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domingo, 31 de agosto de 2014

ESTÉTICA

          Até para um perfeito canalha é necessário um tanto de ética; uma atitude melíflua - ou pusilânime - demanda alguma firmeza. E a falta de idealismo não resiste sem uns tantos propósitos. Daí, as perguntas: por que tanto descompromisso? Por que o descaramento explícito e o mau caratismo estampado? Os mais finórios pilantras de antigamente ainda tinham um certo pudor; eram discretos por necessidade consciente. Ficava feio ser apanhado em falta, com a mão na cumbuca ou a boca na botija. Arranhava a imagem perante seus pares, a sociedade e, principalmente, a família. A ambição era menos desmesurada, os dez por cento de sempre eram suficientes para a gula dos corruptos. E a rede de falcatruas e maracutaias (palavras que em si já enunciam a simplicidade dos esquemas) era menor, mais direta, envolvia menos gente e mais - por assim dizer - compostura! Os desvios, a malversação e a "caixinha" eram contados, no máximo às dezenas de milhares da moeda corrente.
          Hoje em dia, não. Para desgosto e infelicidade geral, os canalhas são espúrios, porcos, sem um traço de cavalheirismo ou inteligência. Mentiras desconexas, desculpas infundadas, certeza de impunidade e uma colossal desfaçatez (se opondo ao cinismo simples de antigamente) desfilam pelos chamados "propinodutos", "megadrenos" de recursos e esquemas de superfaturamento envolvendo centenas de milhares - quando pouco - e centenas de milhões com direito à farta distribuição e a uma falsa inocência que chega a ser insultante, de tão descarada. E o pior de tudo, com perdão das más palavras, é acharem que somos um amontoado de tolos embasbacados, prontos a continuar pagando e sustentando a vasta corja de vagabundos e malandros que seguem tranqüilamente montados em nossas costas! E o que mais me irrita e me revolta: não é que eles tem razão?!
[Adhemar - Sto. André, 22/08/2005]
Ééééética…
Não se trata aqui de defender "discrição" ou "decência" (?) na corrupção, nos desmandos; mas no fato de sermos tão passivos que a gatunagem passou a ser escancarada e ultracínica ("o povão não reage mesmo…Pão e circo neles!"). Elegantes ou "butineiros", ladrões deveriam ser presos e não eleitos! E não é só a ladroagem que incomoda, mas o fato dos políticos governarem para si mesmos, para fazer política e para se eleger garantindo o poder a qualquer custo! E a gente aceita, acha graça e faz piada…
Adhemar, 20/05/2008.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

FALSETE

Queria eu torcer o tempo:
- para os livros que não li
- os projetos que não fiz
- os projetos que desfiz
- os desfiles...

E viraria o tempo mais uma vez:
- para os jogos que perdi
- obras que abandonei
- palavras que esqueci.

Estaria do avesso avesso:
- para as pedras que chutei
- para os sapatos do tropeço
- para as leis que ignorei.


E tudo o mais que não disse
e para o que disse mas não sei.

Queria eu torcer o vento,
atrasar tormentos
deixar lamentos
ideais que desperdicei.

Queria eu saber fingir:
- para trabalhar de ator
- mascarar e sorrir
- doer sem dor.

E viraria mais uma vez:
- para me despedir
- para olhar o amor
- pra perdoar o algoz.

E tudo o mais que não disse
porque estava sem voz...


[Adhemar - São Paulo, 05/07/2014]


sábado, 23 de agosto de 2014

MEIOS DIAS

Se de todas as maneiras,
se cada forma nova;
ou se de repente ou sutilmente
ou quase sempre e sempre quase;
se na ansiedade
ou na mais tranqüila espera;
nos cantos, nos recantos,
onde quer que se esteja;
se na cotidiana rotina
ou na ausência do cadenciado dia-a-dia;
nas dúvidas, nas certezas
ou nos meios-termos;
se nos resumos e nas sínteses
ou se em simplesmente tudo,
mesmo quando nada possa perturbar:
é a imagem fixa que acompanha a mente.
Que imagem e qual mente?
É o segredo encerrado nas palavras
ora públicas,
que se enterra e agoniza
nesta boca de papel...
[Adhemar - São Paulo, 09/03/1988]
P/ BSF

sábado, 16 de agosto de 2014

EU, ESCRITOR?!

