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sábado, 6 de setembro de 2014

AMOR PERFEITO

               De todos os pensamentos, aquele era o mais original e encantador. E ocorrera num momento particularmente agradável; camihava pela praia à hora do pôr-do-sol e se colocou de forma a ser banhado pelos raios que atravessavam as nuvens. A fímbria do mar tocava-lhe os pés, com sua espuma branca a formigar placidamente a sua grande tranqüilidade.
                 Esse pensamento tão agradavelmente surpreendente naquele instante místico referia-se a uma mulher. Não qualquer mulher, mas uma mulher diferente, com uma presença tão radiosa que talvez nem Deus tivesse pensado ou ousado concebê-la ainda. E com uma luz interior tão brilhante, tão surpreendente que lhe conferiria uma transparência ímpar e sagrada; e que fosse linda, mas tão linda, que qualquer coração parasse de bater ao contemplá-la, de pura emoção. Além disso, os gestos suaves e diáfanos, de uma pureza tão inata que fizessem estremecer tudo à sua volta ao seu menor sorriso. E ele poderia descrever esse sorriso, se tivesse força para tanto!
              Está claro que tal mulher não existe, nem pode existir. Do contrário não haveria poetas nem quaisquer outros homens para a grande aventura do mundo: viver, sonhar e amar.
[Adhemar - São Paulo, 22/12/1987]
Amor desfeito
À época, este que vos fala ainda trazia a bunda achatada pelos pontapés que levara alguns meses antes. Após quase seis anos e meio de um relacionamento que chegara ao noivado, a paixão do final da adolescência evoluindo para um amor responsável começou a declinar no início desse ano fatídico para um sentimento tão autêntico. Do início ao meio desse ano (1987) só houveram indícios do desgaste, que foi se acentuando. Quando terminou, ela disse "acabou", fiquei refém de sentimentos contraditórios: de um lado, a enorme decepção somada à sensação de fracasso, de "meu Deus, que será de mim agora" se contrapondo ao conformismo confortante que acomete um médico diante de seu paciente morto, mas perante o qual ele sabe que fez de tudo ao seu alcance para salvá-lo. Na seqüência, uma paixão não correspondida (já relatada anteirormente neste espaço) mostrando quão complicado é ser simples!
Eu, que quando adolescente achava que amor a gente escolhia "vou gostar daquela lá e pronto", que fui surpreendido pelo agradável sentimento correspondido - tenho certeza - de repente desacreditei. Do desenlace desses lances em diante, jurei para mim mesmo que não amaria mais ninguém. Pra variar, estava errado. Vieram outros amores, decepções e satisfações em gotas de cachoeiras, deslumbrando e afogando. Até descobrir que a mulher ideal existe sim, é sempre do jeito que descrevi no texto. É a mulher que a gente ama; sempre terá a forma de como a gente a vê.
Adhemar, 09/07/2008.

Um comentário:

Adh2bs disse...

Comentário por Lady Stef — quarta-feira, 9 de julho de 2008 (13:38:08)
Meu caríssimo Adhemar,
Confesso que não tenho frequentado muito seu blog, mas o post que li agora, é absolutamente lindo! Oxalá todos os homens tivessem esta sensibilidade que vc demonstra!
Aproveito para agradecer o comentario e para pedir sua opinião sincera quanto ao romance que você terminou de ler.
um forte abraço.