diploma, o caos total;
dos dizeres desconexos deste século.
Uma batata, uma fé maior na salada
do que na própria linha organizada.
Muito tempo! Ora se, ora direis.
Ajuntamento desproporcional de esperar
por mais um, por mais dois e por mais três.
[Adhemar - Santo André, 03/03/2004]
 Mais quatro
No alto da folha desse rascunho há uma anotação (feita por mim, certamente um bom tempo depois de tê-lo escrito): "esclarecer!!!"
Agora, há uma nova anotação, feita ontem: "melhor não!!!!"
Quem é que arrisca um palpite?
Adhemar, 15/09/2008.

quinta-feira, 6 de março de 2014

PAISAGENS

Aberturas.
Brechas por onde podemos olhar.
Olhar a vida passando como um rio,
correnteza límpida,
peixes, pedras.
Fenda na pedra.
Outras manifestações de vida
diante do nosso olhar curioso.
Um microcosmo de pequenas plantas e bichos,
insetos, aranhas...
A brisa soprando de algum lugar.

Seteiras.
Qual parede rasgada de um forte,
para se divisar o exterior.
Planície extensa, prado.
Quem sabe – outros movimentos.
Tantos lugares e meios para enxergar adiante,
tantas manifestações de vida para serem vistas
de tantas maneiras...

Mirante.
De minha parte
prefiro um mirante.
Tudo visto de cima,
um panorama vasto e variado.
Do alto de algum lugar,
observar a vida vivendo.
Viver tentando entender
o significado de cada movimento.
Ver tentando viver.
Luneta. Telescópio.
Miragem do céu estrelado
onde cabe apenas metade do nosso olhar
tentando explicar o movimento dos astros,
tentando encontrar mais vida
para além de onde a vida alcança.



[Adhemar – São Paulo, 07/02/99]

terça-feira, 4 de março de 2014

AMANHECER

Madrugada conselheira
aquiete o meu coração
enquanto clareia o dia
derramando luz pelo chão.
Madrugada, madrugada
diga-me o que fazer.
Alcance-me em plena estrada
no rumo do meu bem-querer.
Madrugada, já vai embora
por que tanta agitação?
Por que tanta chuva lá fora?
Por que me embaraça a razão?
Manhã que se anuncia
aquiete o meu coração;
me faça sonhar neste dia
com a dona da minha paixão.
[Adhemar - p/ SM - S.Paulo, 31/05/2006]