quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

HIGHLIGHTS

Vinte e cinco mil razões
sóis apagados
noites iluminadas

Vinte e cinco mil aproximações
buscas profundas
arrependimentos rasgados

Vinte e cinco mil aleatórios
poderiam ser mais

Enxadas e picaretas
buracos escavados
pás, pedras e água
buracos fechados

Cama, fama e disposição
vinte e cinco mil vezes depois

Palco, ribalta, picadeiro
vinte e cinco mil representações
luzes, câmera, ação
consciência e travesseiro

Duro mesmo são as prestações
o trapézio sem a rede
sem mistério...

Vida nua, crua
vinte e cinco mil mortes
cemitério

Andamento burocrático
documentações
avalanche de papéis envergonhados

Vinte e cinco mil aspirações
legítimas, sinceras

Vinte e cinco mil luzes de led
vinte e cinco mil piscadas
vinte e cinco mil guardadas proporções

Olhos acesos
horizonte alinhado
noite escura

Vinte e cinco mil assombrações...


[Adhemar - São Paulo, 15/06/2014]

FELIZ DOIS MIL E DEZESSEIS, VINTE E CINCO MIL REALIZAÇÕES PRA VOCÊS!

domingo, 27 de dezembro de 2015

CLARIDADE ABSOLUTA

          A luz veio entrando. Primeiro por uma fresta, entreaberta porta, a luz num filete fino.

          Dois olhos espreitam desde dentro, na parte escura. A fresta se amplia. A pequena faixa de luz aumenta. Um aumento gradativo, arrepiante, emoção suspensa na agonia da surpresa.

          Mais um pouco e pouco a pouco a luz misteriosa e quente vai ampliando seu domínio no reino escuro dos dois olhos "expectantes"... Vibram com a possibilidade de uma nova visão; pois nesse quarto úmido, escuro e sem janela, algo vai acontecer.

          Retinas atentas, cristalino brilhante.

          Dir-se-á que a porta já tem mais de metade aberta; a atrevida luz quase toca o limiar da amplitude do olhar interno e intenso.

         De repente, a porta escancarada. A luz entra de chofre e ofusca o olhar tão ansioso. Pregados os ombros na parede, os olhos piscam fortemente para acostumarem com a nova condição: luz e ar vindo de fora, o sol brilhante iluminando a brisa da manhã.

          A luz dourada, após o impacto, começa a tomar forma delineando uma visão. Raios da aurora desenhando uma sombra - vulto escuro - que mal se vê e que irradia tanta claridade...

          Fecham-se os olhos e o homem passa a enxergar com o coração. De repente, a forma se define: é uma Rainha descendo de um altar, em oração. Formas difusas num vestido alaranjado, espáduas nuas e um sorriso, um olhar; são olhos lindos, reflexos obtidos na superfície do mar.

          Estrela-do-mar, no centro da luz que invadiu o cárcere privado de um cativo da emoção...

          Rainha coroada, território ateu. Rainha abençoada, alcança os teus súditos fiéis e apaixonados...


P/ SM
[Adhemar - São Paulo, 08/12/1988]

domingo, 13 de dezembro de 2015

ALGURES

A vista se perde numa visão irreal.
Um sonho aparente,
um simples vitral
colorido, atraente...

A vida se prende num vago ideal;
um movimento incessante,
pimenta e sal,
açoite constante...

A virtude se compromete num fato real.
Tão perto, ao alcance,
incerto, relance,
desenlace imortal...


[Adhemar - São Paulo, 14/01/2010]


sábado, 12 de dezembro de 2015

LAGAMAR

Águas navegadas,
Portugais.
Ondas ensimesmadas,
algas mais.
Praias onduladas,
oceanos colossais.
Brasis à vista,
outras plagas,
relações coloniais.

Ostras entusiasmadas,
colares cordiais.
Frutos do mar,
prendas lavadas...

Castelos medievais,
ocas, paliçadas...
Pontes levadiças,
passagens a vau.
Chamas em velas quebradiças,
luz de estrelas.
Velhas terras,
tardes mortiças,
terras desbravadas,
feitos imortais.
Vida renovada,
culturas ancestrais.

Ligações etéreas
ou eternas
Aprendiz de ofício,
mestres insuperáveis;
súditos tradicionais,
pupilos miseráveis...
Tanta história nas conquistas,
tanta galhardia
no povo do "terra à vista"!

