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sexta-feira, 14 de março de 2014

DIVAGAÇÕES AO TEMPO

I.

         Ousaram tentar defini-lo. Ousaram dizer que ele não tinha. Não tinha o quê? Ousaram duvidar dele. Acusaram-no de impassibilidade diante dos fatos. Tempo.

         Tempo é vida. Estamos parados no tempo assim como vivemos. O tempo não começa nem termina; é como a linha matemática dos números, na qual estamos parados no ponto zero.

         O tempo não passa por nós. Nem tampouco nós por ele. O futuro vem ao nosso encontro enquanto o passado nos foge. E o presente é o eterno zero em que vivemos.

         O presente é cada futuro chegando, cada passado indo embora. Não é passado nem futuro posto que é instante. É o menor momento de nossa vida, é nossa vida toda.

         Tempo é um momento de luz. O futuro é um ponto branco no horizonte. O passado se perde na escuridão. Mas o tempo não se perde. Nós é que o perdemos por ganhá-lo, vivendo.

II.

Outrora fui o que não sou. Vivido ou não, passou. Se era bom, não sei. Sem saudade, sem vontade, vou sendo.

III.

Aquele mendigo era cheio de detalhes. O paletó rôto que havia sido de meu pai, ainda conservava a mesma elegância com que o próprio sacudia a sua embriaguez. A calça, não de todo amarrotada, combinava com o sapato mais ou menos gasto. A barba por fazer. Senti pena. Então, virei de costas para o espelho. É o mendigo que se afasta.



[Adhemar - São Paulo, 12/08/1981]

"Devagarções"

Meu Deus...! Um dos escritos mais antigos que consegui desenterrar: 

a percepção do 

tempo por um rapaz aos dezoito anos! Bota tempo nisso...



Adhemar, 14/03/2014.

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