sexta-feira, 26 de setembro de 2014

COMPANHEIRA STELLA, ANO 25!

Dizer que parece que foi ontem
Soa meio exagerado.
Dizer que parece ‘faz’ um século
Também não é apropriado.
Mas é eterno e tem durado!

O mais bonito desse amor
É que consegue ser amigo,
Companheiro e compreensivo.
O mais incrível desse amor
É que é evolutivo.
Toda a zanga é passageira
E da paixão não é cativo.
O ciúme é tranqüilo,
Nunca foi obsessivo.
Se alguém bate na porta
A gente ri, não dá ouvidos...

Dizer que parece que foi muito
É um tanto possessivo.
Dizer que, talvez foi pouco,
É melífluo ou esquivo.
Mas é eterno e altivo!


P/ SM
Adhemar – São Paulo, 23/09/2014.

VINTE E CINCO ANOS!

Dia 23/09/2014 completamos 25 anos de casamento. Muito abençoados, com três filhos incríveis; nada mais a declarar e muito muito muito para agradecer à Deus.

Adhemar - 26/09/2014.

BLOG - SEIS ANOS E MEIO...

Aproveitando que todo o conteúdo original do blog do terra já se encontra neste espaço, alteramos a foto e a cor deste blog. O Museu do Ipiranga é pertinho de casa, sempre agradável de se  visitar.

Adhemar - 26/09/2014.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

CARROSSEL

Beleza imperfeita, assimétrica,
um riso forçado,
uma nervosa alegria.
Uma profunda tristeza,
linda, encaracolada…
Um acidente, um acaso,
um fato abstratamente concreto;
uma fruta madura apodrecendo,
um xereta discreto…
Uma foto muito antiga
representando um hoje possível.
As mãos procurando inquietas
uma posição mais tranquila.
O tempo escorrendo certo.
Um revestimento que não protege.
Inexperiência repleta de sabedoria
que, mesmo cheia não se completa.
Apesar de ter muitas rodas
ainda é uma bicicleta.

[Adhemar - São Paulo, 08/02/2009]

Parece mentira!
Pois é, logo hoje, recomeçar com a sabedoria inexperiente, incompleta, logo quem nunca soube - e não sabe - andar de bicicleta! Pra quem acha que isso não tem nada a ver, que é só um amontoado de palavras aparentemente aleatórias, eu só digo uma coisa: banana não tem caroço…
Adhemar, 01/04/2009.

VISITA ILUSTRE ÀS ORIGENS

O poder transformador do homem é admirável e temível. Sua profunda capacidade de antever situações que demandam preparo, extração, fabricação e montagem e sua capacidade de enfeitar, adornar ou simplesmente estabelecer o novo ambiente ou novo objeto.
Estupefato, vejo um terreno dar lugar a um prédio; vejo minério se transformando em carros, máquinas, moldes e ferramentas para fazer outras coisas. Vejo a montanha virar pedras e as pedras virarem obras, ou jóias.
Aí, volto os olhos para trás e vejo o terrível poder transformador do homem: vejo a montanha virar um imenso buraco, vejo a floresta virar deserto, vejo minérios virarem armas e árvores tornarem-se dinheiro. E de repente eu vejo o dinheiro virar a cabeça dos homens, transformando capacidade em cobiça, inteligência em “esquema”.
Estarrecido, vejo o enorme poder da violência, nascido do poder da miséria, da opressão e da ganância; e o absoluto poder da mídia transformando tudo em fatos vendáveis e irretorquíveis, ainda que distorcidos e fabricados.
Então, vejo um índio carajá formando-se advogado para entender tudo isso. E voltar para a sua aldeia de origem e contar ao seu povo espantado as incríveis contradições do “Tori” (homem branco). Não entende a profunda agressão à natureza e aos outros homens! Não entende o trabalho que tem o “Tori” oprimindo, matando e juntando bens para não fazer nada depois! Não entende por que o incoerente “Tori” não tira o que precisa do rio, das matas, do mar e da terra, calma e sossegadamente como fazem os índios, tidos por indolentes por esse mesmo sobranceiro e intolerante “Tori”.
Socorro, meu Deus, eu quero ser índio!