[Adhemar - São Paulo, 17/09/2015]

domingo, 29 de novembro de 2015

BOM TEMPO

Ganhei um caderno cuja capa é bontempo
Cinza sorridente
Folhas destacáveis
Onde cismo de por algo que se destaque
Para que elas não viajem
Levando
Um conteúdo irrelevante
Para que elas não protestem
Antes que eu me levante

No meu caderno não chove
No meu caderno não jovem
Deixo fruir minha decrepitude
De ânimo
De ideias
De atitude

Nele confundo a prosa
Com a poesia do verso
Nele difundo
Meu otimismo controverso
Nele imprimo o mundo
E reflexos do universo

Bom tempo me faz sorrir
Desfaz o meu "eu" perverso...


[Adhemar - Santo André, 13/08/2014]

sábado, 21 de novembro de 2015

SUMIÇO

Eu te procuro sem saber
em qual escuro.
Ando em círculos no circo, bastidores.
Bailarina, na ponta dos pés
e na piscina.

No circo um palhaço, um vagão.
Vagamente,
um vagalume estardalhaço
nessa mesma escuridão
onde te escondes.

Eu te procuro sem saber
em qual escola.
Ando em aula "matando" professores.
E o bedel, debaixo do chapéu,
qual um recreio...

No parque, árvores e brinquedos
obrigados a brincar...
de folga.
Nem empolga nem empurra
nessa espuma que te esconde.

Eu te procuro sem saber
em qual por onde
foste bater aldeias, paliçadas;
a contar histórias engraçadas,
na ponta dos dentes, 
no horizonte.

Nas mãos, dores ardentes
do não saber te encontrar,
achar ou conhecer

nessa fumaça que te afasta...


[Adhemar - São Paulo, 28/03/2014]

domingo, 1 de novembro de 2015

CAMINHOS SECUNDÁRIOS

É preciso lutar contra o desânimo
É preciso lutar contra o arrependimento
É preciso escolher muito bem
Nossos caminhos e destinos

Tirar dos acontecimentos sua essência
Tirar ensinamentos ocultos
Em aplacar diferenças
Em moderar a generosidade

Exercer um senso crítico
Exercer o sagrado direito de discordar
Exercer o direito de se iludir
E de abrir os olhos pra chorar

Nascer outra vez todos os dias
E levar, para vidas novas,
A bagagem de dores e alegrias
Com que somos equipados
Pelas emoções contraditórias...



[Adhemar – Buenos Aires, 09/01/2011]

domingo, 18 de outubro de 2015

TROMBADA

          Muito cedo a gente estabelece uma "auto-norma" de comportamento. Com maior ou menor rigor, segue o próprio roteiro por anos a fio. Ora incorpora novos modos e conceitos, às vezes experimenta alguma mudança. Mas o essencial está lá. Serve de apoio para tudo o que gente faz e pensa. Inclusive, a gente se acostuma e se acomoda, elaborando justificativas ultra-criativas para defender nossos enraizados pontos de vista.

          Ah! Mas a vida é muito dinâmica; nos faz cruzar com gente muito legal e com outras ideias. Coloca obstáculos que a gente achava que não ia enfrentar e apresenta surpresas - boas e más - nas quais a gente não queria pensar. E nessa dinâmica somos obrigados a mudar profundamente uns conceitos, dogmas, certezas - sei lá! - que estavam solidamente arraigados na gente. Somos forçados a atitudes que não gostaríamos, mas que são inevitáveis. Não estou falando de ceder em princípios não; mas a fazer coisas que, por preguiça, comodismo ou semvergonhice a gente nunca fazia. Coisas que nada mais são do que cuidar da gente mesmo: pra nós, até ontem, algo totalmente supérfluo!

          Enfim, chegou a minha vez...


[Adhemar - Santo André, 13/05/2008]

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

STARDUST

          Finalmente, depois de um tempo, vou rever minha prostituta predileta. Meus caminhos, sempre variados, vão fazer com que eu passe por ela.

          Alta, forte e bem fornida, coxas grossas, quadril largo e largo sorriso. Sempre com trajes provocantes, atrevidos e rasgados; olhar sarcástico, irônico e chamativo.

