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sábado, 3 de maio de 2014

CONFRONTO (vaias)

De tão exposto e tão confesso,
eu, réu, juiz e carrasco
nas próprias impróprias me enrasco
e humildemente lhe peço:
"Não useis contra mim minhas armas,
minhas rimas e ricas mentiras.
Afastai de mim essas tiras,
nem bebei do meu sangue, meu plasma."
"Subjugai o o que é minha calma
e protegei-me do próprio fantasma.
Porque, monstro! Não me entusiasma
em sequer perturbar minha calma."
E, volúvel, fugiste saliente
saltando janelas, cancelas e sebes;
no mesmo cálice onde ora tu bebes
saciando a sede contente.
Tanta certeza numa só angústia,
sem tanto pranto, nem tanto.
Abaixo do maior desencanto
uma reflexão tão acústica.
Tão solitário e ao acaso,
cego em meio à densa névoa,
ao vento no rosto que enleva
transbordando a sopa em prato raso.
Enfim será o fim de um tempo-espaço,
um adeus estranho e complicado
onde caminhou-se lado a lado
mas não se foi longe passo a passo.
Incorporado o que estava adiante.
Luta perdida por quem sai vaiado
mas jamais desiste, o derrotado,
de sair altivo a espera da revanche.
Se ao final das contas regozijas,
exultas, comemoras e festejas
deixo-te sentir o que não sejas,
pois pós as macias vêm as rijas.
Mas seremos salvos da avalanche
por um São Bernardo e muito rum.
Se preferires o resultado de um a um
ou se preferes jogar pedras no elefante.
Uma vez que transferes responsabilidade
vais esquentando o próprio sangue.
Fundo até os joelhos, lá no mangue,
fantástico irreal da realidade.
E o que somos perante o céu cinzento, abstrato?
Extravagantes cavalheiros cobertos de farrapos
ou reles mendigos com caras de sapos,
trajando terno, chapéu, gravata e sapato?
Indigentes inconscientes da nossa própria sorte
a guiar um destino descontrolado.
Pobres vítimas abandonadas num ermo descampado
fazendo pouco caso da morte e pose de forte.
Meros expectadores de uma comitiva
composta de camelos e ferraris.
Trajados como caçadores em safaris
suscitando a dor, tão aflitiva.
Aflição da poesia, que não se acaba.
Da "vaca foi pro brejo" e companhia.
Das almas salvas na última bacia
e na angústia da última palavra.
Na incerteza da rima que rareia,
dos cavalos, da espera e da intenção,
não há mais a mínima condição
de ir à praia, ir ao mar, pisar na areia.
De tão exposto e tão confesso,
depois de tantas frases, pouco progresso.
Um arremedo de história, sem sucesso,
se é melhor tentar de novo, eu recomeço!
[Adhemar - Sto. André, 03/03/2004]

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