sábado, 16 de agosto de 2014

EU, ESCRITOR?!

          Quando eu era menino, ou pouco mais do que isso, já desperdiçava papel com essa coisa de ser escritor. Naquele tempo lia como um condenado à prisão perpétua - numa biblioteca - e comecei a identificar os meus prediletos. O gênio de um Maurice Leblanc que criou um personagem tão fascinante quanto o Ladrão de Casaca, Arsène Lupin... Confesso que cheguei a gostar muito mais do personagem do que do autor!

          Por essa época caiu-me nas mãos o Tarzan de Edgar Rice Burroughs, que minha imaginação juvenil me fez ler mais de trinta vezes. Apelo da Selva, de Jack London, A Ilha do Tesouro de Louis Stevenson, Julio Verne e seus clássicos, entre os quais Volta ao Mundo em 80 Dias, Vinte Mil Léguas Submarinas; e tantos outros. Para quem já havia passado por quase todos os livros de Monteiro Lobato na infância, até que demorei a entrar de novo nos escritores brasileiros. Mas reentrei pela porta da frente e, já me imaginando escritor, queria ser como um Fernando Sabino, manejando habilmente as palavras para contar saborosas histórias em forma de crônicas.

          Mais tarde, mocinho (como dizia a vovó), incrementar o já bem humorado "estilo" com a verve cômica de um Luís Fernando Veríssimo, inteligente e fino. O tempo foi passando e ficaram apenas alguns registros, veleidades de poeta, poeira escura na sombra de Vinícius, Drummond, Bandeira, além dos clássicos, todos brasileiros: Castro Alves, Bilac, Gonçalves Dias, Casemiro de Abreu e os demais. Todos lidos avidamente pelo menino, relidos pelo rapaz, cabeceira do homem.

          Não que tenha sido só isso, há muitos outros tais como Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Graça Aranha, Ariano Suassuna, João Cabral de Melo Neto, Pedro Nava, Otto Lara Resende, Rubem Braga e por aí afora. O fascínio pelo português Fernando Pessoa, o lirismo do chileno Pablo Neruda...

          Sinceramente? Não invejo nenhum deles, objetos de minha admiração, quiçá inspiração. Por desgraça ou aflição, contento-me em ser eu mesmo, escritor talvez, talvez não...

[Adhemar - São Paulo, 03/02/1999]

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