         Passo por ela como passei tantas vezes antes, trocando olhares e sorrisos significativos. É o único ponto de tangência entre nossos mundos e que jamais vai passar disso. Vou de seguida; ela vai ficando mais distante até um futuro incerto quando, e sabe-se lá quando, estaremos partilhando a mesma esquina - ela parada e eu passando - num desses tantos caminhos tontos por onde eu ando.


[Adhemar - São Paulo, 10/10/2012]

domingo, 4 de outubro de 2015

ENTRADAS

Portas especulares
cara batida no espelho
afobação.
Labirinto infinito
sem teto
sem chão.

Caminhos marcados
sinais trocados de mão.
Força nas decisões
amarelo nos avisos.

A luz vermelha adverte
tetos aos aviões.
Portas trancadas por dentro
peitos trancados nos corações.

Corrida
cabelos esvoaçantes ao vento
esperança
lições.
Entrada permitida somente
daqui a pouco vão fechar os portões.


[Adhemar - São Paulo, 27/04/2014]

terça-feira, 29 de setembro de 2015

LAPIDAR

Eu sou mais um;
como tantos outros
em busca de um verso perfeito,
de um corpo etéreo,
de romper um malfeito.

Eu sou mais um;
como tantos outros
não sei onde dói,
desvendo um mistério,
procuro um herói.

Eu sou mais um;
entre tantos poetas
em busca de um verbo imperfeito,
em busca do ser e do estar
e remédios dos males do peito.

Eu sou mais um;
entre tantos,
a buscar por direito
um simples lugar
no último leito...


[Adhemar - São Paulo, 28/06/2010]

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

FRANQUIA

Franqueza quebrada,
certeza apoiada no muro.
A pedra no meio do nada,
a mentira dando duro.

Suportes perdidos,

apoios bem disfarçados.
Mobília confusa na sala,
verdade de olhos ardidos.

Pinturas desfalecidas,

água por todos os altos;
barcas balançando vidas,
virtudes nas pontas dos saltos.

Representações concedidas,

o mar represando ondas.
Marolas de nuvens malandras,
de lágrimas embebidas...


[Adhemar - Santo André, 26/09/2013]

terça-feira, 15 de setembro de 2015

DESVARIO

Iminência de tempestade,
fica revolto o mar.
A escuridão cai de repente
e os trovões a ecoar.

Neste cenário surge

o Pirata com sua espada.
O Pirata que outrora fôra
vermelho e elegante,
ora está de preto
no seu luto terrível e errante.

De volta ao mar

está em seu meio.
Agora não pensa em conquistas
heróicas ou bravas;
prefere os saques e ataques
sem salvação nem desonra.
Apenas com sua audácia,
cinismo e espada;
cinismo forjado na têmpera
da técnica mais refinada.

Sua capa é a imensa tristeza

de viver nessa insana loucura:
de ter perdido a princesa
a quem até hoje procura!


P/ BSF
[Adhemar - Aracaju, 29/01/1988]


sábado, 5 de setembro de 2015

INTERCONEXÕES

De onde vem o que vêem?
De onde a veemência demente?
Por que o discurso e o amém?
Por que a doença doente?

Quadros quadrados
Açúcares adoçados

Apólices de seguro
Apostas asseguradas
Prêmios dados no escuro
Dedos presos nas garras

Gorro de lã, obscuro
Gola de cachecol
Frio no pescoço, absurdo
Absorto pensar do farol

Química micada
Mímica disfarçada

Fantástica fantasia
Fonte de tantas piadas
Água benta na pia
E toca aguentar as mancadas

Contas contra contratos
desencontros abstratos

Forma formando figuras
Figurando nos pratos
Praticando suas loucuras
Nos lucros dos fatos

Índios industriosos
Indo aos argumentos
Alimentando os vaidosos
Fechando nos instrumentos

Instruções imprecisas
Imprecisões instruídas

Dá pra vir do visitado?
Dá pra ver de onde vem?
Fumaças andando de lado
Enquanto pra frente anda o trem...


[Adhemar - São Paulo, 25/04/2014]

domingo, 30 de agosto de 2015

META

Me acostumei a andar no escuro
com as mãos estendidas pra frente.
Hoje, 
quase não preciso olhar por onde estou andando.
E quase não olho;
e quase não ando.

Me criei mesmo ao acaso,
andando no escuro sem medo de nada.
Temia a mim mesmo,
não olhando por onde caminhava.
Há muito tempo,
descontente com tudo.