          Quando eu era menino, ou pouco mais do que isso, já desperdiçava papel com essa coisa de ser escritor. Naquele tempo lia como um condenado à prisão perpétua - numa biblioteca - e comecei a identificar os meus prediletos. O gênio de um Maurice Leblanc que criou um personagem tão fascinante quanto o Ladrão de Casaca, Arsène Lupin... Confesso que cheguei a gostar muito mais do personagem do que do autor!

          Por essa época caiu-me nas mãos o Tarzan de Edgar Rice Burroughs, que minha imaginação juvenil me fez ler mais de trinta vezes. Apelo da Selva, de Jack London, A Ilha do Tesouro de Louis Stevenson, Julio Verne e seus clássicos, entre os quais Volta ao Mundo em 80 Dias, Vinte Mil Léguas Submarinas; e tantos outros. Para quem já havia passado por quase todos os livros de Monteiro Lobato na infância, até que demorei a entrar de novo nos escritores brasileiros. Mas reentrei pela porta da frente e, já me imaginando escritor, queria ser como um Fernando Sabino, manejando habilmente as palavras para contar saborosas histórias em forma de crônicas.

          Mais tarde, mocinho (como dizia a vovó), incrementar o já bem humorado "estilo" com a verve cômica de um Luís Fernando Veríssimo, inteligente e fino. O tempo foi passando e ficaram apenas alguns registros, veleidades de poeta, poeira escura na sombra de Vinícius, Drummond, Bandeira, além dos clássicos, todos brasileiros: Castro Alves, Bilac, Gonçalves Dias, Casemiro de Abreu e os demais. Todos lidos avidamente pelo menino, relidos pelo rapaz, cabeceira do homem.

          Não que tenha sido só isso, há muitos outros tais como Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Graça Aranha, Ariano Suassuna, João Cabral de Melo Neto, Pedro Nava, Otto Lara Resende, Rubem Braga e por aí afora. O fascínio pelo português Fernando Pessoa, o lirismo do chileno Pablo Neruda...

          Sinceramente? Não invejo nenhum deles, objetos de minha admiração, quiçá inspiração. Por desgraça ou aflição, contento-me em ser eu mesmo, escritor talvez, talvez não...

[Adhemar - São Paulo, 03/02/1999]

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

AÍ ESTÁ!

Um pequeno sorriso.
Um mini gesto gentil.
Um oi aqui, outro acolá.
Até que enfim, um olá!
Um pequeno olhar, um café.
Uma estendida mão, uma carona,
um caminhar a pé;
muito fervor, muita oração, muita fé.
Um pequeno gesto gentil,
um mini-sorriso.
Um olhar para o chão,
um até.
Uma calorosa saudação;
uma tímida - mas generosa - divisão.
Um "o que é que há", um abraço,
um triste retrato,
uma alegre recordação.
Um pequeno momento,
uma grande distração.
Uma suposta ternura,
uma certeza de amor
ou, de repente, uma paixão.

[Adhemar - Santo André, 21/08/2008]

POR-DO-SOL

Pôr-do-sol em São Bernardo do Campo, cidade industrial.
(Foto: Adh2bs)
Pôr-do-sol no Pólo Norte.
(Foto: sites da internet)
Adhemar, 06/05/2008.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

AJUSTE

Da força adormecida no fundo de um ser, a capacidade transformadora despertando. De repente o que era quieto se cala, o que era parado estaca e o que era estático para.

Uma nova dinâmica se impõe. O centro dos acontecimentos se desloca. O que estava embaçado se desfoca e a escuridão apaga a luz.

