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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

EXISTÊNCIA PARALELA

                Era um usurpador que finalmente foi preso. Apanhado em flagrante apropriando-se de uns dígrafos. Polígrafo.
                  Foi trancafiado numa cela cheia de lugares comuns: "ver o sol nascer quadrado"; "se hospedar no xilindró".
                  Descobriu-se usando-os para fazer barulho. Isto é, muito barulho. Desaforado, advertido, nem por isso adormeceu quieto. Numa bolação criativa, alucinada, ficou pensando na fuga em plena hora do almoço, pela porta dos fundos.
                  Então, sem mais nada, as mãos espalmadas empunhando uma funda, caminhou ereto, com o olhar altivo, empinando a pose. E fugiu. Como a história parada, inventada, sem fim; sem retorno, sem transversais nem ramificações.
                 Com as mãos na cintura, o olhar perdido a cismar: "aonde ir agora, que mais terras conquistar? Governos a derubar? Um despostismo a esclarecer?"
                  Um jurássico, um clássico, um ente fantástico, nem muito alegre, nem fantasmagórico, nem agônico, nem cruel. Apenas um ator, um à toa, representando o seu papel: seu lugar no espaço em lugar de outrem, num blefe, num passe, até ser pego outra vez.
[Adhemar - S. Paulo, 11/12/2004]

Um comentário:

Adh2bs disse...

Comentário por isa — sábado, 14 de junho de 2008 (12:02:16)
Delícia de prosa!!!
Obrigada pelas palavras de incentivo, obrigada pelo lindo poema de Camões… obrigada… obrigada…
Um ótimo fim de semana p/vc e sua família
Beijokas

Comentário por Joselma — segunda-feira, 16 de junho de 2008 (13:35:21)
Gostei muito dos teus textos, utilizas uma bela linguagem. Continua escrevendo. Parabéns! Muito obrigada por incluir o meu blog nos teus links favoritos!
Um abraço, Joselma

Comentário por Alexandre Souza — segunda-feira, 16 de junho de 2008 (19:00:51)
Inspirou-se no Maluf?