De tão exposto e tão confesso,
eu, réu, juiz e carrasco
nas próprias impróprias me enrasco
e humildemente lhe peço:
eu, réu, juiz e carrasco
nas próprias impróprias me enrasco
e humildemente lhe peço:
"Não useis contra mim minhas armas,
minhas rimas e ricas mentiras.
Afastai de mim essas tiras,
nem bebei do meu sangue, meu plasma."
minhas rimas e ricas mentiras.
Afastai de mim essas tiras,
nem bebei do meu sangue, meu plasma."
"Subjugai o o que é minha calma
e protegei-me do próprio fantasma.
Porque, monstro! Não me entusiasma
em sequer perturbar minha calma."
e protegei-me do próprio fantasma.
Porque, monstro! Não me entusiasma
em sequer perturbar minha calma."
E, volúvel, fugiste saliente
saltando janelas, cancelas e sebes;
no mesmo cálice onde ora tu bebes
saciando a sede contente.
saltando janelas, cancelas e sebes;
no mesmo cálice onde ora tu bebes
saciando a sede contente.
Tanta certeza numa só angústia,
sem tanto pranto, nem tanto.
Abaixo do maior desencanto
uma reflexão tão acústica.
sem tanto pranto, nem tanto.
Abaixo do maior desencanto
uma reflexão tão acústica.
Tão solitário e ao acaso,
cego em meio à densa névoa,
ao vento no rosto que enleva
transbordando a sopa em prato raso.
cego em meio à densa névoa,
ao vento no rosto que enleva
transbordando a sopa em prato raso.
Enfim será o fim de um tempo-espaço,
um adeus estranho e complicado
onde caminhou-se lado a lado
mas não se foi longe passo a passo.
um adeus estranho e complicado
onde caminhou-se lado a lado
mas não se foi longe passo a passo.
Incorporado o que estava adiante.
Luta perdida por quem sai vaiado
mas jamais desiste, o derrotado,
de sair altivo a espera da revanche.
Luta perdida por quem sai vaiado
mas jamais desiste, o derrotado,
de sair altivo a espera da revanche.
Se ao final das contas regozijas,
exultas, comemoras e festejas
deixo-te sentir o que não sejas,
pois pós as macias vêm as rijas.
exultas, comemoras e festejas
deixo-te sentir o que não sejas,
pois pós as macias vêm as rijas.
Mas seremos salvos da avalanche
por um São Bernardo e muito rum.
Se preferires o resultado de um a um
ou se preferes jogar pedras no elefante.
por um São Bernardo e muito rum.
Se preferires o resultado de um a um
ou se preferes jogar pedras no elefante.
Uma vez que transferes responsabilidade
vais esquentando o próprio sangue.
Fundo até os joelhos, lá no mangue,
fantástico irreal da realidade.
vais esquentando o próprio sangue.
Fundo até os joelhos, lá no mangue,
fantástico irreal da realidade.
E o que somos perante o céu cinzento, abstrato?
Extravagantes cavalheiros cobertos de farrapos
ou reles mendigos com caras de sapos,
trajando terno, chapéu, gravata e sapato?
Extravagantes cavalheiros cobertos de farrapos
ou reles mendigos com caras de sapos,
trajando terno, chapéu, gravata e sapato?
Indigentes inconscientes da nossa própria sorte
a guiar um destino descontrolado.
Pobres vítimas abandonadas num ermo descampado
fazendo pouco caso da morte e pose de forte.
a guiar um destino descontrolado.
Pobres vítimas abandonadas num ermo descampado
fazendo pouco caso da morte e pose de forte.
Meros expectadores de uma comitiva
composta de camelos e ferraris.
Trajados como caçadores em safaris
suscitando a dor, tão aflitiva.
composta de camelos e ferraris.
Trajados como caçadores em safaris
suscitando a dor, tão aflitiva.
Aflição da poesia, que não se acaba.
Da "vaca foi pro brejo" e companhia.
Das almas salvas na última bacia
e na angústia da última palavra.
Da "vaca foi pro brejo" e companhia.
Das almas salvas na última bacia
e na angústia da última palavra.
Na incerteza da rima que rareia,
dos cavalos, da espera e da intenção,
não há mais a mínima condição
de ir à praia, ir ao mar, pisar na areia.
dos cavalos, da espera e da intenção,
não há mais a mínima condição
de ir à praia, ir ao mar, pisar na areia.
De tão exposto e tão confesso,
depois de tantas frases, pouco progresso.
Um arremedo de história, sem sucesso,
se é melhor tentar de novo, eu recomeço!
depois de tantas frases, pouco progresso.
Um arremedo de história, sem sucesso,
se é melhor tentar de novo, eu recomeço!
[Adhemar - Sto. André, 03/03/2004]
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