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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

"Vai um chiclete, moço?" (*)

            Na semana retrasada fui a um bar/café na Avenida Paulista com a minha namorada. Estávamos apreciando um smoothie de morango quando, como acontece muitas vezes nas principais vias da cidade, fomos abordados por uma menina de rua. Estimei que tivesse entre oito e dez anos de idade. Ela estava vendendo chicletes, cada pacote por um real. Como eu não tinha nenhuma moeda ou dinheiro trocado no momento, educadamente recusei. A resposta dela à minha recusa me surpreendeu e se tornou o motivo da existência deste texto. Ela olhou para mim e disse: “Moço, você não está sendo cavaleiro. Podia comprar um para ela”. A princípio, fiquei desconcertado. Depois, me justificando, disse que eu estava mesmo sem trocado e brinquei que, se ela aceitasse cartão, eu compraria. Mas a sagacidade dela surtiu efeito, prática e simbolicamente. Minha namorada imediatamente abriu a bolsa, pegou dois reais e comprou dois pacotes do chiclete verde (o recomendado pela vendedora-mirim). Além disso, ainda brinca comigo frequentemente relembrando a situação. O efeito simbólico, por sua vez, foi a reflexão suscitada pelo acontecimento: a garota, apesar de trocar cavalheiro por cavaleiro, revelando falha no domínio da língua, demonstrou desenvoltura e espirituosidade de fazer inveja a comerciante experiente.


            O mais intrigante dessa história é imaginar como se deu a formação do repertório daquela garotinha, que a permitiu dar uma resposta tão inteligente e ágil à negação de um cliente. Pela magreza que apresentava e pelas roupas esfarrapadas que vestia (sem contar o fato de estar tentando conseguir dinheiro na rua à noite), deduzi que ela não havia tido oportunidade de estudar até então. Se é que ia à escola, dificilmente teria tempo e condição para se dedicar aos estudos. As hipóteses para explicar as origens da esperteza da menina são diversas: necessidade, experiência, vivência, exemplo... Infelizmente é improvável que eu venha a descobrir. Mas, pelo menos, pude formular duas questões a partir do episódio que valem ser compartilhadas. Primeira, quantos talentos como o dela são desperdiçados por falta de oportunidade para desenvolvê-los? Segunda, quantas histórias fascinantes, como provavelmente é a dela, nunca serão conhecidas? 


[Marco Luiz Netto Braga de Souza, março/2014]


(*) MOÇO DE VINTE ANOS

            Este ano há uma série de aniversários na família que encerram idades "redondas" ou múltiplas de 5 anos; 15, 20, 25, 50, 65, 70... Hoje faz 20 o autor da história acima, estudante de jornalismo e estagiário num portal de internet de um grande veículo de comunicação. Foi escrita para um trabalho da faculdade e, como gostei demais da forma como abordou o tema e da escrita irrepreensível, pedi-lhe autorização para colocá-la aqui neste blog (quiçá para melhorar o nível do espaço...).
            
            Parabéns ao Marco pelo aniversário e pela maneira como escreve, pelo time que torce, pela namorada, pela mãe que tem e por ser meu filho! Grande abraço!

Adhemar, 20/01/2015.

"Auto-retrato": moleque com "auréola" de Santo...


2 comentários:

Unknown disse...

Estou acostumado com os escritos do proprietário do blog, e achei que o mesmo era o autor da gracinha.
Surpreendente e parabéns ao verdadeiro autor.
Por outro lado, my friend, bem vindo à vida adulta. Às gerações mais novas, com idade ao redor de 10 anos para menos, estão surpreendentes. Já sabem até técnicas de marketing para vender chiclete!!!

KBÇAPOETA disse...

Muito bom o texto.