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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

PIROTECNIA MIDIÁTICA

Primeiramente, um esclarecimento: o título acima é uma expressão que li numa matéria sobre a mídia e o sensacionalismo escandaloso - me perdôe o autor, já não lembro onde nem seu nome. A seguir, outro esclarecimento: escrevo estas linhas em respeito aos e às jornalistas que conheço (alguns freqüentam este espaço, inclusive), sobre o comportamento que assumem os órgãos de comunicação diante dos fatos mais banais. E, pra finalizar esta introdução, para aproveitar como assunto mais um fato que simboliza, de modo geral, a falência dos valores mais básicos, éticos e morais, principalmente.
Vou gastar este espaço para comentar o recém terminado seqüestro de duas meninas por um aloprado no município de Santo André, SP. Nem vou me delongar sobre a idiotice que um paspalho mal formado e mal amado perpetrou sabe-se lá por qual capricho irrelevante. Vou começar minha análise sob a perspectiva do papel da polícia. A polícia, essa respeitável instituição composta por muitos homens dignos, muito mal reconhecidos pela sociedade; e cujos membros mais mal preparados sucumbem ao ponto de se confundir com os criminosos. Mas isso não vem ao caso. Vou me ater sobre o ponto de por quê o seqüestro não terminou no primeiro dia, visto que era fácil infiltrar um agente preparado para entrar no apartamento e neutralizar o agressor! Tá bem, vamos admitir que não era tão fácil assim e que o comando da ação tenha preferido esperar a rendição do seqüestrador pelo cansaço, pela desistência espontânea mediante um súbito surto de consciência. Raios! O homem soltou uma das meninas, por que deixaram-na voltar?! Se fazia parte da estratégia, por que não aproveitaram o retorno da menina para mandar um agente lá, de vestido e peruca, sei lá? Deixar uma ex-refém voltar às mãos do meliante me pareceu de uma inépcia mentecapta! Por fim, uma patética explosão, tiros, e um ar triunfal como se tivessem vencido Napoleão em Waterloo! Afora o risco de morte de uma das vítimas, de todo o aparato militar ter paralisado os arredores por uma semana - escola e comércio fechados, pessoas cerceadas no sagrado direito de ir e vir… Parecia o cêrco americano ao Bin Laden… Inadmissível!
Agora, a imprensa. Mas a parte perversa, que se alimenta das tragédias humanas - lembrem que era mais importante uma imagem de Lady Di agonizando do que largar a câmera para ajudar de alguma forma no socorro. Ainda que da tragédia se alimente a mórbida curiosidade humana! Fizeram plantão de uma semana na macabra expectativa (pelo jeito, plenamente satisfeita) de que o facínora começasse a jogar pedaços das vítimas pela janela. E com que emoção narravam os detalhes mais insignificantes, não lhes ocorrendo que o maluco aparecia na janela do banheiro, vez por outra, porque mesmo sendo ele um quase "herói", precisava ir mijar de vez em quando… E, graças à cobertura espetaculosa com direito a reprise de explosão e tiros, no rádio e tv, forja-se mais uma "celebridade", quem sabe se com direito a programas de entrevistas. E as teses sócio-patológicas que os pseudo-especialistas irão vomitar em intermináveis perorações?! Alguém merece? (É uma pergunta retórica… Não respondam!).
Sobre os protagonistas: acho que o sujeito deve ser preso numa solitária com uma enorme duma enciclopédia; enquanto não terminar a leitura entendendo ao menos alguma coisa, não sai (enfim, prisão perpétua?). Espero que a mocinha sobreviva e que seus pais percam o pátrio poder. Não tenho preconceito de idade; acho que uma pessoa amadurecida e responsável pode namorar quem quiser. Só que, aos quinze anos, os pais tem que saber, aconselhar e conhecer os "namorados" e "namoradas". Que o susto lhe sirva para aprender a avaliar melhor com quem irá se envolver no futuro, e deixe de se comportar como mimada (aliás, vale pro fulano também, alguém o contraria e ele sai seqüestrando, ameaçando?!). Mas os pais foram muito relapsos; se não no episódio em si, na formação da pessoinha. E este tem sido o retrato de nossa sociedade.
Aliás, por falar em sociedade: que esta saia dessa estranha janela chamada televisão…
Adhemar - São Paulo, 17/10/2008.

Um comentário:

Adh2bs disse...

Comentário por Manhosa — sexta-feira, 17 de outubro de 2008 (22:34:06)
Ufa… Que bom que pensas que nem eu…
Hoje ainda comentei o despreparo da polícia paulista… a maior cidade do nosso Brasilzão…
Tenho certeza que aqui… na cidade pequena que moro… nossa policia local teria resolvido isto no 1º dia… sem nenhuma dramaturgia… Certeza absoluta… e não temos 10% dos recursos que eles tem…
Mais me parecia que todos estavam querendo ser notícia… só aparato…
Cansar o dito seqüestrador… um Guri louco… “descornado” como dizemos por aqui… Esta demora toda só o deixou ainda mais paranóico…
Na verdade… nem uma ação foi correta ou teve sentido…
Sei… na verdade o que não tem sentido é esta vida fora dos trilhos… famílias desunidas… filhos mal orientados… mal amados…
Escrevinhei demais…
Bjs.

Comentário por Daisy — sábado, 18 de outubro de 2008 (10:06:41)
Neste episódio só teve uma vítima: Heloá.
O resto, e você tem razão: incluindo os pais, precisam rever conceitos de humanidade.
Rezo para que não morra, pois aí, teriam lhe tirado o maior dos direitos: o de viver.
Todos os outros direitos lhe tiraram.
Beijo.
Daisy

Comentário por isa — domingo, 19 de outubro de 2008 (01:17:10)
Que pena que ainda existam tragédias como esta…
Que pena que ainda hajam pessoas q se deleitam a frente da TV assistindo um espetáculo desumano e cruel…
Que pena que o sofrimento de alguns seja o entretenimento de outros…
Que pena que ainda existam tantas Heloás… que sofrem e padecem nas mão de seus agressores…
Que pena que nada é feito para brecar a violência…
Que pena, que pena!!!
Tudo isso é estarrecedor, desnecessário, incabível…
Que pena!!!