Pesquisar este blog

sábado, 31 de maio de 2014

CALADA

Ali parada, muito quieta,
deixa passar a paisagem;
contemplativa,
só a mente está ativa.
Deixa a perna desdobrada,
olhar distante, pensativa.

O mundo fora indo adiante,
feiura e beleza irmanadas,
estampadas, assumidas.
Mas não é isso que a preocupa
ou que a deixa indiferente;
não é a miséria que a comove,
ou a dor ou a injustiça.

Inverte a perna desdobrada...
e suspira.
O calor não lhe diz nada,
nem o azul 
do céu de primavera;
nem o cabelo
que balança quando vira
para olhar uma fachada 
ou obra prima.

Também não é esta viagem
programada e sentida,
por dever de ofício planejada
e em boa hora empreendida,
que lhe traz nuvens à fronte
e quase lágrimas em cortina.

Ali parada, muito quieta,
curte a saudade de uma pessoa querida
que ao coração lhe partiu,
se despedindo,
pouco antes de sua própria partida...

[Adhemar - Milão, 07/04/2014]

Estrutura central, circulação entre os pavilhões da Fieramilano (fotos: SM)


Hotel Auriga - Milão (foto: SM)

Hotel Armani - Milão (foto: SM)


quinta-feira, 29 de maio de 2014

ESTRATOSFÉRICAS ALTURAS

De muito alto se perde um pouco a perspectiva. A gente olha pra baixo e pensa que está vendo nuvens; e está mesmo. Mas elas estão tão próximas à superficie do oceano que nos confundem.

Outras noções se perdem... Tempo e espaço físico, por exemplo. Portugal atrás dos Piemontes e Turim depois dos Alpes. Montanhas brancas, verdes planuras em seus tons diferentes... Até que, finalmente, a gente do chão se aproxima. Chegado à terra a gente olha pra cima e vê as mesmas nuvens, só que tão próximas do céu, agora.

Outras noções se perdem no chão.


[Adhemar - Madri/Milão, 07/04/2014]


Alpes (foto: Adh2bs)
Turim, vista de cima (foto: Adh2bs)
Interior da Itália, chão! (foto: SM)

 

Detalhe de Piso - Sta. Maria Novella (foto: SM)

Detalhes de piso: Sta. Maria del Fiore - Duomo (fotos: SM)


Sta. Maria del Fiore - Duomo - vista de cima... (fotos: Adh2bs)



terça-feira, 27 de maio de 2014

DEVANEIO NOTURNO

Quase um sonho.
Imagino.
Te vejo sorrir.
Sorrio.
Quero cantar.
Assobio.
Meu relógio me diz:
- Hora de ir.
O portão não se abre.
Partir?
Perco a chave, a carteira…
Mas é você, eu sei!
Sei que fico.
A lua ri de mim.
Advinha…
Quando olha…
Eu não fui!
Tuas mãos?
Dentro das minhas.
P/MG
[Adhemar - novembro/1981]

segunda-feira, 26 de maio de 2014

SUBSTITUIÇÃO

Por onde anda o balanço
do amor indelicado
mas fiel além de bruto?
Há uma estrada de poeira
e um ar seco absoluto;
pontes feitas de madeira,
paisagens feitas de espanto.
O chá, um tanto atrasado,
água quente na chaleira...

Por onde anda esse tanto
do amor tão dedicado,
do mar em verde manto,
do marinheiro astuto?
Um dia feito comandante,
capitão, pirata de fato,
dos peixes de sua rede,
dos saques de tanta prata;
do grande tesouro enterrado
embaixo do xis do mapa.

Por onde anda esse tonto
do amor inocente,
principiante e cadente?
Estrela cheia de brilho,
versos cheios de flores
com bombons e palavras;
mas essa porta é enorme,
maciça pesada e fechada
em que se bate co'aldrava...

Por onde anda esse canto
do amor apaixonado,
da amada sempre ausente,
do verso indeterminado,
do vaso quebrado em pedaços;
do arrependimento presente,
das más palavras gritadas,
do choro em lágrima silente,
da lágrima do choro contente...?

