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segunda-feira, 28 de julho de 2014

SOBRE O MEDITERRÂNEO

Um frio aconchegante
vidraça embaçada
onde fora se misturam
mar ao longe
e paisagem enevoada

Nuvens crespas
sobre o mar plano
branco e cinza
sobre um verde insano
enquanto azul tudo vai abençoando

As cortinas vão fechando
enquanto ilhas vão se vendo abaixo
e o espírito plana voando...
O olhar se perde num capricho
e vadio vai pensando...

O sonho transparente se anuncia
o clima é quente e seco
vai pra onde a alma o guia
enquanto o corpo queda quieto
esperando o desfecho deste dia

Mais um passo e muita valentia
o entardecer caindo e listrando o horizonte
com faixas azuis, alaranjadas e tardias
esperando o cinza ao fundo virar noite
ainda que a penumbra durma o dia

Até o pousar suavemente, sem açoite;
noutra pista, noutra parte, outra alegria...

[Adhemar - Algum lugar sobre o Mediterrâneo, 17/04/2014]

Turista refletido em Sta. Ma. Novella - Florença (foto: Adh2bs)

 Uma perspectiva em Milão (foto: Adh2bs)

quarta-feira, 23 de julho de 2014

DEZOITO ANOS (ADH3)

               Pois é, meu amigo, eu que tenho sempre as palavras na ponta da pena... Precisei começar três vezes, estava todo engasgado, a garganta, o cérebro, os dedos... Ainda bem que restava este coração de pai que não se engana, está sempre aberto e atento para admirar o talento dos amigos. Este coração de pai que rima em prosa e 'prosa' está por decerto. Orgulhoso e contente porque estás aí, um cidadão consciente, um menino bonito feito sua mãe, responsável, educado, carinhoso, estudioso e trabalhador.
               Pois é meu amigo, te carreguei no meu colo, te ensinei muita besteira e você achou seu caminho. Uns passos ainda meio vacilantes, como quando aprendeste a andar, mas certos d'aonde ir; estás a aprender a andar novamente, mais aventureiro e independente e isso faz parte do "script".
               Pois é meu amigo, não importa aonde você vá; estaremos sempre presentes ainda que de coração. És um ponto de equilíbrio, sempre foste "gente grande" e agora és adulto. Não oficialmente, por causa do aniversário; mas de verdade, realmente, por causa das atitudes. E se me emociono quando falo é por ver em ti a primeira das vítimas destes pais inexperientes, o teu ar de eterno garoto, a tua calma "irritante" mas que é positivamente contagiante nos ensinando que a pressa só faz produzir coisas inúteis. Compreensivo, generoso, companheiro, bom de papo e bom de bola. Um cidadão controlado, sossegado, pontual e abnegado. Meio folgado às vezes, mas nunca malcriado ou desrespeitoso.
               Pois é, o primeiro dos meus grandes amigos aqui de casa (quem mandou nascer antes?). Um dos meus grandes ídolos... Segue a vida no teu jeitão simples, continua crescendo. Haja o que houver estaremos sempre contigo, te abraçando e te aplaudindo.
               Parabéns e que Deus te abençôe, meu filho.
Para Adhemar Juan, aos seus 18 anos.
Adhemar, 23/07/2008.
Adhemais!
O trocadilho acima é por que o rapaz é demais mesmo, um bom partido, daqui a uns anos estaremos selecionando as candidatas... Ôps, foi mal, sei que não é problema nosso, é brincadeira, filho! E porque há um excesso de Adhemares nessa família, a mãe dele fez questão que levasse o mesmo nome; eu disse a ela, "não precisa me homenagear" ao que ela retrucou: "quem disse que o homenageado é você?" Fez questão que ele tivesse o nome do avô, com quem ela se dava muito bem. Me comprou! Daí as alcunhas, Adh1, Adh2, Adh3. Bom, não vou falar mais nada pra não parecer muito gabola... Parabéns, saúde e sucesso, rapaz!
Adh2, 23/07/2008.
Adhehomem
Aproveitando a transcrição de posts do blog original, reedito este, que se refere aos dezoito anos do meu camarada que hoje faz 24. Vale o escrito, reforçado pela experiência, pela prudência e pela alegria constante que o faz querido entre tanta gente, dentro e fora da família. Reitero os votos de todos os anos: parabéns, saúde e sucesso!
Adh2, 23/07/2014.

sábado, 19 de julho de 2014

TRUQUES

Mágicos presentes, simples regalos,
uma história bonita e comovente;
bradam os sinos aos badalos:
acordem! Mas já foi: 
nossa bondade inocente
deixa escoar ao pedinte 
um dinheiro, mesmo ralo.