Busquei sempre um rumo.
Nítido e real nas ideias,
doloroso no mundo.
Me tornei poeta, vagabundo, obscuro,
entristecido e sozinho,
fora do prumo.

Chorei tão quietinho
mas continuo a procura.
Saio de mim mesmo,
alegria, aventura.
Tento achar a metade perdida no tempo.
Escondida ela está, 
no tempo futuro.



[Adhemar - São Paulo, 30/08/1988]

domingo, 23 de agosto de 2015

PENSÃO

Recomeçar.
De um curto-circuito nas emoções,
recomeçar.
Erguer a poeira do caminho,
recomeçar ainda e sempre.
Não é necessário esquecer,
basta guardar.

A cada novo golpe de ar,
recomeçar,
agasalhando-se da friagem;
friagem do amor inacessível.
O sentimento,
qual um afluente que deságua no coração;
tem que vir mais devagar.
Flutuando em seu meio,
a correnteza da paixão,
há que esfriar.
Esfriar para não morrer.
Recomeçar,
no decorrer da história desse coração.

Recomeçar.
No melhor lugar de sua memória,
permanecer...


P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 19/09/1987]

terça-feira, 11 de agosto de 2015

PARÂMETROS

Essências concentradas
Fatos pontiagudos
Fatores descansados
Ouvidores surdos

Renascença morta
Mercadores parcos
Cavalgando barcos
Reles importa

Atléticos Américas
Rocha esfarelando
Covardes enfrentando
Machões maricas

Nuvem dissipada
Temporal contido
Ousado tímido
Mata descampada

Adeus chegando
Vindo e despedindo
Infinito findo
Véu rasgando...


[Adhemar - São Paulo, 12/08/2014]

domingo, 2 de agosto de 2015

MÁRMORE

Delírios e vertigens
emoções flutuantes
etéreas viagens
coloridos fascinantes

Equilíbrio e tontura
realidade e sonho
fusão alva-escura
de humor risonho

Movimento que cessa
sonoridade que acalma
emoções sem pressa
impressas na alma

Vertigens e delírios
vestígios e miragens
admiráveis martírios
admiráveis visagens

Posição recomposta
da paisagem sumida
sem nenhuma amostra
da ideia desaparecida...

Imaginação apagada,
alma adormecida...


[Adhemar - São Paulo, 31/08/2012]

sábado, 25 de julho de 2015

ETIQUETA

Pouco tempo, pouco espaço.
Uma amplitude sem jeito
em sua altura pouca de salto.
Vai de lado um "no entanto";
aquele detalhe de graça.

Nada custa, nada volta,
desce num pulo de mola.

Um óbolo acelerado,
um lançamento descalço.
Foi avante, foi em frente,
etiquetando produto;
espalhando cartazes,
respeitando seu luto.

De volta ao pouco espaço,
encerra a modesta campanha
numa taça espumante...


[Adhemar - São Paulo, 18/07/2011]

TRATO

O espaço compadecido
tumefacto, apodrecido,
aparecido do impacto,
compacto, amanhecido.

Um compasso conhecido,
compadre de um amigo,
contigo é parecido,
parede feita de trigo.

Trigueiramente ferida,
uma vizinha tranquila;
trancada, pobre avezinha,
não voa efetiva, perdida;

a pedra do rio é sozinha...


[Adhemar - São Paulo, 31/05/2011]

domingo, 19 de julho de 2015

SOLIDÃO

Calor,
efeito da lentidão feita de calma.
Fome,
feita da falta de um olhar.
Olhar,
feito da lente que em silêncio nem se nota.

Ninguém viu nem avisou
que o navio se aproxima;
e na água vem por cima
do recado que chegou.

Movimento,
que parece, não balança
no deslocamento em que se lança.
Avançando,
se perdendo por aí
dentro e fora de si...

Tudo tão nítido que de vago não tem nada;
ainda rola nessa estrada
e depois para na estação.
Tanta gente o aguarda,
tão sem graça,
tão sem chão.

Enquanto isso um quadro passa,
dá um adeus,
um tchau co'a mão...


[Adhemar - São Paulo, 18/07/2011]

sábado, 11 de julho de 2015

OLVIDO

Esqueci de pensar em tantas coisas...
No entanto, tua voz constantemente
de mansinho nos meus ouvidos avisa
quase num sopro, saudade, docemente.

