segunda-feira, 15 de setembro de 2014

VISITA ILUSTRE ÀS ORIGENS

O poder transformador do homem é admirável e temível. Sua profunda capacidade de antever situações que demandam preparo, extração, fabricação e montagem e sua capacidade de enfeitar, adornar ou simplesmente estabelecer o novo ambiente ou novo objeto.
Estupefato, vejo um terreno dar lugar a um prédio; vejo minério se transformando em carros, máquinas, moldes e ferramentas para fazer outras coisas. Vejo a montanha virar pedras e as pedras virarem obras, ou jóias.
Aí, volto os olhos para trás e vejo o terrível poder transformador do homem: vejo a montanha virar um imenso buraco, vejo a floresta virar deserto, vejo minérios virarem armas e árvores tornarem-se dinheiro. E de repente eu vejo o dinheiro virar a cabeça dos homens, transformando capacidade em cobiça, inteligência em “esquema”.
Estarrecido, vejo o enorme poder da violência, nascido do poder da miséria, da opressão e da ganância; e o absoluto poder da mídia transformando tudo em fatos vendáveis e irretorquíveis, ainda que distorcidos e fabricados.
Então, vejo um índio carajá formando-se advogado para entender tudo isso. E voltar para a sua aldeia de origem e contar ao seu povo espantado as incríveis contradições do “Tori” (homem branco). Não entende a profunda agressão à natureza e aos outros homens! Não entende o trabalho que tem o “Tori” oprimindo, matando e juntando bens para não fazer nada depois! Não entende por que o incoerente “Tori” não tira o que precisa do rio, das matas, do mar e da terra, calma e sossegadamente como fazem os índios, tidos por indolentes por esse mesmo sobranceiro e intolerante “Tori”.
Socorro, meu Deus, eu quero ser índio!

[Adhemar - São Paulo, 29/04/2006]

Data vênia
Peço desculpas por não citar o nome do chefe dos carajás que foi estudar direito para tentar entender o “Tori” (e representar sua tribo para defender sua terra e os seus direitos), simplesmente não o registrei à época e esqueci. Escrevi esse texto após ler uma reportagem em que ele era o entrevistado. Lembro que chorei ao perceber como somos uns pobres diabos mesquinhos, gananciosos e sem a menor noção do que é viver em comunhão com a natureza; e esta ainda vai dar o troco, simplesmente eliminando a raça humana do planeta… Provavelmente,  só vão sobrar aqueles, que, puros de alma, ainda a respeitarem: os índios e todos os “nativos” assim entendidos os que vivem em harmonia com sua terra - ou com o que dela ainda não tivermos destruído…
Adhemar, 02/04/2009.

Um comentário:

Adh2bs disse...

Comment by Daisy — Thursday, 2 de April de 2009 (08:55:03)
Adhemar, bom dia. A volta ao naturalismo seria bem uma utopia da qual gostaria de fazer parte... como férias! Compreendo o sonho e a comunhão por trás de tanta simplicidade. Pondero, no entanto, que a raça branca é tão contaminada pelos padrões, nem todos tão horríveis, que só descontaminá-la levaria o triplo do tempo que se levou para emparedá-la. Receba um grande e afetuoso abraço. Daisy

Comment by TATIANA REZENDE — Friday, 3 de April de 2009 (22:06:04)
Calma... O 19 de abril tá chegando!