Um espetáculo de rua
como fosse um picadeiro.
Um artista habilidoso e envolvente,
engraçado, perspicaz, hospitaleiro.
Escolhe uns ajudantes entre, 
quem o cerca, tanta gente;
o faz de modo certeiro
e muito competentemente.
Depois de pantomimas e piadas
com o público totalmente envolvido,
vem à baila o tributo às risadas
no chapéu, meio roto e comovido
pelas notas e moedas lá deixadas.

O alegre cachorrinho de uma linda moça,
que com todos brinca e se enrosca.
Ela, de olhos tristes, se encolhe, 
meio tímida e sem graça
quando cercada pela plateia curiosa.
Essa gente que ri com ela nessa praça
vai ficando sem carteira,
fisgada por um diligente comparsa...

[Adhemar - Florença, 16/04/2014]

Comércio de rua, que sofre a concorrência de ambulantes sem banca e pedintes (foto: Adh2bs)

Ponte Vecchio, sobre o Arno, com lojas dos dois lados e ambulantes no meio (foto: Adh2bs)
[O camarada agachado com cartazes sob o braço e outro cara oferecendo as bugigangas no chão]

Piazza della Repubblica, cenário do golpe do cachorrinho (fotos: SM)

 Pessoas observando o "evento" na Piazza (foto: Adh2bs)

Show de rua, noturno (fotos: Adh2bs)

 Arte na rua (foto: SM)


sexta-feira, 18 de julho de 2014

REENCONTRO (331-80)

No passado está o futuro. De repente, um salto para trás e estamos revivendo um pouco do que fomos na adolescência, quando as pressões da vida eram menores, quando éramos mais livres. Mas todos seguiram (ou encontraram) o seu destino, como já indicava a personalidade e o caráter de cada um. Uns  deixaram a vida acontecer e foram permeando as oportunidades, colhendo as flores no caminho, evitando espinhos. Outros, içaram velas ao vento, navegaram enfrentando calmarias e tempestades. Alguns seguiram passos pré-traçados na continuidade da obra de seus ancestrais, ascendentes. E houve quem foi de encontro à vida saltando pelos trapézios, arriscando, jogando e fundamentando suas bases no inédito. Outros tantos, já bem determinados quando jovens, trilharam um caminho conquistado à força da própria persistência, objetivos planejados, atingidos e renovados no espírito de sua iniciativa e liderança.
              Após vinte e três anos decorridos nos encontramos, olhamo-nos uns para os outros com um afeto inesperado; todos mais tolerantes e mais vividos redescobrindo um prazer meio engraçado, revendo os amigos do passado e os nem tanto, mas pulsando um carinho gostando de saber o que cada um foi conquistando; e não só rindo das memórias mas admirando como está cada colega, todo mundo é tão legal e como é bom estar junto outra vez. Outra surpresa é descobrir como fomos importantes, uns para os outros, mesmo sem tanta intimidade antigamente. As referências mútuas, o cada um ser como é.
               Senhoras e senhores é um prazer e um privilégio ser amigo de vocês.
Para os amigos da 331-80 (do Colégio Bandeirantes)
[Adhemar - São Paulo, 20/12/2003]
 Aêêêêêêê…
Pois é, a gente se encontrou depois de todo esse tempo; escrevi esse negócio alguns dias depois do primeiro desses reencontros; mas no atropelo dessa vida agitada, não enviei pra patota. De lá para cá, temos nos encontrado duas ou três vezes por ano, é uma sensação bem legal. A gente se identifica até com àqueles que são os nossos opostos. E as "guerras" por e-mail? Mas o que interessa é essa oportunidade de relembrar as histórias, trocar experiências e ir relatando como vai indo a vida. Eu gostcho! Abração proceis, inté.
Adhemar, 18/07/2008.
Aiôôôôôô...
Pois é, a gente continua se encontrando; a boa conversa fluindo, e-mails diários descendo a ripa ou elogiando, uma intimidade maior do que com o psicanalista! O sucesso dos filhos, o futebol (até um bolão da Copa rolou), a política e nossas inconciliáveis ou concordantes opiniões, tudo isso servindo de fundo para uma convivência imprescindível. Que Deus nos abençoe! Outro abraço!
Adhemar, 18/07/2014.






