I.
Ousaram tentar defini-lo. Ousaram dizer que ele não tinha.
Não tinha o quê? Ousaram duvidar dele. Acusaram-no de impassibilidade diante
dos fatos. Tempo.
Tempo é vida. Estamos parados no tempo assim como vivemos. O
tempo não começa nem termina; é como a linha matemática dos números, na qual
estamos parados no ponto zero.
O tempo não passa por nós. Nem tampouco nós por ele. O
futuro vem ao nosso encontro enquanto o passado nos foge. E o presente é o
eterno zero em que vivemos.
O presente é cada futuro chegando, cada passado indo embora.
Não é passado nem futuro posto que é instante. É o menor momento de nossa vida,
é nossa vida toda.
Tempo é um momento de luz. O futuro é um ponto branco no
horizonte. O passado se perde na escuridão. Mas o tempo não se perde. Nós é que
o perdemos por ganhá-lo, vivendo.
II.
Outrora
fui o que não sou. Vivido ou não, passou. Se era bom, não sei. Sem saudade, sem
vontade, vou sendo.
III.
Aquele
mendigo era cheio de detalhes. O paletó rôto que havia sido de meu pai, ainda
conservava a mesma elegância com que o próprio sacudia a sua embriaguez. A calça,
não de todo amarrotada, combinava com o sapato mais ou menos gasto. A barba por
fazer. Senti pena. Então, virei de costas para o espelho. É o mendigo que se
afasta.
[Adhemar - São Paulo, 12/08/1981]
"Devagarções"
Meu Deus...! Um dos escritos mais antigos que consegui desenterrar:
a percepção do
a percepção do
tempo por um rapaz aos dezoito anos! Bota tempo nisso...
Adhemar, 14/03/2014.
Nenhum comentário:
Postar um comentário