[Adhemar - São Paulo, 29/04/2006]

Data vênia
Peço desculpas por não citar o nome do chefe dos carajás que foi estudar direito para tentar entender o “Tori” (e representar sua tribo para defender sua terra e os seus direitos), simplesmente não o registrei à época e esqueci. Escrevi esse texto após ler uma reportagem em que ele era o entrevistado. Lembro que chorei ao perceber como somos uns pobres diabos mesquinhos, gananciosos e sem a menor noção do que é viver em comunhão com a natureza; e esta ainda vai dar o troco, simplesmente eliminando a raça humana do planeta… Provavelmente,  só vão sobrar aqueles, que, puros de alma, ainda a respeitarem: os índios e todos os “nativos” assim entendidos os que vivem em harmonia com sua terra - ou com o que dela ainda não tivermos destruído…
Adhemar, 02/04/2009.

DESEJOS SIMPLIFICADOS

Nadar de braçadas num oceano tranquilo.
Balançar numa rede durante o mormaço da tarde.
Passar o tempo chuvoso debruçado sobre um bom livro.
Passar o verão e outono caminhando à toa na praia.
Ver crescer o coqueiro - e esperar que o côco caia!
Inspirar profundamente o cheiro das plantas após a chuva.
Assistir o pôr-do-sol no horizonte
até a noite surgir estrelada.
Observar o céu azul marinho
naquela paz que nada perturba.
Comer sem gula nem hora
erva-dôce e cachos de uva.
Respirar ar puro o dia inteiro,
beber água da fonte mais pura.
E ter flores, as mais coloridas,
num grande e belo canteiro.
Apreciar na intimidade
as formas da companheira.
Amar sem urgência nem culpa,
fazê-la feliz num momento
que dure a vida inteira;
e cantar em prosa e verso
o sucesso da dupla…
Viver simplesmente em paz com o mundo.
Viver simplesmente em paz com a gente mesmo.
Viver com saúde de menino taludo
e comer a feijoada completa,
com caipirinha, tutu e torresmo!

[Adhemar - São Paulo, 13/07/2008]

SETENTA ANOS

Esta é uma história originada de uma ferida aberta. Uma laceração destilando as inquietações de uma alma determinada, decidida a imprimir um peso específico e certeiro a cada palavra - dita ou escrita - para que não pairem dúvidas sobre sua idoneidade ou intenções; firmemente convicta que é melhor não estancar tal hemorragia.
Não importa o risco de amputação de um membro, nem a palidez decorrente da perda de todo o sangue. O mesmo que em vão já foi derramado e também aproveitado em transfusões. Não há dor, embora não haja anestesia. Indiferente à temperatura de ebulição, de encontrar algum apoio para as mãos ou da existência de curativos e desinfetantes, esta é uma história parada no centro de uma poça vermelha.
De repente, bem no meio desse enorme corte, começa a sair a própria essência da carne, nervos e músculos, revirados numa revolta. E a medida que vão saindo, vão formando um novo corpo revitalizado, fazendo a velha casca murchar e cair como o miolo do sol no centro de sua auréola. É o fim do seu banho hematóide. É a reencarnação física renovada terminando pelo próprio cérebro ora remoçado. E uma nova película nasce e envolve o novo reencarnado.
Uma vez pronto, ele pisca os novos olhos. Olha em volta de si e se dá conta de que o que foi antes está no chão, como lixo hospitalar ou restos mortais de um cachorro atropelado. E por pensar nisso, repara que está complemente nu - inclusive de referências. A desvantagem de ter o repertório vazio é que é mais difícil recomeçar; a vantagem é que está livre para fazer o que bem entender, sem medo de errar. Descalço, salta os próprios destroços procurando se situar, saber onde está, o que é e por onde começar. Por exemplo, achar uma cama e deitar; achar o seu sono e dormir; achar o seu mundo e sonhar.