Aqui me ajeito, viro a folha da poesia,
penso no mar, meu amigo e elemento.
A saudade constante é u'a maneira
ao mesmo tempo que é um alimento.

Um reflexo no mar, do sol poente
se transformando numa imagem linda.
E apesar de tanto tempo ausente,
ela explica o grande amor, ainda.

O brilho do mar é o dos teus dôces olhos;
reflexo do poente é a luz que eles emitem.
A luz que eles emitem crava-se em meu peito;
com carinho guardo feito mil tesouros
que bem aqui dentro a brilhar insistem.
Mas... Uma tristeza estranha e tão sem jeito
vem calar as vozes que do coração me vêm;
acorde adormecido num mortal silêncio...


[P/ BSF]
[Adhemar - São Paulo, 15/09/1987]

quarta-feira, 1 de julho de 2015

SAÍDAS

Ela nem se despediu.
Não cumprimentou, falou nada.
Levantou e saiu.

Por quais portas abertas,
onde há um caminho em cada,
apesar das rotas incertas.

Ela nem sabe aonde vai,
ou o por quê, ou o roteiro;
se fica em pé, ou se cai.

Sem saber quais trilhas seguir,
pavimentadas inteiro,
indicações hão de vir...?

Ela desapareceu...
Inspiração, sua ingrata!
Me abandonou e morreu...


[Adhemar - Santo André, 26/09/2013]

terça-feira, 23 de junho de 2015

PROJETO

Custou algum esforço estar aqui.
Custou algum orgulho? Talvez.
Aprender nunca é demais,
nem tão trágico, nem tão caro também...

Já que se está por aqui
nos perguntamos por que não seguir.
Como se fosse uma viagem,
embarca-se; então é partir.

A resposta é difícil também.
Já que tanto custou estar,
por que não fincar pé e ficar?
Melhor esperar, refletir...

Deixar o acaso passar
e o destino passar, decidir.
Primeiro é bem conhecer;
estudar e então planejar.
Tudo certo, enfim, construir...


[P/ "Já-que..." Hahaha]
[Adhemar - São Paulo, 14/09/1987]

quarta-feira, 17 de junho de 2015

RESPIRAÇÃO

Andanças retirantes.
Silêncio triste
enquanto o sol levanta no horizonte.
Bocas secas.
Silêncio vazio, 
em meio ao rumorejar de passos arrastados.
Passos de pés descalços.
Passos de pouca poeira.

Andanças incertas.
Certezas tristes
enquanto o sol calcina impunemente.
Bocas fechadas.
Esperanças ressequidas 
no eco do grito que não foi dado.
Grito de bocas fechadas,
do pouco espaço pra alimento.

Andanças condenadas.
Destino triste
enquanto o sol se deita no horizonte.
Bocas mortas.
Noite negra em luto antecipado,
sem estrelas e sem vento.
Só um grito sufocado
ante o destino final e permanente...


[Adhemar - São Paulo, 27/08/2012]


sexta-feira, 12 de junho de 2015

NAMORADA

Não basta em si só o amor
Os filhos no ventre
No abraço protetor

Não baste em si só o apreço
Afeto eterno
Que não muda de endereço

Não basta em si só tanta alegria
Mas um pouco de aventura
E de euforia

Não basta em si só a presença
Mas atitude companheira
E a bondade de nascença

Não basta em si só esta folha
Mas toda uma vida
Fora da bolha

Basta em si somente o que se vê
E se tem no coração:
Tenho você!


Para Stella, minha doce e eterna namorada

[Adhemar – São Paulo, 12/06/2015]

segunda-feira, 8 de junho de 2015

MUDANÇAS DE RUMO

Tantas caminhadas, tantas...
Tanta certeza de pra onde ir
E, com certa segurança...
Até que os pés,
doloridos e cansados,
chegam a uma encruzilhada:
o futuro está nublado.
Os pensamentos passam em revoada,
não dão ideias,
são só uma distração desastrada.

Tantas mudanças necessárias,
novas afirmações e novas estradas.
O que fazer com a bagagem pesada?
Parece tudo tão necessário...
Mas uma estrela brilha em algum lugar;
é preciso retomar a andança
pois nem mesmo sabemos onde está
essa mesma estrela que precisamos ir buscar...


