quarta-feira, 3 de setembro de 2014

PREZADA AMIGA

Descalço na areia, olhando o mar.
Indefinido sentimento de contemplação.
Fome. Fome no coração,
saudade no pôr-do-sol;
e amor, no fantástico alaranjado do céu.
Neste lugar comum tenho o presente prazer de indefinir o coração.
Coragem me sugeres, eu sei.
Mas somente sou capaz de vagos movimentos de mão.
Assim mesmo, com muito esforço.
Gostaria de fugir correndo no rumo do sol,
mas há razões do passado me prendendo aqui.
De tudo o que vivi, tudo gostei.
Mas do que não vivi, ‘inda não sei.
Aberta a vela, aberto o peito,
deixo-me ir ao sabor do vento.
Sabor do vento. Um vento amargo, talvez.
Um vento de esquecimento,
esquece estas linhas, tá bem?
Me mande notícias dos teus.
E ainda uma vez, adeus*.

* Título de um poema de Gonçalves Dias.
Para D.P.V.
[Adhemar - São Paulo, 22/05/1987]
Essa amiga:
Rascunho de uma carta que seria endereçada para uma conhecida que morava em Aracaju, na época. Pessoa suave, delicada, com quem dividi as agonias de nossos corações partidos (uns poucos dias em fevereiro de 87) Éramos comprometidos, os dois, em relacionamentos terminais. Enviei uma carta quando voltei a São Paulo que ela gentilmente respondeu. Mas esta tréplica ficou só no esboço, para nunca mais.
Adhemar, 16/05/2008.

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