Por onde anda o amor pra sempre?

[Adhemar - Madri, 17/04/2014]

Palazzo Medici, Firenze (fotos: Adh2bs)


Palazzo Vecchio, Firenze (fotos: SM)


domingo, 25 de maio de 2014

OLHARES

Quem pode dizer o que não dizes,
quem pode querer o que não queres?
Negas tu tuas raízes,
negas tu outras mulheres.

Quem ousará enfrentar teus desafios,
quem olhará de frente o destino?
Foges tu por quais desvios?
Negas tu o teu caminho.

Quem elevará a própria fronte?
Quem ousará sair do mesmo rumo?
Quem te acompanhará nessa loucura?

Quem é você, qual mastodonte
que arrebenta tudo e sai do prumo
solitário e cego nessa noite escura?


[Adhemar - São Paulo, 16/05/2001]

sábado, 24 de maio de 2014

QUEM FOI?!

A Gi falou pro Du que a Si soube pelo Zé: a rota não está no mapa.

O Dé endoidou. Disse pra Su que a Vi voltou pra não ver o Ka! "Mas e o tal mapa?" Perguntou o Lu.

O Jão, muito sabido - um ó mais que os outros - perguntou ao Né. O Né, muito malandro, fez que não sabia e perguntou pra Bel, que passou pra Pê. A Pê se invocou e botou a culpa no Rô; mas a Mi o defendeu: "não foi o Rô não, fui eu! E a Tê me ajudou!" A Lá sorriu e a Sô, coitada, chorou.

De qualquer forma, a Ju está chateada porque o mapa era dela.


[Adhemar - Sobrevoando Fernando de Noronha, 06 ou 07/04/2014]

Piazza della Repubblica, Firenze (foto: SM)

Perspectivas - ruas de Florença (fotos: Adh2bs)


 Perspectivas a partir da Ponte della Carraia (fotos: SM/Adh2bs)


 Palazzo Pitti, Firenze (foto: SM)



quarta-feira, 21 de maio de 2014

AUMENTO / SEQUESTRO

AUMENTO
"De repente, o tempo ganhou uma dimensão inesperada. Estendeu-se quando parecia curto e acabou quando parecia eterno."
"Então deu-se que o tempo - que nunca é tão dado - foi outorgado, concedido; generosamente transformado num grande instante."
"De repente, instável e acelerado, desligou-se o tempo na história e no acontecimento, como um velho senhor ranzinza e mal humorado."
"Então, nessa fluidez intermitente foi-se o tempo, esgotou-se o largo instante no seu vão momento. E como só é capaz o tempo, passou, voltou e passou de novo como uma vingança ou uma brincadeira boba: envelheceu tudo o que tocou."
[Adhemar - Santo André, 09/11/2005]

SEQUESTRO
"Hoje capturei a pequena idéia furtiva e passageira, fugidia e brincalhona, fugaz e volátil! Revoluteou, provocou mas passou perto demais. Rápido como nunca antes fôra, estendi as mãos e fechei os dedos em torno de seu pescoço frágil. Assustada e escorregadia, ainda tentou desvencilhar-se, dar meia volta; mas foi inútil."
"À força de meu apelo, acabou ficando quieta. Porém, nos estranhamos. Quando levantou os olhos, deu comigo fitando-a de frente, tenaz e algoz…. Ou compreensivo e libertador?! Momentos depois, conversávamos. Não íntimos, nem enamorados mas como quem caminha em campo minado. Todavia, minha determinação limitou um terreno dentro do qual ela podia mover-se, sem pressa e sem pressão. Nada de tentar a fuga, também não pedi resgate. Tudo muito definido e tudo muito vago, aparente contradição surgida do nada advogando pela cativa pequena idéia."
"O céu, então, anuviou-se. Se ela invadira o meu espaço - clara como um dia de sol -  registrou-se em mim e se pôs em minha boca para ser divulgada: como quem quer direito autoral, nome na capa e título de biblioteca! Por que não posso retê-la, contê-la, imprimi-la, espalhá-la a meu gosto e contentamento?"
"Passou a se desenrolar um julgamento. Ré, parida de mim, esvoaçante e diáfana, mais acusadora do que vítima. Sutil, reservei para mim os papéis de jurado e juiz. A pequena idéia gaguejou contraditória; já não sabe mais o que diz. É minha a sentença que a espera; são os anos que ela me fizera recluso!"
"Confuso, aturdido e satisfeito, ponho em marcha o veredicto: te escrevo, te imprimo e te expulso!"
[Adhemar - São Paulo, 10/05/2003]

