O poeta foi internado
pra operar a cabeça.
O doutor ficou consternado
pelo bicho cabeçudo à beça!
Tomou um banho completo;
depois, na maca deitou:
tão risonho e, tão eclético,
que o pessoal estranhou.
Foi levado pro centro médico
e alguém anestesiou.
O poeta já era tão tonto
que aí, então, capotou.
E mexe daqui e dali,
finalmente o doutor cortou
o crânio do homem-poeta
que mesmo dormindo falou:
"Não tire muitas palavras,
me deixe algum cabedal
porque eu vivo das palavras...
Elas são o meu capital."
E o doutor se espantou
com tanta letra lá dentro;
nas pontas, no canto, no centro,
não sabe como não transbordou.
Manuais, tratados, romances,
contos, poesias, bilhetes,
letras avulsas, palpites, nuances;
tudo isso e mais encontrou.
E foi enchendo uns baldes,
e mais prateleiras, estantes.
Tudo com muito formol.
E o cabeçudo acordou.
"Doutor, o que é isso, estou ôco;
o senhor me esvaziou!"
"Nã-não, meu filho, tá louco?
Você é que quase estourou!"
E, com algumas letras-semente, o poeta recomeçou...
[Adhemar - S. Paulo, 30/05/2006]
Um comentário:
Comment by Manhosa — Sunday, 9 de November de 2008 (14:53:36)
Se... as letras que ficaram de sementes são... 'A' ssim ressurgirá o poeta 'M' isturando letrinhas formando palavras.... 'O' rgulhoso... envolvendo o todo em sentimentos... 'R' ecolocando seu coração no ritmo certo..... Bjs.
Comment by Morenah — Monday, 10 de November de 2008 (12:12:49)
Olá! Mto obrigada pelas palavras... é difícil mas já me conformei. Ótima semana p ti! *=))
Comment by TATIANA REZENDE — Tuesday, 11 de November de 2008 (07:09:58)
Seu poema me fez lembrar do Ignácio de Loyola Brandão em "A Veia Bailarina". Se não leu, leia.
Postar um comentário