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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

BECO

"O imprevidente pensador se viu emboscado, assim de repente. Sua filosofia, apesar de tê-lo advertido, não o salvou: assim do nada viu-se cercado por um muro intransponível de incompreensão e teimosia; lateralmente encarcerado por ignorância, intolerância e competição. Onde mais se julgara capaz parecia um principiante. Diante do tudo para o que se preparara sentia-se incompetente."
"O livre-pensador estava encurralado. Seus mais sinceros e latentes desejos, armazenados; seus dignos intentos, ameaçados."
"Nunca soubera se impor pela força ou pela autoridade, embora tivesse capacidade e potencial. Seus bons propósitos e honestos princípios pautaram sua linha de conduta. E o tinham conduzido a esse beco aparentemente sem saída. Com tenacidade, estava usando sua faculdade de pensar rápido para destruir a incompreensão. Determinado, movia-se no exíguo espaço ainda restante tentando ser abrangente na visão das soluções. Mas os muros foram se fechando e ele apelou para a única atitude imediatamente possível: agachou-se e começou a cavar."
"Enterrado por opção própria foi soterrado no ponto exato do caminho onde deliberadamente fôra acabar! Refletia, na toca onde estava, se continuaria ou se esperaria pela divina providência. Como um viciado, optou pelo meio termo: iria de encontro a ela. Mesmo sem movimentos largos, mesmo sufocado, continuou a escavar. Ou mudava seu tempo de verbo, ou mudava sua própria história."
"E foi escavando; machucando as mãos e o coração. Deixou para trás a violência, o terrorismo, a indignidade da pobreza absoluta, a ignorância deliberada, as misérias da intriga, da vaidade exacerbada, do mau-caratismo reinante, do oportunismo descarado, do egoísmo, da falta de solidariedade, das mentiras deslavadas e da falsidade. Ainda teve que enfrentar a imoralidade, a falta de ética e a ganância voraz."
"Quando chegou do outro lado, aflorando onde pensava escapar, deu consigo num cubículo exíguo, escuro e mofado. Estava encarcerado outra vez! Tinha acabado de escapar do mundo para dentro do seu próprio repertório limitado."

[Adhemar- Santo André, 26/07/2005]

Um comentário:

Adh2bs disse...

Comentário por tah — quinta-feira, 23 de outubro de 2008 (14:40:52)
e o q seria de mim sem Marie? e o q seria de Marie sem mim?
e o que seria da gente sem os blogs? Sem o círculo amigo?
Escrever realmente é o que há…
“Escrever é o real prazer. Ser lido é um prazer superficial.”
Clarice L.
Bjão
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