quarta-feira, 16 de julho de 2014

ESCADARIAS

Resolvemos visitar a Catedral de Florença (Santa Maria del Fiore, Duomo) começando por subir à cúpula. A cidade dos degraus... Já tínhamos ido ao Palazzo Vecchio, em sua torre, mais de duzentos degraus acima do 4º andar; este, por sua vez, a mais de duzentos degraus acima do térreo... A Galeria degli Uffizzi, no 2º andar do Palazzo Uffizzi, uns cem degraus acima do "primo piano"... E o Palazzo Divertozzi, cujas câmaras com exposições são no 1º e 2º pavimentos igualmente altos como as demais edificações; enfim...

Os degraus da cúpula da Duomo nos levaram a um "passeto" de onde se avista toda a nave da igreja, cerca de 60 metros abaixo! Ainda há mais para subir, até um "passeto" no topo da cúpula de onde se vê a cidade; mas jogamos a toalha e toca descer tudo de novo pra ver as coisas do chão. Embaixo, ingressamos na igreja para ver de baixo o que vimos de cima. E agradecer pela benção das boas pernas e à disposição do espírito. Ao sair da igreja demos de cara com a sua torre. Entreolhamo-nos e caímos numa gargalhada: nem pensar! Contornamos a torre por fora e vamos abraçando o chão mesmo, com estes pés que nos levam por aí, pra cima e pra baixo...

P/ SM
[Adhemar - Florença, 16/04/2014]

Nota: a foto que ilustra hoje o cabeçalho deste blog foi tirada do alto da Torre Vecchio.

Adh, 16/07/2014.

Torre da Catedral de Florença - Duomo (foto: Adh2bs)
Vê se a gente ia subir até lá em cima...

Nave da Duomo vista de cima (foto: Adh2bs)

Escadaria para a cúpula da Duomo (foto: SM)

Cúpula da Duomo vista do chão (foto: SM)
Abaixo das janelas redondas, o passeto interno.

Escadas do museu da Duomo (foto: SM)
Nestas também subimos!

Escada de acesso ao museu Ferragamo (foto: SM)

Placa antes da subida na Torre Vecchio (foto: SM)
Está no 4º andar do Palazzo, mais de 200 degraus acima do térreo...

Escada da Torre Vecchio (fotos: Adh2bs)
Encaramos!


Palazzo Vecchio e sua Torre (foto: SM)

terça-feira, 15 de julho de 2014

CONVOCAÇÃO...

Andanças numa linha regular.
Diariamente, percorrer os mesmos trajetos.
Poucos ou nenhum desvio
e a mesma paisagem mudando lentamente
ao longo do tempo.
Nunca nenhum atalho.
Apenas reflexões esporádicas
sobre aqueles que nunca se enquadram;
só andam por trilhas alternativas,
sempre "off-road" - fora da estrada.
O asfalto lhes queima os pés;
a rotina lhes queima o espírito.
Feliz é o mundo,
repleto de contrastes,
de ambigüidades
e de gente corajosa
cumprindo o próprio destino.
[Adhemar - São Paulo, 02/04/2008]

domingo, 13 de julho de 2014

DOIDEIRA

Loucuras.
Verdes loucuras em pedras morenas,
palácios marrons,
castelos avermelhados.
Torres imensas,
degraus para todos os lados.
Tudo em cima,
mais pra cima
e acima.

Visões espetaculares,
panoramas inesperados.
Opiniões multilíngües,
idiomas variados...

Distâncias pesando nas pernas
além da data de validade...

[Adhemar - Florença, 15/04/2014]

Visão inesperada na nave da Duomo (foto: SM)

Santa Maria del Fiore - Duomo, inundada de turistas (foto: SM)

Escadaria da Duomo (foto: SM)

Capela Medici (foto: SM)

Palazzo... (foto: Adh2bs)

San Trinitá (foto: Adh2bs)

Por-do-sol visto da torre do Palazzo Vecchio (foto: SM)