P/ Tia Nancy
[Adhemar - São Paulo, 25/05/2004]

Tia Nancy
Na verdade, ela fez setenta anos em 3 de julho de 2004; mas havia escrito este texto antes, dedicado a essa irmã de minhã mãe que sempre foi protetora dos sobrinhos, a voz da razão e da concórdia nas disputas entre nós… Casada com o Tio Antonio - o Tonho, uma espécie de ídolo da gente com jeito simples e companheiro - ela continuou nos homenagenado com suas feijoadas excepcionais, cuscuzes sublimes e mousses de maracujá de fazerem os deuses descerem à terra. Tímida, assustou-se com o teor desse texto cujo conteúdo achou violento; ela, que renasceu tantas vezes de situações difíceis que a vida lhe impôs, inclusive agora, enquanto se recupera de uma cirurgia no abdomen. Mas tem tudo a ver com ela, esse texto “vermelho” que é nossa cor predileta (dela e minha). Que Deus te abençôe e proteja, Tia Nancy!
Adhemar, 14/04/2009.

RACIOCÍNIO

     A lógica é muito relativa e precisa ser contrariada para se confirmar. Mais refletida, passa a se justificar melhor, sai fortalecida dos desafios lançados. O fio condutor do pensamento lógico é contínuo, intenso e resistente. A lógica, por si só, é quase uma ciência. É apaixonante e jamais será contraditória.
     A lógica é muito orgulhosa. Porque faz sentido, porque tem razão. Sempre se prova, mesmo numa linha tortuosa sempre prevalece, sempre ganha. Vira teses e tratados, grandes filosofias. Abstratamente concreta, a lógica ensina, encadeia e apresenta sentido; cobra uma postura ou apoio. A lógica, porém, tem vertentes. Ramificações perceptíveis, prováveis, outras tantas certezas derivadas da certeza central e dominante.
      A lógica é loucamente irritante.

[Adhemar - São Paulo, 27/06/2006]

DELÍRIO MELANCÓLICO

Gotas de suor no rosto,
cabelo desfeito, camisa rasgada.
Uma vaga sonolência que não define o que se faz;
não é suficiente para dormir,
não é estimulante para acordar.
Ouvem-se os sons da noite no quintal.
Uma festa, a festa da noite.
Fechar os olhos e pensar,
um velho hábito.
Calmo e velho hábito.
Calmamente pensar e sentir o desejo de ficar só.
Não sei se o pensamento e a calma trazem você.
(E é bom).
Cada vez mais tranquilo tento me buscar em mim,
mas não consigo.
Já me desprendi, em outra esfera te espero.
A saudade vem me chamar dos devaneios,
dizer que a manhã se aproxima
e que é necessário sonhar.
A música é tão linda,
não dá vontade de parar de escutar.
Imagino: você me convida
pois há tantas convenções por derrubar.
Versos e mais versos me assaltam e fogem,
bandidos da minha alma.
Há tantas convenções por derrubar…
Com versos, socos,
talvez seja preciso gritar.
Enfim, puxar a cortina de um palco
e libertar a liberdade atrás dessas cortinas…
O mar, o sol e a liberdade.
Livre e feliz para ir aonde quiser.
Gotas de suor no rosto.
Gotas de lágrimas,
gosto de sal.
Gotas de lágrimas a rolar
e a secar aonde caem…

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 29/08/1987]

ENTÃO...!

Pra dizer “eu te amo” é preciso “entender de amor”?
O desententido entende o que o especialista jamais consegue apreender;
quanto mais entendido acha ser
mais perguntas e mais perdido…
O que do amor perdidamente há que se entender
é que o amor não é para ser estudado,
rotulado,
analisado
ou classificado:
apenas é preciso viver.
E o amor inesperado surgirá
fraterno,
romântico,
filial,
apaixonado,
egoísta ou generoso,
fiel ou relaxado.
Então o amor é pra amar
ou deveria ter perguntado?!