terça-feira, 20 de maio de 2014

"PEREREREGRINO"

Será que é um bom filho,
pássaro andarilho
meio vagabundo
no meio do caminho
pro velho mundo...

Voa com as próprias pernas
dentro de asas externas
meio absurdo,
meio absorto,
meio "muito" surdo...

Anda com as próprias asas,
bagagem em casa,
mochilão no colo
ali e volto logo...

Será que é um bom mestre,
faz coisa que preste
muda a sílaba e confunde,
muda a estrofe
e a rima que ilude...

Será que é um bom filho
ou só um andarilho
que se compreende,
muda o ibope,
erra e nunca aprende?


[Adhemar - Sobrevoando RN, 06/04/2014]

Palazzo Vecchio, Firenze (foto: SM)

Davi (réplica), Piazza della Signoria, Firenze (foto: Adh2bs)

segunda-feira, 19 de maio de 2014

IMERSÃO

Os meus pensamentos são tão altos
que não mais escuto o que vai fora.
A cabeça se amedronta em sobressaltos
e pergunta: ”o que vai ser de mim agora?”
Os cabelos já em pé nem ficam mais,
e os olhos num constante alvoroço.
A fraqueza e a tontura são demais,
a barriga só reclama seu almoço.
Um tumulto e o mundo vai girando,
os ruídos - dentro e fora - insuportáveis.
A tontura desconcentra procurando,
incessante, posições mais confortáveis.
Mais que os cabelos sempre encaracolados,
mais que perdido nessa faina inconstante
são os pensamentos mais embaralhados
que atrapalham sua audição no mesmo instante.
Mais do que uma fuga tão premeditada,
mais do que ações, todas lançadas à esmo,
fica a cachola tão esmigalhada
que soterra o poeta dentro de si mesmo!

[Adhemar - São Paulo, 12/04/2006]

domingo, 18 de maio de 2014

METADES INTEIRAS

Contas, gotas de coral
gotas de orvalho
pontas de orgulho
pérolas e tal

Brisa úmida
beijos da manhã
luz colorida
luz que pulsa

Pontos espalhados
cinzas puros
de cor iluminados
ao sol

Estrelas estilizadas
brilho estampado
lágrimas de sal

Flores divididas
amor e temporal.

[Adhemar - Sobrevoando RN, 06/04/2014]

Crepúsculo (fotos: Adh2bs)

sábado, 17 de maio de 2014

ECOS

"Incompreensão. Palavras que caem no vazio, um deslocamento no mundo, um isolamento, uma imensa solidão. Mesmo assim, laços se fortalecem desde as raízes perfurando a casca da teimosia e da deliberada ignorância com que se revestem as situações mais simples, mais claras e diretas. Por que o desvio se o caminho é reto e cristalino? Por que a dúvida se o tempo não cansa de provar o que fazer? Por que complicar o que está resolvido há muito tempo?"
"É preciso deixar o improvável tomar conta, o incerto, o rocambolesco. As vezes o óbvio deveria ser mais respeitado. Certas certezas são duvidosas! Anátemas, dogmas, teses impressas nas atitudes e nos pensamentos passam como incontestáveis e absolutas. Perde-se, no contexto geral, a oportunidade de viver outras experiências, outras teorias e, por consequência, outras verdades. Premissas adotadas, ‘pré-conceitos’ fixados, ‘crenças-guia’ baseando todo o comportamento por toda a vida."
"Os espíritos retornam? Um grande amor é para sempre? Eram os deuses astronautas? Deus existe?"
"Quantos forem os seres humanos, tantas serão as respostas, os dogmas, as teses, as mesmas vacilantes certezas…"
[Adhemar - S. Caetano do Sul, 31/05/2005]
Eca!
Como periodicamente acontece com qualquer um, de repente aparece um questionamento a respeito de tudo, geralmente causado por fatores externos, mas não descarto a influência de fatores internos, tipo insegurança, angústias surgidas da sensação de insucesso… Ainda bem que existe a família da gente pra dar suporte e apoio, além do papel e da caneta, amigos em que a gente pode confiar essas sensações passageiras.
Adhemar, 21/04/2008.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