Palazzo Vecchio (foto: Adh2bs)

sexta-feira, 11 de julho de 2014

LUGAR

"Uma única palavra pode definir, objetivamente, o local onde se está. Se é confortável, acessível, se é bonito ou se é opressivo; se é abafado, se é claro, se é fechado ou está ao ar livre."
"Um truque banal, uma coisa simples pode transformar o ambiente. Deixá-lo luxuoso - suntuoso até - ou deixá-lo informal. Bacana, de mau gosto ou natural. Pode ficar ridículo ou aconchegante."
"Um estado de espírito pode imprimir uma aura ao lugar. Nefasta, vibrante, vermelha ou suave. E um grande interesse - o de estar lá - confere suma importância a essa circunscrição definida e que é a preferida de cada um. Seja um castelo, uma tumba, um palácio, caverna ou barraca; barraco, choupana, oca ou tapera, telheiro, cafofo, quartinho ou buraco, mansão residência ou ‘apê’; nada como estar e se sentir em casa."
[Adhemar - São Bernardo do Campo, 30/03/2005]

quinta-feira, 10 de julho de 2014

FLORENÇA DAS ARTES

Há um certo cinismo pairando no ar. Um frio calculado, uma superioridade estabelecida; como se a arte e as habilidades inequívocas dos grandes artistas encerrem um ciclo em si, jamais a ser alcançados pelos atrevidos mortais que ousam andar por aqui.

Há um certo temor estampado no ar. Um afobamento açodado pelo receio permanente de que os invasores desrespeitem ou destruam alguma obra rara que eles tem tanto trabalho em cuidar, conservar, restaurar. O seu zelo constante, que merece respeito, chegando a assustar.

Há um certo cuidado evidenciado no trato. Ainda um pouco formal e muito educado no jeito afável de receber tanta gente. Há um orgulho mal disfarçado pela beleza da terra que é berço das artes. É o jeito normal do abraço ao turista, mesmo que não muito apertado...

[Adhemar - Florença, 14/04/2014]

Proteção de escadaria antiga em Sta. Maria Novella (fotos: Adh2bs)


Arte nas vitrines das lojas (fotos: SM)


Detalhe de vaso florido na rua (foto: SM)

Pintura de Michelangelo (retratando San Lorenzo) na Capela Medici (foto: Adh2bs)

Mostra de arte contemporânea na galeria do Palazzo Medici (foto: SM)

Pinturas no Palazzo Medici (fotos: SM)



quarta-feira, 9 de julho de 2014

ATITUDE

"Há leis demais. Regras demais. Normas demais.
Códigos a seguir, regulamentos a obedecer.
Há demasiados fiscais, muita polícia pra reprimir,
muito agente pra espionar, muito guarda pra multar
e muito delegado pra prender."
"Há roteiros pra encenar, papéis a desempenhar
e espantos pra fingir.
Há peças pra representar,
governos pra nos oprimir
e poucas janelas por onde fugir."
"Tem grana pra nos subornar, chantagem pra subjugar,
déspotas pra obedecer.
Há gurus pra seguir, ilusões pra comprar e vender,
fantasias pra enganar;
religião pra anestesiar e futebol pra nos iludir."
"Há fome por combater, miséria por consolar,
desgraças pra complicar.
Há nós por se desatar, correntes pra arrebentar,
revoluções por fazer.
Gritos a dar. Tabus por cair. Amor pra distribuir."
"Há mares por navegar, há um céu pra se olhar
e a praia pra correr.
Há vida por escolher, arbítrio pra libertar, livros a escrever.
Há um Deus pra se acreditar.
Há uma vida pra se viver.
E há você e eu."
[Adhemar -  p/ SM - 02/06/2006]

segunda-feira, 7 de julho de 2014

FLUÊNCIA REGENTE

Inventar palavras
torturar poesias
um sofrimento incessante
de todos os dias

Inventar fachadas
buscar alegrias
no concreto, na massa
nas alvenarias

Colocar janelas
com gelosias
na glória das aberturas
luz e ar dos dias

Desmontar andaimes
reformar conceitos
palavras infames
perdendo direitos...

Inventar plantas
cortes e outras bossas
enquanto uns tantos encantos
escorrem pelas fissuras

Escondam-se feios detalhes
pra não sair no compêndio
das inventadas palavras, fachadas
dessa obra, assim, pelo meio...


[Adhemar - Florença, 12/04/2014]


Detalhe de oratório - Duomo - Firenze (foto: SM)

Chiesa di San Lorenzo - Firenze (fotos: SM)


Cantina em Firenze (foto: SM)