(Comentário no blog de Danny Z.)
Adhemar, 17/04/2009.

MUDANDO DE ASSUNTO

Numa palavra, uma virada.
Muda-se o tema da conversa.
Num instante contava-se piada;
no outro, uma disputa controversa.
Erguem-se as vozes numa acalorada discussão.
Erguem-se os copos para um brinde qualquer.
Num instante fala-se de assuntos do coração;
no outro, fala-se apenas de mulher.
E o futebol então, sempre presente.
Más notícias de política ou de economia.
Nesse ritmo, mesmo que não se aguente
pede-se mais uma e a conversa se esvazia.
Entre dúvidas e certezas se navega
nessa ebulição da mente etílica.
Uma tese que se prova ou teoria que carrega
a se provar numa experiência empírica.
A família e o trabalho - corolários -
e lembranças e memórias mil…
Amigos mortos, casamento, aniversários,
o mundo em geral e o Brasil.
Até que o que morre é a conversa,
cada um ensimesmado e pensativo.
Pede-se a saideira que desperta
e que devolve a cada cela o seu cativo…
[Adhemar - São Paulo, 04/10/2008]
Mudando de palavra
Onde se lê “cela”, no último verso, pensei em trocar por “vida”; mas preferi deixar como estava no original. Adote a expressão que melhor lhe parecer…
Adhemar, 19/04/2009.

LOCAL!!!

          Som ambiente, conforto, frescor de sombra de árvore sem cocô de passarinho mais a amplitude de um espaço aberto. Mesmo assim é um espaço interno; um vasto espaço interno onde tudo pode acontecer, inclusive o ruído de um regato de água límpida e fria para completar o recanto do folgado.
          Esse maravilhoso lugar existe e produz coisas majoritariamente estranhas, mais em forma de palavras do que imagens ou espaços tridimensionais: é o meu cérebro, um lugar perturbador e fascinante, que eu não consigo tirar da cabeça!

[Adhemar -  São Paulo, 22/08/2005]

ESTRUTURA

Tantos assuntos tontos,
tantos espantos tensos,
teimas nos panos quentes,
temas temidos tempos.
Prosa ambígua, rasa.
Cada metade basta,
causa maldade tola,
atola na mesma casa.
Máscaras, rosto atrás.
Más caras, feios roteiros.
Toda intenção de fato
é feito um assunto tosco…
Pernas andando retas,
setas soltando fogo;
jogo, archote, dado,
carta, deixa que eu pago.
Deita a cama no lago;
logo o amor se desfaz
na paz do que for tudo,
sobretudo… Se for capaz!
[Adhemar - São Paulo, 21/07/2005]
Demolição…
Há uma nota no radapé do rascunho: “melhorar muito”. Desculpa aí, não deu.
Adhemar, 25/04/2009.

PRESENÇA MARCANTE

Modestamente se apresenta
o circo de um homem só.
Leão, domador e palhaço,
homem-bala, trapezista, macaco…
Picadeiro, o papel,
recebe variados números
acompanhados de atenção e pipoca.
A caneta é o próprio trapézio
sem rede num salto idiota.
A lona, quase rasgando…
O tema é o amor, a paixão…
Suspiros, piruetas, momices,
reverências, caretas e cambalhotas.
Respeitável público:
o poeta despede-se a tempo,
acaba uma temporada;
a trupe faz suas malas
pois há outras vítimas a aguardá-la.
Novo lugar, velhos truques.
Expõe-se de novo o artista
com descoberta retaguarda…
[Adhemar - São Paulo, 01/02/2009]
Respeitável público
Este “blog” está fazendo um ano de vida mesmo hoje! E pela primeira vez ficou “abandonado” por tanto tempo… Aliás, não sei o que fiz com esse inadministrável senhor, o tempo, que não o tenho para as coisas da escrita e leituras! A vida está passando como um vendaval sacudido. Enquanto me “seco” e tento entender o que passa, vou tentar subtrair alguns segundos dessa agitação tresloucada para passá-los aqui, junto ao nosso “bando” virtual. Grande abraço a todos,
Adhemar, 24/03/2009.