SATISFAÇÕES AO PATRÃO (1)

Estamos viajando outra vez para a abençoada feira de mobiliário e design de Milão. Desta vez, entraremos na Europa por Madri, a exemplo de minha primeira vinda, com a diferença que faremos a conexão para a Itália sem tempo sequer de chegar ao outro terminal para embarque a Milão! Pena, ainda estamos devendo umas pernadas pela Espanha.

Após a obrigação, uma passadinha em Florença (curiosidade despertada pelo aperitivo de umas poucas horas que ficamos lá, ano passado) e a volta por Roma, só de passagem, para o retorno a Madri, de onde voltaremos pra casa...

Este texto não era para ser escrito porque a chocolateira voadora está sacudindo muito. A caneta quase não para quieta e o coração também não. Mas Deus está segurando e a janta está chegando!

[Adhemar - Sobrevoando MG, 06/04/2014]

E por falar em janta...

Almoço em Florença (foto: SM)

Almoço em Florença (foto: Adh2bs)

quarta-feira, 14 de maio de 2014

PALCOS

Pedaço.
Caminho, percalço.
Alcance.
Balanço,
passo descalço.

Um salto.

Um Santo,
espanto.
O ar e o encanto.
Canto arbitrário.
Movimentos irregulares,
espaço,
armário.

Guardado o manto,
humildade,
esperança.
Força na subida,
manter a atitude.
É tudo metáfora,
juventude.
Pra frente ainda é longe,
pra trás ora é distante...


[Adhemar - Sobrevoando MG, 06/04/2014]



City Life, Milão (foto: Adh2bs)

City Life, Milão (foto: Adh2bs)

City Life, Milão (foto: Adh2bs)

 Show de rua em Florença (foto: Adh2bs)

Show de rua em Florença (foto: Adh2bs)

segunda-feira, 12 de maio de 2014

DESCULPE

Perdoa o pequeno verso,
perdoa a distração.
Não guarde ressentimento
nem deserção.
           Perdoa o atrevimento
           e também, talvez, a razão.
           Deixe fluir o inverso
           ao coração.
Perdoa a rima tão pobre,
pobres palavras e a presunção.
Seja você, seja nobre.
Eu não.
          Perdoa esse adeus, de repente,
          desde sempre uma aberração.
          Perdoa o poeta errante,
          errados versos, errada mão.
Perdoa, principalmente,
a falta de inspiração.
[Adhemar - 25/01/2000]

domingo, 11 de maio de 2014

PIT

Ela me leva com ela
me carrega e me aguenta
me dá o lugar da janela
me agasalha e alimenta

Ela é perseverante
determinada e pra frente
pensa nos outros antes
e ainda fica contente

Ela é inteligente
observadora e perspicaz
decidida e diligente
não há o que não seja capaz

Ela é linda e radiante
uma obra prima e bela
me leva para adiante
minha estrela-guia Stella.

P/ S.M.
[Adhemar - Madri, 17/04/2014]

Aeroporto de Madri [foto: Adh2bs - a estrela-guia à frente (d)]

Aeroporto de Madri, Café (foto: SM)

Turistas ilustres num Café de Florença (foto: SM)

PS

Para a aniversariante do dia, e mãe, um duplo parabéns! Que Deus te abençoe e acompanhe!