[Adhemar - São Paulo, 07/10/2010]


domingo, 31 de maio de 2015

CONTRATO

Explicações.
Justificar a simplicidade.
Embasar decisões, pilares.
Finalmente, abrir os braços.
Tremer ante as próprias indecisões.
Comicidade.
Arrepios seculares.
Coração aos pedaços.

Regras, forma, estações.
Falta de agilidade.
Tremores capilares.
Quadrados, compassos.
Interrogações.
Inversão de prioridades.
Respiração, outros ares.
Novos espaços.

Embriões.
Ansiosa verdade.
Preto no branco, esgares.
Desatamento de laços.
Súbitas exclamações.
Verdadeira ansiedade.
Linhas escritas aos pares.
Cláusulas e parágrafos.
Controladas diversificações.
Elasticidade.
Rústicos ditos luminares.
Correntes de aço.
Imposições.
Letras espalhadas à vontade,
em todos os lugares,
a cada passo.

Obrigações.
Inflexibilidade.
Cadeia de pensares,
cela de palhaço.
Tantas obstruções.
Tanta responsabilidade.
Mesmo assim, onde assinares,
estarás impondo o próprio traço.


[Adhemar - São Paulo, 16/10/2010]

sexta-feira, 29 de maio de 2015

IR

Sinto-me só, às vezes, e fraco
para enfrentar essa solidão.
Por outro lado fico preso
em meus próprios tentáculos,
sorvendo minha própria energia
que gera outra energia
que torno a sor­ver
que torna a gerar
e a sor­ver e a gerar e a sorver...

Falta aquela vontade indomável
que, sempre prometo,
um dia vou ter.
Às vezes me assusta a grandeza do mundo
e sempre me enoja a sua pequenez.
Sinto-me preso, oprimido,
transpirando um suor quente.
Um inferno insuportá­vel,
crescendo e diminuindo a cada instante,
quero gritar.

Aí,
o grito sufocado suplica:
- cala-te e deixa passar...



[Adhemar  - São Paulo, 27/02/1984]

quarta-feira, 27 de maio de 2015

RIO DE ANTIGAMENTE

[Foto de arquivo: Rio de Antigamente]

Ah, nostalgia...

Depois de ler alguns textos antigos e ouvir bela música da bossa nova fico me perguntando se ainda existe essa conversa boa todo fim de noite num bar do Leblon...

Lembro-me no Rio, descendo do Pão-de-Açúcar numa madrugada adentro e caminhando a pé até um boteco aberto, conversando amigavelmente com ex-estranhos... Pegando um táxi até o hotel, e o motorista lentamente pela orla... O hotel era na Glória e todo o Rio de então fazia jus ao nome desse bairro.

Ver jogo de bola no velho Maracanã, eu tive este privilégio. Entrando sob a marquise e me deparando com o maior do mundo...

O constante quente do clima, a sempre linda paisagem nesse arco-íris de céu, mar, areia, asfalto e morros – que então ainda eram verdes de mato, as favelas estavam na sombra.

As mulheres generosamente sensuais, a rapaziada solerte e galhofeira com resposta pronta para todas as perguntas do paulista deslumbrado...

Bom, isto foi no século passado e está guardado no meu baú do pra sempre...



[Adhemar – São Paulo, 12/06/2013]

sexta-feira, 22 de maio de 2015

RAÍZES

Feridas cicatrizadas ainda ardem.
Resta um nó dolorido no dorso da mão.
Dedos fechados não sabem o que seguram.
Rolam as letras, lágrimas e desilusão.

Intenso vazio interior se difunde.
Uma fome cruel, estranha e intensa.
Turbulência inoportuna e tensa
que perturba, assombra e confunde.

Perfume abstrato obstrui pensamentos.
A dor do caminho que às pernas encurta.
Apoio de frente, avantes momentos.
Encorajador, criador, mas assusta.

Olhos inchados estão ainda chorando
um nó dolorido no centro do peito...


[Adhemar - Sobrevoando a BA, 06/04/2014]

terça-feira, 19 de maio de 2015

AGENDA

Preciso me lembrar de umas coisas; amarrando a fita no dedo, deixando anotado em um bilhete guardado no bolso. Preciso esvaziar os pensamentos e começar a pensar do zero. Começar por um grão de areia - logo depois do zero.

Preciso olhar mais a paisagem. Estou numa sala com uma parede inteira janela. Não procurar o que talvez exista, mas, de repente não interessa...