SOB A CHUVA

Sob o guarda chuva das palavras insistentes,
“para enganar o tédio”,
surge uma prosa poética
sólida como um prédio,
suave como água corrente
escorrente dos temporais.
Esse tempo insistente
parece chato e doente
porém, não voltará mais.
E as palavras impressas,
eternas, necessárias, sem pressa,
vão ficar para sempre
desatadas da garganta,
dos punhos, do pensamento…
Achadas por um momento,
enfermas por um instante,
tratadas no sentimento
e de novo insistentes,
refratárias, circunstantes…
P/ Gabriela Domiciano (do blog “Devaneios”)
[Adhemar - São Paulo, 01/02/2009]
Guarda-chuva
Tenho ainda vários escritos originados de comentários e postagens em outros blogs desse nosso círculo tão interessante de afinidades, inclusive mais antigos do que estes que já foram mostrados.  Aos poucos eles irão aparecendo… E quem sabe outros mais não irão se sucedendo? Alguém sempre diz algo que nos intriga ou nos faz pensar e gerar uma reflexão escrita. Desde já vou agradecendo aos inspiradores…
Adhemar, 28/03/2009

EVOLUÇÃO

A árvore caiu!
Por qual mistério
o homem descobriu
que o pau dava papel?
A árvore caiu!
Por qual mistério
o homem descobriu
que a abelha dava mel?
A árvore caiu!
Por qual mistério
o homem descobriu
na galhada o fogaréu?
A árvore caiu!
Pelo mistério da observação
que o homem descobre coisas
eu tiro o meu chapéu!

[Adhemar - São Paulo, 14/06/2006]

domingo, 14 de setembro de 2014

NOTA DO AUTOR

          Este setembro marca o fim dos blogs no terra, onde este blog originalmente começou. Por esse motivo, resolvi salvar de uma vez todo o conteúdo de lá que não se encontrava aqui, incluindo comentários (estava salvando aos poucos, ver marcadores Arq e Poe: Lit1). Daí a quantidade absurda de posts este mês.

          Este setembro marca os 25 anos de casamento deste que vos escreve, portanto, mais alguma coisa há de vir por aí; além de uma mudança de aspecto que a gente faz nos meses de março (aniversário do blog) e setembro pra não enjoar da cara dele...

          Grande abraço a todos, deixem suas impressões ao nos visitar.

Adhemar, 14/09/2014

DESVIO

Sair da rotina, outra perspectiva.
Balançar uns conceitos,
balançar o corpo,
sacudir as idéias.
Parar; respirar.
Revestir uns degraus
e pisar com cuidado
para não escorregar.
Vibrações pulsantes,
sonhos por despertar.
Uma carona, um atalho,
laços por amarrar;
provas pra conferir,
notícias pra relatar.
Orientar os perdidos.
Varrer e sacudir o tapete,
olhar profundamente e suspirar.
Medir a tensão de um momento,
espreguiçar…
Manter o leme, o rumo,
se distrair, se perturbar…
Cair em si.
Refletir, escolher,
não hesitar.
Construir, aprender e ousar.
Sair de si.
Conferir e arriscar.
Se compenetrar, se preparar e,
em se perdendo, se achar!

[Adhemar – São Caetano do Sul, 13/04/05]

DUPLA (2)

Entre dois corações
a emoção permanece;
amor à primeira vista,
amor à primeira prece.
Palavras de acolhida,
lembrança do que brotou
e do que é tão bonito
que em dois corações se gravou.
E nesse futuro infinito,
sentir tão de perto o teu ser
confundindo os dois corações
nessa emoção que é viver.