Adhemar, 11/05/2014

sábado, 10 de maio de 2014

VERMELHO

Vermelho é minha cor predileta,
vermelho é a minha cor da sorte.

Vermelho era o teu vestido na noite,
da nossa aproximação certa.

Vermelho como o meu sangue.
Vermelho como a rosa do desejo,

como o beijo,
como o mais lindo batom no lábio exangüe.

Vermelho era a cor 
que a mulher errada não gostava; 
por isso mesmo,
o destino avermelhou meu caminho;
vermelho como o sol poente da estrada . . .

Vermelho como as madrugadas
que precedem a aurora,

vermelho como o fluxo de palavras destiladas,
principalmente vermelho, vermelho e vermelho, ora!

Vermelho como o nosso futuro,
alegre e berrante!

Vermelho como o nosso sangue.

Vermelho como a rosa do desejo.

Vermelho como o teu vestido,
vermelho como o rubor do beijo . . .

Para S.M.
[Adhemar - São Paulo, 03/01/1991]
Red Star
Para aquela que é a senhora dos meus dias, mãe dos meus filhos e que faz aniversário amanhã!
Parabéns, Stella! Bjs,
Adhemar, São Paulo, 10 de maio de 2009.
...
[E de novo hoje, 10/05/2014, aproveitando o resgate do blog original, na semana STELLA MARIS!!!]

sexta-feira, 9 de maio de 2014

TURISTAS

O céu, o mar, o farol
a ponte, o rio, museus
multiplicados brilhos seus
morenos cabelos de Carol

Calor, azul, a praça
a força maior da luz
nos passos que nos conduz
aos verdes olhos de Graça

Beleza, escola, aprendiz
nos prédios, nas casas, na árvore
em torno da estátua de mármore
as longas pernas de Liz

Espaço, transporte, a mala
no ar, no chão ou na água
na multidão que deságua
na doce voz de Carla

Cabelos e olhos da bela,
a voz, as pernas, o porte
na vida a grande sorte
de andar com Reyna Stella


P/ SM
[Adhemar - Florença, 14/04/2014]

Perspectiva, rua de Florença (foto: Adh2bs)

Piazza Sta Maria Novella (foto: Adh2bs)

Giardino Palazzo Medici (foto: Adh2bs)

quinta-feira, 8 de maio de 2014

INFORMAÇÃO

Olhou pra mim. Tive certeza de que ia me fazer uma pergunta. Sorriu e se afastou.

Mais pra frente, ela pegou uma revista. Folheava ao acaso, não sei se vendo realmente o que estava olhando. E foi assim, entre atenta e distraída que deixou algo cair no chão. Era um lenço de seda, ou coisa parecida que, solícito, me abaixei para apanhar. Ela também, só que pegou a minha mão...

P/ SM
[Adhemar - Sobrevoando MG, 06/04/2014]

O charme das flores nas ruas de Florença (foto: Adh2bs)

Belo panorama que se vê a partir das pontes sobre o Arno, Florença (foto: Adh2bs)

terça-feira, 6 de maio de 2014

VERSOS QUENTES

Calor.
Suave e quente energia.
Envolvente vapor de afeto.
Nem súbito, nem apressado;
os corpos se aquecem e se movimentam.
Atração inevitável e normal.
Perseguição, captura.
Nuvens passando discretas
encobrindo aventuras secretas e reservadas.
O sol pensativo nas forças que pode fixar
para o amanhã radioso e perfeito.
Perfeito é o teu corpo,
mulher protetora,
de abraço quente e terno.
Poesia.
Poesias são essas palavras mal alinhavadas
que o aventureiro joga no tempo
em tempos difíceis.
Toda a poesia é feita com um pouco de tristeza.
Tristeza melancólica.
Toda poesia contém também
a alegria passageira,
de passagem,
clandestina e sorrateira.
Toda a poesia escrita perde o sentido.
Poesia é para ser vivida
como a poesia que eu vivo contigo.
P/SM[Adhemar - 09/01/1989]

segunda-feira, 5 de maio de 2014

ESTABELECIMENTO

Na ponta do movimento,
a porta do momento.
Quem se importa?

