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domingo, 23 de novembro de 2014

TRILHA

Pelo caminho, pedras coloridas. 
O mesmo caminho, as mesmas pedras e cores.
Pássaros, som da água correndo através das pedras, mas o caminho está ali.
Perspectiva misturada com a linha do horizonte, suaves colinas de uma cor tão leve. Mas o caminho continua por detrás das colinas, sempre adiante com um final indivisível misturado com as nuvens que "enevoam" o horizonte.
Iluminado pelo sol e sob o imenso azul do céu, porém, presente e sem desvios.
O caminho já trilhado está pra trás, na proporção dos passos.
E continua sempre.


[Adhemar - São Paulo, 27/09/1987]

sábado, 22 de novembro de 2014

PAIXÃO ATREVIDA

Um toque.
Quem é?
Não é nada,
só uma sensação que passou.

Um toque.
Quem é?
Não é nada,
foi a mesma sensação que voltou.

Passou mais uma vez e voltou.
Assim foi o dia inteiro.
Porém, se fez a tocaia.
Antes do próximo toque,
agarrada,
a sensação protestou.

Foi arrastada pra dentro,
trancada e interrogada.
Foi então que ela confessou:
estando desocupada,
pegou o primeiro coração que avistou.
Tocava e corria pra cima;
escondida observava.
Depois corria pra baixo
e, passando, tornava a tocar.
Até que foi surpreendida, 
apanhada,
teve que confessar.

O coração ficou comovido
e, distraído,
deixou-a ficar...

P/ B.
[Adhemar - São Paulo, 14/09/2014]

domingo, 16 de novembro de 2014

COMPORTADO

A saudade me assaltou
rendeu-me o peito
nenhum esquecimento deixou
E na barbárie do seu ato
envenenou meu sentimento...

A saudade foi chegando
invadiu e me tomou
Quebrou tudo, se exaltou
uma velha dor foi se formando

Entre os cacos que a saudade foi deixando
uma artística luz se refletiu
Ofuscou tanto a desgraça dessa dor
que a saudade se assustando
até partiu

Nessa luz, nesse raio tão sublime
um fluido bom se insinuou
O coração, co'a esperança de um conserto
aceso e firme, te esperando, se acalmou.


[Adhemar - Corumbá, 25/07/1987]

sábado, 15 de novembro de 2014

WANTED

Já soube de quem buscasse santidade;
muita gente procura emprego;
outros tentam provar Deus
e tem àqueles em busca de si mesmos.

Alternativas de saúde,
tesouros misteriosos,
relíquias perdidas.
Tem quem queira receber o que é devido,
tem quem busque uma grana para as dívidas.

Poetas e sua luta por rimas,
ou por palavras elucidativas.
A ciência procurando luminares
que, por sua vez,
querem explicações do Universo...

E sucedem-se por quês,
a maioria deles resultando insucessos.
A saudade é uma pergunta,
a nostalgia é explicação.

Mas ainda resta a busca,
a procura por remédio
para os males do coração.
O seu par perfeito, quem não quer?
Mas aonde estará?
E na pesquisa esquadrinhada
vive-se uma vida sem que se perceba...

Até que, um belo dia,
cara a cara com o espelho
a gente se pergunte:
aonde está você?!


[Adhemar - São Paulo, 01/11/2011]

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

MOCHILA

Quebrei da canção um retrato
guardei um caco de saudade
quebrei um vaso de eternidade
um desastrado

Cortei a mão em vários rasgos
grudei um esparadrapo
quebrei mentiras em vários papos
molho tabasco

Dividi o amor, vários pedaços
mas não dei tudo, só fiapos
costurei mal cobras e sapos
apaguei rastros

Quebrei a cara, o peito, os braços
não emendei nem tratei
corri com pernas pra que não sei
fracos traços

Tracei rotas que não percorri
escolhi caminhos percalços
me expus à chuva, ao sol, aos mormaços
o que sequei, escorri

Guardei na sacola lembranças
da mochila que perdi
cheia das bobagens que sofri
fantasiosas e falsas
como esperança sem alças...


[Adhemar - Santo André, 13/08/2014]

domingo, 9 de novembro de 2014

PEDRAS

Saída de um pequeno orifício
rola uma pedra caída.
Desfaz um eixo, cadência.
Derruba a simetria.
Na porta de um edifício,
emergência, saída.
A pedra acha difícil
ocupar seu lugar no mundo,
ajudando uma força no prédio.

No pátio,
um parque de tradições.
Balanço, gangorra, pião.
Um alto muro espia,
uma areia forra o chão.
Há tanto riso espalhado
que a pedra sorri
alguma satisfação.

Na corda balança a bandeira;
na pedra, uma lição...


[Adhemar - São Paulo, 24/09/2011]

sábado, 8 de novembro de 2014

CENTRO

Árvores na praça.
Roda girando no eixo.
A pena pulando,
a dor no peito.

A dor de saudade girando.
A pena da dó acontecendo.
O peito pulando,
a praça sem graça...

Grossas lágrimas escorrendo.
Braços cruzados,
vozes gritando
um Não às correntes.

Correntes nas árvores.
Elos grossos cruzando.
Vozes arrancando
alguns gritos descontentes.

Roda girando no eixo.
Abraço na praça.
No bravo peito,
forte esperança pirraça...


[Adhemar - São Paulo, 26/01/2012]