P/ SHFC
[Adhemar - São Paulo, 08/05/1987]

Duas duplas…
Há outra poesia denominada “Dupla”, postado em 20/06/2008.
[N.A.: repostado em 05/09/2014]
Adhemar, 17/01/2009.

CANTO

          Barulhos não me incomodam mais, ruídos estranhos de um momento aprisionado numa fotografia. Aliás, este outro mito derrubado; não se aprisiona o momento, apenas se copia e imortaliza o fato, continuado depois, ao sabor do tempo…
          Arrastando consigo a memória, ávore tênue mas firme, curvada pelo vento, em ruídos e lembranças a foto guarda em seu fundo o som ambiente do momento. Experiente, indiferente, qual a diferença de não se assustar nem um pouco com a lembrança desses sons perturbadores…?

[Adhemar - São Paulo, 30/07/2000]

RUA

De fora a gente vê
a luz azulada da TV.
Então, um pouco antes,
a movimentação dos estudantes.
Azul dentro de azul -
sempre funciona.
Nos braços do Cruzeiro do Sul
a ponta dessa zona.
A mais atrevida
saltou lá na avenida
e sem sinceridade
entrou na faculdade.
Sobraram as mais simples,
diretas, retas, práticas.
Efetivas, lindas, livres,
exatas, matemáticas.
São imagens, são paisagens
crepusculares, noturnas.
Acontecimentos rotineiros,
cotidianos e singulares…

[Adhemar - S. Caetano do Sul, 02/05/2005]

PROPOSTA

Andar na luz sem fazer sombra
e mesmo no calor não desistir.
Completar o trajeto lento e altivo
e aos obstáculos contornar.
Escrever assim pra sentir vivo -
e como é emperrado o pensar!
Viver, voltar a conseguir
um descanso fresco na penumbra.
Bater a cabeça e chacoalhar
para renovar idéias velhas.
Abrir os braços pra espreguiçar
e reescrever poesias e novelas.
Quem sabe, se o assunto melhorar,
a gente não apanhe novidades
nas melhores e maiores faculdades
aprendendo a crescer e a pensar…
Pensar é preciso; ocupar a mente com idéias,
gerar um pensamento propulsor.
Buscar os meios de executar
e prosseguir para além da própria dor.
Pensar e não se agredir,
levar o material pra passear.
Invadir feudos e espionar;
partir, curtir e discutir.
Encaminhar os recursos de moldar
uma nova situação a definir.
Aquecer as mãos, se deslocar,
eliminar uns tantos por fazer:
se realizar…

[Adhemar - São Paulo, 26/05/2006]

DELÍRIO NOTURNO

          Há certos momentos em que a gente perde a noção de tudo. Por cima das estrelas da noite há um grande espelho flutuando no espaço, cada estrela é o reflexo de cada um de nossos poros brilhando mais itensamente quanto mais brilharmos por dentro. Um grande espelho oculto de nossos próprios sentimentos. Amedrontador é saber que a imagem dos nossos secretos pensamentos está caminhando pelo ar e fica escrita no céu através de luzes intensas ou tímidas, recortadas no negrume da noite e que qualquer um pode lê-la, porém - ah, que bom! - tanta gente passa por tudo isso e nem percebe, não olha pra cima nem de dia, nem de noite e, quando olha - bem - quando olha vê apenas vagos pontos azuis brilhando límpidos, revelando tudo, inclusive a si próprias, mas pensam que são apenas estrelas; mas é como se toda essa gente fosse analfabeta da leitura das estrelas desprezando, desse modo, a sua própria ligação com o céu. E a gente fica tranquilo porque ninguém sabe ver direito e nem desconfia do que tá acontecendo. Mas o que é isso?! De repente alguém sem mais nem pouco vem chegando e dá o serviço direitinho: vendo tudo o que a gente é, fica dona dos nossos segredos; mesmo de longe fica lendo o que a gente está sentindo. Então dá uma aflição gostosa de repartir o que é só nosso, há mais sorrisos e cada sorriso gera uma nova estrela… Mas não dá tempo de curtir direito, o sonho está acabando, o dia amanhecendo…

