quarta-feira, 3 de setembro de 2014

CAMPEONATO DE POTOCA (2)

(2)
          "O Coronel aposentado do exército (que jurava ter estado na primeira guerra mundial - mas só se foi em espírito porque sua certidão de nascimento o dava por nascido em 1922):"
" - Ah! Meu jovem… Disposição tínhamos nós, da minha geração. Vocês são uma súcia de frouxos (sim, ele falava súcia), sempre largados e contemplativos, não têm a nossa iniciativa e energia! Veja, no meu tempo de menino, reunimo-nos dez ou mais praças nas férias escolares - porque não éramos vagabundos não - e nos pusemos a desenvolver um grandioso projeto. Iríamos armar o maior ‘barraca’ (papagaio, pipa, pandorga) do mundo. Encabecei o planejamento encomendando cinqüenta metros quadrados de lona - não essa porcaria de lona plástica que vocês têm hoje; mas um encerado de caminhão! Bem, precisávamos de vinte e dois metros de vigas de peroba 6×12 para fazer as ‘varetas’ e formar o retângulo do plano principal; e caibros 5×7, uns dezoito metros, para fazer as laterais. Encomendamos uns varões de ferro fundido para fazer o reforço em ‘xis’ e providenciamos - nossos pais eram do exército! - uns dois mil metros de corda grossa para sustentar o bicharoco voando. Alguns desistiram achando que a engenhoca não ia sair do chão; poucos amigos viveram comigo a glória suprema de empinar o maior ‘barraca’ do mundo. Deixamos tudo preparado no campo, a ponta da corda amarrada numa seringueira antológica - a maior da América do Sul e, quiçá, do mundo! E esperamos."
" - Esperaram o quê, General?"
" - Coronel. Esperamos um dia de ventania. E Deus atendeu às nossas preces. Um belo dia, lindo dia de céu negro e nuvens carregadas, uma formidável borrasca se anunciou (borrasca, coronel?). Um vendaval a precedeu. Não um desses ventos de hoje em dia que qualquer carvalho nem verga às ‘brisas’ de agora; mas um vento espetacular, ciclone, furacão com ‘efe’ maiúsculo, impressionante e violento… Corremos ao ‘barraca’.
" - Mas como, Marechal, e o vento?"
" - Coronel! Preparáramos com antecedência umas botas de chumbo e vestes de segurança à prova de balas com desenho aerodinâmico para fender o tornado (fender…). E lá chegamos, com muita dificuldade. Incitei meus colegas a bater o primeiro recorde, o de tempo, para colocar nossas estupenda máquina voadora no ar, porque o temporal era iminente. Coloquei-me no manejo da corda e meus intrépidos companheiros posicionaram o ‘barraca’, levantando-o parcialmente de um lado, com o auxílio de sarilhos e polias - evidentemente - e o vento furioso colheu nosso monumento à aviação pela frente. Que tranco! Outro golpe de vento e ele deu um salto de mais de cem metros. Mas quando estava para voltar ao solo, uma rajada contínua de uns 600Km/h o colheu de jeito e o ergueu, gloriosamente. Não fosse meu estratégico posicionamento numa ‘gruta’ à raiz da seringueira e teria voado junto. Consegui controlá-lo por uns bons vinte minutos, cada vez mais alto, cada vez mais longe. Quando estava para sumir de vista, a quatro mil metros de altura, acabou por arrancar a seringueira!!! E sumiu para sempre…"
" - O Brigadeiro não teve notícias de onde ele possa ter caído?"
" - Coronel!!! Não, mas foi vista uma formação parecida no Pólo Sul, servindo de abrigo para uma missão científica; os pesquisadores disseram que caíra do céu."
" - E a seringueira?"
" - Bem, essa eu não sei onde foi parar. Mas no buraco da raiz construíram o estádio do Pacaembu!"
[Adhemar - São Paulo, 07/03/2003]
Verdade!
O personagem dessa história existe mesmo, é Coronel aposentado (não sei dizer se da polícia ou do exército) e conta (espero que ainda conte) umas histórias fantásticas. Grande figura, que conheci no início dos anos 80. Essa coletânea de potocas foi inventada em sua homenagem e, esta em particular, inspirada numa contada por ele. A do próximo domingo é baseada numa réplica dada em conjunto por meu pai e meu ex-quase sogro à época (e amigo do Coronel), que não podiam aceitar quietos tamanho desafio.
Adhemar, 04/05/2008.

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