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terça-feira, 2 de setembro de 2014

CAMPEONATO DE POTOCA (5)

O amigo do catador
             É um humilde catador de papel. Vive do que coleta nas casas e no lixo da Vila Mariana (em São Paulo / SP), carregando na sua carriola de duas rodas (achadas no lixo de uma bicicletaria). A madeira ganhou numa feira livre (ex-banca de laranjas avariada numa queda do caminhão) gentilmente cedida pelo proprietário, um "laranjeiro", a trôco de uma ajuda para carregar uns "teréns".
             Sempre prestativo, faz pequenos serviços à comunidade local: troca lâmpadas para o advogado, toma conta por alguns momentos de uma criança para a moça da casa amarela; faz a feira para uma terceira, pega as crianças na escola para aquela quarta, todo mundo confia nele! Nos entremeios, recolhe o papel descartado pelas lojas e demais estabelecimentos comerciais e também garrafas - aliás, um favor que faz a outro colega seu, também catador. Apara a grama e poda as árvores para a velhinha que mora numa esquina. Todo mundo faz questão de guardar papel e papelão para ele.
             Pois não é que outro dia, vindo da estação Ana Rosa do metrô em direção ao trabalho, vejo-o transportando um cão em seu carrinho, vazio das outras coisas. Ante o espanto geral e o meu em particular, vai dando ordens prontamente atendidas pelo vira-lata: "senta aí, não se mexa", "quieto pra não cair", "sossega matuto", etc. A seguir explica: "o pobrezinho quebrou uma pata, foi atropelado; ele entende tudo que a gente fala. Vou levá-lo ao veterinário da rua de baixo, quem sabe não ganho um amigo pra percorrer comigo as ruas do bairro e trabalhar conversando…"
[Adhemar - São Paulo, 07/02/1999]
Toda brincadeira sempre tem um fundo de verdade. O personagem da história acima existia mesmo (não sei se era tão prestativo) e conversava de fato com o cachorro.
Adhemar, 25/05/2008.

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