Convocação, depoimento. Não se acusa o acusado e nem se assusta o já apavorado. O caminhante vai em fuga, corre e olha pra trás, nem sabe o que procura.

O lento despertar inevitável, abrir os olhos e vislumbrar por onde ir. Seguir o mapa imaginário e imaginar o calendário, um cronograma pra cumprir.

E o deixa disso, a turma do compromisso, o ar, a luz e a imensa paz advinda da obrigação que por cumprida deixou de ser. E a outra vida...

Finalmente, encarar no espelho a fisionomia tão desconhecida, novas atitudes e posturas pra se reconhecer...

[Adhemar - São Bernardo do Campo, 11/12/2006]

domingo, 10 de agosto de 2014

CAMPEONATO DE POTOCA (9)

Como domingo passado falhou, toma lá dois!
LIÇÃO 20
O titio tinha um toyota.
O toyota do titio era um touro.
Estouro!
O titio plantava batatas.
Transportava as batatas no toyota.
O toyota trouxe o trator,
forte como um tigre.
Uma taturana atrevida
trepou no toyota,
até o titio notou.
Então bancou o idiota
e deu um pontapé no toyota.
O pé do titio entortou.
[Adhemar, fevereiro/1983]

IMPASSE?!
               Me vejo às voltas com as contas do mês; em cinco, seis dias, uma enxurrada de vencimentos que, totalizados, dão exatamente o dobro do dinheiro que eu tenho! Um súbito acesso de riso: se tenho contas, pago por tudo aquilo… Positivamente, devo ser um nababo! Então, vejamos:
Água e luz: para conforto doméstico. Minha casa, meu palácio. Nada a fazer, adiante!
Prestação e seguro do carro: me agacho atrás da desculpa de que é um instrumento de trabalho! A distância de casa no trampo dá 2 litros de álcool que custam R$ 2,50 os dois; ida e volta, cinco paus. O busão pra Santo André custa R$ 2,90. Pronto! R$ 5,80 pra ir e voltar? Que absurdo! De carro sai mais barato!!! Prestação, seguro (esses lugares tem muito ‘navalha’ e muito ladrão), combustível, IPVA, manutenção… Negocião!!!!!
Conta do celular: meu Deus! como as pessoas conseguiam se comunicar antes do celular?! Tambor?! Fumaça?! Na-não, essencial!
Supermercado: a maior conta de todas. Putz, comida a crédito é dose. Fui ceder à tentação de fazer o fatídico cartão… Espera aí! Olhando bem pra fatura vejo que já caguei a maior parte do que estão cobrando! Injustiça, Senhor! Vou alegar que o produto se degenerou, como é que eles tem a coragem de me cobrar???
               Agora sim, está eliminada uma conta, acho que a grana vai dar…
[Adhemar - Santo André, 18/07/2008]

terça-feira, 5 de agosto de 2014

QUEDA

A noite cai mais rápida sobre a terra,
sobre um tapete de nuvens.
Ainda se vê o pôr-do-sol ao longe.
Uns montes espigados buscam a luz acima.
Uns homens inspirados buscam divindades...

A noite cai mais rápida sobre os corações apagados.
Sobre um tapete alado de saudade
ainda se vê o pôr-do-sol alfanje.
Num arco inclinado busca-se o rumo certo;
Num círculo esticado cai-se das vaidades...

A noite cai mais quente sobre corações abraçados.
A noite cai mais quente sobre orações e verdades...

[Adhemar - sobrevoando a Espanha, 17/04/2014]

Alfange

Me vejo às voltas com a grafia do nome da espada curva, curta e larga que tem o fio do lado convexo da curva, também conhecida por "segadeira" ou "gadanha". Para minha surpresa, vejo que alguns dicionários aceitam as duas grafias, o "g" substituindo o "j" no "aportuguesamento" da palavra. Preferi, no texto, seguir o Michaellis que adota o termo com "j", como no espanhol, mais próximo de sua origem árabe (ár-al-Hanjar).

Adhemar, 05/08/2014.