Preciso me colocar como sou. Respeitar e ficar nisso, mesmo que os outros estranhem. Preciso organizar as ideias e ouvir o que dizem - prestar atenção - pra devolver o que pedem. Sem máscara ou escudo, só com o que for autêntico; original, por assim dizer, inerente ao que sou.

Preciso aprender inglês - de verdade. Não dá mais pra fingir que é supérfluo. Por onde andei, era bom que soubesse. Preciso consolidar uma posição de ideia, voltar a defender algum ideal. Não há mais tapete ou móvel onde eu caiba embaixo. 

Preciso aprender português também...


[Adhemar - São Paulo, 10/11/2011]

sexta-feira, 15 de maio de 2015

QUIRERA

É migalha, é fagulha,
é faísca, é minúcia.
É astúcia, é amostra,
é a tralha, angústia.

Grão de areia,
detalhe pequeno,
raio de luar,
gota de sereno.

A formiga, o pózinho,
um floco, a semente.
Lasquinha, restinho,
saquinho de alpiste.

Uma nesga, um teco,
um fiozinho, um pelo.
Um naquinho, um treco,
papelzinho, um selo.

Só um bocadinho,
só um pedacinho,
uma miniatura,
um pequeno mistério.

Micróbio, uma célula,
um átomo, um íon!
Pequenitude infinda
micro-mundo maquete!!!


[Adhemar - São Paulo, 31/01/2010]


terça-feira, 12 de maio de 2015

LUPA

Encontrei mais perto
passo a passo
olhar fixado no chão
na trilha
rastro ou pegada não
sintoma, pressentimento
fantasma, forma difusa
torpor do esquecimento
confusa

Indícios, migalhas
iscas de ilusão
condecorações, medalhas
virtude é condenação
seriedade que espalha
fraquezas, franquias
prejuízos e perdição
meneios e manias
confusão

Encontrei mais perto
infinita distância
o impossível e o não


[Adhemar - Santo André, 28/08/2014]

segunda-feira, 4 de maio de 2015

INUTILIDADES HERÓICAS

Tenho investido tanto
de um precioso tempo
em intermináveis discussões.
Palavras em grandes ondas
tentando mais convencer a mim mesmo
do que aos meus incrédulos interlocutores.

Tenho investido tanta energia
de uma escassa força
em hercúleas tarefas e arrumações.
Mudanças necessárias, atrasadas,
para conforto dos circunstantes
merecedores dessa atenção.

Tenho resistido a certas dores
e a algumas tentações;
sair correndo gritando,
ficar imóvel, deitado...
Passar o dia pensando
e só tomar chá.

Tenho contrariado o destino
de fama, fortuna e glória
sendo... 
Apenas mais um.


[Adhemar - São Paulo, 15/10/2010]

sexta-feira, 1 de maio de 2015

DEZ

Mãos doloridas
em breves espaços
um tanto perdidas,
sem laços...

Mãos estendidas,
apelos, abraços,
luvas coloridas, 
pedaços...

Mãos calejadas,
trabalhos esparsos,
vão bem marcadas
de traços...

Mãos espalmadas,
febris ou curadas,
vão agitadas
no aceno de adeus...


[Adhemar - São Paulo, 19/03/2015]

quinta-feira, 23 de abril de 2015

GAFE

Não sei o que fiz
Não lembro quem fui
Não sei se fui feliz...

Não lembro o que disse
Não sei se eu disse
Não lembro se fui feliz...

Mas acho que sim

pois tudo aqui
são apenas pedaços de mim

Mas creio que sim

pois apenas aqui
são os lugares onde eu vivi

No meio de tudo

No meio de tanta...
No centro da felicidade...


[Adhemar - São Paulo, 06/10/2010]

segunda-feira, 20 de abril de 2015

DIVISÃO

Caminhar na mesma trilha de sempre
Apreender do ar - por todos os sentidos - 
as mesmas impressões de sempre

Caminhar na mesma trilha de sempre
e sempre distraído
Por todos os sentidos perceber as mesmas impressões de sempre

Caminhar na mesma trilha de sempre

contando os passos do ir e vir
encarcerado no mesmo trajeto e trejeitos de sempre

Caminhar na mesma trilha de sempre

até cansar, até cair
sofrendo as mesmas pressões de sempre

Caminhar na mesma trilha de sempre

com a mesma coragem de sempre
de não fugir nunca.


[Adhemar - Santo André, 12/09/2007]