No calor da revolta,
a volta do elemento
que transporta...

Transporta, enleva, arrebata.
Arrebenta no limite e trata.
Quem se importa?

No imediato manifesto,
outra volta,
outra estaca.

Na janela fechada
a ousadia embalada.
Quem se importa?

Na balada embevecida,
confundida e torta,
há tanta vida...

Atrás do horizonte, escurecida,
tanta vida.
Quem se importa?

Quem dá falta
dessa mão meio perdida,
muito viva...

No trajeto entretecido
vai um olho ardido...
Quem se importa?

Se ele ri ou se ele chora,
se ele abafa ou escolta
amor bandido...

Meio solto, meio roto e perdido,
vai o amor caminhando em chão batido...
Quem se importa...?

[Adhemar - sobrevoando MG, 06/04/2014]


Avião da Ibéria em Guarulhos (foto: Adh2bs)

sábado, 3 de maio de 2014

CONFRONTO (vaias)

De tão exposto e tão confesso,
eu, réu, juiz e carrasco
nas próprias impróprias me enrasco
e humildemente lhe peço:
"Não useis contra mim minhas armas,
minhas rimas e ricas mentiras.
Afastai de mim essas tiras,
nem bebei do meu sangue, meu plasma."
"Subjugai o o que é minha calma
e protegei-me do próprio fantasma.
Porque, monstro! Não me entusiasma
em sequer perturbar minha calma."
E, volúvel, fugiste saliente
saltando janelas, cancelas e sebes;
no mesmo cálice onde ora tu bebes
saciando a sede contente.
Tanta certeza numa só angústia,
sem tanto pranto, nem tanto.
Abaixo do maior desencanto
uma reflexão tão acústica.
Tão solitário e ao acaso,
cego em meio à densa névoa,
ao vento no rosto que enleva
transbordando a sopa em prato raso.
Enfim será o fim de um tempo-espaço,
um adeus estranho e complicado
onde caminhou-se lado a lado
mas não se foi longe passo a passo.
Incorporado o que estava adiante.
Luta perdida por quem sai vaiado
mas jamais desiste, o derrotado,
de sair altivo a espera da revanche.
Se ao final das contas regozijas,
exultas, comemoras e festejas
deixo-te sentir o que não sejas,
pois pós as macias vêm as rijas.
Mas seremos salvos da avalanche
por um São Bernardo e muito rum.
Se preferires o resultado de um a um
ou se preferes jogar pedras no elefante.
Uma vez que transferes responsabilidade
vais esquentando o próprio sangue.
Fundo até os joelhos, lá no mangue,
fantástico irreal da realidade.
E o que somos perante o céu cinzento, abstrato?
Extravagantes cavalheiros cobertos de farrapos
ou reles mendigos com caras de sapos,
trajando terno, chapéu, gravata e sapato?
Indigentes inconscientes da nossa própria sorte
a guiar um destino descontrolado.
Pobres vítimas abandonadas num ermo descampado
fazendo pouco caso da morte e pose de forte.
Meros expectadores de uma comitiva
composta de camelos e ferraris.
Trajados como caçadores em safaris
suscitando a dor, tão aflitiva.
Aflição da poesia, que não se acaba.
Da "vaca foi pro brejo" e companhia.
Das almas salvas na última bacia
e na angústia da última palavra.
Na incerteza da rima que rareia,
dos cavalos, da espera e da intenção,
não há mais a mínima condição
de ir à praia, ir ao mar, pisar na areia.
De tão exposto e tão confesso,
depois de tantas frases, pouco progresso.
Um arremedo de história, sem sucesso,
se é melhor tentar de novo, eu recomeço!
[Adhemar - Sto. André, 03/03/2004]