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terça-feira, 2 de setembro de 2014

CAMPEONATO DE POTOCA (4)

(4)
          Mais metódico, impossível. Tomava o ônibus todos os dias úteis rigorosamente às sete horas da manhã. Dizia bom dia ao motorista e ao cobrador e despedia-se ao descer, quarenta minutos depois. O dia em que passaram por um congestionamento causado por um acidente, atrasou-se por oito minutos e quase teve um ataque apoplético.
          Ao descer, tomava o mesmo café-com-leite na mesma padaria de sempre e comia um pão chapado com manteiga; agradecia e despedia-se dos funcionários da "padoca" e todas as vezes pagava o valor certo da conta, isto é, não havia nem trôco.
          Chegava ao serviço dez minutos antes do início do expediente (exceto no dia do congestionamento porque resolvera não pular a padaria). Dava uma rápida olhada nos jornais e iniciava o tabalho um minuto antes de tocar a sirena.
          Pouco falava mas se incomodava com a tagarelice alheia. Seus relatórios estavam sempre bem redigidos, um português impecável. E, se nunca extrapolara suas obrigações tendo idéias ou sugestões, também nunca ficara aquém de suas funções. Exemplar na sua exatidão e colocações, nunca chegou a ser extraordinário ou sensacional.
          Mas todo mundo tem o seu dia ruim. E o dele principiara com uma queda da cama ao se levantar, um talho no rosto ao se barbear e a perda do ônibus por chegar ao ponto às 7:01. Espera inédita pelo outro coletivo que só tinha estranhos - aparentemente hostis; apanhariam mais trânsito? O pavor do atraso se materializando em suor nas têmporas. E que atraso! O ônibus demorara a vir, andava devagar apesar do tráfego estranhamente livre. Finalemente chegou ao ponto de descida 8:05; foi ventando para a empresa, humilhado e sem café. E deu com a cara na porta fechada. Pôs-se a chorar desconsolado, toda uma vida de dedicação perdida num dia; o inaceitável atraso que os fizera sequer abrir-lhe a porta. Não cogitou da injustiça; achava merecido e lógico. E continuou a chorar, agora sentado na calçada com a insuportável lassidão dos desiludidos.
           Nisto, para a sua frente um carro de polícia. Pronto! Agora ia ser preso pelo imperdoável atraso! Mas, a princípio, os dois policiais apenas desceram e se acercaram dele falando com gentileza e interesse: por quê, tão alinhado, estava no chão e chorando? Ainda ao soluços, contou-lhes as suas agruras. Ambos começaram a rir, dobrando-se em gargalhadas. Espantado e sério, quase zangado, cobrou-lhes explicações.
" - Vem, paga-nos um café…"
" - Não! Tenho que ficar aqui, de repente abrem a porta, alguém terá de sair nem que seja para me demitir!"
" - Hoje não. Vamos tomar o café e volta pra tua casa porque hoje é feriado…"
[Adhemar - 05/2003]

Um comentário:

Adh2bs disse...

Comentário por marisa — segunda-feira, 19 de maio de 2008 (08:16:18)
BOM DIA!
OBRIGADA PELA VISITA, E COMENTÁRIO…
DIALOGO POETICO É MAIS UM JOGO DE PALAVRAS… PERFEITAMENTE ENCAIXADAS,PARA DESPERTAR EM NÓS… TODOS DA SOCIEDADE, VISÕES EM OUTROS NÍVEIS, OUTROS PADRÕES DE CONHECIMENTO! E VC.. ENTENDE PERFEITAMENTE ESSA VISÃO!……
TENHA UMA ÓTIMA SEMANA!
PAZ… BJO!