P/BSF
[Adhemar - São Paulo, 26/04/1988]

CACHOEIRAS

Quando toda a luz se derramar
e o mar virar sertão;
quando toda a treva se acabar
e o bar for contramão;
quando toda a vida se esvair
e não ir não vai dar não;
quando toda a brisa te beijar
e o já passar então…
Vai teu coração se contrair,
vai tua razão te bronquear;
vai cada teu gesto desmentir,
vai o teu amor desconfiar.
Pior; o teu amor vai descobrir
que não passas de uma fraude regular
que não tem onde ficar nem onde ir.
Estarás, então, entregue à correnteza.
Estarás perdendo, enfim, toda razão.
Não adiantará contrariar a natureza
porque serás caso perdido na emoção
nem irás remover com tal certeza
a dor que carregarás no coração;
nem devagar nem com presteza.
Mas se fores presa de atenção,
se contornares o sentimento aflitivo
sendo capaz de estender a própria mão;
terás como um futuro só definitivo
a escapar do amor-paixão,
similar ao remédio mais paliativo
sempre aplicado com reservas, com senão,
enquanto negas pra ti mesmo que és cativo…
Mas se a sorte que te cerca te sorrir;
se tua sina for viver então feliz…
Preencha logo o formulário onde assina
a ficha de continuar um aprendiz.
Um aprendiz de repertório variado.
Um aprendiz do amor e da beleza.
Um vivente mais seguro e sossegado
que não despreza o que as cartas dão na mesa.
Quando então toda a luz só se tornar
ante olhos turvos apenas em escuridão,
tu possas plenamente se lembrar
que todos nós somos só contradição!

[Adhemar -  São Paulo, 27/06/2008]

PRENÚNCIO DO ADEUS

No recôndito da solidão
não sei se te acolho ou te afago…
No desejo do meu coração
sempre junto de ti eu me trago…
Quis ter a certeza de saber o caminho.
Oferecido a ti, resgatar a nova vida.
Quis, ao teu lado, criar um nosso filho.
Mas me rejeitaste por um falso brilho…
Quis mudar o rumo triste desta nossa história.
Mas a incompreensão fez-se tua acolhida.
E tão despojado quis-te perto ainda.
Mas me rejeitaste, tão cruel e linda…
Quis criar um mundo, novo e simplificado,
em relações diretas entre humanos fatos.
Mas quis o destino fatos separados
e foi provando aos poucos, estávamos errados.
Quis recomeçar do nada, tornar tudo ao certo.
Mas, perdido o rumo, vago o pensamento,
livre o coração quis te buscar de novo.
Mas o vazio imenso que ainda persiste
é não mais amar;
e chorar agora não é mais consolo…

P/MG
[Adhemar - 15/05/1987]

SILHUETA

      Um recorte nas mãos evocando uma recordação. A cabeça chacoalha balançando os pensamentos. Perplexidade. Idéias misturadas querendo dizer tantas coisas que a garganta não ousa deixar passar. Estrutura, é tudo o que pede esse caos consciente, indo e indo a frente, acelerando além dos limites. Provocações suaves comportando larga faixa de decisões, de atitudes refletidas e pensadas.
          Uma tese, um pano de fundo para ilustrar as ilusões.

[Adhemar - São Caetano do Sul, 06/06/2005]

MÃE NATUREZA BRASIL

Terra materna
concebe, recebe e alimenta,
consola, ensina e acalenta,
tão dôce, tão mãe e tão terna.

Terra materna
agasalha, encaminha e aconselha,
abraça, envolve e espelha,
adorna, adormece e hiberna.

Terra materna
caleja, honra e enriquece,
castiga, admoesta e agradece,
perdoa, abençoa, é eterna.

Terra materna
acompanha, enobrece, se importa,
empurra, incentiva e adota,
cura, socorre e interna.

Terra materna
que adora e engrandece primeiro,
que chora, saúda e acena
e carrega no ventre um filho estrangeiro...


[Adhemar - Santo Antonio do Amparo-MG, 14/07/2006]

PROCEDIMENTOS

Os estranhos rituais de aproximação e afastamento,
instintivos, animais.
Amor, paixão e acasalamento,
todos fora dos conhecidos manuais.
 Chegadas, partidas e pressentimentos
embebidos nos modelos atuais.
Modernidade, ações e pensamentos
em intuitivos balés processuais.
Palavras, murmúrios e lamentos,
passos, meneios, balanços e jograis.
Aceitação, receptividade e consentimento
em balões de ensaio consensuais.
Entendimentos banais
em balançados corações afetivos e compromissados.
Comissões, parlamento e manifestações casuais
num abatimento tímido.
Até o desabrochar da atitude madura
quando os modos infantis não voltam mais.

[Adhemar - Ilhéus, 25/01/2008]

INTÉRPRETES

               Somos tradutores do excesso. Somos uns incontidos. Tudo o que não conseguimos reter, despejamos. Despegamos as palavras que nos saem da boca, do cérebro, de qualquer jeito, atrabiliárias. Aí, as desorganizamos nos papéis, transbordando da nossa cabeça, dos nossos lábios, numa torrente contínua, excessiva. Faltou-nos a coragem para segurá-las, sepultá-las, essas palavras rebeldes que fogem de nós insurretas, repentinamente acumuladas e chocando-se entre si até sairem de nós.

               Somos carcereiros do nada, posto que em fuga elas nos colocam em cheque. Exibidas ou dissimuladas, mentirosas ou autênticas são altamente reveladoras de nós, mesmo nessa fuga. Nos apresentam ao mundo quando ganham essa insuportável e irremediável liberdade que nos condenará a lê-las apenas com a sensação muito esquisita de que nunca mais serão as mesmas...


[Adhemar - São Paulo, 10/06/2008]

NOTÍCIAS DIÁRIAS

Pesquisa, estatística.
Quanta gente sabe ler?
Muita gente, muito assunto se estica
coisas pra não se entender.
Informação, fatos.
Quantos modos de contar?
Para ilustrar, uns tantos retratos,
assuntos pra escolher.
Fofocas, mentiras, boatos.
Tantas preferências têm...
Rodando o mundo, ganhando detalhes,
ganhando adeptos e fãs também.
Quantas abreviaturas, relatos.
Quantas versões pra inventar?
Saltos mortais, capítulos,
outros fascículos pra comprar.
Um acompanhamento barato,
tipo um brinde qualquer.
Vale o escrito mesmo insano
num insensato vai-e-vém.
Publicidade, reclame,
divulgação midiática
da imediata pressa da missa
de um abençoado amém.
Vai endosso, vem preguiça
dando um susto em alguém.
Faixa, cartaz, passeata,
ameaça, poder carismático...
Coluna, indicador econômico,
caderno de cultura, esporte,
encaixado em primeiro plano
um caderno classificado.
Artigo, manifesto, editorial.
Tudo dito de uma vez.
Tudo a serviço da voz
da confusa desinformação em geral.

[Adhemar - São Paulo, 10/06/2008]

...LAGO!


Fico quieto quando não tem vento.
Só de chuva eu me alimento.
Não há corrente onde eu deságuo.
Sou apenas um tranqüilo...

Aqui dentro moram uns peixes.
Nadar - embora eu deixe -
é pra quem me faz um afago.
Sou apenas um pacífico...

Minhas águas molham as margens,
deixam mais verdes muitas folhagens
com os alimentos que trago.
Sou apenas um profícuo...

Os animais podem matar sua sede;
o pescador estender sua rede
que eu, por mim, nada indago.
Sou apenas um simples...

Mesmo assim os moleques safados,
turistas xeretas e casais de namorados
jogam migalhas, gravetos e lixo, sem embargo;
sou simplesmente alvo de pedras no...


[Adhemar - Santo André, 25/09/2008]